Vital & Vitalino, Empresa de Eventos Mediáticos

por César Príncipe [*]

1º de Maio de 2009. O "incidente" do 1.º de Maio da CGTP/Lisboa desencadeou posicionamentos de acordo com as carteiras de interesses eleitorais e ideológicos. A repentina cena de empurrões, mosquetes e léxico inflamado de alguns manifestantes teria morrido ali, após a pacificação empreendida por responsáveis sindicais e por Vítor Ramalho/PS e da imediata reprovação expressa "in loco" por dirigentes qualificados da Central, caso não entrassem em acção dois investidores apostados em rentabilizar o episódio: o aparelho de propaganda do Partido Socialista e a Comunicação Social Dominante. Vital Moreira logo pressentiu o "click" das arrancadas heróicas, disposto a reeditar o "efeito Marinha Grande", de Mário Soares/Presidenciais de 1986. Embalado pela expectativa da questiúncula, Vital multiplicava sorrisos, radiosamente satisfeito com a "prenda". O "bom" pretexto acabava de aterrar no Largo Martim Moniz. Comecemos, entretanto, por arrefecer o arroubo ou "Milagre das Rosas" da vila com paredes de vidro. Segundo alguns politólogos impressionistas, Mário Soares teria levado de vencida Freitas do Amaral na sequência de uns apertos no bastião proletário. Acontece que o feito e efeito conhecido e comprovado da Marinha Grande foi outro: o de 18 de Janeiro de 1934, altura em que o operariado, com apoio da população, pegou em armas contra a fascização dos sindicatos. Sucede que Mário Soares somente chegou a Belém porque o PCP, face à dinâmica revanchista da Direita clássica, resolveu apoiar, na segunda volta, o candidato da direita moderna, menos perigoso na conjuntura.

Já Vitalino Canas transportou o "incidente" para a esfera das campanhas fóbicas: tudo se resumiria ao visceral "ódio" do PCP e da CGTP ao PS. Como se alguma entidade, no seu inteiro juízo, programasse o Dia do Trabalhador movida pelo rancor ou andasse a doutrinar as massas para vencer ao tabefe os desmandos do capitalismo. No que respeita à Comunicação Social Dominante, por opção sistémica e cultura tablóide, também encontrou um "bom" motivo para finalmente assinalar o 1.º de Maio: foi contemplada com um "incidente". Também desta vez a intervenção do secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, sintetizando o estado calamitoso do universo laboral e apresentando um contributo-programa como saída foi ignorado. A Gloriosa Data teve direito a "manchetes" e a múltiplas e fartas mesas-redondas à volta do "incidente" , embora a problemática, espremida e conceptualizada, merecesse um escorreito "caixilho" . A Comunicação Social Dominante assim não entendeu: fez do Dia do Trabalhador o Dia de Vital.

O REPETIDOR E O SOFISTA

Os programadores da campanha eleitoral do PS, bem como o seu candidato às "Europeias", não andam a dormir: integraram na delegação-relâmpago uma figura que precisava de evidência no meio do "povo de esquerda", Os aparelhistas do PS têm a sua noção de oportunidade: disputam eleições desde 1975. Como nas competições desportivas, também conhecem que todos os jogos comportam algum potencial conflituoso e que há torneios mais sensíveis. O Gabinete de Propaganda do PS não ignora que o ambiente de contestação no País é tenso, que se atravessa um período de dupla crise, nacional e internacional, com milhões de portugueses em ruptura de condições vida e outros milhões a temer pelo fim do mês. Os destacadores de Vital Moreira para a frente mais combativa do 1.º de Maio tinham perfeita noção de que um pequeno gesto descoordenado poderia ocasionar um "incidente". Tinham também obrigação de saber que a Organização da CGTP, por mais disciplinada e treinada, não seria capaz de prevenir condutas isoladas num universo diversificado e multitudinário. Vital Moreira seria uma das últimas pessoas a eleger para uma festa com músculo denunciativo e reivindicativo. O Aparelho de Propaganda do PS não desconhecia que dezenas de milhares de trabalhadores não viam Vital Moreira com bons olhos, não apenas por decepções do passado mas sobretudo pela imagem do presente: Vital Moreira é um dos intelectuais orgânicos do Governo de Sócrates, e este Governo é objecto de amplo repúdio no mundo do trabalho. A sua inclusão na "embaixada" de cumprimentos do Partido Socialista ainda se reveste de maior estranheza, na medida em que Vital Moreira constantemente alega a sua qualidade ou "pedigree" de "independente". De facto, foi o próprio Vítor Ramalho a tirar dúvidas no local e na hora: o "incidente" não visou o PS. Opinião contrária seria matraqueada por Vitalino Canas, que exigia "pedidos de desculpas" em várias direcções e a várias direcções.

O intento de manter o assunto na agenda é óbvio. Vitalino considera vital para o PS comprar todas as guitarras de Lisboa para um novo fado: "Eu, Europeu, Cravadinho de Facadas". Mas, ao contrário de Vital Moreira e Augusto Silva, ágeis dialectas, Vitalino apenas trauteia mnemónicas da "propaganda negra". Recomenda-se ao porta-voz um curso de formação comunicacional. Marcelo Rebelo de Sousa, numa das suas aulas de ginástica florentina na RTP, desculpou o ministro da Economia, Manuel Pinho, dando como atenuante para a sua oratória, o "vocabulário reduzido". Vitalino, além de limitações vocabulares, foi tomado por alucinações: parece haver entrevisto, no dia 1 de Maio de 2009, na capital, um acto caviloso e horrendo. Assim se compreenderá tão obsessiva reclamação de desculpas por parte do PCP e à CGTP. Só pede desculpa quem tem culpa ou, então, quem resolva conceder algum fraseado para desarmar diferendos. Em rigor, nenhuma destas forças maquinou ou instigou o acontecido. Pelo contrário, tudo têm feito, ao longo do trajecto histórico, PCP, desde 1921 e CGTP, desde 1970, para não embarcar em provocações ou derivas incontroláveis. Como decorre da expectativa de colher dividendos, "incidentes" deste jaez só podem prejudicar os trabalhadores e as suas organizações de classe e beneficiar a classe no Poder, os seus epígonos e serventuários. O PS é que deveria pedir desculpa pela política atentatória da maioria dos portugueses, compreendendo-se, nesta maioria, o conjunto dos trabalhadores, desempregados, reformados e o grosso da classe média. O Governo do PS é muito mais do que um "incidente": é um gravíssimo acidente. Aproveitando um deslize emocional de pessoas que sofrem na carne a política de um Governo de nome socialista, pretende retirar o País Real dos noticiários. O "incidente" não passou de um pequeno distúrbio, que escapa a qualquer padrão das instituições visadas.

De resto, é curioso o desacerto na administração de culpas: Vítor Ramalho considerou que o "incidente" não visou o PS, dando-o por sanado; Vital Moreira culpou o PCP e desculpou a CGTP, esquecendo reconhecidos insurgentes de outros quadrantes; Vitalino Canas culpou o PCP e a CGTP, na mesma linha de culpabilização dirigista. Vitalino é um repetidor automático. Vital tornou-se um sofista encartado. Já nos bastava a gripe suína. Livre-nos o Santo Condestável da gripe vitalina. Poupe-nos a Democracia a um Processo Vitalício em Curso. Portugal tem preocupações sérias. Há que seriamente actuar sobre uma economia em transe e proteger sectores sociais desvalidos. Não precisa de uma agenda artificial. A realidade é pesada, insustentável. O que é vital para vitalino pouco interessa aos cidadãos. Vital também pouco adiantará com lamúrias de circunstância elevadas a técnica de venda de uma Europa gerida pelas Multinacionais, minada pela Corrupção Generalizada, pautada pela Exclusão Social, apostada no Intervencionismo Militar. A sociedade portuguesa dá sinais crescentes de saturação de um Bloco Central capturado por grupos económico-financeiros. A Governação do PS não aponta para um horizonte de verdade, de esperança, de criatividade e combatividade democráticas. Urgente é romper com a política a que emprestam a voz e o rosto. A ruptura não é a da altercação de rua. Terá de passar pelo desmascaramento dos que trabalham para o grande capital no Parlamento Europeu, no Parlamento Nacional, nas Autarquias Locais, nos meios de Comunicação e legitimação do "pântano".

A "COTOVELADA"

A Comunicação Social Dominante é um dos parceiros estratégicos do Bloco Central de Interesses. O "incidente" da pretensa Segunda Marinha Grande tem sido devorado e degustado. A "overdose" de "1.º de Maio", à primeira vista, seria de pasmar algum estrangeiro. Por um momento, teria imaginado haver posto o pé num rectângulo onde "o povo é quem mais ordena". Mas os média não tratavam de fixar o acontecimento do dia, na sua dimensão nacional e internacional. Entre a rasura de classe e o "showbusiness", as indústrias da inteligência estabelecida apenas salientavam o "incidente". Os média, como Vital & Vitalino, também quiseram explorar o filão. Já que a "bomba", desta vez, não teve necessidade de deflagrar, o "incidente" vinha preencher a lacuna. É certo que a Comunicação Social Dominante não empola apenas "incidentes" deste género. Há anos (1998) as televisões abriram e fecharam as caudalosas torneiras com a "cotovelada" de Paulinho Santos no maxilar de João Pinto. O folhetim durou dias e noites, como tantas outras novelas mediáticas. No entanto, nada melhor do que uma "cotovelada" sindical. O futebol foi santificado. O sindicalismo foi diabolizado. É dar-lhes. Está na hora. Nem sequer resultou da "agressão" uma leve escoriação, não é verdade? E os "insultos" não excederam a gíria do desencanto e do protesto. Não resvalaram para a grosseria rasteira ou a injúria gratuita.

Fosse como fosse, o "incidente" serviu de "barriga de aluguer" à criação de um super-facto comunicacional. Um antigo chefe de Redacção, sempre que as águas do Douro insinuavam transbordar, babando a marginal do Porto, espicaçava os repórteres com um arregaçar de mangas, que também definia um critério editorial: "Puxar pelo rio! Puxar pelo rio!". Naquele tempo, a Censura não permitia que se puxasse pelo 1.º de Maio. Hoje, puxa-se para o esvaziar. A enchente é de trabalhadores mas os média enchem-se com a odisseia de um lente de Coimbra em apuros na "Cidade de Ulisses". Não iremos reproduzir exemplos da vaga de atenção que o recente "1.º de Maio" despertou no espectro mediático. Os telespectadores, radiouvintes e leitores estão com a "memória fresca". Usaremos a exemplaridade do "incidente" para uma amostragem da conduta mediática no tocante aos trabalhadores, às suas organizações e manifestações, antes e depois do 25 de Abril. Alguns paralelismos são inquietantes e esclarecedores do "estado a que se chegou" e da relevância do acontecido, dependente da grelha do Poder Económico.

COMO FAZER DESAPARECER 200 MIL PESSOAS

Na actualidade, por regra, a Comunicação Social Dominante reduz ao mínimo o direito à Palavra e à Imagem do mundo laboral, principalmente tudo o que ponha em causa a ordem económica e o rotativismo partidário de confiança. Por regra, evita imagens ou, no limite, não aproveita as mais expressivas de quanto cheire a greves, plenários, manifestações, desfiles, concentrações. Mesmo que saiam à rua 100.000 trabalhadores, escolhem um pormenor: a cabeça da " manif.", um dirigente sindical pendurado num microfone, um cartaz ou faixa mais anedóticos, um flagrante que não legitime a amplidão do acontecimento. Por regra, também não confia em números fornecidos por fontes laborais, contrapondo as fontes patronais, ministeriais, policiais. O que até seria perfeitamente razoável se o contraditório constituísse uma norma editorial. Mas não. Se o evento é patronal ou governamental ou religioso ou desportivo ou das agências de entretenimento, os média roçam o orgasmo ou, pelo menos, gaguejam com as multidões da "pax" situacionista e do circo inócuo: raramente contrastam os números adiantados pelas respeitáveis e fiáveis organizações. O preconceito desqualificante é óbvio. Idêntico tratamento é conferido às manifestações Anti-Globalização: todo o relevo incide sobre "incidentes" com as forças da ordem ou entre grupelhos (alguns infiltrados e geridos pelas polícias). As contemplativas forças da ordem, essas são sempre " obrigadas" a agir, a responder, menosprezando-se o comportamento civilizado de dezenas/centenas de milhares de manifestantes, bem como os seus cadernos programáticos.

Avancemos para um concreto exemplo. Manifestação Nacional, Lisboa (08/02/2006). Participantes: 100 mil. Estimativa da generalidade dos Meios de Comunicação (09/02/2006). Os organizadores referem 150 mil. Mas o clamor público e a projecção estatística não encontraram uma medida minimamente proporcional na atribuição de território mediático. Mesmo consentindo que Lisboa foi " invadida". A omissão ou relativização foram tão clamorosas que, mais de um ano depois (22/06/2007), um quadro intelectual do sistema, José Freire Antunes/SIC/Notícias, não achou exemplo mais ilustrativo de " censura por omissão" do que o tratamento noticioso dessa avalancha social.

Já quanto à Greve Geral (30/05/2007), a Orquestra Mediática funcionou afinada: " um fracasso". De nada valeram as estatísticas (por serviços públicos, empresas, actividades e localidades) da CGTP: 1 milhão e 400 mil aderentes. Foram ignoradas. A Comunicação Social Dominante serviu de "correia de transmissão" da verdade do Governo/Patronato. Já se tinha assente, na pré-campanha, que não iria ter êxito. A pós-campanha apenas culminou o trauteio sistémico. E se nos reportarmos à manifestação (Cimeira Europeia/Lisboa, 18/10/2007), contrastando a expressão pública e o publicamente expresso, a não coincidência, para além de flagrante, contou ainda com editoriais e observações de enquadramento. Assim, brotaram das Direcções do Bloco Central Mediático editoriais de socorro ao Governo e à Política da UE: o Jornal de Notícias concordou com o primeiro-ministro que " eram sempre os mesmos", embora concedendo que eram muitos; o Público aceitou a cifra dos 200 mil manifestantes mas procurou desautorizar o acto, alegando que o país atravessava "dificuldades"; a SIC Notícias, perante o tsunami social no Parque das Nações, embora resmungando, reconheceu que a CGTP não estava " completamente isolada". Não bastou que, numa rara sintonia, os números da Polícia e da CGTP batessem certo. O Bloco Central Mediático tratou de reduzir " a maior manifestação dos últimos 20 anos" a um curioso dano colateral no decorrer da Cimeira e, para limitar estragos inesperados de propagação da onda, fez saltar dos quartéis os editorialistas de piquete. Ainda neste afã de omissão/desvirtuamento no que respeita às acções do movimento sindical, o Bloco Central Mediático tem por norma alinhar a CGTP depois da UGT, assim instaurando uma hierarquia de importância que, não sendo a representação do real, mantém a ordem simbólica conveniente para o Sistema (Governo/Patronato).

Exemplos da Censura Fascista que seriam encaixáveis na Ordem do Bloco Central Mediático: " Reunião da Intersindical de Lisboa-Cortar." (Capitão Correia de Barros, 08/04/1971). [1] " Reunião de telefonistas na FNAT. Não dizer que foram centenas e não especificar o que pretendem. Dizer que trataram de assuntos da classe.". (Coronel Saraiva, 03/10/1971). " Reunião de bancários, hoje, talvez em Lisboa. Reduzir ao mínimo. Só dizer: realizou-se ontem." (Coronel Garcia da Silva, 10/09/1973).

E agora a pergunta: quem nos foi aproximando dos métodos jornalísticos ou censórios do ditador Oliveira Salazar, o "grande português", e do ditador Marcelo Caetano, o "ilustre administrativista" ? Quem impôs, no jargão político, mediático e académico, não apenas a suavização dos cognomes de tiranos e tiranetes, mas também um impune programa de apagamento, um revisionismo branqueador do regime derrubado pela Revolução, agora cortesmente reabilitado como "Estado Novo", deixando-se cair a designação de "regime fascista", inserta no preâmbulo da Constituição da República Portuguesa, privilegiando a denominação que o Regime Fascista escolheu para se baptizar e benzer? A Comunicação Social Dominante é uma montra ideológica. O Bloco Central Mediático escolariza as mentes, socorrendo-se de manuais inspirados no "Livro Único" e na "Política do Espírito" da Ditadura. Só não vai mais longe porque "há sempre alguém que resiste/há sempre alguém que diz não". Sempre e cada vez mais.

"1.º DE MAIO – SÓ BOMBAS"

Então, nos noticiários sobre o 1º de Maio, o critério subjacente aproxima-se dos censores assumidos, que exaravam recomendações dignas de um editor de tablóide ou de uma televisão de cabo-de-guerra. Incitava-se à dramatização, terrificação do Dia Mundial do Trabalhador: " 1.º de Maio - notícias lá de fora são CORTADAS. A não ser de BOMBAS." (Tenente Teixeira, 02/05/1972). Claro que notícias " cá de dentro" seriam impensáveis, mesmo que, em Lisboa, saíssem à rua (por demoníaca instigação) 100.000 manifestantes, conforme registo de fontes da Resistência. [2]

Exemplo de Censura em Regime Democrático: o JN (01/05/2008) apenas publicou uma referência ao Dia do Trabalhador: " 1.º de Maio com manifs em Lisboa ". Como o jornal tem vendas inexpressivas em Lisboa, " não faz grande mal ao mundo" dar uma noticiazita. No Porto, onde as vendas do jornal são massivas, funciona a Agenda da Omissão. No entanto, o mesmo matutino afadiga-se a anunciar (texto e imagem), entre outros certames, a Feira de Maio, em Felgueiras. A narrativa convoca as hostes populares, enunciando um programa cativante: ranchos folclóricos, passeios em charrete, fados, entronização de confrades vinhateiros. Atractivos que deixam em paz o Sistema e os seus Executivos. Como habitualmente, os média comportam-se como Diários do Governo e não da República, sempre que o Governo mereça o beneplácito do poder económico-financeiro. 1.º de Maio? Façam o favor de se deslocar a Felgueiras.

"PASSEATA DE CAIXÕES"

Convirá, a finalizar, rever o filme do "incidente". No 1.º de Maio, em Lisboa, não se registou apenas um "incidente". Ao que se relata, o cortejo da UGT sofreu uma arritmia ao deparar com um embrulho "suspeito". As entidades competentes, chamadas a tranquilizar os transeuntes, não descortinaram qualquer perigosidade no artefacto. O que não impediu a difusão de um rumor com cheiro a "bomba" naquela luminosa sexta-feira. Os dois "incidentes" até parecem sintonizados para um "suspense" de literatura menor. Só falou ver João Proença a correr desvairado, buscando guarida no Castelo de São Jorge. Estamos, apesar de tudo, convictos de que apenas se registou uma relação espontânea entre a micro-turbulência no desfile da CGTP e o resíduo urbano que descompassou o séquito da UGT. Uma pista fica no ar para o Jornalismo de Investigação: o "pacote" terá servido para acondicionar o "sapato iraquiano" arremessado na contenda? No que toca a petardos, a maldição paira sobre a acomodatícia Central. Na verdade, em 6 de Fevereiro de 1982, seis dias antes da Greve Geral, rebentou uma carga junto da residência de Torres Couto. Nunca se apurou a autoria do "ataque" ao Torres, provavelmente prenúncio do derrube das "Torres". Felizmente escapou incólume. A bomba era pacifista. Só lhe cumpria rebentar. O mesmo não aconteceria, em 30 de Abril, na animação nocturna que precedia o 1.º de Maio no Porto. O coronel Rocha Pinto, governador civil, alegou que a UGT se antecipara à CGTP na requisição da "baixa", espaço onde sempre a CGTP promovera as comemorações. Os manifestantes da CGTP insistiram em celebrar o 1.º de Maio na "sua" Casa. Os ânimos extravasaram. A Polícia atirou a matar. Saldo: dois mortos e 58 feridos. Aqui a "bomba" não foi apenas ruidosa ou falso alarme. Reinava o Governo da AD/PSD/CDS/PPM, chefiado por Francisco Pinto Balsemão, sendo o Ministério da Administração Interna ocupado por Ângelo Correia. O funeral dos dois operários da nossa "Praça de Maio" constituiu uma resposta cívica de dimensão nacional. Torres Couto, secretário-geral da UGT, comentou nestes termos o préstito fúnebre: "uma passeata de caixões pelas ruas do Porto". [3] Deste modo, à bala e à bastonada, se prosseguia um laborioso plano, cujo "slogan" coube a Maldonado Gonelha, ministro do Trabalho do I Governo de Mário Soares: "partir a espinha à Intersindical". Primeira fractura exposta: lançamento da UGT, em 1977, nascida de um "amour à trois" /PS/PSD/CDS/, com financiamento norte-americano, alemão federal/CISL. É esta gente que faz chacota de operários assassinados e estabelece como objectivo alquebrar e cindir o movimento sindical que especula sobre uma "agressão" de rodapé e um "ódio" que mais não é do que repulsa por uma política de completa e aberta subordinação ao "Império do Dinheiro". Ainda bem que Vital Moreira saiu do meio da CGTP para o seio da UGT sem ser passeado num caixão nem sequer se queixar de dores lombares. Não obstante uma instantânea quebra de disciplina, a conduta da esquerda com princípios sempre se pautou pela correcção militante. Mas urge lembrar que Abril é para se recumprir, que Maio é para se reafirmar, que não há "espaço vital" para o colaboracionismo com um quadro político-social, onde de acordo com personalidades insuspeitas, como Mário Soares e Garcia Leandro, se poderá estar na fronteira de uma "explosão social" e Ramalho Eanes e Henrique Neto, se respira "medo". Se porventura nos abeiramos de uma "explosão" e se o "medo", a peste de Santa Comba, alastra – alguém introduziu este profundo mal-estar geral. Sophia de Mello Breyner Andersen, maravilhada com o 1.º de Maio de 1974, exclamou: "A Poesia está na rua".

Quem, desde aí, tem "metido na gaveta" o Poema de Maio?

Notas
1. Os Segredos da Censura , César Príncipe, Editorial Caminho, Lisboa, 1979, 160 pgs., ISBN: 9789722102803
2. O Militante, N.º 258-Maio/Junho, 2002.
3. Alavanca, N.º 2, Abril/Maio, 1982.


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13/Mai/09