Venezuela:
O caminho para além da sobrevivência,
tornar a economia social uma alternativa concreta
por Michael A. Lebowitz
[*]
As rações dos escravos nunca foram fixas. Do mesmo modo,
também os trabalhadores e cidadãos no mundo capitalista,
através das suas lutas, puderam sempre garantir para si mesmos uma parte
dos benefícios do trabalho social. A globalização
capitalista e a ofensiva das políticas do estado neoliberal, contudo,
usurparam todas essas conquistas das lutas do passado; e a resposta para os que
se mostraram surpreendidos por verem quão efémeras eram essas
vitórias foi a fórmula mística do TINA
[1]
de que 'não há alternativa'. No entanto, quando os
malefícios da ofensiva capitalista se tornaram óbvios, surgiu a
oposição, principalmente na América Latina. Actualmente,
os trabalhadores em todo o mundo têm os olhos postos nela, nessa
demonstração de que 'é possível um mundo melhor'.
Mas terão razão para isso? Está mesmo a surgir ali uma
alternativa real ou será apenas uma negociação de melhores
condições num contrato implícito com a
globalização capitalista? Será possível que uma
nova economia social ou uma economia solidária se desenvolva nos
escaninhos do capitalismo global ou essas ilhas de cooperação
alimentadas pelos estados, pelas ONGs e pelas instituições de
caridade religiosas são apenas verdadeiros 'amortecedores de choque'
para os efeitos económicos e políticos da
globalização capitalista?
Sou de opinião de que, nos cinco países latino-americanos em que
a oposição às políticas neoliberais provocaram
recentes mudanças governamentais importantes, só existe
actualmente um caso em que as mudanças em curso podem fazer com que a
economia social seja uma alternativa real ao capitalismo. Permitam que
apresente as minhas premissas e o meu raciocínio.
Em primeiro lugar, o que é uma alternativa real ao capitalismo? Penso
que é uma sociedade em que o objectivo explícito não
é o crescimento do capital ou dos meios materiais de
produção mas, pelo contrário, o próprio
desenvolvimento humano o crescimento das capacidades humanas. Podemos
encontrar esta perspectiva na Constituição Bolivariana da
Venezuela no ênfase dado no Artigo 299 à 'garantia do
desenvolvimento humano geral', na declaração do Artigo 20 de que
'todos têm direito ao livre desenvolvimento da sua própria
personalidade' e na focagem do Artigo 102 sobre 'desenvolver o potencial
criativo de cada ser humano e o pleno exercício da sua personalidade
numa sociedade democrática'.
Nestas passagens (que de forma alguma representam o todo dessa
constituição), está contido o conceito de uma alternativa
real uma economia social cuja lógica não é a
lógica do capital. 'A economia social', disse o Presidente Hugo Chavez
em Setembro de 2003, 'baseia-se na lógica do ser humano, no trabalho, ou
seja, no trabalhador e na família do trabalhador, ou seja, no ser
humano'. Esta economia social, continuou ele, não se centra no lucro
económico, nos valores das trocas; pelo contrário, 'a economia
social gera principalmente valor de uso'. O seu objectivo é 'a
construção do homem novo, da mulher nova, da sociedade nova'.
Belas ideias. Belas palavras. Mas não passam de ideias e de palavras. O
primeiro conjunto provém de uma constituição e o segundo
do habitual curso de formação educativa nacional conhecido por
'Alô Presidente'. Como é que estas ideias e estas palavras
passarão à prática? Quero apresentar quatro
pré-condições para a realização desta
alternativa ao capitalismo e depois vou falar do que tem acontecido na
Venezuela.
(1) Qualquer discussão de mudança estrutural
tem que
começar pelo conhecimento da estrutura existente em resumo, pela
compreensão do capitalismo. É preciso entender que a
lógica do capital, a lógica em que o objectivo é o lucro e
não a satisfação das necessidades dos seres humanos,
impera sempre, quer quando encoraja a vantagem comparativa da repressão,
quer quando aceita um aumento das rações dos escravos.
(2) É essencial atacar ideologicamente a
lógica do capital. Se
não for desenvolvida a compreensão das massas quanto à
natureza do capital ou seja, que o capital é o resultado do
trabalho social do trabalhador colectivo - a necessidade de sobreviver à
destruição da política neoliberal e repressiva produz
apenas o desejo de uma sociedade mais justa, a procura dum melhor
quinhão para os explorados e excluídos em resumo, a
barbárie com rosto humano.
(3) Um aspecto fundamental nesta batalha de ideias é
o reconhecimento
de que a capacidade humana só se desenvolve através da actividade
humana, unicamente através daquilo que Marx considerou como
'prática revolucionária', a mudança simultânea das
circunstâncias e da auto-mudança. O verdadeiro desenvolvimento
humano não cai do céu sob a forma de dinheiro para alimentar a
continuação dos gastos dos governos populares com a
educação e a saúde; nem é estimulado pela tutelagem
paternalista e pela tomada de decisões hierárquicas das
sociedades estatais. O conceito que desafia a lógica do capital é
a que explicitamente reconhece o centralismo da auto-gestão no local de
trabalho e o auto-governo na comunidade como meios para libertar o potencial
humano isto é, o conceito de uma verdadeira economia social, de
uma economia solidária, do socialismo do século XXI.
(4) Mas a ideia desta economia solidária não
pode desalojar o
capitalismo real. Nem são as diminutas ilhas de cooperação
que podem mudar o mundo competindo com êxito contra as grandes empresas
capitalistas. É preciso que o poder estimule as novas
relações de produção ao mesmo tempo que impede a
reprodução das relações produtivas capitalistas.
Precisamos de retirar ao capital o poder do estado, e precisamos de utilizar
esse poder quando o capital reage a essa invasão quando o capital
faz greve, temos que estar preparados para contra-atacar e não para
capitular. Ganhar 'a batalha da democracia' e utilizar 'a supremacia
política para arrancar, aos poucos, todo o capital à burguesia'
continua hoje a ser tão importante como quando Marx e Engels escreveram
o Manifesto Comunista.
Estarão estas condições presentes nos novos governos
latino-americanos de esquerda? Nem por isso. Na sua maioria, o padrão
exibe as características conhecidas da social-democracia que
não entende a natureza do capital, não ataca ideologicamente a
lógica do capital, não acredita que há uma alternativa
real ao capitalismo e, por conseguinte, capitula quando o capital ameaça
fazer greve. (Esta é uma perspectiva cristalizada na
declaração do primeiro-ministro social-democrata da
Colúmbia Britânica no Canadá na época em que eu era
dirigente de um partido político 'Não podemos matar a
galinha dos ovos de ouro'.) Embora seja ainda cedo para avaliar o curso dos
acontecimentos na Bolívia, permitam-me que sugira que na Venezuela
está a acontecer algo de diferente. Vou passar a falar isso tanto
no que aconteceu como nas lutas actuais.
A VIA VENEZUELANA
A Constituição Bolivariana não realça apenas o
objectivo do desenvolvimento humano. Também é inequívoca
ao indicar que os seres humanos só desenvolvem as suas capacidades
através da sua própria actividade. Não é apenas o
Artigo 62 que declara que a participação do povo é 'a
forma necessária de atingir o envolvimento que garanta o seu total
desenvolvimento, quer individual quer colectivo', a Constituição
também se debruça sobre o planeamento democrático e a
orçamentação participativa a todos os níveis da
sociedade e (como no Artigo 70) sobre 'auto-gestão, co-gestão,
cooperativas de todos os tipos' como exemplos de 'formas de
associação guiadas pelos valores de cooperação
mútua e da solidariedade'.
Com este ênfase dado a uma sociedade 'democrática, participativa e
protagonista', a Constituição Bolivariana contém
claramente as sementes da economia solidária, as sementes do socialismo
para o século XXI, e esses elementos particulares continuam a inspirar
as massas venezuelanas. No entanto, esta constituição
também garante o direito de propriedade (Artigo 115), identifica um
papel para a iniciativa privada na geração do crescimento e do
emprego (299), e recorre ao Estado para promover a iniciativa privada (112). Em
resumo, esta constituição apoia um desenvolvimento capitalista
continuado e esta é precisamente a direcção do plano
inicial elaborado para 2001-2007. Embora rejeitando o neoliberalismo e
sublinhando a importância da presença do Estado nas
indústrias estratégicas, a focagen deste plano foi encorajar o
investimento do capital privado tanto o interno como o estrangeiro
criando uma 'atmosfera de confiança'.
A isto tinha que se acrescentar o desenvolvimento de uma 'economia social'
concebida como uma 'via alternativa e complementar' para o sector
privado e para o sector público. Mas é significativo quão
diminuto é o papel destinado às actividades de auto-gestão
e cooperativas através das quais se havia de conseguir o 'total
desenvolvimento, individual e colectivo' da população. Em
essência, foi um programa para incorporar o sector livre na economia
social; é necessário, argumentava o Plano, 'transformar os
trabalhadores livres em pequenos gestores'. Por conseguinte, a família,
as cooperativas e as micro-empresas em auto-gestão deviam ser
encorajadas através de formação e de micro-financiamento
(por instituições como o Banco de Desenvolvimento das Mulheres) e
deviam reduzir-se as regulamentações e as cargas fiscais. O
objectivo do Estado era explicitamente descrito como o de 'criar uma nova
classe gestora'.
A luta de classes, porém, alimentou as sementes dessa economia social de
forma que esta passou a ser considerada, progressivamente, como uma alternativa
ao desenvolvimento capitalista. Embora as medidas iniciais do governo para
permitir atingir a orientação da sua 'Terceira Via' não
fossem um ataque ao capitalismo em si mesmo, a reacção da
oligarquia privilegiada da Venezuela (apoiada totalmente pelo imperialismo
americano) primeiro através do golpe de Abril de 2002 e depois
através do lock-out dos patrões no inverno de 2002-2003
mobilizou as massas nos locais de trabalho e nas comunidades e conduziu a
Revolução Bolivariana por um caminho que se foi afastando do
capitalismo.
À medida que as receitas do governo aumentavam no final de 2003 (com a
renacionalização efectiva da PDVSA, a companhia
petrolífera estatal), as novas missões nas áreas da
saúde e na educação começaram a demonstrar o real
empenhamento do governo bolivariano em eliminar a enorme dívida social
que herdara. A missão Mercal, constituída sobre a
experiência da distribuição governamental de alimentos
durante o
lock-out
geral, começou no princípio de 2004 a distribuir aos pobres
alimentos fortemente subsidiados (e continua a expandir-se à custa do
sector capitalista). Mas a questão mantinha-se como é que
iria sobreviver a população? Como é que a confiança
crescente e o sentido de dignidade conseguido pelos explorados e
excluídos quando acabavam os programas de educação havia
de ser alimentado em vez de desiludido?
Em parte a resposta foi a criação em Março de 2004 da
Missão
Vuelvan Caras
(Olhem em Frente), um programa para o
desenvolvimento endógeno radical orientado para a
construção de novas capacidades humanas quer através do
ensino de ofícios específicos quer através da
preparação das pessoas para iniciar novas relações
produtivas através de cursos de cooperação e de
auto-gestão. E foi no contexto em que tudo isto estava a acontecer que o
Presidente Chavez atacou directamente aquilo a que chamou a 'lógica
perversa' do capital e realçou a alternativa a tal economia
social cujo objectivo é 'a construção do homem novo, da
mulher nova, da sociedade nova'.
No entanto, quando estiver alargada a actividade produtiva nestas novas
relações (o número de cooperativas aumentou de 800 quando
Chavez foi eleito pela primeira vez em 1998 para cerca de 84 000 em Agosto de
2005), em que grau é que isso pode representar uma alternativa ao
capitalismo? As novas cooperativas encorajadas e alimentadas através do
Vuelvan Caras
destinam-se a ser pequenas e provavelmente (pelo menos de
início) não pretendem ser origem importante para a
acumulação e o crescimento. Apesar disso, na sua
intenção de substituírem o sistema trabalho-salário
por outro baseado na cooperação e na propriedade colectiva,
são um microcosmo duma alternativa à lógica do capital e,
desde o
lock-out
colectivo, têm sido complementadas por uma
tendência para a auto-gestão e co-gestão por parte dos
trabalhadores tanto nas indústrias estatais como em fábricas
encerradas.
No ano passado, a solidariedade em vez do interesse próprio passou a ser
um importante tema nas discussões da economia social (agora designada
por socialismo para o século XXI). Inspirando-se na discussão de
István Mészáros (no seu livro
Beyond Capital
)
[2]
, sobre o conceito de Marx de sociedade comunitária, o Presidente Chavez
apelou no ano passado para a criação de um novo sistema
comunitário de produção e consumo um sistema em que
haja uma troca de actividades determinada pelas necessidades
comunitárias e objectivos comunitários. Temos que construir,
anunciou ele no seu programa 'Alô Presidente' de 17 de Julho, 'este
sistema comunitário de produção e consumo, para ajudar a
construí-lo, a partir das bases populares, com a
participação das comunidades, através das
organizações comunitárias, das cooperativas, da
auto-gestão e de diferentes formas para criar este sistema'.
No cerne deste conceito está a democracia protagonista a
aliança entre o desenvolvimento democrático de objectivos a
nível da comunidade e a execução democrática desses
objectivos na actividade produtiva. Os novos conselhos comunitários
(baseados em 200 a 400 famílias nos actuais bairros urbanos e 20 a 50
nas áreas rurais) são uma parte fundamental deste processo. Estas
instituições estão agora a ser estabelecidas para
diagnosticar democraticamente as necessidades e as prioridades
comunitárias. Com a transferência de substanciais recursos dos
municípios para o nível da comunidade, o apoio dos novos bancos
comunitários aos projectos locais e uma dimensão que permite que
a tomada de decisões supremas seja feita por uma assembleia geral em vez
de representantes eleitos, os novos conselhos comunitários proporcionam
uma base não só para a transformação da
população no decurso das circunstâncias em mudança
mas também para a actividade produtiva que seja realmente baseada nas
necessidades comunitárias e nos objectivos comunitários.
Quanto à produção, há uma expansão
substancial de novas companhias estatais, a introdução da
co-gestão na indústria básica que começou na
empresa estatal de alumínio ALCASA e a criação de uma nova
instituição as Empresas de Produccion Social (EPS). O
conceito destas novas companhias de produção social é que
não só assumem o compromisso de servir as necessidades da
comunidade como também incorporam a gestão dos trabalhadores.
Inspiradas numa série de fontes em cooperativas existentes (agora
mais empenhadas na comunidade do que apenas no seu próprio interesse),
em empresas estatais mais pequenas e em firmas privadas desejosas de ter acesso
a negócios com o estado e a condições de crédito
favoráveis), a lógica das EPS é reorientar a actividade
produtiva do valor de troca para o valor de uso ligando-se à
comunidade e ao sector estatal enquanto parte das cadeias de
produção como fornecedores e transformadores. Em resumo, o
objectivo é afastar-se progressivamente da separação do
trabalhador colectivo inerente à produção de bens, em
direcção a um conceito de solidariedade no seio da sociedade.
Quando observamos este panorama, compreendemos melhor a
declaração de Chavez no Fórum Social Mundial 2005 em Porto
Alegre sobre a necessidade de 're-inventar o socialismo', a necessidade de
desenvolver novos sistemas que sejam 'construídos com base na
cooperação, e não na competição'. O
capitalismo, sublinhou ele, tem que ser ultrapassado se alguma vez quisermos
acabar com a pobreza da maior parte do mundo. 'Mas não podemos recorrer
ao capitalismo de estado, o que acabaria na mesma perversão da
União Soviética. Temos que reclamar o socialismo como uma tese,
um projecto e uma via, mas um novo tipo de socialismo, um socialismo humanista,
que coloque o homem e não a máquina ou o estado acima de tudo o
resto'.
QUAL O CAMINHO PARA A VENEZUELA?
Devia concluir-se das premissas com que começámos que só
na Venezuela é que existe neste momento um verdadeiro desafio ao
capitalismo (por oposição ao estímulo de
estratégias de sobrevivência e de negociação de
novas condições no contrato implícito com o capital). Mas
estará a Venezuela a consegui-lo? Evidentemente, há uma tentativa
de compreender a lógica do capital, um esforço para atacar
ideologicamente o capital numa batalha de ideias e o desenvolvimento do
conceito de uma alternativa ao capitalismo. Mas, e quanto à verdadeira
criação dessa alternativa?
No livro
'Build it Now: Socialism for the 21st Century',
que será publicado no próximo mês, escrevi o seguinte
sobre a Revolução Bolivariana:
"Em resumo, começou na Venezuela a revolução
económica mas a revolução política (que
começou dramaticamente com a nova constituição mas exige a
transformação do estado num estado em que o poder venha de baixo)
e a revolução cultural (que exige um pesado ataque aos
padrões continuados de corrupção e clientelismo)
mantêm-se muito longe. Sem avanços nestes dois outros aspectos, a
Revolução Bolivariana não pode deixar de ficar coxa".
Embora a Revolução Bolivariana tenha certamente conseguido
proporcionar uma enorme esperança e dignidade aos pobres, enfrenta
muitos problemas e o seu êxito só pode ser atingido em resultado
da luta. Não apenas uma luta contra o imperialismo americano, o paladino
da barbárie em todo o mundo, que se sente ameaçado com qualquer
indício de que existe uma alternativa ao seu domínio. E
não apenas contra a oligarquia nacional com os seus enclaves
capitalistas nos meios de comunicação, nos bancos, nos sectores
transformadores e nos latifúndios. Essas são lutas para as quais
a Revolução deve estar preparada e para as quais a solidariedade
com essa revolução é essencial. Mas a luta realmente
difícil, é o que eu penso, é no seio da própria
Revolução Bolivariana.
Muitos dos problemas têm a sua origem numa questão: quem
são os sujeitos desta revolução? É claro quem tem
sido o seu principal beneficiado os pobres (e em especial as mulheres) e
daí que sejam os seus principais apoiantes. Mas o desenvolvimento
posterior da revolução exige que o processo revolucionário
seja conduzido não apenas pelas necessidades da população
mas também pela sua actividade transformadora .
Quanto a este aspecto, a criação dos conselhos
comunitários é um passo absolutamente indispensável neste
processo porque cria o espaço para o auto-desenvolvimento dos sujeitos
revolucionários. Ao mesmo tempo, porém, a gestão dos
trabalhadores nas chamadas indústrias estatais 'estratégicas'
andou para trás, e este recuo desmoralizou os trabalhadores
revolucionários; ao reduzi-los ao papel adverso que desempenham no
capitalismo, reforça todas as tendências auto-orientadas da antiga
sociedade. Sem uma produção democrática, participativa e
protagonista, as pessoas continuam a ser os seres humanos fragmentados,
mutilados que o capitalismo produz. Pior ainda, se as empresas estatais se
mantiverem caracterizadas por tomadas de decisões hierárquicas,
quanto tempo demorarão os produtores nas companhias de
produção social (EPS) articuladas nas cadeias de
produção com essas empresas estatais, a descobrir que eles
próprios pouco mais são do que associações de
assalariados colectivos? Então, onde é que a economia social
é uma alternativa ao capitalismo?
Em resumo, neste momento há contradições significativas no
seio da Revolução Bolivariana. Para alguns chavistas que querem
Chavez sem socialismo, o processo já foi suficientemente longe. Ao ponto
de haver resistência à tomada de decisões das bases (seja
nos locais de trabalho ou nas comunidades), pelo que o auto-desenvolvimento da
população só poderá avançar através
da luta. Mas, neste momento, não há meios para coordenar os
trabalhadores organizados, os membros das cooperativas, os trabalhadores do
sector livre, os camponeses e os profissionais livres que estão
preparados para lutar pela democracia protagonista nos locais de trabalho e na
comunidade; não existe uma força unida na base que exija
transparência e que esteja preparada para lutar contra a
corrupção e a deformação da Revolução.
Para fazer avançar a Revolução Bolivariana e para
demonstrar a possibilidade deste 'novo tipo de socialismo, um socialismo
humano, que coloque o homem e não a máquina ou o estado acima de
tudo o resto', é essencial criar instituições que
estimulem o desenvolvimento e a coordenação dos sujeitos
revolucionários pessoas que se transformem a si mesmas no
decorrer da luta por um mundo melhor. Como Hugo Chavez escreveu na
prisão em 1993, 'o povo soberano tem que se transformar a si
próprio em objecto e em sujeito do poder. Esta opção
não é negociável para os revolucionários'.
[1] TINA Acrónimo do slogan atribuído a Margaret Thatcher
'There Is No Alternative' (Não há alternativa) ao capitalismo
global de mercado livre.
[2] O capítulo 18 de
Beyond Capital
foi publicado por resistir.info:
A actualidade histórica da ofensiva socialista.
[*]
Professor na Universidade Simon Fraser (Canadá), vive actualmente em
Caracas. O seu último livro
'Build it Now: Socialism for the 21st Century'
(2006) estará disponível em
Monthly Review Press
.
Este artigo foi preparado originalmente para uma apresentação no
IV Encontro Internacional de Economia Solidária na Universidade de
São Paulo, Brasil, em 21-23 de Julho de 2006. Foi organizado pela NESOL
que dirige pesquisa e actividades relacionadas com alternativas
económicas. Visite o sítio web em
http://www.poli.usp.br/p/augusto.neiva/nesol/
.
O original encontra-se em
Socialist Project E-bulletin
, Nº 31, 10/Agosto/2006, e em
http://www.globalresearch.ca/
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este ensaio encontra-se em
http://resistir.info/
.
|