Cimeira da UE em 1 de Setembro: a "vigilância" inócua
A omelete de Saakashvili
O reconhecimento explícito pela Rússia da soberania da
Ossétia do Sul e da Abkhazia levantou ondas de indignação
em quase todas as chancelarias ocidentais. Elas fazem o ar de terem sido
surpreendidas. Na realidade Dmitri Medvedev não fez outra coisa
senão dar livre curso àquilo que já fora dito
explicitamente no decorrer dos combates.
O governo russo havia declarado o chefe do Kremlin
reger-se-á na base da vontade exprimida pelos povos da Ossétia do
Sul e da Abkhazia. E estabelecerá sua própria política
exterior na base desta vontade. Um pouco de realismo seria útil: a
Rússia não voltará atrás, pedir-lhe portanto para
fazer isso não tem qualquer sentido. Infelizmente para a Geórgia
e os seus habitantes, é a consequência tão
inevitável quanto lógica do terrível erro de
cálculo de Sasskashvili e dos seus conselheiros estado-unidenses,
quaisquer que tenham sido eles.
Não se deveria esquecer aqueles que continuam a descrever as
"pretensões" do urso russo e dos seus "ardis
cruéis" que Moscovo, antes da agressão georgiana
contra a Ossétia do Sul, não havia reconhecido a soberania de
nenhuma destas duas regiões que se haviam auto-proclamado independentes.
E que esta situação durava desde há 12 anos. Quaisquer
que tenham sido as razões, não é menos verdade que Moscovo
não quis forçar a situação nem efectuar
opções irreversíveis até aos acontecimentos deste
mês de Agosto.
Agora os ovos estão partidos. Foi Saakaschvili que os partiu,
não Putine ou Medvedev. Pedir à Rússia para recuperar
estes ovos não tem sentido. Será preciso agora muito sangue frio
e um reexame de todo o panorama. O inverso do que se passa, quando o
nervosismo estado-unidense exsuda na Europa em Talin, Riga, Vilnius,
Varsóvia e mais do que em qualquer outro lugar em Kiev.
Ficou evidente imediatamente após a devastadora derrota militar
georgiana, que a Europa reagiu em ordem dispersa. Duas
percepções diferentes e, de certa maneira, opostas
manifestaram-se quando os presidentes da repúblicas bálticas
europeias, mais Kaschinsky e Youchenko, reuniram-se em Tíflis para
apoiar o agressor; enquanto o resto da Europa ganhava tempo para recuperar o
fôlego. A partir daí, sustentados pelos ventos atlânticos
de Washington, multiplicaram-se os apelo à adopção de uma
linha dura contra Moscovo: e, apesar de Sarkozy ter mantido a cabeça
fria em Moscovo contribuindo para fixar as linhas de uma trégua
a situação político-diplomático-militar
deteriorou-se seriamente até chegar a este gélido ballet dos
navios da NATO no Mar Negro, em face dos navios russos. Seria preciso agora
evitar que alguém tenta fazer buracos no tecido muito frágil da
trégua.
E isto, também, porque os lugares onde este tecido está muito
fino saltam aos olhos. A Rússia fundamenta a sua presente
posição no documento elaborado em 1999 pela Comissão
conjunta de controle (JCC) sob a mediação da OSCE, a
Organização para a Segurança e a Cooperação
na Europa. Este documento foi assinado pelos quatro membros da JCC: os
governos da Rússia e de Geórgia e os representantes da
Ossétia do Norte (República autónoma e sujeito federal da
Rússia) e a Ossétia do Sul, entidade sem definição
jurídica precisa que se proclamou independente.
Este documento não só reconhecia à Rússia o dever
de manter a paz como também autorizava as suas forças de
interposição a controlar um "corredor de
segurança" com 8 quilómetros de largura, a partir da
fronteira definida pelo acordo de Dagomys em 1992: foi com este acordo que
terminou e neste caso com a mediação da Comunidade dos
Estados Independentes (CSI) a primeira guerra civil entre a
Geórgia e a Ossétia do Sul.
As forças de interposição russas estavam autorizadas a
instalar uma guarnição em certas zonas do território
georgiano, o que inclui a auto-estrada principal que atravessa a Geórgia
horizontalmente, de Leste para Oeste. Na realidade os russos não haviam
feito uso desta autorização, eles haviam-se estabelecido no
interior do enclave da Ossétia do Sul e participavam nas
guarnições quadripartidas e sem armas que controlavam a linha de
fronteira. Tudo sob a vigilância de um grupo de observadores europeus
que tinham possibilidade de movimento limitadas no território osseta e
estavam baseadas em Tzkhinvali.
É de notar, enfim, que a linha de demarcação de Dagomys
concedia à Ossétia do Sul cerca da metade do território
que, na época soviética, havia sido dado ao Distrito
Autónomo da Ossétia do Sul no interior da República
Socialista da Geórgia. Daí nascem as polémicas de hoje
sobre a "retirada" russa. Tudo depende daquilo que se entende.
Moscovo declara tê-la efectuado, e entende que agora está no
direito de controlar o conjunto do corredor previsto pelo acordo JCC. A
Geórgia e numerosos jornalistas ocidentais, que vêem tropas russas
controlar a estrada georgiana, afirmam que os russos estão fora do
território da Ossétia do Sul. Isto é verdade, mas
não implica nenhuma violação dos acordos anteriores. E
depois do que se passou, parece difícil pretender hoje que os russos
não vigiem os eventuais movimentos das tropas georgianas muito
próximas da fronteira. Tanto mais que Saakashvili havia efectuado um
gesto muito claro em Março último ao sair unilateralmente das
discussões quadripartidas de 1999, de qualquer modo paralisadas desde
há cerca de quatro anos. É evidente que este gesto havia
alarmado o Kremlin. E isto explica perfeitamente além de outros
elementos que não podemos aprofundar aqui porque Moscovo
não foi tomada de surpresa pelo ataque georgiano de 7 de Agosto. Mas
hoje não só já não existe a JCC como a
Geórgia também saiu da CEI, esta comunidade de Estados
independentes que Yeltsine havia criado como folha de parreira para esconder a
deslocação soviética e manter juntas, de uma maneira ou de
outra, as doze repúblicas ex-soviéticas restantes (excepto a
três do Báltico).
Portanto, formalmente a Geórgia de hoje não reconhece nem os
acordos de Dagomys, nem a JCC de 1999, nem o papel da forças de
interposição russas e, última ruptura, ela cortou todas as
relações diplomáticas com Moscovo. Basta um
fósforo para que se desencadeie um incêndio. O reconhecimento da
soberania das duas ex-repúblicas e os acordos de
cooperação inclusive os militares, que se seguirão
imediatamente é hoje a razão jurídica que
autorizará a presença das tropas russas. É uma
jurisprudência bastante fraca. Trata-se hoje de ver se a Europa
será capaz de convencer a Geórgia a retornar ao estatuto
anterior. Talvez pedindo à Rússia para autorizar a
presença de um contingente de observadores europeus neste corredor. Mas
em todo caso, a "integridade territorial" que podia ser reivindicada
por Tíflis ao nível diplomático, pelo menos em teoria,
não tem mais qualquer possibilidade de ser restaurada. Nesta nova
situação Geórgia perdeu definitivamente a possibilidade
mesmo inteiramente teórica (que subsiste para a Moldávia,
e o Azerbaijão, de retomar a posse, não se sabe quando, da
Transnitria e do Nagorny Karabakh) de poder retomar o controle dos
territórios que ela reivindica. Uma entrada na NATO transformaria a
crise de hoje numa confrontação militar directa com a
Rússia. Sua entrada na Europa traria a guerra.
[*]
Deputado europeu e jornalista. Foi correspondente em Moscovo de vários
jornais italianos.
http://www.giuliettochiesa.it/index.php
O original encontra-se em
http://www.ilmanifesto.it/, edição de 31/Agosto/2008
A versão em francês encontra-se em
http://www.legrandsoir.info/spip.php?article7066
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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