O Partido da Revolução Venezuelana
por Hernán Ramírez
O debate também serviu para ver brotar com força o
anti-comunismo, o cediço e o moderno,
aquele que medra na direita e o que se acomoda na esquerda.
Apresenta-se na Venezuela uma enorme discussão acerca da
formação do PSUV proposto pelo presidente Hugo Rafael
Chávez Frias, mas nela não transparecem as causas mais
recônditas que levaram o líder do processo revolucionário a
embarcar em semelhante aventura, aparentemente descabelada, que pôs mais
de um "revolucionário" em dificuldades.
É inegável agora que o principal instrumento eleitoral em vigor
até surgir a mencionada proposta era o Movimiento V República
(MVR), criação do próprio Chávez desde a sua
primeira eleição como Presidente dos venezuelanos, movimento ou
partido que não resistiu mais tempo às enormes
contradições internas e externas que levaram à sua
extinção.
Tão pouco pode-se ignorar que uma boa quantidade de quadros superiores,
médios e de base da V República, Pátria para Todos (PPT) e
Podemos passaram a fazer parte, simplesmente, da nova burguesia que aspira
consolidar-se ao calor da revolução para continuar a medrar e
dirigir o processo com o mesmo tom dos discursos do líder.
O Presidente Chávez precaveu-se a tempo do papel que poderia desempenhar
como principal figura da revolução, à semelhança de
Kerenski na Rússia Czarista de 1917. Em consequência, apressou-se
a desbaratar tamanha aliança de partidos que sempre actuaram no plano
eleitoral e cuja boa parte dos quadros puseram os seus pés em polvorosa
em Abril de 2002, ao invés de enfrentar o carmonazo e o sequestro do
chefe.
Em consequência, o primeiro resultado da iniciativa do partido
único da revolução é o desaparecimento do MVR e a
decomposição acelerada dos outros dois. Era isto o que
ambicionava Chávez? Claro que sim! E não nos resta a menor
dúvida de que foi a forma mais inteligente de sacudir o laço que
tinha no seu pescoço e que o ameaçava com aquilo que passou a ser
chamado "o chavismo sem Chávez".
A iniciativa de criar o PSUV e o procedimento adoptado para chegar a esse fim
permitiram trazer à superfície as contradições,
antagónicas ou não, das classes sociais que exerceram a
política a partir de uma parte do Estado; do poder executivo,
não isento de crises devido à corrupção crescente,
do exercício da violência oficial e não oficial e do lastro
burocrático da IV República que se aferrou às estruturas
jurídicas crias para esse fim. Ou seja, estamos a ser governados em
grande parte pelos mesmos e com as mesmas.
Ao examinar a conduta daqueles que acompanham o comandante Chávez,
verificamos que a mística revolucionária do chefe do Estado vai
parar nos bolsos dos corruptos que com uma mão aplaudem e com a outra
roubam e reproduzem os velhos esquema da AD e do Copey, sem que haja poder
humano ou divino (por mais que o chefe invoque os profetas e o ícones de
todas as igrejas) que termine com esta mazelas.
O povo venezuelano criou, por si próprio, correntes, movimentos,
coordenadoras e expressões políticas pequenas, médias e
outras maiores, que geralmente se mantiveram à margem das benesses do
poder porque sua força material ainda não chega para criar
mecanismos de participação com os outros e porque na arena
política não existe espaço para aquele que não seja
capaz de disputá-lo a golpe limpo.
Um destes partidos é o decano de todos, o Partido Comunista da
Venezuela, que sempre foi discriminado, vilipendiado, perseguido, caluniado e
traído e que até fins do ano passado nem sequer era levado em
conta na planificação e realização das
eleições, às quais vai sempre de maneira independente e
conservando seus princípios ético e morais e que, sem exigir
nenhuma contra-partida, foi o que mais defendeu o processo
revolucionário e o seu líder Hugo Rafael Chávez Frias.
Este nem sequer o recebe para uma simples troca de pareceres.
Qual a razão desta contradição?
O PCV deve sua existência à classe operária; não
é policlassista e são os interesses de classe que determinam sua
actuação. O PSUV é policlassista e ali reproduzem-se as
contradições de classe pelo que, no momento decisivo, quantos
não sairão espavoridos para a direita. Quantos nas
próximas eleições de alcaides e governadores
saltarão da trincheira para acomodar-se no Estado e a partir dali
garantir a defesa dos interesses da sua classe ou camada social?
O debate também serviu para ver brotar com força o
anti-comunismo, o cediço e o moderno, o que medra na direita e o que se
acomoda na esquerda para continuar a levar água ao moinho da
discórdia e impedir o triunfo do socialismo. Deste ponto de vista,
é nefasta a existência no ambiente presidencial de elementos
inescrupulosos e oportunistas que criaram um mau ambiente, que se reproduz nos
níveis mais altos, ignorando que a força e o conteúdo das
ideias marxistas leninistas são garantia de combate contra o
imperialismo e pela construção do socialismo.
Benvindo pois, pelas razões expostas, o PSUV. Benvinda a
permanência, crescimento e fortalecimento do PCV, uma vez que ambos se
completam na luta anti-imperialista. O primeiro fará um longo percurso
na estrada para o socialismo, mas o segundo garante a chegada a este e o
desenvolvimento das condições políticas, sociais e
materiais para a sua consolidação.
02/Abril/2007
O original encontra-se em
http://www.farcep.org/?node=2,2781,1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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