A Venezuela pós-referendo: os novos desafios
No passado dia 15 de Agosto, a
oposição venezuelana sofreu a terceira grande derrota na
tentativa de derrotar o governo do Presidente Chávez. Um referendo
revogatório inédito na história mundial ratificou o seu
mandato com uma enorme diferente de votos
[1]
perante os olhares atentos de centenas de observadores internacionais que
ratificaram unanimemente os resultados. Constituiu, como afirmou um deles,
Eduardo Galeano, conhecido escritor uruguaio, «uma injecção
de optimismo neste mundo, onde a democracia está tão
desprestigiada» por ter sido incapaz de resolver a pobreza.
Foi o triunfo, não de um homem, mas de um projecto de país
humanista e solidário, tanto na sua projecção nacional
como internacional, que surge como alternativa ao modelo neoliberal voraz e
depredador. Um modelo de desenvolvimento endógeno e de economia social.
Foi o triunfo da actual Constituição venezuelana, a única
constituição do mundo que contempla a figura do referendo
revogatório do mandato presidencial
[2]
. Mas foi, acima de tudo, um triunfo do povo, da organização
popular, das classes baixas mas também da classe média que
respondeu ao pedido do presidente para se organizar, tomando a iniciativa sem
esperar que os organismos de condução da campanha eleitoral
fossem constituídos.
Com este triunfo começa uma nova etapa do processo revolucionário
bolivariano. A oposição foi derrotada nesta batalha, mas
não há dúvida de que a guerra não foi ganha. Antes
de referir-me a esta nova etapa é importante analisar o contexto em que
esta se dá, analisando brevemente as etapas anteriores.
Antecedentes económico-sociais
A Venezuela, a quinta potência petrolífera mundial
[3]
, historicamente sempre foi uma sociedade muito desigual. Uma oligarquia
desfrutava de um nível de vida extraordinariamente alto, enquanto grande
parte da população vivia na pobreza. Quando, no início da
década de setenta, os militares, entre eles Chávez, patrulhavam
as fronteiras em operações anti-subversivas, não
encontravam guerrilheiros mas sim pobreza.
A adopção por parte de Carlos Andrés Peres do pacote de
medidas neoliberais em Fevereiro de 1989 provocou uma explosão popular
de grande envergadura. Os pobres desceram dos montes onde viviam, assaltaram
supermercados e todo o tipo de lojas. As forças armadas impuseram a
ordem através de metralhadoras. Milhares de pessoas morreram com balas
assassinas. Uma parte do povo começou a despertar.
As medidas neoliberais apenas aumentaram os índices de pobreza. Os
principais afectados foram os camponeses. Em apenas três anos, 600 mil
pessoas migraram para as cidades. A força laboral camponesa diminuiu 10
por cento. Aumentou muito o trabalho informal (de 34,5 por cento em 1980 passou
para 53 por cento em 1999). A classe trabalhadora industrial diminuiu: a
privatização parcial ou total de sectores como as
telecomunicações, os portos, o petróleo, a
indústria do aço e as linhas aéreas depois de 1989 reduziu
o tamanho da força laboral em zonas estratégicas e transferiu a
propriedade para capitais estrangeiros. A prática da
subcontratação criou um problema adicional. A desigualdade
económica e o desemprego aumentaram (este passou para 15,4 por cento). O
salário real sofreu uma grande quebra. A fragmentação
social cresceu consideravelmente. Nasceram múltiplas
organizações populares, mas sem conseguir uma representatividade
nacional. Apenas 17 por cento do movimento sindical manteve-se organizado e
deixou de representar os sectores populares.
A crise económica arrastou consigo uma crise política. Imperava a
corrupção. Crescia o cepticismo em relação à
política e aos políticos. Reinava a apatia. Não se
vislumbrava uma saída.
Tudo isto explica porque Hugo Chávez Frias cuja figura emerge
como uma alternativa à crise ganha folgadamente as
eleições presidenciais de 6 de Dezembro de 1998 com 56 por cento
dos votos na primeira volta. O povo, cansado de corrupção e cada
vez mais céptico em relação à forma tradicional de
fazer política, apostou num candidato de novo tipo.
[4]
O ex-tenente coronel deu-se a conhecer ao país como líder do
movimento de militares bolivarianos MBR 200
[5]
, ao tentar concretizar uma insurreição militar em 4 de Fevereiro
de 1992
[6]
para derrotar o então presidente Carlos Andrés Pérez,
considerando que era corrupto e que traía a Constituição.
Uma vez saído da prisão, pouco mais de dois anos depois do
fracassado golpe, Chávez começou a percorrer o país
tentando convencer o povo da necessidade de uma mudança institucional
profunda para poder tirar a Venezuela do caos, da corrupção, da
inoperância e realizar as transformações
económico-sociais de que o país tanto precisava.
Depois de descartar a via insurreccional, decide conquistar o poder pela via
institucional. Um quarto de século depois da derrota de Allende no
Chile, outro governante latino-americano decidiu realizar
transformações económico-sociais profundas no seu
país por via pacífica. Mas, desta vez, tratava-se de uma via
pacífica armada (contava com o apoio da grande maioria dos militares) e
tinha como premissa fundamental mudar as regras do jogo no terreno
institucional, dois elementos ausentes no processo chileno.
Primeira etapa: criar as condições institucionais para a
transformação sócio-económica
Chávez iniciou o seu mandato com o mais absoluto isolamento
internacional. O neoliberalismo impunha-se como modelo único. A
retaguarda socialista com que anteriores tentativas
revolucionárias latino-americanas tinham contado havia
desaparecido. O seu principal adversário, os Estados Unidos, tinham-se
transformado na primeira potência militar mundial sem qualquer contrapeso.
Que fazer nesta situação? Chávez dedica o primeiro ano do
seu governo a alterar a correlação negativa de forças
internacionais
[7]
e a consolidar a correlação de forças interna. Cria um
plano de emergência social para os sectores mais desprotegidos (Projecto
Bolívar 2000), a sua principal base social de apoio, e adopta medidas
educacionais que favorecem este sector: recupera a gratuidade do ensino e cria
escolas bolivarianas.
[8]
Preocupa-se também em formar ideologicamente o povo. Inaugura o
programa radiofónico aos domingos, «Alô, Presidente», de
contacto directo com o povo (posteriormente transforma-se num programa
televisivo). Ao mesmo tempo, constrói as condições
institucionais que o permitem avançar nas transformações
sócio-económicas.
Por sua vez, a oposição oligárquica procura neutralizar o
novo mandatário tentando cooptá-lo. Derrotada eleitoralmente,
conta no entanto com um enorme poder: o poder económico-financeiro, o
controle da gestão da indústria petrolífera estatal
(PDVSA); uma maioria esmagadora nos órgãos de poder legislativo e
judicial e nos governos locais (governadores e presidentes de
municípios); um controlo mediático quase de monopólio; o
apoio não só do grémio empresarial, mas também da
mais poderosa central sindical (CTV); de alguns generais de alta patente e da
alta hierarquia da Igreja Católica, intimamente ligada às elites
empresariais. A acrescentar a isto, mantém estreitos laços com
Washington.
Ainda que o recém eleito presidente contasse com o apoio de amplos
sectores populares, camadas médias e militares que depositaram nele as
suas esperanças, trata-se de uma maioria eleitoral muito desorganizada.
Na Venezuela não existiam, como no Chile ou no Brasil, partidos de
esquerda fortes. O Movimento Quinta República (MVR), recém
criado, que conseguiu crescer muito, viu-se limitado pelo processo
constituinte. A central sindical e, em geral, os movimentos populares eram
débeis e foram descaradamente manipulados pelos partidos tradicionais.
Não é de estranhar então que Chávez tivesse de se
apoiar nas Forças Armadas, a única estrutura nacional com que
nesse momento contava para realizar os seus planos.
No plano interno, a primeira prioridade do Governo foi mudar as regras do jogo
institucional, quer dizer, tudo o que tivesse a ver com o processo constituinte
[9]
. A nova Constituição, entretanto aprovada, foi desde
então a carta de navegação de todos os que apoiam o
processo. Uma constituição anti-neoliberal, que traça um
novo modelo de democracia profundamente participativa e um novo modelo
económico cooperativo, de autogestão, movido por uma
lógica humanista e solidária.
Depois de aprovada a Constituição, o segundo passo
[10]
foi mudar a correlação de forças nas
instituições do Estado. A 30 de Julho realizam-se as
«mega-eleições» (para presidente, deputados à
Assembleia Nacional, governadores e presidentes dos municípios). Os
resultados são muito favoráveis para o Governo. O presidente
é reeleito com 57 por cento da votação contra 37 por cento
do seu rival mais directo, Árias Cárdenas. O Pólo
Patriótico
[11]
obtém uma maioria esmagadora de deputados. A força
política que o secundo é a AD, apenas com 20 lugares. A COPEI
extingue-se virtualmente.
É sintomático que Chávez tenha sido acusado de ditador a
nível internacional quando é o governante que mais consultas
populares realizou no mundo em tão curto espaço de tempo: oito,
se contarmos com o recente referendo revogatório.
[12]
Graças aos resultados eleitorais, o chavismo chega a dominar os
aparelhos institucionais e a oposição, profundamente dividida,
fica com uma escassa influência na Assembleia Nacional. Perante a crise
dos partidos tradicionais, os meios de comunicação de massas
transformam-se no verdadeiro partido da oposição.
O terceiro passo
[13]
foi elaborar uma legislação revolucionária. Mas, como o
processo legislativo que devia concretizar a Constituição
materializando-a em leis que permitissem torná-la operante
caminhava de forma excessivamente lenta (inexperiência dos deputados
chavistas, interferência dos deputados da oposição), o
presidente viu-se obrigado a aproveitar as facilidade que lhe outorgava a
Constituição (amplos poderes especiais para legislar ou a chamada
Lei Habilitante)
[14]
para ditar, a 10 de Dezembro de 2001, 49 leis, entre elas a Lei da Terra, a
Lei da Pesca, a Lei dos Hidrocarbonetos, a Lei de Micro-Créditos e a Lei
das Cooperativas. Este pacote de leis demonstra a sua decisão de levar
por diante o processo revolucionário. A oligarquia, afectada pela
primeira vez nos seus interesses económicos, perde a esperança de
cooptá-lo como tradicionalmente costumava fazer com outros
políticos.
Pensando na forma de melhorar a correlação interna de
forças perante a ofensiva da oposição que deveria surgir,
Chávez lança a iniciativa dos «círculos
bolivarianos». Apela às pessoas, onde quer que estivessem, para se
organizarem em grupos de 7 a 11 elementos para difundir a
Constituição e fazer tarefas concretas: responder às
necessidades do bairro, formar uma cooperativa, conseguir um empréstimo
no banco, etc. O presidente tem plena consciência de que, sem a
participação popular, a revolução ficaria sem
combustível.
[15]
Segunda etapa: a grande ofensiva da oposição e os esforços
de sobrevivência por parte do Governo
A reacção da oposição face à decisão
de Chávez de avançar com o processo não se fez esperar.
Começa a dar os primeiros passos de uma grande ofensiva ao terminar os
seus mandatos, fortalecida pela forte investida dos meios de
comunicação. Às grandes manifestações de rua
que vinha promovendo, junta a convocação de uma
paralisação laboral a 10 de Dezembro de 2001, dia em que
Chávez decretou as 49 leis.
Qual é a correlação de forças nesse momento? No
terreno institucional, muito menos favorável do que ao início.
Miquilena que nessa altura era ministro do Interior e tinha sido o
principal colaborador político do presidente no início do
processo é demitido do seu cargo (início de 2002) depois
de manifestar o seu desacordo em avançar com as 49 leis e passa a ser
uma das principais figuras do bloco anti-governo. A sua retirada do campo
chavista constituiu um severo golpe para o presidente, pois o seu gesto foi
imitado por muitos seguidores, a maioria dos quais devia o seu cargo nas
instituições do Estado à influência desta turva
personagem. O Governo deixa, assim, de ter uma maioria esmagadora na Assembleia
Nacional e perde o controlo do poder judicial. Muitos altos magistrados
vinculados a Miquilena passam a ter uma posição abertamente
anti-governo, unindo-se aos magistrados que tinham uma postura claramente
alinhada com as posições políticas da
oposição. Por sua vez, um número não
desdenhável de deputados abandona as filas do chavismo. As
mobilizações contra o governo aumentam neste período e a
oposição vai adquirindo cada vez mais confiança em si
mesma.
Entretanto ocorrem os factos de 11 de Abril e dos dias seguintes
acontecimentos suficientemente conhecidos pelo leitor, razão pela qual
não os abordaremos. O fracasso do golpe militar de Abril de 2002 (mais
de 80 por cento dos generais com comando operacional mantiveram-se fiéis
a Chávez e à Constituição) constitui a primeira
grande derrota da oposição e um verdadeiro presente para
Chávez.
Estas circunstâncias permitiram que os actores se desmascarassem e o povo
adquirisse um nível político muito superior (nas fileiras
militares e nos quadros civis já se sabe com quem se pode ou não
contar). Criaram o terreno propício para avançar com a
depuração da instituição militar. Dividiram a
oposição. Fizeram com que sectores cada vez mais numerosos das
camadas médias, que antes estavam contra o processo, recorressem
à memória ao ver a anarquia a que poderia conduzir a
marginalização de Chávez.
A organização popular cresceu rapidamente. Os círculos
bolivarianos multiplicaram-se em todo o país adoptando as formas mais
variadas. Surgiram novas organizações populares, como os
Comités de Terras Urbanas, e diversas organizações das
camadas médias, de médicos, professores, advogados, etc. Os
dirigentes sindicais das várias áreas produtivas, críticos
em relação à cumplicidade da CTV, aceleraram os seus
trabalhos para construir uma força sindical autónoma, mas
disposta a apoiar o processo. Os diferentes partidos de esquerda, que apoiavam
Chávez mas mantinham posições muito críticas,
decidiram reorganizar-se e constituir uma frente comum de apoio ao seu governo.
Por outro lado, a experiência vivida fez com que se estudassem formas que
permitissem ao presidente ter um contacto directo com os comandantes das
tropas, nos casos em que os comandos superiores não pudessem cumprir
essa função, e estabeleceram-se canais de
comunicação entre os regimentos e as populações
próximas. O processo, que tinha sido mal compreendido e pouco valorizado
pela esquerda e pelas forças progressistas do mundo, começa a
despertar a sua simpatia. A atitude violentamente contra-revolucionária
da oposição não podia ser explicada senão pela
existência no país de um verdadeiro processo
revolucionário. Por fim, hoje existe uma opinião mundial
contrária a qualquer outra tentativa de golpe de Estado.
[16]
No entanto, a inédita e esmagadora vitória cujos
principais protagonistas foram o povo e as Forças Armadas
não desencadeou uma atitude ofensiva por parte do Governo, como muitos
esperavam. Chávez considerou necessário primeiro medir as suas
forças. Apesar do golpe ter sido derrotado e de a
Constituição ter sido restabelecida, não era claro nesse
momento com que apoio contava para continuar o processo revolucionário.
Por isso, a primeira coisa que fez foi consolidar as suas forças perante
um possível novo golpe de Estado. Particularmente, dedicou-se a
purificar as instituições militares. Nomeou ministros mais
aceitáveis para o meio empresarial na área económica.
Restituiu a anterior direcção da oposição da PDVSA.
[17]
Admitiu a revisão de algumas Leis Habilitantes. Aceitou o
estabelecimento de uma mesa de diálogo entre as partes em conflito.
Enquanto os tribunais deixavam em liberdade os golpistas, fortalecida pelas
aparentes mostras de debilidade do governo, a oposição
começa a reagrupar as suas forças e promove diversas tentativas
de desestabilização: protesto de 14 militares na Praça de
Altamira, apoiado por mais de 80 oficiais (22 de Outubro); iniciativas para
forçar o presidente a submeter-se a um referendo antes do previsto; e
novas tentativas de paralisação, optando finalmente pelo caminho
do golpe económico.
A 2 de Dezembro de 2002, a oposição convoca uma
paralisação cívica nacional. O objectivo é
paralisar o país obrigando Chávez a demitir-se. Tenta parar a
produção e a distribuição do petróleo.
Apesar da maior parte dos grande e médios administrativos saírem
dos seus lugares seguindo a convocação da oposição,
os trabalhadores não o fazem e conseguem pôr as empresas a
trabalhar. Como não consegue que os trabalhadores deixem de trabalhar, a
oposição decide seguir o caminho da sabotagem. Através dos
seus conhecimentos técnicos e do controle absoluto da
informação da imprensa, os altos executivos da PDVSA modificam as
chaves de acesso às empresas, interrompem processos, danificam
gravemente algumas instalações e quase fazem desaparecer algumas
delas: pessoal altamente qualificado recém-chegado descobriu que tinha
sido alterado o sistema de controle da temperatura de algumas refinarias. Por
último, como apesar de tudo a produção, ainda que
diminuta, continuava, optaram por bloquear o transporte do petróleo
bruto tanto dentro do país, como para o estrangeiro. Durante duas
semanas conseguiram deter a circulação marítima. Esperavam
que Chávez saísse do Governo antes do Natal.
Graças à firme condução do Presidente Chávez
e ao comportamento exemplar dos trabalhadores petrolíferos e em geral ao
resto dos trabalhadores e dos sectores populares do país, que souberam
estar à altura das duras exigência desses dias, concretizou-se a
segunda grande derrota da oposição. O país não
parou. Chávez não se dobrou. Mas, o mais importante, a
indústria petrolífera passou, de facto, para o controle do Estado
venezuelano. Esta foi a segunda grande oferta da oposição.
Através da sua actividade subversiva, sabotadora, cerca de 18 mil
quadros administradores de níveis alto e médio, que, de facto
exerciam o controlo da empresa, criaram as condições legais para
serem despedidos.
O mais importante foi que com cada novo ataque da oposição
aumentou a consciência e o protagonismo do povo. Não apenas se
multiplicaram os círculos bolivarianos, os comités das terras
urbanas, as assembleias de cidadãos, entre outras coisas, mas surgiram
igualmente novas formas de organização popular: os correios
motorizados, os grupos que se responsabilizaram de abrir as escolas que a
oposição queria paralisar; círculos agrários e
pesqueiros para a defesa dos seus direitos e das respectivas leis promulgadas
pelo executivo; grupos de defesa do consumidor, que promoveram o boicote aos
meios de comunicação, para protegerem as gasolineiras e a
adequada distribuição de gás, para vigiar os
camiões que transportavam o combustível, para proteger as
instalações da empresa petrolífera de possíveis
sabotagens da oposição, para proteger o Palácio de
Miraflores; círculos de ajuda aos mais necessitados para resolver os
problemas criados pelo golpe económico. Nasceu a
Clase Media en Positivo
para manifestar o apoio deste sector social ao governo.
Como todo este apoio popular e a participação activa das
Forças Armadas recuperando barcos e protegendo os centros de
produção e distribuição de alimentos e
combustíveis, a 7 de Fevereiro de 2003, pouco mais de dois meses depois
de iniciada a paralisação petrolífera, o presidente
pôde anunciar ao país e ao mundo o fracasso da nova intentona
desestabilizadora.
Não podemos, no entanto, deixar de mencionar os incalculáveis
danos económicos causados pelas acções da
oposição. Actualmente a economia venezuelana não recuperou
completamente.
Terceira etapa: o árduo processo referendário
Com o Centro Carter
[18]
como intermediário, o Grupo de Países Amigos (que inclui os
Estados Unidos) e a OEA, que fazem pressão para que haja um
diálogo entre representantes do governo e da oposição,
chega-se finalmente a acordo para procurar uma saída pacífica
para a crise (29 de Maio).
Ambas as partes aceitam finalmente usar o instrumento legal que lhes outorga a
constituição para resolver o conflito: o referendo
revogatório. Muitas sondagens mostravam a perda de popularidade do
presidente entre as camadas médias e os quadros políticos que
inicialmente o apoiaram e os sectores populares que viam que as suas vidas
não tinham mudado com a revolução apesar de todas as
promessas recebidas. A oposição acreditava que conseguia tirar
Chávez do poder através deste instrumento legal.
Contudo, com o fracasso do golpe económico e o início da
recuperação da economia (incluindo a recuperação da
produção petrolífera), o governo começa a alterar a
correlação interna de forças. Em Abril de 2003,
Chávez anuncia o reinício da ofensiva. A partir desse momento,
lança várias campanhas a favor dos sectores sociais mais
abandonados, as chamadas missões: consultórios médicos nos
bairros populares
[19]
; campanha de alfabetização
[20]
, de educação
média e superior
[21]
; abertura da Universidade Bolivariana aos estudantes que nunca haviam podido
inscrever-se; venda de produtos alimentares a preços muito mais baixos
que os das lojas. Estes programas foram calorosamente recebidos pela
população e trouxeram novos adeptos para o processo.
É planificada a recolha de assinaturas em duas etapas: de 21 a 24 de
Novembro e de 28 de Novembro a 1 de Dezembro. A primeira, para revogar
deputados da oposição, realiza-se de forma exemplar, mas na
segunda, para revogar os deputados chavistas e o primeiro representante,
verificam-se muitas irregularidades, o que leva o presidente a denunciar, a
meio do processo, que tudo faz pensar que está a ser levada a cabo uma
mega fraude. Inicia-se, assim, um demorado processo de análise de
impressões digitais e assinaturas reconhecidas. A oposição
sustentava que as suas assinaturas eram válidas, os chavistas insistiam
que eram fraudulentas.
Após uma minuciosa
revisão, a Comissão Nacional de Eleições (CNE)
chega à conclusão (2 de Março) de que, além das
assinaturas recusadas como não sendo válidas, existem mais de 800
assinaturas da oposição que podem ser qualificadas como duvidosas
e que devem ser objecto de um processo de reparação.
[22]
Se cerca de 600 não pudessem ser reparadas, os adversários de
Chávez fracassariam na sua tentativa de impor o referendo
revogatório contra o presidente. A oposição não
aceitou o veredicto e recorreu aos tribunais de justiça, onde se
dá um litígio interno.
[23]
Finalmente, no fim de Abril, o CNE fixa os processos de
reparação: de 21 a 23 de Maio de 2004 para o referendo de
revogação de deputados e de 28 a 30 desse mês para o
referendo de presidente.
Durante esse período,
são constantes os ataques e mobilizações por parte da
oposição contra o governo e para pressionar o CNE. O sector mais
radical decide aproveitar a reunião do chamado Grupo dos 15 em Caracas
(27 de Fevereiro) para promover uma série de acções
violentas, procurando que o mundo ficasse com uma imagem de caos e
ingovernabilidade do país que permitisse uma intervenção
estrangeira. Comete o grande erro de realizar as acções nas
urbanizações da classe média alta provocando grande
repúdio por parte destas. Perante esta situação, decide
alterar a campanha mediática, aproveitando o comportamento
excessivamente drástico de alguns militares, na sua tentativa de impor
ordem, para acusar o governo de violação dos direitos humanos e
montar um espectáculo internacional. Em Maio, poucos dias antes do
referendo e prevendo uma derrota na contenda que se aproximava, decide
infiltrar um grupo de paramilitares colombianos provavelmente com a
intenção de assaltar o palácio do governo e matar
Chávez.
Terminada a recontagem da maior
parte das assinaturas recolhidas, o CNE anuncia a 3 de Junho que a
oposição obteve o número de assinaturas suficientes para
ir a referendo.
[24]
A oposição precisava de um número de assinaturas
equivalente a 20 por cento dos eleitores que elegeram Chávez e
alcançou essa meta.
Que fazer perante esta
situação? Muitos chavistas estavam convencidos de que tinha
ocorrido uma enorme fraude e de que a oposição não tinha
conseguido recolher as assinaturas requeridas. Consideravam que Chávez
não devia reconhecer os resultados. Era o que a oposição
também esperava e que, assim, Chávez fosse visto como um
anti-democrata pela opinião pública nacional e internacional ao
recusar o procedimento democrático estabelecido na
constituição.
Contudo, o presidente, um dos
principais promotores da figura do referendo revogatório na
Constituição
[25]
, contra todas as previsões, fruto da imagem criada pelos meios de
comunicação opositores sobre si e as suas
intenções, aceita os resultados do CNE e transforma de forma
magistral a derrota parcial sofrida no processo numa contundente
vitória. Com o optimismo que o caracteriza e que consegue sempre
transmitir aos seus seguidores, enfrenta a contenda eleitoral como uma batalha
que deve ser preparada com seriedade. Prevê, de forma correcta, que o
combate eleitoral seria muito duro porque não bastaria ganhar com uma
margem estreita, mas sim ganhar com uma vantagem contundente para que
ninguém ficasse com dúvidas sobre os resultados. E considera que
essa meta só poderia ser alcançada com o empenho de todos os que
apoiavam o processo na conquista do maior número possível de
votos.
O grande desafio era
alcançar esse objectivo sem contar com um instrumento político
capaz de canalizar militantemente todo o apoio popular que tinha. Infelizmente,
o
Comando Ayacucho
uma frente eleitoral criada a 3 de Outubro de 2003 com o objectivo de
defrontar o processo revogatório e outros processos eleitorais
tinha ficado mal visto no processo de recolha e recuperação de
assinaturas e na selecção dos candidatos a presidente de
municípios do próximo processo eleitoral. O sectarismo, o
clientelismo, o individualismo, a ineficiência, a incapacidade de fazer
previsões correctas e as manobras pouco transparentes impediam-no de
cumprir o papel de condutor na batalha que se avizinhava. Apenas o presidente
podia desempenhar esse papel, comunicando directamente com os seus seguidores
mais empenhados. Surge assim a ideia de criar pequenos núcleos de
militantes ou patrulhas eleitorais em todo o país, unidades formadas por
grupos de dez activistas políticos ou sociais (militantes), cada um com
a principal tarefa de falar com dez pessoas, visitando todas as casas e
procurando conquistar votos contra o processo revogatório, ou seja, o
voto pelo «Não» no referendo, da maior parte possível
dessas pessoas. Cada patrulha tinha a responsabilidade de contactar cem
eleitores. Se, por exemplo, uma área eleitoral tinha dois mil inscritos,
formavam-se 20 patrulhas. Isto é, organizavam-se 200 pessoas que deviam
dividir entre si a missão de falar com os dois mil eleitores. A ideia
original de Chávez era que não ficasse uma família por
visitar.
Ao mesmo tempo que apela
às pessoas para que se organizem nas suas bases, o presidente designa
uma instância nacional de condução da campanha eleitoral. A
sua composição é interessante. Além de
várias ministros e escassos quadros políticos, é formada
maioritariamente por pessoas que até aí não tinham
participado em formações políticas: artistas,
académicos, comunicadores. Estas caras novas, não contaminadas
pelo passado, deram uma imagem de prestígio e frescura à campanha.
Ainda que as instâncias
estatais e municipais que conduziram a campanha tenham deixado muito a desejar
e em muitos casos foram portadoras dos mesmos vícios, constituindo o
ponto débil da estrutura, felizmente influíram pouco no trabalho
de base e nos resultados da campanha.
O que, em muitos casos, salvou
a situação foi a correcta composição das unidades
organizativas em cada área eleitoral (Unidades de Batalha Eleitoral,
UBEs): uma espécie de direcção operativa organizada em
cada área eleitoral de não mais de 20 pessoas. O presidente
insistiu na composição democrática destas unidades. Nelas
deviam estar representadas as forças vivas da respectiva área
eleitoral. Podemos dizer que onde existem organizações populares
fortes isto assim se verificou, mas em muitas localidades isto não
aconteceu ou conseguiu-se apenas em parte.
Com ou sem UBEs eleitas
democraticamente, com ou sem Comandos Maisanta estatais e municipais à
altura do que estava em jogo, o que ninguém podia impedir era que as
patrulhas se confinassem à base por decisão soberana dos
partidários do presidente e realizassem a sua tarefa com a
dedicação e o amor de quem sabe que do seu trabalho dependia o
futuro do seu líder e do processo revolucionário.
Muitas delas não
cumpriam os requisitos definidos por Chávez:
a) não serem formadas
por activistas políticos ou sociais, mas por simples simpatizantes do
processo que iam votar «Não»;
b) não trabalhar com
base nas listas eleitorais, mas sim percorrer quarteirão a
quarteirão ou edifício a edifício;
c) não serem formadas
nas zonas de habitação, mas nos centros de trabalho.
Apesar disso, não
há dúvida de que, através delas, se criou o maior processo
organizativo que o processo revolucionário venezuelano até
então viveu. Permitiu que centenas de milhar de simpatizantes
participassem numa tarefa política concreta, independentemente da
existência ou não de uma condução partidária
na sua área geográfica. Muitas pessoas emocionalmente
comprometidas com o processo mas até então inactivas tiveram a
sua primeira experiência organizativa e política. Milhares de
anónimos contribuíram com o seu grão de areia. E
também os dirigentes que foram capazes de deixar de lado os seus
projectos sectoriais e pessoais e decidiram trabalhar ligados às bases
em função de um só objectivo: a vitória do
«Não».
O povo venezuelano saiu muito
fortalecido da experiência prática vivida. Cresceu em auto-estima,
cresceu humanamente. Tudo o que seja planificado no futuro não pode
deixar de ter em conta este facto. Esta vitória, mais do que uma
vitória eleitoral, quantitativa, é uma vitória moral,
qualitativa.
Quarta etapa: consolidação e aprofundamento da
revolução
O triunfo eleitoral de
Chávez no referendo de 15 de Agosto de 2004 constitui a terceira grande
derrota sofrida pela oposição, significa um enorme avanço
no processo revolucionário venezuelano e aponta para a necessidade de
prosseguir a sua consolidação transformando-o em algo
irreversível.
Qual é a
correlação de forças que existe neste momento e como se
pode alterar? O governo sai evidentemente fortalecido a nível nacional e
internacional. Já ninguém pode negar o carácter
democrático do processo bolivariano e o grande apoio popular de
Chávez. Os guerreiros mediáticos ficaram sem
munições. A oposição desmascarou-se, perdeu muita
credibilidade (as suas análises revelaram-se ilusórias e
demonstraram como estavam longe da realidade e das pessoas). Agudizam-se as
lutas internas entre as suas facções. Nestas
circunstâncias, o assassinato de Chávez pode surgir como a
única opção para os membros mais radicais da
oposição, uma opção extremamente arriscada, pois
poderia levar à matança mais sangrenta do continente desde a
conquista e o seu resultado final seria imprevisível.
Não nos podemos
esquecer, contudo, da existência de cerca de quatro milhões de
pessoas que votaram a favor da revogação do presidente e que
claramente não fazem parte da oligarquia. Um dos grandes reptos futuros
do actual governo será precisamente saber trazer para o processo uma
parte significativa dessas pessoas, tal como aquelas que ficaram em casa por
falta de motivação para participar no processo eleitoral.
Igualmente não pode esquecer as expectativas que o triunfo criou nas
seis milhões de pessoas que votaram «Não».
Os desafios a enfrentar nesta
nova etapa são variados: políticos, económicos,
institucionais e comunicacionais. O processo revolucionário bolivariano
deveria dar um salto qualitativo quanto à participação do
povo. A ideia do presidente de que «a pobreza não poderá ser
eliminada se não se entregar o poder ao povo» deveria
materializar-se em formas organizativas e participativas concretas. Há
que aperfeiçoar os instrumentos de participação
cidadã apontados pela constituição que não podiam
ser exercidos devido à bipolarizada situação
política do país. Há que pôr a trabalhar as juntas
paroquiais, dar-lhes os melhores quadros populares e impulsionar a
actuação dos conselhos locais de planificação e das
administrações sociais. É o momento de dar um impulso ao
Poder Cidadão e Eleitoral para que os seus membros possam desenvolver as
suas funções de forma independente. E, à medida que surjam
novas lideranças e se consolidem algumas antigas, deve-se avançar
para uma direcção cada vez mais colectiva do processo. Fidel
Castro tem razão quando diz que Chávez não pode continuar
a ser o alcaide de toda a Venezuela e o próprio presidente tem isso
claro.
Há que fazer um
esforço para superar os problemas herdados da IV República no
terreno político. Não se pode perder toda a experiência de
organização e participação popular acumulada na
recente campanha eleitoral. As patrulhas e as UBEs deveriam fazer um
balanço do seu trabalho e seria bom que este fosse discutido em
assembleias locais. Onde as UBEs não funcionaram, há que
encontrar formas de reunir as patrulhas da maneira mais eficiente. Toda a
experiência acumulada e as reflexões que se façam em torno
dessa experiência deveriam constituir bases valiosas para elaborar em
conjunto a proposta de uma grande frente política que reuna todos os
militantes que se identifiquem com o projecto bolivariano. Há que
transformar as patrulhas eleitorais em patrulhas sociais e convidar a analisar
e discutir os problemas sociais todas as pessoas interessadas de cada
comunidade. Quem é patriota, quem ama a Venezuela deve ser integrado no
projecto revolucionário, mesmo que não seja necessariamente
partidário de Chávez. Há que conseguir que todas essas
pessoas se sintam úteis. Há muito que fazer por este país
e quanto mais pessoas se organizarem e se mobilizarem sob estas bandeiras, mais
depressa se poderá avançar. A radicalidade do processo não
depende da radicalidade do discurso, mas da capacidade de mobilizar e envolver
activamente no projecto os mais amplos sectores do povo.
Que organização
política poderia surgir da experiência do referendo? Não
há dúvida de que é preciso superar a dispersão
orgânica do imenso potencial militante que existe no país, criando
um espaço para aquelas pessoas que não fazem parte de uma
organização política ou social. O novo instrumento
político deveria ser muito mais do que a soma de partidos e
organizações sociais populares e evitar reproduzir a disputa por
cargos de direcção. Quem está organizado nas bases deveria
ser representado a todos os níveis de forma proporcional ao seu trabalho
de base. Esse instrumento deveria reunir todas as forças
patrióticas, sem exclusões, em torno de um único programa;
ter uma relação privilegiada com os movimentos sociais; possuir
uma direcção amplamente respeitada; estar dotado de regras claras
que especifiquem os direitos e os deveres dos seus membros e mecanismos de
controle dos dirigentes pela base; conceber o seu crescimento essencialmente
como a construção de força desde a base e não
apenas através de acordos políticos; e, por fim, estimular o
surgimento de uma liderança autêntica.
É necessário
avançar também para a construção de um instrumento
unitário dos trabalhadores. Há, todavia, demasiada
dispersão. os velhos métodos continuam a ser utilizados. É
imprescindível partir para uma discussão sobre o novo tipo de
sindicalismo, necessário para enfrentar as transformações
radicais que a força de trabalho sofreu nas últimas
décadas e para reflectir sobre o papel dos trabalhadores venezuelanos no
processo revolucionário que o país está a viver.
É indispensável
avançar no desenvolvimento do método económico alternativo
e, para isso, a iniciativa do Estado é essencial. Nesse sentido,
é necessário consolidar as grandes empresas estatais nas
áreas estratégicas: petróleo, electricidade,
telecomunicações, finanças, distribuição de
alimentos e transportes. Actualmente regem-se segundo a lógica do lucro
e não por uma lógica humanista e solidária, em que os
trabalhadores desempenhem um papel importante na sua gestão. Devem ser
eles a assegurar a aplicação desta lógica e ao mesmo tempo
a desenvolver a economia popular em grande escala, através de
cooperativas e associações dos mais diversos tipos que permitam a
participação dos trabalhadores no processo e assim a
transformação das relações de
produção.
A actividade em ambas as
esferas é fundamental, porque as duas procuram resolver o problema do
desemprego e do emprego disfarçado do sector informal, uma das
dificuldades mais sérias dos pobres. A iniciativa do Estado mais
relevante para enfrentar este desafio é o projecto da Missão
Vuelvan Caras, uma combinação de iniciativas estatais e de
cooperativas que pretende impulsionar o desenvolvimento interno, criando
núcleos de desenvolvimento destinados a satisfazer as necessidades
internas e a preparar integralmente a força laboral que
enfrentará essas tarefas. Esta missão deve consolidar-se e
expandir-se, se se deseja resolver os problemas da economia.
Como precisamente uma das
tarefas prioritárias desta etapa é resolver o problema do
emprego, há que impulsionar também a reactivação do
sector industrial privado disposto a colaborar com o projecto de
desenvolvimento endógeno proposto pelo governo e fomentar o
desenvolvimento de empresas mistas. Por outro lado, o desenvolvimento
endógeno só poderá ser desenvolvido em todas as suas
potencialidades se ao mesmo tempo se concretizar uma integração
latino-americana alternativa à que o governo dos Estados Unidos
está a tentar impor, que se reja por outra lógica, pela
lógica humanista e solidária que caracteriza o projecto
bolivariano. Daí que outra tarefa importante desta nova etapa seja
impulsionar a ALBA, alternativa à ALCA, proposta por Chávez.
Há que melhorar a
correlação de forças no domínio institucional.
Neste sentido, são muito importantes as próximas
eleições de governadores e presidentes de municípios em
finais de Outubro
[26]
e mais ainda as eleições de concelhos e juntas paroquiais e de
deputados à Assembleia Nacional que terão lugar no próximo
ano. Se não se alcançar uma clara maioria nessas
instituições, serão necessários pactos com sectores
da oposição para torná-las operantes.
O processo bolivariano deve
passar de uma acumulação quantitativa para uma
acumulação qualitativa. Até agora tem-se dado prioridade
ao apoio quantitativo para conseguir correlações de força
favoráveis ao processo nas instituições e por isso deu-se
prioridade aos votos para ganhar cargos. Agora é necessário
pôr o acento na eficiência, em desempenhar melhor as
responsabilidades que cada um assumiu para pôr em prática todos os
projectos e iniciativas anunciados pelo governo e que devem melhorar
radicalmente as condições de vida do povo, até agora pouco
alteradas.
Há que avançar na
transformação do Estado. Superar os problemas da IV
República. Como disse Alí Rodriguez, «temos um governo
revolucionário, mas ainda não temos um Estado
revolucionário»
[27]
e isso explica que as missões tivessem de ser realizadas à
margem das estruturas dos ministérios correspondentes. Elas devem ter
lugar no novo modelo de Estado. Para isso é preciso reestruturar
ministérios e criar outros. O essencial é que estas
instituições deixem de ser escritórios burocráticos
situados nas grandes cidades e se mudem para onde as pessoas vivem e trabalham,
onde a população possa exercer um controle social da
gestão pública. Entre outras coisas, a transparência
é fundamental. As pessoas devem estar informadas sobre os recursos e os
seus destinos para poder exercer esse controle, a única forma de se
poder superar o flagelo da corrupção, outra das tarefas
prioritárias da nova etapa que se inicia.
Os funcionários do
Estado deveriam transforma-se em eficientes servidores públicos onde os
seus serviços fossem requeridos em vez de se colocarem atrás de
uma mesa à espera da hora da saída do trabalho ou usando o
aparelho de Estado para tráfico de influências e desvio de
recursos.
Por último, temos o
desafio comunicacional, um dos maiores com que o governo tem de lidar, pois tem
de chegar à mente e ao coração dos milhões de
venezuelanos que ainda não se sentiram identificados com o seu projecto.
Muitas pessoas, especialmente da classe média, recusavam Chávez e
o seu projecto porque foram enganadas pelos meios de comunicação
social. Estes convenceram-nas de que Chávez é um ditador, que
quer cubanizar a Venezuela, que vai destruir a propriedade privada, que quer
fazer desaparecer a classe média, que não respeita a liberdade
sindical, que persegue os jornalistas e que é responsável pelas
situações de violência no país. Todas estas
acusações são absolutamente falsas. O que estas pessoas
recusam (uma grande parte dos quatro milhões que votaram a favor da
revogação de Chávez) não é o projecto de
Chávez, mas sim uma caricatura completamente deformada desse projecto,
produzida pelos
media
. Essas pessoas não conhecem realmente o projecto de país que o
presidente pretende construir. Como fazer para que esse projecto seja conhecido
por essas pessoas é talvez um dos maiores desafios do governo de forma a
criar uma correlação de forças suficientemente
favorável ao processo, que lhe permita avançar e consolidar as
transformações que se propôs realizar pela via
pacífica. O mesmo desafio impõe-se a nível internacional.
É essencial que o
governo encontre a forma de impedir que estas distorções criadas
pelos meios de comunicação prossigam. Deveria exigir que os
media
da oposição sejam meios de informação e não
de desinformação. Apoiado na força internacional que
alcançou com o resultado do referendo, deve defender firmemente o
direito do povo de estar correctamente informado. Não há
democracia sem pessoas informadas. Todos os meios de comunicação,
incluindo os do Estado, devem sofrer um processo de transformação
profundo. Estes últimos devem possuir novos meios técnicos para
ter maior alcance e trabalhar de forma mais eficiente. O governo deve apoiar os
meios alternativos e, por último, deve materializar-se quanto antes o
projecto de uma televisão para o Sul, tanto para transmitir uma
perspectiva verdadeira do que acontece na Venezuela ao resto da América
Latina, como para proporcionar uma fonte informativa alternativa aos
venezuelanos.
Observe-se com
atenção estes quatro desafios: político, económico,
institucional e comunicacional. Todos têm um elemento comum. Não
se propõem acabar com o capitalismo imediatamente, mas cada um deles
está relacionado com a capacidade do povo para participar mais
consciente e activamente na vida do país. Política
económica, institucional e comunicacionalmente. Só assim o
processo revolucionário bolivariano poderá avançar com
segurança e se tornará irreversível.
____________
Notas
1- Cerca de dois milhões.
2- A Constituição diz textualmente no capítulo IV: Sobre
os direitos políticos e o referendo popular, segunda
secção: do referendo popular, artigo 75: «Todos os cargos e
magistraturas de eleição popular são revogáveis.
Transcorrido metade do período para o qual foi eleito o
funcionário ou a funcionária, um número não menor
de vinte por cento dos eleitores ou eleitoras inscritas na correspondente
circunscrição poderá solicitar a convocação
de um referendo para revogar o seu mandato. Se o número de pessoas que
votarem a favor da revogação for igual ou superior ao
número de eleitores ou eleitoras que elegeram o funcionário ou a
funcionária, desde que tenham participado no referendo um número
de eleitores ou eleitoras igual ou superior a vinte cinco por cento dos
eleitores ou eleitores inscrito ou inscritas, considera-se revogado o mandato e
proceder-se-á de imediato de forma a cobrir a falta conforme o disposto
nesta Constituição e na lei.»
3- Quase 80 por cento do petróleo venezuelano destina-se ao mercado
norte-americano. A empresa venezuelana CITGO refina-o e vende-o como derivado
ou gasolina. Essa empresa, por si só, tem dez por cento do mercado de
gasolina norte-americano.
4- Marta Harnecker, «La Izquierda en el Umbral del Siglo XXI. Haciendo
Posible lo Imposible», Siglo XXI Editores, España, 3.ª ed.,
2000, pp. 70-74. "Tornar possível o impossível A
esquerda no limiar do século XXI",
Campo das Letras
, Portugal, 2000, 372 pp.
5- O Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (o número
corresponde ao bicentenário da morte de Simón Bolívar) foi
fundado por um grupo de jovens oficiais do Exército, a 17 de Dezembros
de 1982, em Maracay, em homenagem ao libertador Simón Bolívar,
«com o objectivo estratégico de tomar o poder e de construir um
novo modelo de sociedade» (Alberto Jordán Hernández,
«Prueba al MBR 200», Caracas, 15 de Maio de 2001).
6- Estes militares decidiram actuar contra Carlos Andrés Pérez
quando ele os lançou contra o povo para controlar a
exaltação popular motivada pela fome e pela pobreza, a 27 de
Fevereiro de 1989, no chamado «caracaso».
7- Neste sentido impulsionou processos de integração
sul-americanos e caribenhos; privilegiou a relação com os seus
parceiros da Organização de Países Exportadores de
Petróleo (OPEP) e aproximou-se de outros pólos de poder mundial
como a Índia, a Rússia e a China, estreitando ao mesmo tempo os
laços com os fóruns de nações emergentes, como o
Grupo dos Quinze de Cooperação Sul e o Grupo dos 77. No corno
Sul, Chávez procurou alcançar uma aliança com o Brasil
para opor-se à ALCA e tornar-se membro da MERCOSUL (Marta Harnecker,
«Venezuela: Una Revolución Sui Generis», trabalho apresentado
no seminário da LAC durante o Terceiro Fórum Social Mundial, em
Porto Alegre, Janeiro de 2003. Este artigo desenvolve mais profundamente alguns
dos temas mencionados aqui nas duas primeiras etapas do processo).
8- Escolas de horário completo, onde os estudantes recebem
pequeno-almoço e almoço.
9- A 25 de Abril faz-se a consulta ao povo sobre a convocatória para a
Assembleia Constituinte; a 25 de Julho são eleitos os membros da
Assembleia Constituinte (o Pólo Patriótico controlava 121 dos 131
lugares); a 15 de Dezembro é aprovada a nova Constituição
com amplo apoio dos eleitores, ainda que a abstenção tivesse sido
muito alta (62,2 por cento).
10- Realiza-se fundamentalmente durante o ano 2000, o segundo ano de governo.
11-
Frente eleitoral formado por todos os partidos que então apoiavam o
processo.
12- Eleições para Presidente da República (Dezembro de
1998); referendo sobre a instalação da Assembleia Constituinte
(25 de Abril de 1999); eleição dos constituintes (25 de Julho de
1999); aprovação da nova Constituição (15 de
Dezembro de 1999); mega-eleição do presidente, deputados,
governadores e presidentes de municípios (30 de Julho de 2000);
eleições de conselheiros e membros das juntas paroquiais (3 de
Dezembro de 2000); eleições sindicais (Agosto-Outubro de 2001); e
referendo revogatório (15 de Agosto de 2004). A única
eleição que o governo aparentemente perde é a da
direcção da Central de Trabalhadores da Venezuela (CTV), em
Outubro de 2001, quando o opositor, Carlos Ortega, membro da
direcção executiva do Partido Acção
Democrática, é proclamado vencedor apesar das
acusações de fraude, sobre as quais o Tribunal Nacional Eleitoral
ainda não se pronunciou definitivamente.
13- Este processo decorre fundamentalmente durante 2003, o terceiro ano de
governo.
14- A chamada «Lei Habilitante» é aprovada em Novembro de
2000. Trata-se de uma medida transitória (dura um ano) e prevê que
a situação de a Assembleia Nacional entregar ao executivo o poder
de elaborar leis-chave para o futuro do país, nas áreas
financeiras e sociais. O Conselho de Ministros elabora a lei, o presidente
aprova-a, notifica-se a Assembleia Nacional e converte-se em lei de imediato,
sem mais trâmites.
15- Intervenção de Chávez na entrega a Fidel Castro do
Grande Colar da Ordem de Angostura, a 11 de Agosto de 2001, em Cidade
Bolívar.
16- Harnecker, Marta, «Venezuela: Uma Revolución Sui Generis»,
op. cit.
17- Recorde-se que a destituição dessa direcção (25
de Fevereiro de 2002) foi um dos principais motivos das
mobilizações da oposição que culminaram no golpe de
Abril desse ano.
18- A 30 de Janeiro de 2003, o ex-presidente Jimmy Cárter desenhou uma
saída institucional para a crise: o presidente aceitava ser referendado
ou alterava a Constituições para se realizar
eleições gerais. A oposição volta a mostrar-se
forte e inicia um novo processo de recolha de assinaturas (Fevereiro de 2003).
Desta vez, afirma ter recolhido mais de quatro milhões. A
secção eleitoral do Supremo Tribunal de Justiça
pronuncia-se contra este processo por ser inconstitucional. A
constituição bolivariana contempla quatro tipos de referendos:
consultivo (sobre grandes projectos nacionais); revogatório (para
revogar mandatos, que pode realizar-se durante a segunda metade do mandato);
aprovatório (para aprovar projectos); e anulatório (para abolir
leis).
19- Os consultórios médicos são inaugurados a 17 de Junho.
20- A Missão Robinson começa a 1 de Julho de 2003.
21-
A 29 de Julho é inaugurada em Caracas a Universidade Bolivariana da
Venezuela.
22- Numa das cadeias nacionais de rádio e televisão, o presidente
do CNE, Francisco Carrasquero, anunciou que 1832493 assinaturas eram
consideradas válidas para o referendo revogatório presidencial e
876027 assinaturas seriam restauradas por caligrafia similar, erros nas
impressões digitais e erros no registo eleitoral. 233573 assinaturas
foram invalidadas segundo as resoluções dos artigos 3, 5 e 7,
onde são expostos os critérios de validação da CNE.
143930 assinaturas foram invalidadas por serem de pessoas não inscritas
no REP, menores de idade ou não saberem escrever.
23- Está por saber quando se pronuncia o CNE e que número exacto
de assinaturas foi recolhido.
24- A oposição tinha de reunir pelo menos o equivalente a 20 por
cento das assinaturas dos eleitores que votaram em 1999 e conseguiu apenas mais
15 mil assinaturas.
25- De facto, durante o processo constituinte defendeu que fossem
necessárias menos assinaturas para torná-lo possível.
Queria viabilizá-lo e não impedi-lo.
26- Nesse data devem ser eleitos 23 governadores e 337 presidentes de
municípios. A oposição tem actualmente 9 governadores e
150 presidentes, parte deles na estratégica área metropolitana.
27- Na sua intervenção no Segundo Encontro Internacional de
Solidariedade com o processo revolucionário bolivariano, em Abril de
2004.
[*]
Agradeço a todos os que leram este trabalho e me fizeram
sugestões. Quero fazer um agradecimento especial ao meu companheiro,
Michael Lebowitz, a quem devo ideias muito importantes.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
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