Avaliando os "avaliadores" da troika
por Daniel Vaz de Carvalho
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Se os povos da Europa não se levantarem, os bancos trarão o
fascismo de volta
Mikis Theodorakis
[1]
Os oligarcas parece terem sido destemidos. Em algumas cidades (da Grécia
antiga) diz-se que juravam: "Serei inimigo do povo e tentarei contra ele
tudo o que possa". Os reacionários atuais não são
tão sinceros.
Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental, Livros Horizonte,
p.197
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1 PONTO PRÉVIO: A MENTIRA COMO ESTRATÉGIA
A troika veio mais uma vez avaliar do estado de destruição a que
condenou o país. Do seu ponto de vista, o governo fez relevantes
esforços nesse sentido, embora não seja suficiente. Há
ainda riscos do país poder libertar-se dos "mercados" e
recuperar a soberania. Referimo-nos ao relatório da 11ª
"avaliação", de 01-04-2014.
[2]
[3]
Em período pré-eleitoral esta pseudo avaliação
permite também compreender melhor o governo e a sua estratégia de
"comunicação", tão reclamada pelos seus
apaniguados. Assim, é necessário raciocinar como a generalidade
do povo português fazia antes do 25 de Abril:
tudo o que governantes e propagandistas digam é mentira ou
tergiversação até prova em contrário
, o que aliás, agora como antes, raramente acontece.
Quando primeiro-ministro, governantes, maioria PSD-CDS falam, se não
é pura mentira, são evasivas ou meias verdades. A confusão
criada por tudo isto e pelas contradições entre estas personagens
não é obra do acaso ou de falta de liderança, como por
vezes se diz. É uma estratégia que tem como protagonistas no
governo, Passos Coelho, Paulo Portas, Marques Guedes, Poiares Maduro, negando
ou recusando confirmar o que já foi acordado, e por escrito, com a
troika. Mentem.
Paulo Portas, Maria Luís Albuquerque, Carlos Costa do Banco de Portugal,
assinaram mais uma vez a carta de fecho da "avaliação"
em que se comprometem com tudo o que a troika exige. Essa carta, tal como as
anteriores e Anexos de "entendimento", ficarão como
páginas negras na História Portugal.
[4]
2 CONDENAR O PAÍS AOS "MERCADOS" E LAVAR AS MÃOS
COMO PILATOS:
A propaganda qualifica as "avaliações" como um sucesso.
O FMI retira-lhes o otimismo: apesar da "implementação do
programa prosseguir na via correta (
) o país ainda enfrenta
importantes e significativos desafios." (p.4) A austeridade feita ao longo
de três anos é, pois, insuficiente, insistindo-se no seu
prosseguimento, sem fim à vista.
Daqui os riscos que enunciam, lavando as mãos pelo falhanço dos
objetivos. O "Tribunal Constitucional e legislação adversa
(para quem?!)
podem afetar negativamente a confiança e o sentimento
(?!)
dos mercados" (p. 21). Como se vê o sentimento das pessoas
não conta.
O FMI menciona as empresas descapitalizadas, o custo das dívidas, a sua
baixa rentabilidade (p. 15). O ajustamento externo não está
garantido porque não há investimento (p.24). As "reformas
estruturais estão a dar resultados fracos"
(de quem é a culpa, senão deles?)
e se não for corrigido isto é, mais empobrecimento
a "retoma" pode ficar comprometida.
Considera que os juros estão baixos, mas podem subir. O governo e a
propaganda deitam foguetes por termos juros 6 a 8 vezes maiores que a Alemanha.
Eis a "solidariedade europeia", a "ajuda da troika", a
"soberania partilhada", do PS, PSD, CDS.
A CE, sem pingo de vergonha, considera que o governo não tem
estratégia para o crescimento. E a CE tem-na?! Claro que o governo
não tem qualquer estratégia com vistas ao desenvolvimento do
país. Muito pelo contrário, o seu programa é o
"memorando" da troika, sucessivamente revisto sempre da pior maneira
possível.
Três anos de troika levaram o país para a recessão e o
empobrecimento, contudo a via imposta pelo colaboracionismo PSD-CDS, continua a
ser a das privatizações, da redução dos
salários, pensões e prestações sociais. Em resumo,
o FMI quer mais e maior destruição do Estado e do país, em
troca não garante nada.
3 A FARSA DAS "RENDAS EXCESSIVAS"
Pela enésima vez, a troika fala na redução das rendas
excessivas no sector energético, desta vez apresenta uma
solução: um aumento anual do preço real da eletricidade de
cerca de 1,9% (p.14).
Para quem tivesse dúvidas sobre o "ajustamento" aqui
está: o grande capital monopolista é intocável, os
portugueses "que se lixem", como dizia o primeiro-ministro acerca das
eleições.
Para este liberalismo que enche a boca com "concorrência livre e
não falseada", a criação de monopólios e
oligopólios não pára. Tudo o que possa ter uma
réstia de lucro privatiza-se. A privatização de
serviços básicos e empresas estratégicas desvia o
rendimento nacional para os bolsos sem fundo do capital monopolista e aumenta o
preço dos bens e serviços. O país que fique abandonado
à pobreza e à caridadezinha fascistóide da D. Jonet.
A troika quer que se privatize o Oceanário e as linhas férreas de
Lisboa e Porto. Quanto às restantes o governo deve preparar um plano
para as tornar rentáveis e privatizar. Para isso lá está o
ex-Goldman Sachs, sr. Carlos Moedas. Continua também a farsa das
poupanças com as PPP rodoviárias, reduzindo trabalhos e passando
responsabilidades para o Estado. A taxa de lucro de empresas e bancos
envolvidos permanece intocável.
Deverá também, ser preparado um plano de cortes nas Empresas e
Hospitais Públicos, ou seja fazer desaparecer a noção de
serviço público. Mas há mais "planos" para o
governo se entreter: é o caso do endividamento excessivo das empresas,
isto é, crédito mal parado da banca. Não há
problema: contribuinte paga, "custe o que custar".
4 TRABALHADORES: O INIMIGO A ABATER
Direitos dos trabalhadores são "ineficiências do
mercado" (p.4) e um risco para a melhoria do clima dos negócios. As
instruções para o governo são para ir mais além na
"flexibilidade do mercado laboral" (p.22). Em particular, as
"demissões individuais são na prática
difíceis" (p.4). A contratação coletiva está
também na mira para "melhorar o regateio coletivo", a
proteção ao emprego deve ser mais aligeirada (p.14).
É fastidioso repetir as exigências anti-laborais que perpassam
pelo relatório. Reduzir a proteção ao emprego é
para esta gente "um progresso". Na p. 12 apresenta-se um
gráfico que estabelece, segundo critérios seus, o índice
de proteção ao emprego. Note-se que Portugal está em linha
com a zona euro e países da UE exceto Reino Unido, Alemanha,
Áustria, mesmo assim o gráfico não inclui as medidas de
2013.
A troika insiste nos cortes permanentes das pensões e na revisão
da tabela salarial da Função Pública (dizem
"reforma"), nos suplementos da FP e aumento dos descontos para ADSE
não para gastos ou melhoria do sistema, mas como mais um imposto.
A noção de justiça da troika e do governo expressa-se nas
medidas para "o mercado laboral". Revisão das regras de
contratação coletiva, instituir a arbitrariedade nas
relações laborais à margem da Constituição,
considerando "a rigidez laboral" o mal de todos os males deste
país.
Se esta gente tivesse pingo de honestidade intelectual apresentaria um
cálculo com o nível de salários, para os quais haveria
"confiança dos mercados" e bom "clima de
negócios", o que quer que isto queira dizer. E se o seu
cálculo falhasse como falha em tudo, exceto no enriquecimento da
oligarquia então deveriam demitir-se e reconhecer os erros.
Mas não, esta gente que se aloja em hotéis de 5 estrelas, tem
salários principescos, faz parte de uma burocracia imensa, comporta-se
como a inquisição de outros tempos e acha que "as
pátrias só se regeneram sofrendo" (Guerra Junqueiro,
1870-1923). Neste caso a favor da minoria oligárquica e sequazes.
Para o FMI as reduções de salários no sector privado foram
feitas nos novos contratos e pela redução de horas de trabalho:
querem uma redução geral de salários. Contra todas as
evidências opinam que o salário mínimo aumenta o
desemprego. Estamos perante fanáticos da seita neoliberal.
O objetivo é nivelar sempre pelo mais baixo isto aplica-se
também ao sofisma dos salários mais elevados nos sectores
não transacionáveis, ignorando o nível de lucros destas
empresas e as diferentes qualificações de trabalhadores e
não sabemos se aqui se incluem os ordenados milionários dos
administradores. A sua conclusão é: baixando salários nos
sectores não transacionáveis os trabalhadores procurariam os
sectores transacionáveis. Não é apenas absurdo: é
uma boçalidade.
5 OUTRA FARSA: A DÍVIDA É SUSTENTÁVEL
A mão invisível dos mercados invisível, mas todo
poderosa como qualquer divindade desceu à Terra e comunicou ao
grupo de Bilderberg ou ao G8 que as dívidas dos Estados não
podiam ser maiores que 60% do PIB e o défice 0,5%. Gravaram esta
revelação num tratado e foi chamada pelos seus crentes, PS
incluído, como regra de ouro, tal como as tábuas da lei de
Moisés.
Como só por exceção há países nestas
condições, todos são pecadores, como convém ao
fundamentalismo, portanto é preciso uma nova Inquisição
com suas "avaliações" e castigos para os hereges que
querem ter direitos laborais e não acatar os dogmas da fé
capitalista. São estes os tempos de obscurantismo que vivemos
A troika diz que a dívida é sustentável, o governo e
propagandistas ajoelham-se e repetem, em responso. Só não dizem
como. Marques Guedes, no papel político de pateta alegre, diz que
não vale a pena assustar portugueses com 20 anos de austeridade pela
frente, "não é nada disso, mas temos regras a cumprir".
A subtileza, canhestra aliás, está no "mas",
conjunção adversativa. O "mas" está na segunda
parte da frase, a negar o vem antes.
Vários cálculos têm sido apresentados sobre a
problemática da dívida pública. Octávio Teixeira
afirma: para reduzir a dívida a 60% do PIB daqui a 20 anos seriam
necessários saldos orçamentais primários de 3% do PIB;
taxa de crescimento real do PIB de 1,8% ao ano e o mesmo para a
inflação; emissões de dívida pública
à taxa média de 3,8%. Para aquele aumento do PIB seria
necessário um enorme aumento das exportações
líquidas e/ou uma forte recuperação da procura interna.
Mas o crescimento da procura interna é incompatível com a
austeridade inerente a um saldo primário de 3% durante 20 anos.
[5]
Em
Rehabilitating Portugal
[6]
considera-se que a dívida soberana portuguesa não é
sustentável: A dívida apenas se reduziria com um crescimento
nominal acima dos 3,5%, inviável com estas políticas. A
única regra de ouro é que se os juros em percentagem do PIB
excederem a taxa de crescimento, o serviço de dívida torna-se
insustentável. É precisamente onde estamos.
À troika não se preocupa com estas ninharias, os portugueses que
continuem a empobrece por via da austeridade, o país a ser
destruído económica e socialmente, o importante é
continuar nas mãos da agiotagem internacional e garantir o pagamento de
juros "ad aeterno".
6 COMO CONCLUSÃO: QUE FUTURO?
Os documentos da troika são insultos à dignidade do país e
do seu povo. As políticas da troika são o programa das
políticas de direita: Portugal ser um país cada vez mais
subdesenvolvido. Os próprios avanços tecnológicos em
certas atividades, subsistem na base com baixos salários e precariedade.
Mesmo isto a troika acha que é demais. O governo concorda e
compromete-se com a agenda do empobrecimento e do retrocesso, disfarçada
com propaganda e artifícios.
O programa falhou em toda a linha e a conclusão é que o Estado de
direito, a democracia e a Constituição, são perigosas para
"a confiança dos mercados". O fundamentalismo dos mercados
é assumido como programa ideológico, considerando a desigualdade
fator de criação de riqueza, base para o "crescimento e
emprego", eufemismo para escamotear a exploração mais
desbragada.
A troika e o governo PSD-CDS podem contudo averbar uma vitória.
Conseguem que o debate político das forças democráticas se
centre na crítica, nem sempre consequente aliás. As forças
democráticas e progressistas deviam ter já ultrapassado a fase de
crítica ou revolta, que à burocracia de Bruxelas e seus agentes
em Portugal pouco incomodam, e discutir propostas para o derrube deste governo
e estratégias futuras.
O facto de isto não estar a ocorrer, e quando ocorre ser silenciado ao
máximo para a população acreditar que não há
alternativas, devia tornar-se neste momento uma prioridade.
As forças democráticas e progressistas deveriam estar a discutir
a saída do euro e como nos libertarmos dos iníquos tratados da UE
e não apenas enredadas a desmontar as mentiras do governo e as
iniquidades do pacto de agressão (que outro nome tem a
rendição sem condições de um país?).
Quando as pessoas deixam de pensar em alternativas à sua
situação, aceitam mais facilmente o existente, a desilusão
leva-os ao conformismo e à abstenção. A simples
crítica e revolta não basta para mobilizar consciências e
proporcionar mudanças. O equilíbrio orçamental só
pode ser realizado com a libertação dos mercados. E isto
só um processo revolucionário baseado nos valores de Abril pode
garantir.
Portugal merece melhor destino que o estatuto colonial que FMI e UE lhe
reservam. As inconsequentes abstrações ou patranhas do PS
não são alternativas. A opção para os povos da UE e
em primeiro lugar para os da dita periferia, é entre ceder ao
neoliberalismo que é um neofascismo ou unirem-se numa via
anti-monopolista, libertadora e socializante como a que o 25 de Abril
proporcionou.
NOTAS
[1]
Mikis Teodorakis
, celebrado compositor grego, militante comunista,
[2] IMF Country Report No. 14/102, Portugal eleventh review under the extended
arrangement, and request for extension of the arrangement and waivers of
applicability of end-march performance criteria.
[3] Acerca dos relatórios do FMI, Ver
Representantes do Império em Inspeção a uma Província
, IMF Country Report Nº 12/77 e
FMI/Troika: Prosseguir a Destruição do País
[4] Pg. 56 do Relatório do FMI: "We remain confident that the
policies described in the current and previous MEFPs are adequate to achieve
the objectives under the program. We stand ready to take additional measures
should they be needed to meet the objectives of the economic program and will
consult with the IMF, the European Commission, and the ECB, in advance of any
necessary revisions to the policies contained in this letter and attached
Memorandum." Paulo Portas Maria Luís Albuquerque Carlos da Silva
Costa.
[5]
Notas sobre a problemática da dívida pública
, OctávioTeixeira,
[6]
rehabilitatingportugal.com/rehabilitating_portugal.pdf
, Tortus Capital Management LLC, New York, p. 11 e p.34.
[*]
Autor de "Girassóis", uma história de antes,
durante e depois do 25 de Abril. A obra pode ser obtida na secção
livros para descarregamento
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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