Rússia: o amanhecer de uma nova revolução

por Igor Guerasimov

O começo de 2005 coincidiu com o início de um período qualitativamente novo na história recente da Rússia. A entrada em vigor da lei anti popular, que substitui as regalias sociais das camadas mais desfavorecidas da população por uma compensação económica claramente insuficiente, praticamente simbólica, serviu para iniciar todo um mecanismo de protestos populares maciços. São muitos os analistas que falam com profundidade da revolução que se avizinha, semelhante à "revolução laranja" na Ucrânia. Muitos daqueles que desejam substituir o putrefacto regime de Putin, dão como exemplo, precisamente os acontecimentos ocorridos naquele país vizinho, no final de 2004. Ao mesmo tempo, também abundam as análises que definem a "revolução Laranja" como um golpe reaccionário e pró americano, dirigido contra os "interesses nacionais" da Rússia e da sua classe dirigente. Este complexo problema não perde actualidade pois, da correcção da análise que dele se faça, dependerá em grande medida o êxito das forças progressistas, não só na Rússia e na Ucrânia, mas em todo o território da antiga URSS.

Começaremos por tentar compreender o que nos traz a chamada "revolução laranja" na Ucrânia.

No final do segundo mandato presidencial de Leonid Kuchma, à elite governante, claramente ligada à elite mundial e à estadunidense em primeiro lugar, colocava-se uma difícil tarefa: assegurar a continuidade do curso neoliberal no terreno económico e a orientação pró ocidental em política externa. A dificuldade deste empreendimento estava, em primeiro lugar, no facto do regime ter perdido, completamente, a popularidade entre a população e, em segundo lugar, porque à elite ucraniana se tinha encomendado a radicalização frontal da orientação pró ocidental do seu percurso e a liquidação definitiva dos últimos "rudimentos post soviéticos".

Para a sua resolução vitoriosa, foi desenvolvida uma combinação de diferentes mecanismos, entre os quais a "revolução laranja" representava a sua manifestação externa mais visível.

Para enfrentar as eleições presidenciais, a elite governante devia preparar dois candidatos saídos do próprio governo: um, suposto candidato oficial para o "público", na realidade devia representar o papel de "sparring", o homem a abater; o outro, o candidato verdadeiro, devia aparecer disfarçado de líder da "oposição". O primeiro papel coube ao então primeiro ministro, que tinha ocupado o cargo desde 2002, e que representava os interesses do capital industrial das regiões do sudeste do país. O segundo papel cabia a Yuschenko, que tinha sido primeiro ministro em 2001 e representava os interesses da elite político-financeira mundial.

Há hoje dados suficientes para pressupor que estas candidaturas, destinadas a essa futura grande mistificação, foram definidas naqueles anos. O poder pretendia colocar, como candidato que personificasse o "antigo regime", a personalidade menos atractiva para o povo, um líder regional, com antecedentes judiciais e reputação de "padrinho mafioso" na região de Donbass. O premeditado, grosseiro e tosco, apoio do poder (naturalmente tanto ucraniano como russo) a Yunukovich, que teve no decurso da pré campanha eleitoral um efeito contrário ao desejado, oferece-nos argumentos suplementares para nos convencer da certeza desta suposição.

Yuschenko, por seu lado, utilizou um fio condutor da sua luta pré eleitoral completamente diferente: posicionou-se como um líder carismático que albergava, debaixo das suas bandeiras laranja, todas as forças progressistas e democráticas, contrapostas à conservação do "velho" e do "caduco" e voltadas para a "renovação". À partida é um movimento claramente ganhador, especialmente quando é o poder que, secretamente, apoia este seu protegido.

O tiro de partida para a revolta laranja, na já mundialmente famosa Maidane Nezalezhnosti, foi dado pelo anúncio oficial dos resultados da segunda volta. A correlação de votos induzia, claramente, a pensar numa grosseira falsificação, em benefício do aparente candidato oficial. Entretanto, a informação habilmente fornecida, a partir das diferentes regiões da Ucrânia, sobre as "flagrantes violações" do direito eleitoral e a cínica utilização do "recurso administrativo" em benefício de Yanukovich, conseguiram redobrar o ânimo do povo "enganado".

Nesta fase, entraram em acção a tropa de choque da autodenominada "oposição", bem oleada com dinheiro dos EUA e as técnicas americanas de controlo de massas: os caça bombardeiros do movimento "Pará", organizadores profissionais, e os directores de espectáculos de massas.

É importante notar que os instigadores dos protestos não foram "gente da rua", mas organizadores profissionais, que tinham à sua disposição enormes meios financeiros e materiais. As massas, incluindo as que expressavam um sincero protesto contra o poder, não tiveram outro papel que o de figurantes deste grandioso espectáculo, alheio aos seus reais interesses.

Naturalmente, nem todos os que participaram nos protestos de Kiev o fizeram por uma recompensa económica. Os apoiantes de Yuschenko, na ausência de uma oposição real e efectiva, canalizaram para onde lhes interessava toda a energia das massas, descontentes com a política antipopular e antidemocrática do governo, para apoiar a "nova edição" desse mesmo poder.

Sublinhe-se ainda que, em si mesma, a participação em acções de massas contra um regime anti-popular, mesmo que organizada por forças alheias aos seus interesses, não deixa de ser uma experiência valiosa para as massas. Num futuro mais ou menos próximo, pode-nos ser muito útil, quando as pessoas voltarem a sair a Maidan por iniciativa própria, mas desta vez não dirigidas de cima.

Mas voltemos à análise do mecanismo da "revolução laranja". Porque é que poder, tendo à sua disposição todos os meios repressivos possíveis, não reprimiu, nem mesmo quando começaram a fazer actos de sabotagem contra as instituições governamentais? A resposta é evidente: O desenvolvimento daqueles acontecimentos era o que tinha sido planeado pelo poder e os que estavam por detrás dele.

O resto ficava nas mãos da "técnica": a decisão judicial, avalizando a segunda volta, devido ao grande número de irregularidades cometidas, que impediram determinar a verdadeira vontade popular; a ilegal terceira volta, na qual Yuschenko, inchado pelo "auge do movimento revolucionário" conseguiu uma "vitória arrasadora" sobre o destroçado Yanukovich; a consequente desistência das denúncias feitas por Yanukovich, que coincidiam, ponto por ponto, com as apresentadas por Yauschenko e que serviram para anular a segunda volta... Desta forma o poder organizou, contra si próprio, um "levantamento" de opereta, conseguindo, assim, a renovação da elite governante, sem variar um avo o conteúdo da sua política. O poder apenas se desfez da sua antiga máscara. As pessoas mudaram, mas não só não varia o rumo político, como se radicaliza ainda mais, tornando-se mais descarado.

Os exploradores, valendo-se da ausência de um oposição real, sempre aspiram à ordem social que mais os beneficie e que mais prejudique as camadas mais desfavorecidas da população. É evidente que o povo permanecerá sendo objecto de todo o tipo de manipulação e exploração, enquanto não aprender, por si mesmo, a controlar, desde baixo, os processos sociais.

Mas podemos utilizar a experiência da "revolução laranja", aplicando-a à Rússia? Vale, realmente, a pena debruçarmo-nos sobre o tema?

Sobre este assunto podemos encontrar posições diametralmente opostas: os liberais definem-se como partidários da repetição do exemplo ucraniano na Rússia; os patriotas, temerosos da proclamação de um regime pró-ocidental, afirmam-se claramente contra. Tanto uns como outros partem do postulado de que seria o Ocidente quem teria de intervir directamente, para que se desse uma "revolução laranja" na Rússia. Esta "revelação" é qualquer coisa tem por natural e que não admite discussão, só que uns defendem a necessidade de repetição dos acontecimentos verificados na Ucrânia, enquanto os outros estão contra.

Mas, torna-se assim tão evidente a aspiração do Ocidente, e em primeiro lugar dos EUA, em apoiar o derrube do regime de Putin, sob o lema genérico da democratização?

Não poderia acontecer que, prisioneiros dos estereótipos, transferíssemos as particularidades da Ucrânia para uma realidade completamente diferente, só russa?

O regime de Putin é extremamente útil à elite mundial: foi Putin, precisamente, quem acelerou a liquidação do que restava do regime soviético de protecção social. Foi, também, Putin que deu o seu acordo à criação de bases militares estadunidenses no território das antigas repúblicas soviéticas. É a Rússia de Putin que entrega, gratuitamente, aos EUA, as suas riquezas naturais, investindo o lucro proveniente da venda de petróleo em títulos do tesouro norte-americanos, que podem perder a sua liquidez num abrir e fechar de olhos.

Por isso, aventurar-me-ei a formular uma suposição, à primeira vista paradoxal e inesperada: O ocidente não está nada interessado numa revolução na Rússia sob o tema genérico da democratização, dirigida contra a ditadura de Putin. Por isso, o ocidente apoiará, tanto quanto possível, as medidas de força do regime para acabar com a hipotética "revolução laranja" na Rússia, ao mesmo tempo que, por palavras, reprovará a actuação ditatorial de Putin.

Naturalmente, se a ditadura burocrática, por motivos alheios ao ocidente, acabar por se tornar inaceitável para o povo russo, tudo farão para colocar no lugar de Putin uma qualquer pessoa que represente as "transformações democráticas", mas presentemente não está interessado em debilitar o poder de Putin.

A elite mundial tem com a Rússia um tipo de exigências qualitativamente distintas das que pode fazer à Ucrânia ou à Geórgia.

A Rússia converteu-se no principal "doador" de matérias primas para os países ricos, especialmente os EUA, do espaço post-soviético. Os estados "periféricos" cumprem a função de campo de operações geopolítico para o controlo da Rússia. Claro que não deixam de ser explorados, mas é esse o seu principal papel.

Estados como os países do Báltico, Ucrânia e Geórgia, que consomem mais do que produzem, converteram-se, de facto, em parasitas da Rússia, graças ao que financiam uns regimes políticos, com a ajuda dos quais a elite mundial exerce o seu controlo sobre a Rússia. Aos povos desses países, diferentemente do que sucede com o povo russo, o ocidente não exige que lhe entreguem a suas riquezas naturais, por isso podem permitir-se uma certa imitação das tradições democráticas, com toda a fraseologia e palavreado liberal. Mas para um "estado doador", um regime ditatorial, antidemocrático, que mantenha a sua população em completa submissão e garanta a saída das matérias-primas de forma ininterrupta, é o mais conveniente para optimizar a sua função.

Um exemplo palpável do que do que afirmamos está nos outros estados da antiga URSS, convertidos em fornecedores de matérias-primas do Ocidente, onde encontramos regimes burocráticos, oligárquicos e reaccionários: Kazaquistão, Uzbequistão, Turkmenistão e Azerbeijão.

Mas o Ocidente não se conforma que a Rússia apenas lhe entregue as suas riquezas, necessita da eliminação definitiva dos elementos de uma infra-estrutura económica de superpotência que, todavia, restam da era soviética, bem como de garantias de estabilidade política. O cumprimento de todas estas contraditórias exigências ao mesmo tempo, só é possível com um novo aperto do cinto, imposto pelo poder ao povo explorado. Estão demasiadas coisas em jogo. Não é difícil imaginar o que sucederia se a Rússia escapasse do controlo do ocidente e das suas marionetas do Kremlin, sendo como é capaz de manter um elevado potencial para assegurar o seu próprio desenvolvimento e oferecer ajuda aos países explorados do "terceiro mundo".

Por isso, o ocidente está totalmente interessado em que o governo russo mantenha as rédeas firmes sobre o povo. O regime, na actual etapa, não está em condições de manter o sistema de exploração sem recorrer à ditadura. A luta contra a ditadura, objectivamente, converte-se na luta contra a injustiça social.

A Rússia, pelas suas condicionantes geográficas e demográficas, de modo algum se pode converter num estado parasita, membro do "clube dourado dos mil milhões". [1]

À Rússia restam apenas duas alternativas: ou continua como estado doador para o ocidente, ou sacode o ditatorial regime de marionetes e passa, novamente, a centro da formação de um espaço sócio-económico mundial alternativo, mas num nível qualitativamente novo, com respeito pelo passado. A liberdade, a democracia e os "direitos humanos" não cabem nos objectivos dos parasitas. E quanto mais cedo os convencidos liberais russos compreenderem isto, melhor será para eles e para todo o povo russo.

A libertação da Rússia da ditadura burocrática, oligárquica e reaccionária, não se concebe sem a resolução prévia das gravíssimas contradições sócio-económicas e sem a libertação do jugo do diktat económico da elite mundial. Podemos dizer seguramente, que o ocidente, em caso algum, está disposto a ajudar o povo russo a libertar-se da actual ditadura. Por conseguinte, o povo a penas pode contar com as suas próprias forças. E aqui há algo claramente positivo: se o povo consegue democratizar o sistema político, o mérito será exclusivamente seu e os frutos da revolução anti-burocrática recolhê-los-á unicamente o povo russo e não os hábeis palhaços que manipularam os povos da Ucrânia e da Geórgia.

Apesar de tudo, a Rússia continua a conservar os pressupostos imprescindíveis para este empreendimento. O fundamental é estabelecer a base organizativa necessária, envolvendo todo o tecido social, para preparar a futura revolução.

Se analisarmos detalhadamente a criatividade do povo no decorrer da actual campanha de protestos, que abarca hoje todas as regiões do país, poderemos concluir, com satisfação, que se iniciou a formação do embrião dum sistema politico-social qualitativamente novo. A nova página na história da luta contra o regime anti-popular foi aberta pelos habitantes de uma pequena cidade satélite de Moscovo, Solniechnogorsk, a 9 de Janeiro de 2005. Ali, celebrou-se a primeira acção de protesto que, simbolicamente, servia de comemoração do centenário do domingo sangrento, início da revolução russa de 1905. A acção começou com um comício, mas logo derivou para o corte da estrada de Leninegrado. Mas a mais importante consequência das acções de protesto foi a criação de uma nova organização: o "Comité de Salvação". Este organismo permanente representa os interesses da população perante a delegação do governo, apresenta-lhe as exigências populares, controla o seu cumprimento e, sempre que necessário, mobiliza novamente as pessoas para apresentar o resultado das suas pretensões. O governo foi obrigado a reconhecer este órgão e a prestar contas de uma série de questões.

Depois de Solniechnogorsk, as acções de protesto, sem precedentes no tempo do governo Putin, sucederam-se por todo o país, desde Kaliningrado até Sajalin. No decurso destas manifestações criaram-se, como em Solniechnogorsk, novos órgãos de coordenação dos protestos numa série de regiões da Rússia.

O que é que nos espera daqui para a frente? Apaziguará o governo esta primeira onda de protestos, ou ver-se-á obrigado a suspender a política de reformas anti-sociais de pagamento das casas, da educação e do sistema sanitário?

O mais provável é que se incline para o recurso à força, pois não está em condições de por em prática outro programa sócio-económico.

Incapaz e sem vontade de promover o real crescimento da economia com base no desenvolvimento da produção e a introdução de novas tecnologias, vê-se obrigado a arrancar ao povo o pouco que lhe restava da época soviética. Por isso devemos esperar uma onda de repressão por parte do regime.

Para obrigar o governo a ter o povo em conta, para aumentar a efectivação, não já das presentes mas de futuras acções de protesto, na etapa actual, é imprescindível criar uma rede alternativa de coordenação da vida social, tipo "comité de salvação", como o que foi feito em Solniechnogorsk. Estes comités estão destinados a transformar-se no centro efectivo de um sistema alternativo de direcção da sociedade que, ao fortalecer-se com o tempo e ao desenvolver-se até ao nível necessário de organização, passe a estar em condições de organizar a completa e definitiva substituição do regime político.

Perante os "comités de salvação", nascidos no calor dos protestos em começos de 2005, abre-se um futuro, repleto de expectativas e cheio de trabalho, para organizar a população numa rede social alternativa e de massas.

Se, no âmbito deste impulso revolucionário, não se conseguir substituir o anterior regime, pelo menos será indispensável criar a consciência dos recursos organizativos necessários para futuras acções mais diversificadas. Até que chegue o momento de substituir o poder, estas podem ser muito úteis para o povo. É necessário organizar correctamente a população, mobilizando a sua parte mais activa para a resolução de problemas concretos.

Isto pressupõe a criação de órgãos territoriais de autogestão social, a realização de programas económicos socialmente orientados, a organização duma rede de acompanhamento do cumprimento das responsabilidades dos dirigentes e muitas outras coisas mais. E quando forem violados os nossos direitos, organizar imediatamente acções de protesto. Numa palavra, se não conseguirmos, por agora, mandar o actual governo para caixote do lixo da história, pelo menos poderemos indicar-lhe, de forma clara, qual é a sorte que o espera, aprender a falar com eles num idioma diferente do que vínhamos a utilizar.

Está claro que as revoluções não se fazem por encomenda. Para que possam ser levadas a cabo, é indispensável que se impliquem no processo de transformação qualitativo da sociedade as amplas massas populares. A tarefa da vanguarda política do povo trabalhador consiste em utilizar os seus conhecimentos, a sua experiência da luta política, os seus hábitos profissionais neste processo social criador. Para isso é necessário o concurso de todos os grupos etários, dos reformados, iniciadores das primeiras acções de protesto, dos estudantes. que, todavia, têm de sair à rua a defender os seus direitos. A experiência de vida das pessoas mais velhas na sociedade de justiça social e os hábitos profissionais da juventude actual – ainda que seja na aplicação de novas tecnologias – inevitavelmente confluirão, ao longo da construção das bases da nova sociedade. Será uma construtiva e real colaboração de diferentes gerações, para as quais o actual regime é, igualmente, insuportável.

Basta que comecemos a trabalhar nesta direcção, para que uma enorme quantidade cidadãos alcance um objectivo na vida e comece a ver a luz ao fundo do túnel.

Os "poderosos do mundo inteiro" são-no, apenas, na medida em que os explorados, individualmente, procuram uma migalha do banquete. Mas quando as camadas mais baixas da sociedade compreendem que podem fazer grandes coisas juntos, somando esforços, unindo-se em torno dum objectivo comum, então, terá mudado a consciência social e a estrutura social. Será uma nova sociedade, altamente organizada, de autogestão popular.

As forças produtivas e a consciência social já alcançaram o nível de desenvolvimento necessário para que tudo isto seja, não somente possível, mas vitalmente imprescindível.

Auto-organização popular, autogestão popular, autodefesa popular.

Se não podemos derrubar este regime, nem através da luta de elites governantes, nem através do levantamento armado do proletariado – ainda que seja apenas porque a distribuição de classes na sociedade mudou claramente desde 1917 – torna-se necessário procurar uma terceira via, consistente, que implique o povo na construção de um sistema social alternativo. Podemos chamar-lhe "sociedade civil"? Sim, mas nunca com o sentido utilizado pelos sociólogos burgueses. A sociedade civil burguesa é uma sociedade de pequenos burgueses, egoístas, que se opõem frontalmente à intromissão do estado na sua vida privada. No fundamental, é uma sociedade leal à ordem existente e ao poder, servindo na base como ponto de apoio do regime de exploração.

Condição indispensável para a vitória das forças progressistas, num desenvolvido sistema social com predomínio da população urbana, é a presença de uma sociedade civil de novo tipo. Uma sociedade de cidadãos politicamente activos, unidos numa rede multifuncional, oposta ao regime existente, em que predomine uma tradição cultural distinta da oficial. Neste sistema, cada participante assume voluntariamente a realização dos objectivos determinados e o controlo dos processos sociais. Só um sistema assim pode servir de apoio às forças políticas progressistas na nova etapa de desenvolvimento social, só um sistema assim pode fazer frente à bem oleada máquina de exploração e derrotá-la.

A teoria da sociedade civil activa foi desenvolvida pelo destacado cientista marxista italiano, António Gramsci, na primeira metade do século XX. Mas nunca foi totalmente utilizada, nem pela esquerda ocidental de tendência trotskista, apesar do apoio do modelo soviético, o que explicará, seguramente, a sua constante pouca aceitação. Gramsci também não foi popular na URSS. Quando apareceram, para o "país do socialismo vitorioso", os seus trabalhos não eram actuais. Mas temos todo o direito de supor que é precisamente na Rússia dos começos do século XXI que podem ser levados à prática as suas concepções teóricas. Tal como nos começos do século passado, também agora estão criadas as condições necessárias para que a Rússia se converta na vanguarda do movimento revolucionário mundial, que mostre aos povos o novo caminho para um futuro radioso. Quero crer que isto não ficará por um palavreado grandiloquente.

Voltando à análise dos recentes acontecimentos na Ucrânia, sublinhe-se que este método para a transformação social é diametralmente oposto ao que foi orquestrado pelos dirigentes da "revolução laranja". Só uma revolução em que iniciativa pertença completamente ao povo pode ser designada como tal.

A nova revolução, sem dúvida, deve conter uma componente democrática. É perfeitamente possível que, por analogia com a Ucrânia, os lemas democráticos em que se instigue a renegar o regime desprezível, inclusive para muitos liberais, tenham, digamos assim, uma cor laranja. A diferença principal estará no facto das forças que vierem a expulsar a corrupta burocracia do poder, não estarem dirigidas pelos exploradores internacionais, mas por forças populares russas que, nesta revolução, aspiram a decidir as tarefas mais candentes no plano sócio-económico, mas sob lemas "vermelhos". Deste modo, a nova revolução na Rússia, sendo na sua base "vermelha", no momento de afastar do poder o regime ditatorial, contará, além do vermelho, com a sua componente "laranja".

O regime não vai poder continuar o mesmo. É possível que consiga ajudar a subir um novo protegido, um delfim candidato a "grande chefe" da oligarquia burocrática (há indícios de que estão a preparar Alexander Tkachiov). Mas, na realidade, não é demasiado importante a pessoa em concreto que designem. O importante é a própria estrutura do sistema. De momento, o poder serve-se das velhas reservas de estabilidade. Mas começa já a ser evidente que, com o aparecimento de uma nova geração de forças políticas, não sujeitas à manipulação por parte do Kremlin, a defesa do burocrático sistema estatal de elitismo começa a causar problemas. Novas forças vão entrar no jogo, mas já sem seguir as regras do regime e sem estar debaixo do seu controlo.

No próprio povo, e não só na sua vanguarda política, também cresceu uma nova geração pouco dada a inclinar-se perante o estado, como sucede, ainda a nível do subconsciente com as pessoas de idade avançada. As novas tecnologias da comunicação, que tornam impossível a censura, criam novos canais de comunicação, facilitam a procura de correligionários e, permitindo a direcção efectiva dos processos sociais, tornam-se num importante espaço na vida das pessoas, sobretudo dos jovens e dos socialmente activos, que definem o vector de desenvolvimento da sociedade.

Na sociedade de informação, na actual etapa de desenvolvimento da consciência social, a democracia introduzida na altura de forma precipitada e na sua versão mais desvirtuada pelo regime de exploração, começa, finalmente, a ser uma necessidade imperiosa.

Não é em vão que o regime anti-popular se empenha em esvaziá-la de conteúdo, substituindo-a pela ordem directa. Isto significa que, a negação da ditadura, na actual etapa, pressupõe a negação da exploração e o fim da injustiça social. O povo, de um modo geral, já está pronto para a participação numa democracia real, já não necessita da protecção paternalista do aparelho de estado (muito menos do actual). Deste modo, uma das principais tarefas da nova revolução é a liquidação da ditadura, da autocracia, do poder ilimitado de um só homem.

A principal pergunta é saber quando se produzirá a revolução. O lógico é pensar que se dará quando estiver preparada a base organizativa imprescindível para a sua concretização.

Se bem que é evidente a recusa do actual sistema, ainda não se definiram as bases dum sistema social que se lhe oponha. Para isso, o normal é que sejam precisos uns anos mais.

Mas, na realidade, uma autêntica revolução não "laranja" não é possível faze-la surgir artificialmente, como também não é possível antecipar a sua previsão. Muito poucos pensariam na véspera do ano novo, que começaríamos o ano com manifestações populares maciças contra o regime. Não podemos entristecermo-nos ao constatar que a paciência popular tem os seus próprios limites. Parece que quanto mais nos afastamos da época soviética, as transformações sociais do regime tornam-se mais irreversíveis e a sociedade se degrada ainda mais. Mas que devemos entender por irreversível no actual contexto? A impossibilidade de voltar ao regime soviético. Vale a pena regressar? Pode o povo estar certo quando nega a sua confiança às forças políticas que ele associa com o passado? Claro que está agradecido pelo apoio que recebe na sua luta pelos direitos sociais. Mas há uma coisa que tem de ficar claro: não se pode tomar banho duas vezes na mesma água do rio.

Os políticos, incluindo os progressistas, não se devem considerar mais preparados que o povo, nem que eles, melhor que o povo, sabem o que convém. A sociedade não permanece imóvel. E os avanços qualitativos experimentados nos últimos decénios, têm o seu reflexo objectivo no processo de desenvolvimento social. E nós, como representantes da vanguarda política da sociedade, também não devemos continuar a olhar para trás. A nossa tarefa é construir uma sociedade que repita a realização dos princípios fundamentais de justiça social que caracterizaram a sociedade soviética desde 1917 a 1991, mas elevando-os a um mais alto nível de desenvolvimento.

Em 1991 foram muitos os que pensaram que o "sol de liberdade" [2] se tinham posto para sempre e não voltaria a nascer. Então, muitos tentaram a todo o custo alcançar esse sol, salvando-se da treva que nos invadia. Não podia dar resultado, por causas objectivas. Mas depois de uma longa e triste espera, a névoa nocturna não é já muito espessa, parece já vislumbrar-se no horizonte a, ainda débil, mas muito ansiada luz de um longínquo amanhecer. E os primeiros a ver essa luz, a luz do "sol da liberdade", foram os habitantes de uma pequena cidade dos arredores de Moscovo, com o simbólico nome de Solniechnogorsk, [3] na não menos simbólica data de 9 de Janeiro de 2005.

Notas
[1] Refere-se aos mil milhões de habitantes dos países capitalistas desenvolvidos.
[2] Referência ao hino soviético.
[3] Montanha ensolarada


O original encontra-se em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=10827 .
Tradução de José Paulo Gascão.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

17/Mar/05