Programa do Pentágono promove guerra psicofarmacológica
por The Sunshine Project
[*]
No livro "O Congresso Futurológico" (1971), o escritor polaco
Stanislaw Lem pintou um futuro em que a desobediência seria controlada
por meio de produtos químicos fictícios que alterariam a mente,
chamados "benignizantes". O trabalho de ficção de Lem
principia com o conto terrífico de um ataque bioquímico pela
polícia e pelos militares contra um grupo que protesta do lado de fora
de uma convenção científica internacional. A medida que o
ambiente fica saturado com agentes alucinógenos, no conto de Lem, os que
protestam (e as pessoas presentes) mergulham no caos, assolados por
delírios, sentimentos de autocomplacência, dúvida sobre si
mesmos, e até amor.
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"As vantagens e limitações do uso de calmantes como
técnica não letal"
, um relatório de 49 páginas
obtido pelo Sunshine Project através da lei de acesso à
informação, evidenciou um programa aterrador do Pentágono
que funciona com armas psicofarmacológicas. Com base na
"revisão extensiva de literatura médica e novos
desenvolvimentos da indústria farmacêutica" o
relatório conclui que "o desenvolvimento e uso [de armas
psicofarmacológicas] é possível e desejável".
Estas armas, que alteram a mente, violam os convénios internacionais
sobre armas químicas e biológicas, assim como os de direitos
humanos. Algumas das técnicas discutidas no relatório já
foram usadas pelos EUA na "Guerra contra o terrorismo".
A equipa, cuja base é o Laboratório de Investigação
Aplicada da Pennsylvania State University, está a avaliar a
conversão de um grupo de fármacos psiquiátricos e
anestésicos, assim como "drogas recreativas" (tais como a
"droga para a violação em encontros" GHB) em armas.
Segundo o relatório, "o caminho escolhido para a
administração, quer seja em água potável,
administração tópica na pelo, inalação
mediante aerossol, rebuçado plástico cheio com droga, entre
outros, dependerá do ambiente". Os ambientes identificados
são situações militares e civis específicas, dentre
elas "refugiados famintos que estão agitados pela
distribuição de alimentos", "numa prisão",
"um grupo de pessoas agitadas" e "casos com reféns".
Em certas ocasiões, o relatório da equipa do JNLWP chega quase
ao extremos de definir discordância como uma enfermidade
psicológica.
As drogas que Lem denomina "benignizantes" são chamadas
"calmantes" pelo exército. Alguns destes calmantes, como o
BZ, foram convertidos em armas por adversários da Guerra Fria, descrito
por aqueles que o usaram como "a pior viagem". Os calmantes deviam
ter sido eliminados dos arsenais militares após a adopção
da Convenção de Armas Químicas em 1993, que proíbe
qualquer arma química capaz de causar morte, incapacidade
temporária e dano permanente a humanos ou plantas.
Calmante é uma terminologia militar, não médica. Numa
linguagem médica mais familiar, a maioria das drogas consideradas
são depressores do sistema nervoso central. A maioria é
sintética, algumas são naturais. Estas incluem opióides
(drogas tipo morfina) e benzodiazepinas, como Valium (diazepan). À
equipe de investigação também está interessada nos
antidepressivos e está a procurar drogas como o Prozac (fluoxetina) e
Zoloft (sertralina) que actuam rapidamente.
Bioquímicos e Tratados
Muitas das drogas propostas podem ser consideradas armas químicas e
biológicas proibidas pela Convenção sobre Armas
Biológicas e Toxínicas (CABT) e pela Convenção
sobre Armas Químicas (CAQ). Por razões práticas, os
calmantes químicos e biológicos devem ser abordados em conjunto.
Por se tratarem de agentes destinados especificamente ao uso militar e que
pretendem incapacitar suas vítimas, não cabem dentro da
excepção da Convenção de Armas Químicas de
uso doméstico para controlo de motins. Os produtos tóxicos com
agentes vivos como a neurotoxina butolínica são
considerados tanto agentes químicos como biológicos. Qualquer
uso de neurotransmissores ou substâncias que imitem sua
acção como arma está coberto pelas duas
convenções de controlo de armas. Os investigadores elaboraram
uma enorme base de dados de calmantes e acompanham as
investigações médicas em adição de drogas,
alívio da dor e outras áreas de pesquisa em bioquímicos
que alteram a cognição. A equipa JNLWP está, por exemplo,
a fazer o acompanhamento da investigação em colecistoquinina, um
neurotransmissor que provoca ataques de pânico em pessoas sãs e
que está associado a transtornos psiquiátricos.
Drogas poderosas
As drogas têm efeitos alucinógenos e outros adicionais, como apnea
(pausa na respiração), coma e morte. Uma classe de drogas que
está a ser considerada são os fentaniles. A página de
rosto do relatório contem o diagrama do fentanil. Segundo a
agência dos EUA para o controlo de drogas (DEA), os efeitos
biológicos dos fentaniles "não se diferenciam daqueles da
heroina, excepto em que os fentaniles são centenas de vezes mais
potentes". O relatório diz que os efeitos profundos da droga
obrigariam a "estar junto à pessoa que pudesse deixar de respirar
(há muitas razões médicas para isso em
relação a pessoas doentes, idosas e muito jovens)" assim
como às vítimas que "fiquem 'adormecidas' em
posições que obstruam suas vias respiratórias".
Drogas frustradas
O relatório sustenta que os fármacos candidatos que fracassem
devido aos efeitos colaterais excessivos podem ser desejáveis a fim de
usá-los como armas: "Frequentemente, um efeito colateral
indesejado... dará por findo o desenvolvimento de um promissor novo
composto farmacêutico. Entretanto, na variedade de
situações nas quais as técnicas não letais
são usadas, pode ser que haja menos necessidade de
preocupação com efeitos colaterais inconvenientes... Talvez o
calmante ideal já tenha sido sintetizado e esteja esperando o interesse
renovado do seu produtor".
Cocktails químicos
Segundo informação de Março de 2002, a equipa estava a
trabalhar numa mistura de gás pimenta (OC) e um agente calmante
não identificado. O gás pimenta e o agente químico de
controlo de motins mais potente em uso e esteve associado a numerosas mortes.
Acrescentar um calmante ao OC resultaria numa horrorosa invenção.
O relatório dá prioridade ao Valium e ao Precedex
(dexmedetomidina) para a conversão em armas e é possível
que estes venham a ser os agentes que poderiam ser misturados com o OC. Os
investigadores também recomendar misturar ketamina com outras drogas
(ver abaixo). As propostas de cocktail químicos assemelham-se à
investigação de armas na África do Sul na era do
apartheid, cujo director admitiu sob juramento ter tentado produzir uma mistura
de cocaína e BZ para utilizá-la contra os inimigos do governo.
Tortura
O Precedex é um sedativo aprovado nos Estados Unidos para uso em
pacientes em unidades de cuidado intensivo. O relatório destaca
"um fenómeno interessante" relacionado com o uso do Precedex:
a droga aumenta a reacção dos pacientes aos choques
eléctricos. Os investigadores sugerem sensibilizar as pessoas
utilizando Precedex, e continuar com a utilização de armas
electromagnéticas para "abordar os efeitos daqueles poucos
indivíduos nos quais a dose média do agente farmacológico
não produz o efeito desejado". Obviamente, uma técnica
assim pode ser considerada tortura e indubitavelmente pode ser utilizada para
torturar. Para acrescentar à propriedades hipnóticas e
delirantes, os investigadores sugerem a concepção de agentes
psicofarmacológicos que além disso tenham efeitos físicos,
como dor de cabeça e náusea, aumentando seu potencial para
torturar.
Os investigadores sugerem que emplastros (patchs) transdérmicos e
formulação transmucosal (através das membranas mucosas) de
Buspar (buspirona) actualmente na etapa de desenvolvimento pela
Bristol-Myers Squibb e Thera Tech, Inc. "seriam efectivas em
prisões quando houvesse um incidente recente que provocasse ansiedade ou
confrontação".
Uso na guerra contra o terrorismo
Obviamente, é muito pouco provável que prisioneiros pouco
dispostos a cooperar, ou revoltosos, aceitem ser drogados com um emplastro ou
através da maioria dos mecanismos convencionais. Nesses casos,
provavelmente a aplicação de calmantes seria feita em
indivíduos com grilhetas ou camisas de força. Os EUA admitiram
que sedaram à força os "detidos" de Al-Qaida, reclusos
na base norte-americana de Guantanamo, em Cuba. O ex-director do programa
conjunto de armas não letais, coronel na reserva Andy Mazzara, que
dirige a equipa da Pennsylvania State University, diz que enviou um
"Conselheiro Científico" à Marinha dos EUA para ajudar
na Guerra contra o terrorismo.
Modos de administração
O estudo aborda uma inúmeros modos de produção de armas.
Estas incluem aerossóis, microencapsulação, e
métodos insidiosos tais como a introdução nos
reservatórios de água potável e goma de mascar
psicoactiva. O JNLWP está a investir no desenvolvimento da tecnologia
de microencapsulação, que inclui a produção de
grânulos com uma quantidade diminuta de um agente, revestidos com um
cartucho duro. Ao serem espalhados na terra, os cartuchos rompem-se ao serem
pisados e o agente liberta-se. Um novo tiro de morteiro capaz de lançar
milhares de grânulos diminutos por tiro está a ser desenvolvido.
A equipa conclui que novos mecanismos de administração que
estão em desenvolvimento pela indústria farmacêutica
serão de grande valor para a produção de armas. Dentre
estes contam-se novos métodos de administração
transdérmica, transmucosa e aerossóis. O relatório cita a
relevância de um chupa-chupa
(lollipop)
que contem fentanil para o tratamento de crianças com dores severas e
assinala que "o desenvolvimento de novas drogas opióides para
aliviar a dor capazes de serem administradas por várias vias está
na vanguarda dos descobrimentos de drogas", concluindo que se poderiam
desenvolver novas armas a partir desta investigação
farmacêutica.
Pistolas de dardos
Os investigadores manifestam interesse específico em disparar contra
humanos com pistolas carregadas de dardos de carfetanil. O carfetanil é
um narcótico veterinário que se utiliza para tranquilizar animais
grandes e perigosos, como ursos e tigres. Qualquer pessoa que tenha visto
programa de vida selvagem na televisão está familiarizado com o
referido procedimento. Nos EUA o carfetanil não está aprovado
para nenhum uso em seres humanos. É uma droga abusada e uma
substância sujeita a controlo. De acordo com a lei dos EUA, aqueles que
forem condenados pela primeira vez por posse não autorizada de
carfetanil podem ser castigados com até 20 anos de prisão e multa
de US$ 1 milhão.
Drogas recreativas
A maioria das candidatas do JNLWP são substâncias sujeitas a
controlo na maioria dos países. Alguns são fármacos
legítimos amplamente usados que também são drogas
abusadas, como o Valium e os opióides. A equipa do Pentágono
recomenda maior investigação no potencial como armas dos
convulsionantes (que provocam ataques) e "drogas recreativas",
aquelas substâncias ilícitas que se usam em alguns clubes
nocturnos e clubes de dança
(rave)
. Dentro das drogas na mira dos militares figuram a ketamina (ou Special K), o
ecstasy líquido (GHB gamma-hidroxibutirato) e o Rohpnol
(roofies)
. As duas últimas, em particular, são conhecidas como as
"drogas para a violação em encontros" devido à
incidência do seu uso em vítimas de delitos sexuais e outros
delitos. A maioria destes narcóticos pertence às categorias I ou
II da DEA, provocam alucinações e podem implicar uma
sentença de prisão perpétua. Segundo a DEA, "a
utilização da ketamina como anestésico geral em humanos
foi limitada devido aos efeitos negativos como delírio e
alucinações... doses baixas produzem vertigem, ataxia,
dificuldade de falar, reacção retardada e euforia. Doses
intermédias provocam pensamento desorganizado, alteração
na imagem corporal, sensação de irrealidade com
alucinações visuais vividas. Altas doses produzem analgesia,
amnésia e coma".
Acção
O Sunshine Project está a fazer uma apelo pelo imediato encerramento
deste trabalho e insta a Partes, tanto da Convenção de Armas
Químicas como da Convenção sobre Armas Biológicas,
para que condenem rapidamente esta investigação e aprovem
resoluções reiterando a proibição destas armas. No
âmbito da Convenção de Armas Químicas,
surgirão oportunidades para actuar durante a Conferência dos
Estados Parte, que se reunirá em Haya a partir de 7 de Outubro deste
ano, e na Primeira Conferência de Exame da Convenção de
Armas Químicas, que começará a 28 de Abril de 2003. Para
a Convenção sobre Armas Biológicas, os estados Partes
deveriam formular propostas durante a V Conferência de Exame, que
principiará em Genebra em Novembro, e deveriam colocar os
"calmantes" biológicos e toxínicos na agenda da
próxima Conferência das Partes ou de qualquer outro grupo
multilateral que se crie na referida conferência.
Este comunicado de imprensa é o primeiro relatório sobre este
programa alarmante. Posteriormente será divulgada mais
informação acerca da relação entre estas armas e a
protecção de direitos humanos, ética médica e
investigação em drogas. Um
resumo do relatório
está disponível no sítio web do Sunshine Project.
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[*]
Comunicado de imprensa emitido em 01/Julho/02 por The Sunshine Project.
O original deste relatório encontra-se em
http://www.sunshine-project.org/publications/pr010702.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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