É indispensável um curso de educação sobre os media
por Michel Collon
[*]
entrevistado por Grégoire Lalieu
[**]
Pensa que seria necessário ministrar nas escolas um curso de
educação sobre o media?
Acho que seria indispensável pois os media nos manipulam todos os dias.
Eles omitem uma grande parte da realidade. Cada guerra é
económica. Quando se ataca o Afeganistão ou o Iraque é
para que as multinacionais se apossem das suas riquezas ou das suas
posições estratégicas. E cada guerra é acompanhada
por uma guerra da informação que manipula a opinião
pública com o que chamo de "media-mentiras". Seria preciso
portanto que os jovens fossem vacinados contra este género de
práticas, que eles pudessem compreender porque e como a
informação é manipulada.
Como as multinacionais exercem pressão sobre os media?
Os grandes media têm orçamentos publicitários
indispensáveis ao seu financiamento. Eles não podem portanto ir
contra os interesses das multinacionais que fornecem esta publicidade, como as
empresas petrolíferas ou automobilísticas. Estas multinacionais
dão golpes sujos no Terceiro Mundo mas um media não tem o direito
de falar nisso sob pena de perder uma parte importante das receitas geradas
pela publicidade.
A maior parte dos media pertence a grandes grupos financeiros. Isso tem
influência sobre a liberdade de expressão?
Evidentemente. Para possuir uma cadeia de televisão hoje é
preciso ser multi-milionário. Pense em Berlusconi ou em Rupert Murdoch.
Será que um muito-milionário vai informar os pobres de modo
objectivo? Nada menos certo! Quanto uma multinacional quer fazer mão
baixa sobre as riquezas minerais do Congo ou sobre o petróleo do
Médio Oriente ou da Venezuela ela entra em conflito de interesses com a
população destes países que desejaria que o dinheiro
destas riquezas não partisse para o estrangeiro e ficasse ali para
assegurar cuidados de saúde e educação a toda a gente.
Portanto, quando deparamos com um conflito é preciso verificar se nos
apresentam as versões das duas partes. E muito frequentemente
não temos senão o ponto de vista das multinacionais, possuidoras
dos media ou que fazem os media viver graças ao orçamento
publicitário.
Concretamente, como poderia decorrer o curso de educação dos
media?
É preciso distinguir entre um verdadeiro curso de educação
dos media e o que se faz agora, que tem mais a ver mais com campanhas
comerciais para que os jovens se tornem clientes perpétuos de tal ou tal
media. Este curso deveria permitir aprender a analisar as imagens, criticar a
informação e ir procurar alhures o que não é dito.
Muito frequentemente, os media não dizem senão uma parte da
realidade e escondem elementos essenciais. Este curso deveria igualmente ser
interactivo e provocar a participação dos jovens, que seriam
levados a reagir e a reflectir sobre estas imagens, a perguntar-se se elas
são verdadeiras ou falsas, quem poderia manipular e porque... Uma outra
actividade divertida que experimentei consiste em dividir a turma em dois
países inimigos. O Iraque e os Estados Unidos por exemplo. E cada
grupo deve fazer o seu próprio telejornal destinado a servir os seus
próprios interesses. É uma maneira lúdica de apreender as
engrenagens da manipulação da informação.
Pensa que os media exercem influência sobre os jovens?
Certamente, ainda que os jovens não sigam forçosamente o jornal
da televisão. Os media hoje fazem tudo para investir na Net e
recapturar este público jovem. Por outro lado, a
manipulação mediática não se faz unicamente
através dos telejornais ou dos jornais diários. É preciso
saber que após os atentados do 11 de Setembro, reuniram-se a Casa
Branca, o Pentágono e as grandes companhias de Hollywood. Estava em
causa melhorar a comunicação de George W. Bush e definir os
países inimigos dos quais se iria dizer mal nas grandes
produções cinematográficas. As ideias das multinacionais
e do governo americano são igualmente veiculadas pelos filmes e pelas
novelas que condicionam a opinião pública. Numa série
policial, o terrorista malfeitor nunca é norte-americano, quando na
verdade é o governo dos Estados Unidos que comete mais actos de terror e
crimes de guerra por todo o mundo. Os filmes, as novelas da televisão e
mesmo a publicidade veiculam toda uma série de valores que condicionam o
pensamento. E são ainda mais perigosos do que um jornal de
informação na medida em que são muito mais insidiosos. A
série '24 heures chrono', muito bem feita e palpitante, serve para
justificar a tortura praticada pelos serviços estado-unidenses.
Hoje, concretamente, o que é que um jovem pode fazer para se informar
bem?
A Internet oferece numerosas possibilidade para escapar ao monopólio das
grandes televisões. Eu aconselho a olhar num mesmo dia os telejornais
das diferentes cadeias a fim de constatar que todos eles dizem as mesmas coisas
e que escondem as mesmas coisas. É preciso portanto procurar alhures
aquilo que não se encontra nos grandes media. É o que tento
desenvolver com o meu sítio na Internet no qual divulgo artigos
independentes vindos do mundo inteiro. Penso que e preciso encorajar os jovens
a procurar informação desta maneira.
Há vários anos que o governo da comunidade francesa (da
Bélgica) fala de um curso de educação dos media mas este
projecto ainda não viu a luz. Sabe porque?
Não. Em todo o caso, um jornal da televisão não se avalia
como uma pizza, é preciso reflectir no que ele tem por trás. As
autoridades não desejam entrar em conflito com as multinacionais. Mas
se não se fizer a educação dos media de maneira
crítica, dando a palavra àqueles que não estão de
acordo com o domínio das multinacionais sobre a
informação, então não será possível
realmente falar de educação. Será apenas
formatação.
Que interesse vê no encontro com jovens?
Já encontrei todas as espécies de público, nomeadamente
nas escolas, e os jovens são muitas vezes mais abertos, mais curiosos,
mais indignados quando constatam mentiras e injustiças. Escrevi um
livro sobre a educação dos media, 'Attention, médias!'
publicado em 1991. Preparo agora uma nova obra, um manual dos media, que
será muito concreto e prático. O objectivo é que possa
ser utilizado por professores, jovens, animadores, para desenvolver um sentido
crítico dos media. Para mim, o público jovem é realmente
um público prioritário.
20/Outubro/2007
[*] Autor de
Monopoly, l'OTAN à la conquête du monde
e de
Bush : Le cyclone
[**] Do Centre des Jeunes Indigo de La Louvière (Bélgica)
O original encontra-se em
www.michelcollon.info/articles.php?dateaccess=2007-11-01%2014:40:32&log=articles
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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