Crise da política e dos partidos?
por Octavio Rodriguez Araujo
[*]
Uma preocupação actual, entre amplos sectores sociais, é a
chamada crise da política, que inclui os partidos políticos. Nos
dias 19 e 20 de Dezembro de 2001, milhares de trabalhadores e desempregados
argentinos saíram à rua gritando "Fora com todos",
referindo-se aos políticos, aos quadros de governo, aos partidos do
sistema que conduziu a Argentina a uma incrível passagem da prosperidade
para a pobreza e para a incerteza quanto ao futuro.
Em muitos outros países para além da Argentina, principalmente da
América Latina e da Europa, existiu uma tónica muito semelhante,
incluindo no Fórum Social Mundial de Porto Alegre (I, II e III) e de
Bombaim. Mais recentemente (Maio de 2004), um dito grupo guerrilheiro
auto-denominado "Comando Jaramillista Morelense 23 de Mayo"
(que fez rebentar bombas em três bancos do estado de Morales, no
México) utilizou como parte da sua palavra de ordem principal a mesma
expressão "Fora com todos", nua referência clara ao
governo local e aos partidos políticos.
O descrédito dos partidos políticos entre vastos sectores
populares levou estes últimos a pedir, na Bolívia, o registo de
candidatos não partidários para as eleições
municipais de 5 de Dezembro deste ano. A 7 de Julho, o governo boliviano
convocou estas eleições, em que pela primeira vez
participarão "agrupamentos de cidadãos e de povos
indígenas com capacidade de apresentar candidatos nas mesmas
condições que os partidos políticos."
[1]
No México, esta crise da política parece ter adquirido grandes
proporções. No corrente ano de 2004, com vista às
eleições para a mudança de poderes em 2006, a
política, segundo todas as evidências, foi substituída por
temas próprios das rubricas de escandaleira. A
desqualificação do adversário, ou dos adversários,
não se faz como dantes por meio de tentativas de desenvolvimentos
filosóficos sobre a negação do
outro
ou por meio de debates políticos de ideias e projectos. E o resultado
desta ausência de princípios levou partidos historicamente
antagónicos a alianças eleitorais com o único fito de
obter quotas de poder em Estados e municípios.
Neste ensaio, o meu propósito é tentar explicar porque é
que a política se converteu naquilo que agora vemos; e porque é
que amplos sectores populares, sobretudo os jovens urbanos, tendem a
subscrever, de modo explícito ou não, a ideia de que todos os
políticos (governo e partidos) deveriam ir-se embora para deixar lugar
à autogestão social, sem hierarquias nem ninguém que possa
impor as suas posições aos outros.
A hipótese que tentarei demonstrar é a de que a crise da
política começou em grande medida com a crise dos partidos, e de
que foram estes que desencadearam a sua própria crise ao assumir como
posição fundamental o pragmatismo utilitário-eleitoral:
ganhar votos e, com estes, cargos e posições, à margem de
princípios, programas e projectos.
A ADOPÇÃO DO PRAGMATISMO
O pragmatismo começou nos partidos há mais e um século,
com os
possibilistas,
no amplo espectro da esquerda (costumando a direita ser, por
definição, pragmática quando privilegia a
acção e a sua utilidade para alcançar os seus fins). Em
1882, Engels fazia a diferença entre um partido de classe e um partido
para ganhar votos; e dizia:
"A alternativa é puramente de
princípios: Deverá a luta ser levada a cabo como
luta de classes,
do proletariado ou da burguesia, ou deverá permitir-se que, no bom
estilo oportunista [quer dizer possibilista
[2]
] se deva esquecer o carácter de classe do movimento e o programa,
quando, assim, se apresenta uma oportunidade de ganhar mais votos, mais
filiados?"
[3]
.
E acrescentava que os possibilistas, para ganhar mais votos, sacrificaram o
carácter "classista, proletário, do movimento, tornando a
divisão inevitável".
Paul Brousse foi um dos líderes dos
possibilistas
em França. A diferença fundamental entre marxistas e
possibilistas residia em que os primeiros, embora aceitassem participar no
Parlamento e noutras instâncias públicas, faziam-no para fazer
pressão por leis e políticas públicas e também como
via para fazer propaganda a favor do socialismo, já que o seu objectivo
era a tomada do poder para, a partir deste, estabelecer as bases do
desenvolvimento socialista, enquanto que os segundos, os possibilistas,
sustentavam que, a partir do Parlamento, mas sobretudo a partir de
posições de governo (antes do mais, local), se poderiam conseguir
reformas imediatas favoráveis aos trabalhadores, sem necessidade de
modificar substancialmente o capitalismo. Assim sendo, os possibilistas
defendiam a política de ganhar governos locais, enquanto que os
marxistas pensavam numa organização nacional e centralizada para
a tomada do poder nacional e, com este, fazer as mudanças
necessárias rumo ao socialismo.
À direita dos possibilistas estava Alexandre Millrand que, na minha
óptica, tem importância porque se tornaria num precursor da
social-democracia de meados do século XX em diante, quer dizer da
Internacional Socialista, especialmente a partir da Conferência de Bad
Godesberg (a que mais adiante farei referência). Num discurso
célebre, de 1896, Millerand "combateu a ideia de que os socialistas
deveriam tentar alcançar os seus objectivos por outros meios que
não os constitucionais, ou sem conseguir o apoio de uma maioria do povo
[...] Proclamou como objectivo do socialismo a difusão geral da
liberdade e da
propriedade
e declarou a sua devoção à república. Além
disto, começou a contrariar a ideia de que o socialismo podia ser
introduzido rapidamente e apresentou-o como uma tendência
inevitável que os socialistas não poderiam criar mas tão
só conduzir, cooperando com as forças necessárias da
evolução social"
[4]
. É evidente que, quanto a este ponto, Millerand mantinha
semelhanças com as posições da Sociedade Fabiana de
Inglaterra, incluindo as que se referiam às mudanças sociais sem
modificação substancial do capitalismo e sem combate ao Estado
existente.
[5]
Daí que não fosse surpreendente que Millerand aceitasse o
Ministério do Comércio e Indústria no governo
burguês de "defesa da república". Esse mesmo que, como o
assinalava Cole, se auto-denominaria "apóstolo do
socialismo reformista
".
[6]
Como se pode ver, o pragmatismo não é novo nos
partidos de esquerda, mesmo se há pouco mais de um século se o
encobrisse com raciocínios estratégicos menos toscos do que os de
agora. Como se não trata de fazer aqui uma história do
pragmatismo entre os partidos do amplo leque da esquerda, detenho-me na
já mencionada Conferência de Bad Godesberg, pela importância
que teve para a reorientação da social-democracia europeia na
segunda metade do século XX. Nessa Conferência, realizada em 1959,
o marxismo foi abandonado, até como referência teórica, e
foi aceite a economia de mercado, tendo com isso o partido deixado de ser da
classe operária para se converter num partido do povo,
pluri-classista
. Houve nessa Conferência uma mudança na estratégia, ao que
se deu muito pouca importância, se é que se deu alguma, e que tem
muito a ver com a actualidade. Aí foi reafirmado um princípio que
tinha anteriormente estado ausente: o de que o socialismo só pode ser
alcançado
mediante a democracia,
através desta, embora também se dissesse que a democracia
só poderia ser plenamente satisfeita no socialismo. Esta
posição, mais a rejeição da propriedade
pública de todos os meios de produção, iria imprimir uma
reviravolta fundamental na social-democracia desses anos, e dos que se
seguiriam. A competição económica foi outro elemento muito
significativo. Na realidade a fórmula adoptada na Conferência foi:
"tanta competição quanto seja possível, tanta
planificação quanto seja necessária".
[7]
A social-democracia, a alemã neste caso, preparava-se para participar
em eleições com maiores probabilidades de vitória. O que
oferecia não era o socialismo, embora ele fosse referido, mas sim
reformas ao capitalismo através da conquista eleitoral do poder
institucional, quer no governo quer nos órgãos de
representação parlamentar. A sua referência não mais
seria a classe operária (posição que era em si mesma
excludente) mas sim a população em geral (inclusiva). A ideia era
competir, com possibilidades de vitória, com a governante Democracia
Cristã. E em 1969, dez anos depois das suas mudanças
ideológicas e estratégicas, conseguiu-o, para se manter no poder
até 1981. Depois do longo governo de Kohl (1982-1998), a
social-democracia voltou a ganhar com Schroeder, o qual, com o seu
novo centro,
(que outra coisa não é senão a
terceira via
de Giddens), diminuiu a participação do Estado na economia como
o teria feito qualquer liberal democrata-cristão.
Uma conclusão que até aqui se pode tirar é de que os
partidos de esquerda reformistas adoptaram posições
pragmáticas para alcançarem o poder institucional pela via
eleitoral. Não poderia ser de outro modo. Qualquer partido que aspire a
competir com a direita (que sempre se apresenta como plural, embora na
realidade defenda os interesses de minorias empresariais), não pode ser
excludente, como o seria se defendesse explicitamente os interesses dos
trabalhadores contra a burguesia. Em conjunto com esta, a classe média
repudiaria um partido de trabalhadores e este não triunfaria
eleitoralmente. A participação em eleições obriga
pois um partido que se diga socialista, mesmo que só no discurso, a
actuar na lógica do pragmatismo utilitarista. A ideia é ganhar
votos, e não defender um programa de classe. Este deve ser sacrificado,
como o dizia Engels. Não há outra fórmula.
Um outro aspecto não menos importante que se foi avançado desde a
Conferência de Bad Godesberg foi a oposição a qualquer
forma de autoritarismo e, por extensão, a qualquer ditadura, seja ela
capitalista ou supostamente socialista, seja do capital ou do proletariado.
Esta posição da social-democracia alemã iria alastrar a
praticamente todos os partidos da Internacional Socialista. Mas também,
ou coincidentemente, a nova esquerda desses anos, e dos seguintes até
1968, adoptaria uma postura semelhante, embora com bases filosóficas um
pouco diferentes. Os movimentos estudantis de 68, que desde há
vários anos se perfilavam, alimentaram-se de vários debates e
autores que não cabe aqui citar mas que, no que nos interessa, se
manifestaram contra o autoritarismo, desde a família e os senhores do
comércio e publicidade até às burocracias de governo e dos
partidos políticos, tanto no mundo capitalista como no chamado
socialista. A repressão soviética dos protestos de Praga (Agosto
de 1968) foi a demonstração empírica de que os estudantes
europeus tinham razão. A guerra do Vietname foi a outra grande
demonstração.
Algo parecido está actualmente a ocorrer com os movimentos
altermundialistas, com uma importantíssima diferença: em 1968
mencionava-se o socialismo como objectivo, embora o conceito deste fosse
diferente entre as diversas correntes ideológicas desses anos; agora,
com algumas muito significativas excepções, os altermundialistas
não se dão o socialismo como objectivo.
Depois dos movimentos de 68 e antes do repúdio pelos estudantes
(sobretudo os europeus) das formas autoritárias e burocráticas
dos governos e das estruturas partidárias, os partidos da esquerda
comunista tentaram reformar-se internamente, pondo o ênfase mais na sua
ideologia do que nas suas formas organizativas. Este fenómeno ficou
conhecido como eurocomunismo porque começou ma Europa ocidental, mas
muito rapidamente, e com o mesmo nome, estendeu-se a muitos outros
países fora do "velho continente". Os partidos
eurocomunistas,
além de adoptarem posições semelhantes às da
social-democracia, trataram de disfarçar a sua aceitação
do sistema capitalista, com tudo o que isso implica, com uma teoria que, embora
defendida com muitos textos, não tinha sustentação
científica. Quer dizer, a luta contra o capitalismo foi
substituída pela luta contra os grandes capitais associados
diziam com o Estado (o Capitalismo Monopolista de Estado
[8]
). Abandonou-se o marxismo-leninismo, como fórmula de
interpretação de Marx e de Lenine a partir do estalinismo dos
anos 30, tal como se pôs de lado a tese da luta de classes e, assim
sendo, a da ditadura do proletariado como fase intermédia e de
transição entre o capitalismo e o socialismo.
Com estas mudanças, que eram na realidade adequações
às solicitações da nova esquerda e às
exigências de outros amplos sectores da população, era
suposto que os partidos comunistas tivessem mais vantagens competitivas nas
eleições. Não foi por acaso que, no México, a
partir da reforma político-eleitoral de Lopez Portillo aprovada em
finais de 1977, o Partido Comunista adoptou (1978) as posições do
eurocomunismo, as do Partido Comunista Francês em particular, e
converteu-se num partido eleitoral sem um real interesse pelas lutas da classe
operária e dos camponeses.
Os partidos comunistas caíram, em geral, também no pragmatismo
utilitário-eleitoral, abandonando o programa de classe e a
exclusão que este supõe relativamente a outras classes sociais.
Contudo, e diferentemente dos partidos sociais-democratas europeus, os
comunistas não conseguiram, na Europa e fora dela, aumentar as suas
votações, tendo estas diminuído mesmo, até na
Federação Russa onde, na opinião do perito Kagarlitsky, o
PC, depois de uma grave cisão, pode ser dado como desaparecido desde
meados de Julho de 2004. Em 1988, o antes poderoso Partido Comunista
Francês obteve nas eleições presidenciais a mesma
votação que a ultra-direitista Frente Nacional, e nas
eleições seguintes a coisa ainda lhe correu pior. No
México, os comunistas mexicanos viram a sua votação
diminuir, ainda que tenham mudado o nome do seu partido. E com eles os outros
partidos que eram de esquerda ou como tal se apresentavam. Certo é que o
pragmatismo se não traduziu em vitórias para os comunistas. A sua
crise não se fez esperar e, na maioria dos países onde existiam
partidos comunistas, estes desapareceram ou transformaram-se num outro tipo de
organizações partidárias: pluriclassistas, com uma
ideologia difusa e, claro está, não anticapitalistas (com algumas
excepções). Querendo ganhar, perderam.
A grande tragédia dos partidos, particularmente dos partidos reformistas
de esquerda, é que adoptaram as estratégias da direita,
descaracterizaram-se ideologicamente, reduziram os seus programas de
acção e os seus projectos para o caso de virem a ter o poder e
acabaram por se parecer com os partidos que antes combatiam. Pior ainda, quando
alguns partidos de esquerda (sociais-democratas) chegaram ao governo, fizeram
políticas muito semelhantes àquelas feitas também no
governo pelos partidos de direita. E, com a expansão do neoliberalismo
como corrente ideológica dominante na actual globalização
económica, não conseguiram uma marca especial que, face às
consequências das suas políticas, os distinga dos governos
propriamente de direita. Daí, em boa medida, que sejam repudiados nas
eleições, não só com votos de castigo mas
também com a indiferença ou a abstenção eleitoral
de milhões de cidadãos, sobretudo jovens.
Nesta ordem de ideias, os partidos que não assumiram o pragmatismo
utilitário-eleitoral, embora participem em eleições,
concretamente os partidos de esquerda radical, não são nem
poderiam ser competitivos, isto devido às suas posições
classistas e definidamente anticapitalistas (socialistas). É por esta
razão que têm poucos votos, proporcionalmente falando. A maioria
dos dirigentes da esquerda radical, quer na Europa quer na América
Latina, não parece concordar com o que, para mim e para outros autores,
é uma evidência: que uma coisa é a lógica de
participação dos partidos desta corrente nos movimentos sociais,
onde são habitualmente amplamente reconhecidos, e outra é a
lógica da participação eleitoral, em que obtêm
poucos votos.
[9]
A lógica dos movimentos sociais, sobretudo de tipo reivindicativo ou
defensivo, está voltada para conseguir ou manter algo de concreto
(melhores condições de trabalho e melhores salários,
emprego, reformas, terra, segurança, etc.) enquanto que a lógica
das eleições se desenvolve no âmbito do possível,
apostando na mais alta probabilidade de êxito entre partidos
competitivos, quer dizer no voto útil, que se pode frequentemente
identificar com o voto de castigo.
As pessoas comuns, incluindo as que participam em movimentos muito aguerridos
mas que não militam num partido, tendem a votar pelo candidato e pelo
partido que lhes dão uma pequena esperança para as suas
aspirações mas que, ao mesmo tempo, têm probabilidades de
triunfar. Este é o voto a que chamo
útil
, útil porque há uma probabilidade de ganhar, enquanto que o voto
por um partido sem probabilidades de ganhar é um voto
não útil
(a que não quero chamar
inútil,
embora sejam sinónimos). E que partidos têm maiores
probabilidades de triunfar? Os que têm posições plurais,
que em política se aproximam do centro (do centro direita ou do centro
esquerda) já que as maiorias de uma sociedade, por
definição plural, são as que dão a vitória a
um partido ou a um outro e que estas maiorias são, no fundamental
conservadoras, temerosas das mudanças e dos extremismos.
Os partidos da extrema-direita merecem uma menção à parte,
especialmente na Europa, onde tentam ganhar espaços de poder por meio
das eleições. (Na América Latina e nos Estados Unidos os
partidos de ultra-direita jogaram e jogam papeis diferentes dos da Europa,
além de manterem posições diferentes que impedem uma
classificação mais ou menos comum para todos.)
A ultra-direita europeia actual, embora seja mais ideológica do que a
direita, partilha com esta última um certo pragmatismo a que
poderíamos chamar "de conjuntura". Trata-se de um pragmatismo
baseado mais em sentimentos generalizados da população
maioritária do que em justificações ideológicas
baseadas em filosofias que mereçam esta designação. Um
destes sentimentos é o de culpar pelo desemprego e a insegurança
(por vezes exagerada) os imigrantes, assim como o grande capital que, e
é verdade, terá atentado contra o pequeno e o médio. No
que respeita a este ponto também se diferencia da direita alargada
já que, em contraste com esta, as ultra-direita não corrobora a
suposta bondade da unificação europeia, e ainda menos a partir da
incorporação dos países de leste.
É graças à exploração destes
sentimentos
(e sublinho sentimentos) que a ultra-direita ganhou, em alguns países
do chamado velho continente, posições de governo, frequentemente
local, e aumentou a sua votação nos últimos anos, indo
até tirar votos a partidos de esquerda que conseguiam antes canalizar a
simpatia dos desempregados e dos trabalhadores de mais baixos rendimentos, como
foi o caso dos partidos comunistas.
OS EFEITOS DO PRAGMATISMO RELATIVAMENTE AOS PARTIDOS
Com a adopção do pragmatismo utilitário-eleitoral, e como
já o vimos, os partidos do amplo leque da esquerda perderam
definição e ainda que o centro esquerda de origem social-democrata
tenha conseguido manter um elevado nível de simpatia eleitoral e tenha
por momentos ganho governos e maiorias nos parlamentos, uma vez nessas
posições, não conseguiu, se acaso alguma vez foi essa a
sua intenção, mitigar a pobreza e as desigualdades sociais
[10]
. Este facto, apresentado assim de modo geral, levou a largas franjas da
população se decepcionaram com a política, com os partidos
e com os políticos e não vão às urnas.
A globalização neoliberal dos últimos 25 anos, foi
certamente acompanhada por uma maior democratização formal em
cada vez mais países, mas provocou ao mesmo tempo mais pobreza e
crescentes desigualdades sociais. Daqui se deduz que a democracia formal e a
prosperidade dos povos não mantêm nenhuma
correlação. Uma investigação, de momento fora do
meu alcance, demonstraria talvez que,
no mundo
, votam agora mais pessoas do que há 30 ou 40 anos e isto
não só devido ao crescimento demográfico. Mas,
nos países
em que as eleições existem há um século ou mais,
estima-se que a abstenção aumentou em termos relativos, talvez
porque os pobres e os miseráveis não encontrem as vantagens
derivadas da ampliação da democracia formal.
[11]
Se a este fenómeno juntarmos o facto de os partidos competitivos se
parecerem entre si nas suas propostas e nos seus programas, os cidadãos
não têm especiais razões para darem o seu voto a qualquer
um deles, nem tampouco aos que têm poucas possibilidades de ganhar por
serem mais ideológicos (e excludentes) do que os outros.
A esquerda socialista, ainda que reduzida, carrega aos ombros o peso do
fracasso dos chamados países socialistas. Embora esses países
nunca tenham chegado a ser propriamente socialistas, a verdade é que o
foram para as pessoas comuns não especializadas nestes temas, tanto
porque a persistente propaganda anticomunista dizia que eram comunistas (para
os atacar) como por eles o afirmaram, para defender as suas
posições. Assim sendo, se fracassaram os chamados países
comunistas, a conclusão lógica e geralmente aceite entre
não especialistas foi a de que fracassou o comunismo/socialismo. Se a
isto acrescentarmos que o chamado socialismo não só não
foi democrático mas ainda muito limitado no que respeita a liberdades e
direitos humanos, os partidos com esta denominação teriam de
perder simpatias entre os eleitores, especialmente entre os jovens formados no
período de ampliação democrática mundial e da queda
do "comunismo". Não parece casual que, na sua campanha
eleitoral de 1988, Mitterrand não tenha mencionado uma única vez
a palavra socialismo; isto apesar de ter sido o candidato do Partido Socialista
e de se ter referido ao conceito na sua campanha de 1981. Nesses tempos, com
Gorbachov no governo da URSS, o socialismo já era posto em causa,
não só em França mas em toda a Europa, a ocidental e a
oriental. E já sabemos quais foram os estrondosos resultados disso.
Tampouco parece casual que a social-democracia tenha iniciado nesses anos,
especialmente nos anos 90, o seu declínio. Este fenómeno
pôde ser observado não só no Parlamento Europeu mas
também na conformação, da Noruega à Itália,
dos governos europeus. A relação esquerda/direita praticamente
que se inverteu: de uma maioria de governos sociais-democratas (sozinhos ou em
coligação) para uma maioria de governos de direita, em certos
casos, embora poucos, em aliança com partidos de ultra-direita.
Finalmente, entre as novas esquerdas, genericamente chamadas
altermundialistas
e que agregam centenas de milhares de activistas em muitos países, o
pragmatismo dos partidos grandes (competitivos) e o fracasso do chamado
socialismo tiveram uma considerável influência. Os
altermundialistas,
jovens na sua maioria, tiveram uma maior tendência para o
movimentalismo
do que para a organização com objectivos e estratégias.
Nos quatro fóruns mundiais que houve até agora, opuseram-se a
apurar conclusões e declarações conjuntas de índole
propositiva, por considerarem que estas os dividiriam. Na realidade e segundo a
apreciação de alguns participantes, uma grande percentagem
opôs-se não só aos governos, pelo facto de o serem, mas
também aos partidos e à participação em
eleições. O anarquismo, por definição
anti-autoritário, parece ser o esquema conceptual mais atractivo para os
jovens
altermundialistas
, pelo que o "vão-se todos embora" foi uma consequência
lógica (não necessariamente racional) do desprestígio da
política, dos partidos e dos governos que não souberam (ou
não quiseram) resolver os grandes problemas mundiais que estamos a viver.
Deveria ser evidente que, se os partidos políticos, e em particular os
que se orgulham de ser competitivos, abandonaram princípios e programas
com uma definição classista, não podem (ou não
querem), ao chegar ao governo, comprometer-se com políticas que possam
ser interpretadas como contrárias à manutenção do
statu quo
e aos principais e poderosos beneficiários deste. A falta de
comprometimento político dos governos com as maiorias dos seus
países é como o assinalara Bernardo Kliksberg, assessor do
BID uma das principais razões por que cresceram a pobreza e as
desigualdades sociais.
[12]
E esta falta de comprometimento vem de trás, dos partidos
políticos competitivos que, para o serem, não quiseram
comprometer-se ou, se o fizeram como foi o caso do "Movimiento
Unidad Plurinacional Pachakutik Nuevo País", no Equador, com
Lucio Gutiérrez como candidato uma vez no poder, romperam todos
os seus compromissos. De algo semelhante se acusa Lula e o Partido dos
Trabalhadores, no Brasil, com um ano e meio de governo.
UMA CONCLUSÃO
A crise da política obedece em parte à crise dos partidos. E
esta tem a sua origem no pragmatismo utilitário-eleitoral que se
reflecte, quando se alcançam posições de poder, na falta
de comprometimento político de governantes e representantes
parlamentares com as necessidades nacionais e de soberania, com as necessidades
maioritárias da população numa perspectiva de
justiça social. A ampliação da democracia formal,
inegável nos nossos dias, não foi acompanhada de vantagens
económicas e sociais nem para as maiorias nem para os jovens, cada vez
com menores expectativas de realização humana. É por esta
razão, pelo menos, que a democracia formal não é assumida
como bandeira dos pobres e miseráveis, que preferiam ver-se privados
dela conquanto vissem satisfeitas as suas necessidades básicas. Quarenta
e cinco por cento (45%) dos latino-americanos apoiariam um governo
autoritário se este resolvesse os problemas económicos; quer
dizer, quase metade dos latino-americanos prefere o desenvolvimento
económico à democracia
[13]
. Daqui decorre que, apesar da ampliação democrática, o
jogo político, as eleições, a alternância, os
governos e os partidos não inspiram confiança às maiorias
das populações, especialmente nos países subdesenvolvidos
em que as desigualdades sociais são mais evidentes.
Que fazer, para devolver aos partidos a credibilidade que já tiveram no
passado? Este é um grande desafio para os dirigentes partidários
e para os estudiosos do tema, já que não vejo grandes sociedades
sem partidos nem formas de representação diferenciadas, num mundo
demasiado complexo para se pensar em mudanças sem a
participação de governos.
________
Notas
1- Antonio Pedro Leigue, "Democracia participativa. Los partidos ya no
tienen monopolio electoral", Servicio informativo en internet de
ALAI-América Latina, 12/07/04.
2- Oportunista era, na tradição marxista do século XIX,
sinónimo de possibilista.
3- Carta de Engels a Bebel, 28 de Outubro de 1882. Nesta carta, Engels aludia
à cisão de Guesde e Lafargue do grupo de Malon e Brousse,
caracterizados por Engels como possibilistas, quer dizer oportunistas
(itálico do original).
4- G.D.H. Cole, Historia del pensamiento socialista, 7 tomos, México,
Fondo de Cultura Económica, (2ª ed.), 1963, Tomo III (La Segunda
Internacional, 1889-1914), p. 319.
5- Penso ser interessante dizer que alguns dos Fabianos fundaram a
London School of Economics
e que, muitos anos depois, quase um século, Anthony Giddens escreveria
a sua "terceira via" na mesma escola londrina.
6- Cole,
idem,
p. 324 (itálico no original). Anos mais tarde, a partir de 1900, a
Internacional decretou a proibição dos socialistas fazerem parte
de governos burgueses, a não ser em situações excepcionais.
7- Frase tirada do Programa básico do Partido Social-Democrata
alemão, citada por Giles Radice e Lisanne Radice,
Socialists in the Recession,
Londres, Macmillan Press, 1986, p. 15.
8- Uma crítica, na minha opinião, excelente do CME, in Jacques
Valier,
El partido comunista francês y el capitalismo monopolista de Estado,
México, Ediciones Era, 1978.
9- De entre esses outros autores, gostaria de salientar Alex Callinicos e o seu
artigo "Don't duck the politics",
Socialist Worker
3/04/04.
10- O caso do Chile poderia servir de ilustração. Em 1990, com
Patricio Aylwin na presidência, os rendimentos do decil mais pobre da
população correspondiam a 1,4 por cento e os do decil mais rico a
42,3. Mas em 2000, com um governo no qual participaram socialistas e
social-democratas, esta proporção era respectivamente de 1,1 e
42,3. Ver Ángel Guerra, El milagro chileno,
ALAI-amlatina@alainet.org
, 2004.
11- Para um maior desenvolvimento sobre este tema pode-se consultar o meu livro
Derechas y ultraderechas en el mundo,
México, Siglo XXI Editores, 2004.
12- Bernardo Kliksberg (compilador),
¿Cómo enfrentar la pobreza? (Aportes para la acción),
Buenos Aires, Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, Centro Latinoamericano de Administración para el
Desarrollo y Grupo Editor Latinoamericano, 1992, pp. 12-13.
13- José Blanco, Círculo de hierro,
La Jornada,
27/04/04, com base em
La democracia en América Latina
relatório do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, 2004.
[*]
Professor emérito da Faculdade de Ciências Políticas e
Sociais da Universidade do México. Comunicação
apresentada no
Encontro Internacional "Civilização ou barbárie Desafios e problemas do mundo contemporâneo"
, Serpa, 23-25/Set/2004.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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