A linguagem política

por Marina Minicuci [*]

Quando o norte é o sul. Corriam os idos de Março do ano 44 AC quando, no decorrer de uma sessão do Senado, Júlio César foi assassinado pelos inimigos com os quais fora clemente e pelos amigos a quem havia concedido honra e glória. Os conspiradores eram mais de 60 e à cabeça deles estavam Cássio e Bruto.

A notícia da morte de César propaga-se por toda a Roma, as lojas fecham, o povo encerra-se em casa aterrorizado, enquanto os conspiradores se dirigem ao fórum, com os punhais ainda ensanguentados, celebrando a liberdade e a Cícero. À noite, há desordens pela cidade, a calma demora a voltar e os conjurados decidem refugiar-se em lugar seguro, no Capitólio. Durante o enterro de César, o povo exige explicações sobre o assassinato. Primeiro fala Bruto, que sustenta ter matado o seu melhor amigo, Júlio César, para o bem de Roma, porque havia sido ambicioso e podia vir a aumentar o seu próprio poder até se transformar num ditador. O povo leva-o em triunfo como o novo restaurador de Roma. Depois, perante um público decididamente hostil, fala Marco António, que defende não ter César sido ambicioso. Marco António, graças a uma sábia gestão das palavras e a um cuidadoso equilíbrio entre os pesos e contrapesos informativos, consegue reverter a relação psicológica desfavorável entre ele e as massas, desencadeando a raiva homicida do povo contra Bruto, que até ao minuto anterior fora aclamado como o restaurador da liberdade em Roma.

Desde sempre, os laços entre a linguagem e a política são indissolúveis. No êxito de um político, as estratégias de comunicação têm um papel fundamental. Ocorreu-me a célebre obra literária, Júlio César de Shakespeare, porque, com alguns evidentes saltos lógicos e cronológicos, o discurso de Bruto encarnava a linguagem da esquerda, ao passo que o discurso de Marco António se identifica mais com a linguagem da direita, pelo menos até chegar a época da imagem. Para além, naturalmente, da própria história, que aqui tem um valor apenas simbólico. Bruto, no seu discurso, conta os factos, aparentando estar convencido do que é bom para o povo, e supõe que esse argumento é suficiente para convencer. Marco António usa uma estratégia precisa de comunicação, baseada na emotividade, oratória sábia e manipulação subtil.

Na época pré-televisiva e pré-globalizada, a maior diferença entre a linguagem política da direita e a da esquerda consistia na contraposição entre emotividade e racionalidade. Os políticos de esquerda estavam convencidos de que a bondade das suas teorias compensava as formas linguísticas, e por isso, acreditavam que era suficiente uma comunicação racional, fria, com conceitos e axiomas destinados, só por si, a imporem-se. Os políticos da direita, pelo contrário, jogavam mais com a emotividade, com as metáforas, com o sentir-se "nós" em relação às massas. Explicar e ensinar por um lado, comover e convencer pelo outro.

Com a chegada da época da imagem e da comunicação global, esse quadro altera-se. E, ainda que algumas características básicas no discurso da esquerda e no das direita permaneçam, agora a oralidade têm de pactuar com outros códigos semiológicos.

O comício quase desapareceu, dando lugar à comparência na televisão, principalmente sob a forma de entrevista ou debate (quando não de luta). Cada vez mais a política vai assumindo as formas do espectáculo, deslocando para diante os limites da compostura. Na televisão italiana já vimos o presidente da municipalidade de Milão em cuecas. Uma parlamentar da Refundação Comunista levantar-se da sua cadeira, durante um debate, e dar uma sova numa parlamentar de direita, Alessandra Mussolini. O presidente do Senado contou na televisão que gosta de ir para a cama sem pijama. Assistimos a ridículas exibições de canto, cozinha e desporte de vários primeiros-ministros, além deste último exemplo circense. Tudo isto, diz-se, "humaniza" a imagem, aproxima-a do cidadão comum.

Uma vez mais há que constatar (a partir desse laboratório de desgraças que foi e continua a ser a Itália) que Silvio Berlusconi foi o precursor e o intérprete máximo, na Europa, dessa nouvelle vague semiológica e linguística. Ali, onde a esquerda pós-comunista se deleita em discursos pseudo-cultos e despeja estereótipos rançosos como "convergências paralelas", "equilíbrios mais avançados" ou "máquina de guerra jocosa", Berlusconi escolheu uma das máscaras ganhadoras e recorrentes do seu repertório, a de "homem de negócios infiltrado na política". Notem bem que de Chavez dizemos que é "um homem do povo infiltrado na política". O que, salvaguardando as devidas distâncias entre um país capitalista e de muitíssimos pequenos empresários, como a Itália, e um país como a Venezuela, onde a maioria da população está abaixo do limiar de pobreza, é algo que no campo da comunicação tem algumas semelhanças.

Em 1993 a popularidade de Berlusconi estava no topo como presidente do AC Milan, pelos êxitos futebolísticos daquela equipa, e de facto, foi precisamente o jogo da bola o seu mais poderoso depósito linguístico. Ele foi o "descer ao campo" com uma "equipa" de governo, da qual ele se proclamou o avançado centro. Um campo metafórico que teve êxito imediato graças à difusão na imprensa e graças também a alguns políticos da esquerda despistados, que também adoptaram esse vocabulário. Desde então, Berlusconi apostou tudo na linguagem que definiria como pré-político, mais doque anti-político. Futebol, sentimentos, piadas, canções numa incessante busca de consenso instintivo, visceral, isto é, pré-político. Dando de si mesmo uma imagem ao alcance de toda a gente, talvez um tanto fora dos limites mas, ao fim e ao cabo, de um companheiro qualquer que poderíamos encontrar de manhã no escritório. Ao mesmo tempo que, dando palmadas nas costas de Putin e improvisando paródias do inglês diante de Bush, ultrapassa todas as regras diplomáticas, ridicularizando o protocolo. Isso é algo que deixa de cabeça perdida a burguesia refinada e culta, mas que encanta as massas (e encanta-lhes ainda mais que Berlusconi deixe os burgueses de cabeça perdida).

Assim é o homem, mas não podemos subestimar a técnica berlusconiana: é também uma técnica de comunicação extremamente refinada, e talvez demasiado rapidamente liquidada com suficiência míope por uma esquerda que, por outro lado, apresenta-se sombria, reiterativa, sabichona, sem paixão, insistindo nas suas velhas fórmulas. Por vezes com discursos tão inutilmente complicados e com essa linguagem antiga (especialmente presente na esquerda anti-capitalista) ou agressiva e vazia (especialmente presente nos reformistas sem reformas). Ambas sem "alma", sem pathos.

Numa época em que é difícil — quando não impossível — distinguir entre o que é verdadeiro e o que não é e tudo se confunde numa mistura que cheira a ranço; num momento em que a mentira sistemática destruiu toda credibilidade, o verbo, as palavras racionais, servem ainda menos para convencer do que durante a época de Júlio César. Estar do lado da razão não é suficiente se a isso não acompanharmos factos e representações claras, constantes, opostas às do nosso adversário. Não é suficiente que de vez em quando se levante algum grito se o ruído de fundo é sempre o mesmo. Nesse mar da palavras lixo, de imagens lixo, de desconfiança generalizada e, em suma, de confusão global, o nosso adversário Berlusconi, tal como Bush, introduz conceitos de clareza elementar e lógica binária: o bem contra o mal, o amor contra o ódio, a liberdade contra o comunismo, que não só tranquilizam o ouvinte como põem o adversário constantemente em atitude de defesa, uma vez que este a cada vez tem que demonstrar que não é o mal, que não representa o ódio, que já não é comunista, ou então que os comunistas não foram tão maus. Uma esquerda em constante atitude de defesa quando, pelo contrário, teria motivos de sobra para atacar. Nesse mar de palavras lixo, de imagens lixo, a ofensiva reaccionária conseguiu instalar-se comodamente na sua comunicação sistematicamente adulterada na qual cada coisa está virada no seu contrário: os resistentes tornam-se "terroristas" e os ocupantes "libertadores", desencadear agressões militares é chamado "trazer a paz", impor governos fantoches mediante eleições teledirigidas e sob chantagem é "um anúncio de democracia". As guerras são "humanitárias" e as bombas "inteligentes". Os principais possuidores de meios de destruição em massa destroem "em nome da paz e da segurança" os inexistentes meios de destruição em massas de outros. A espiral guerra-terrorismo, para a esquerda e a direita europeias, têm pontos de partida distintos para chegar a conclusões semelhantes. Para a esquerda o princípio da espiral é a guerra, ao passo que para a direita é o terrorismo. O ponto de chegada semelhante é que para ambas as eleições no Iraque não foram uma farsa e finalmente ventos democráticos começam a correr no país. Ou seja, não há mal que não venha por bem. Na Europa, a resistência iraquiana não se pode nem nomear, e a política da não violência absoluta é outra nouvelle vague da esquerda europeia que obtém as louvações de todos os burgueses. Nem uma só vez se distingue entre o ataque e a defesa e nem uma só vez se fala do legítimo direito dos povos de combater contra uma invasão planeada de antemão e de não querer dobrar a cabeça, de resistir à ocupação do imperialismo neofascista.

Muitos países da Europa e do mundo estão sob a ocupação dos Estados Unidos, ainda que não estejam em guerra. Um dos primeiros é a Itália, ocupada para todos os efeitos: culturalmente, politicamente, militarmente, e cada vez piora mais. No centro de Roma, num dos bairros mais povoados, converteu-se um hospital pediátrico num laboratório de bioterrorismo, onde fazem-se experimentos de vírus letais como antrax, ébola, viruela. No actual contexto italiano há uma ofensiva político-cultural difusa e capilar que quer reescrever a história do país. Os ganhadores temporários de hoje, herdeiros dos genocidas e torturadores de ontem, tentam reescrever a história de acordo com a sua conveniência, com a cumplicidade de uma "esquerda" que desde há muito já perdeu qualquer legitimidade para apresentar-se como defensora dos valores da verdade e da justiça.

Só em armamentos, a Itália — quarto produtor mundial e primeiro em armas ligeiras — passou do tráfico de 850 milhões de euros em 2001 para quase 1500 milhões de euros em 2004. Num quadro de declínio geral da economia e do made in Italy, a indústria bélica é a única que sobe espectacularmente com um rol de 690 novas autorizações para 65 países, dentre os quais a Turquia, à qual foram concedidas autorizações de mais de 48 milhões de euros, apesar de esse país estar sob a vigilância da UE, sobretudo quanto às violações dos direitos humanos. Segue-se a Índia, o Paquistão e a seguir a América Latina, com o Peru, o Brasil e a Argentina, nessa ordem. Com uma mão faz-se a "guerra ao terrorismo" e com a outra vendem-se armas como se fossem cuecas. Enquanto sobe o comércio de armas baixa, de forma espectacular, os orçamentos para a cooperação internacional. Além disso pôs-se em marcha — tal como os Estados Unidos — uma ofensiva militar nas escolas e universidades italianas, onde cada vez mais oficiais do Exército vão pedir aos estudantes que se incorporem na carreira militar, que oferece, a partir do grau mais baixo (mesmo que ainda não se tenha o bacharelato), 800 euros por mês, formação grátis em língua inglesa e Internet com diploma reconhecido pela União Europeia, além de todos os desportos que queiram praticar. Muitos jovens sem nenhuma perspectiva de trabalho, sobretudo no sul da Itália e originários das famílias pobres, estão a dirigir-se para o Exército. Sabem quando entram e não sabem se e quando sairão. Mas isso é outro discurso, ainda que não se saia do inquietante quadro geral que vê — entre outras coisas — um dos homens mais ricos do mundo, sujeitos a múltiplas investigações e condenações, provável implicado no assassínio do juiz Borsellino, chegar com a sua linguagem futebolística e emotiva às pessoas mais humildes e simples, enquanto os que promovem — ou deveriam promover — uma política do lado dos desprotegidos são cada vez mais incompreensíveis, obscuros e distantes do povo ao qual deveriam representar.

É evidente que o problema não se vai solucionar fazendo com que a esquerda se torne mais "expedita", adopte uma linguagem emotiva, chegue a ser mais prepotente, descarada e populista do que a direita, ou aprenda a por cornos por trás da cabeça de algum líder nas cimeiras internacionais. Talvez haja uma forma correcta e muito mais incisiva, e além disso simples, de fazer chegar mensagens claras e de reafirmar os princípios fortes que nos pertencem. Tomar distâncias (em sentido literal), ou seja, não participar, que é o mesmo que compartilhar. Para que participar num partido que sabemos "trucado"? Vocês jogariam cartas com um vigarista? A única forma que temos de demonstrar que somos diferentes é sermos diferentes de verdade. A esquerda não teria que participar em tertúlias, debates na televisão, confrontações-espectáculo (ou seja, tudo o que não seja estritamente institucional) ao lado de vigaristas, mafiosos, palhaços, para não falar de assassinos, ainda que disfarçados de Presidente do Conselho de Ministros, do Senado ou do que for. Além disso, deveria abandonar o tecnicismo, a pomposidade na linguagem, que teria de ser clara, concisa, simples e sobretudo desprender tranquilidade e tornar a usar as palavras com o significado que têm sem, nunca, tomar emprestadas palavras que não pertencem à nossa cultura. As pessoas não aguentam mais crispações e disputas entre facções que depois de cada debate dão-se umas palmadas nas costas e vão todos juntos tomar café. Isso não é pedir muito e sim o mínimo que devemos pretender. Não valem desculpas como a que dão os políticos: "Se não vamos ali, não existimos". Claro que serviria de pouco (mas não de nada) que só deputado não fosse, mas se não participasse boa parte da esquerda seria o definitivo para desqualificar o adversário.

Se a confusão aumentar até o ponto de já ser difícil, para não dizer impossível, para a maioria das pessoas saber onde está o verdadeiro e o falso, quem está do lado do povo e que não está, isso não só da responsabilidade dos nossos adversários — é nossa também, uma vez que não sabemos reagir a isso com integridade, de modo a refundar com os nossos comportamentos uma outra cultura. Aceitamos — temos aceitado passivamente — as regras do jogo, a linguagem, as representações do adversário que queremos derrotar, por vezes sem nem sequer nos darmos conta de que os nossos códigos semiológicos estão sob ocupação neofascista. Por isso os intelectuais estão obrigados a por em evidência as conexões entre o actuar supostamente "inocente" e as consequências que isso implica e, dramaticamente, neste época há escassez de intelectuais aptos a manter viva a imaginação. A propósito, outro dia Tony Negri saiu-se com mais um dos seus disparates, declarando que se não se aprovasse a Constituição Europeia o mundo voltaria à Idade Média. Suponho que Negri pensa que um eixo Alemanha-França seria útil para opor-se ao domínio mundial dos Estados Unidos. Esqueçamo-nos que a partir da Europa e com essa Constituição clerical, imperialista, militarista, antidemocrática, totalitária se possa dar um rumo diferente ao imperialismo. Todos conhecemos Negri e não penso gastar muito espaço com esse tema e com a sua provável síndrome de Estocolmo mas sim em deixar claro que essa classe de intelectuais não beneficia a nossa luta. Além disso, frequentemente, nossos intelectuais (e/ou políticos, naturalmente) baixam à lixeira, ou seja, ao nível de um adversário inapresentável, em última análise "legitimando-o" pelo simples facto de estar ali ao seu lado ou, mais subtilmente, por usar os seus mesmos códigos representativos e linguísticos. Há que restaurar toda uma cultura que se afundou e só a partir daí poderemos esperar uma restauração da política. E a linguagem está na primeira linha, no que se refere à restauração. Disse o poeta italiano Mario Luzi: "O risco que a humanidade corre é perder com a linguagem, que é a sua característica principal, também a sua humanidade". Hoje inclinamo-nos a banalizar tudo, a transformar a palavra em cifra, signo. Já não se entende nem sequer do que estamos a falar. Quando ao homem se lhe retira a clareza da linguagem, a correspondência entre objecto e palavra, entre ideia e palavra, exerce-se uma violência contra a humanidade.

A democracia representativa que estamos a questionar encaixa-se perfeitamente, todos os dias, com um mundo (especialmente o que chamamos ocidental, contra toda evidência geográfica) onde já não albergamos as coisas e sim a interpretação das mesmas. Interpretações que quando são compartilhadas chamam-se razão, quando não o são chamam-se loucura. Essa democracia não tem nem um só conteúdo que a caracterize especialmente, já que é forma e não conteúdo, ou seja, o que o povo pensa que é segundo os ditames dos seus teóricos e defensores. Dito de outra forma, a democracia representativa baseia-se num "pacto social" que supõe que os cidadãos acreditam nas instituições. De modo que a mentira sistemática por si só já destruiu a democracia, porque retirou qualquer credibilidade à linguagem. Dar por boa a mentira pública é resignar-se a que nenhuma verdade possa ser para sempre ser acreditada.

Tomo como exemplo o caso de Bill Clinton e da estagiária porque creio que foi uma passagem crucial na cultura estadunidense, ainda que a maioria dos media o tenham liquidado, com um comentário tipo machista, como uma vulgar questão de saias. Creio, ao contrário, que foi algo tão sério como o princípio do fim do "pacto social" entre o povo estadunidense e os seus governantes. Uma porta que se abriu para a lixeira da administração Bush, que pode agora declarar em falso com toda a tranquilidade, sem por isso ter que se demitir como Nixon teve de fazer. Sobre o caso Clinton confundiram-se causas e efeitos, "sagrado" e profano, assuntos privados e questões de Estado. Dizia-se que os estadunidenses são demasiado puritanos, que a estagiária não era nada mais do que uma garota em busca de celebridade, para não falar daquela mulher de pesadelo, Hillary Clinton, que apareceu na TV com a mensagem patética e manipuladora: "Se eu lhe perdoei, como vocês não o vão perdoar?". Tudo o que foi dito era simplesmente improcedente, completamente alheio ao tema, que era um e apenas um. Ou seja, que o presidente Clinton jurou em falso perante o seu povo e ainda por cima lançando lama e caluniando uma cidadã estadunidense. É evidente que Clinton teria podido, naquela situação, não só conservar a sua própria dignidade como além disso fazer "amadurecer" o povo hipócrita que um assunto privado resolve-se privadamente e que um presidente tem de ser julgado pelo seu trabalho. Mas como não encontrou essa saída em seguida e, pelo contrário, negou tudo mentindo até que pôde (e como estava um pouco nervoso, de passagem bombardeou uma fábrica farmacêutica alegando que tinha armas de destruição maciça), e além disso lançou lama, caluniando-a, sobre uma cidadã americana, tinha que demitir-se simplesmente. Com esse caso também se pôs evidente e de certa forma "legitimada" a ruptura de uma das bases da convivência civil que faz com que a mais poder correspondam mais responsabilidade, e pelo inverso, claro. A responsabilidade do primeiro cidadão do país mais poderoso do mundo ou é correspondida com a maior responsabilidade do mundo ou é um roubo. Se o que acontece, como aconteceu com Clinton, Berlusconi, Bush e uma longa lista, é que a mais poder corresponde mais impunidade (e ao contrário), como vamos, já não digo esperar viver num mundo mais justo, mas sim conseguir que esse mundo não se converta numa guerra global de todos contra todos?

Como nos confirma a Revolução Bolivariana, o futuro está aberto e depende de todos nós. Depende daquilo que façamos hoje, amanhã e depois de amanhã. E o que façamos depende por sua vez dos nossos pensamentos, dos nossos desejos e dos nossos medos. Depende de como vemos o mundo e como valorizamos as possibilidades disponíveis do futuro.

Devemos chegar a ser criadores do nosso destino. Aprender a fazer as coisas no melhor dos modos e a investigar os nossos erros. Deixar de gastar energias em lamentações sobre o mau que é o mundo e o trágico que é o destino dos homens. Se quisermos mudar não basta derrotar a direita, porque muitas outras insídias tomarão o seu lugar, temos sim que mudar antes de tudo a nós mesmos, a nossa relação com um mundo que mudou por completo, nossos códigos de comportamento. Temos de saber que cada época necessita uma comunicação adequada ao seu tempo e não basta invocar a bondade dos conteúdo de uma política para que esta triunfe. Vivemos no eclipse da razão e não vamos mudar (salvar) o mundo só com a razão. O mundo só se pode mudar (salvar) com a resistência radical a tudo o que é injusto e o envenena; com o pessimismo do pensamento e o optimismo da razão (como dizia Gramsci). Para o que é necessário sair da aula que conceberam nossos carcereiros e que nós temos assumido, ainda que se o desejar, como terreno para desenvolver a nossa batalha. Para combater a verdadeira batalha há que dar um salto lógico fora desses limites. Não é casual que, pela primeira vez depois de Cuba, a revolução tenha sido possível aqui, onde no comando da mesma há um homem, Chávez, que passou pela resistência, pelo cárcere, pelas mais vis calúnias, sem nunca dobrar a cabeça e deixando sempre acesa a esperança mesmo nos momentos mais obscuros, quando tudo parecia perdido e ele não deixava de comunicar-nos que era só "por enquanto". Um homem que saiu por completo do perverso círculo vicioso que inclina a dar por boas coisas que na realidade não o são. Nada se pode dar por arrumado e as soluções para sair do impasse encontram-se sempre fora do círculo perverso em que estamos metidos. Estamos acostumados a procurar soluções dentro de limites que damos por definidos (por convenção, preguiça, medo, ou o que for), produzindo assim o efeito do famoso ditado francês: "Plus ça change, plus c'est la même chose", ou antes, para dize-lo como Tomasi de Lampedusa, "mudar algo para que nada mude". É um pouco como aqueles quebra-cabeças matemáticos com que podes ficar louco à procura de uma solução dentro do esquema onde supostamente tens que procurá-la, porque na realidade a solução está fora.

Costumamos dizer que Chávez e Castro não estão sós. É certo, tem-nos a nós, que queremos e devemos construir uma barreira de resistência que se desenvolva em todo o planeta e que se fortaleça geração após geração. Mas tão pouco nós estamos sós, temos o exemplo de dois líderes que saltaram fora do círculo perverso, fora de todas as convenções, e por isso conseguiram convencer os seus povos e a nós todos, puxando para a frente as duas revoluções que hoje nos permitem estar aqui com uma esperança concreta num futuro mais digno para a humanidade e com a determinação de levá-la cabo.

[*] Italiana, jornalista, tradutora do espanhol, presidente da Rete dei Movimenti e editora do diário Aprile . Comunicação apresentada em Caracas no 'Seminário Internacional Partido, Democracia y Revolución', 20-22/Maio/2005.

O original pode ser descarregado no sítio web do partido venezuelano Pátria para todos (formato PDF, 124 kB).


Esta comunicação encontra-se em http://resistir.info/ .

30/Mai/05