Um elefante no quarto: O caso da pandemia de Covid

– O comunismo, como teoria e prática revolucionária, é incompatível com a exclusão da análise de aspectos fundamentais da dinâmica da sociedade capitalista.

Ángeles Maestro [*]

 
E o que há de fundamento revolucionário na ciência proletária não é somente que ela oponha à sociedade burguesa conteúdos revolucionários, mas sim que é, em primeiríssimo lugar, a essência revolucionária do método em si. O reinado da categoria da totalidade é o portador do princípio revolucionário na ciência.
G. Lukacs

1. Um elefante no quarto. O caso da pandemia de Covid.
2. A “Grande Reinicialização” (“Great Reset”) e os planos da burguesia para “sair” da crise.
3. A ofensiva dos EUA contra a UE. Destruição de empresas e de postos de trabalho, militarização e guerra.
4. Imperialismo e fascismo, uma aliança de longa data.
5. A construção de alianças amplas internacionais sobre a base da soberania e a independência.
6. Tarefas concretas sobre forjar a unidade das organizações comunistas revolucionárias.

Elefante, de Banksy.

1. Um elefante no quarto. O caso da pandemia de Covid.

A compreensão da luta de classes como motor da história , a afirmação de que o proletariado atuando como classe para si é o sujeito da revolução, ou a crítica da desvinculação das lutas parciais do combate geral da classe operária pela sua emancipação, formam parte, ainda que muitas vezes esvaziadas de consequências práticas, do discurso das organizações marxistas.

Por outro lado, a análise da totalidade da forma na que se expressam, aqui e agora, as principais contradições da sociedade capitalista tem por objetivo a caracterização dos diferentes aspectos da dominação de classe, não como exercício teórico, mas porque é imprescindível para desenhar a estratégia e a tática da revolução nas condições atuais, e o que ainda mais importante, para caracterizar a organização do partido comunista revolucionário.

Se as organizações revolucionárias não analisam como um todo as diferentes formas concretas: econômicas, políticas, ideológicas, culturais, legais e repressivas mediante as quais se reproduz e se perpetua o domínio da burguesia sobre a classe operária em cada momento histórico, sobretudo em momentos de crise aguda como os atuais, e se excluem – por quaisquer que sejam as razões – aspectos cruciais como o conjunto de mecanismos e instituições que tem operado com o pretexto do Covid, correm o risco de não interpretar adequadamente os planos do inimigo de classe e, o que é ainda mais grave, de não valorizar suas consequências sobre a subjetividade das massas populares.

Os princípios enunciados mais acima, que sem dúvida seriam subscritos por qualquer organização comunista, tem sido abalados quando se trata de caracterizar a gestão da pandemia de Covid pelos governos da burguesia como um grande experimento de controle social, funcional as seus planos de “saída” para a crise geral do capitalismo. E isto não é um assunto do passado. O êxito alcançado pelo Estado para impor medidas inéditas de violação de direitos e liberdades, do enfraquecimento das organizações operárias e populares, e inclusive de enfrentamentos no seio das mesmas, farão com que, com toda a probabilidade, diante da agudização da crise, estas medidas se repitam e inclusive adquiram formas ainda mais drásticas.

A renúncia em abordar, a partir de uma perspectiva de classe, a coerência interna das medidas implantadas pelos diferentes governos para “lutar” contra a Covid 19, põe em evidência que, apesar da reivindicação da análise marxista, tem-se negligenciado assuntos transcendentais da perspectiva revolucionária como a natureza da classe do Estado, a submissão da ciência aos interesses do capital, concretamente, das grandes multinacionais farmacêuticas, assim como seu controle absoluto das principais instituições sanitárias nacionais e internacionais.

Ter em conta estes aspectos, precisamente num momento histórico em que a centralização e concentração do capital adquirem proporções gigantescas e seus instrumentos de dominação se hierarquizam e internacionalizam como nunca antes, é chave, não somente do ponto de vista teórico, como o movimento do pensamento, mas que é imprescindível para que o proletariado identifique adequadamente o funcionamento dos aparatos ideológicos e repressivos do Estado e construa sua independência de classe.

A natureza de classe do Estado, obviamente mais além da cor dos governos da vez, foi desdobrada em toda sua crueza na pandemia de Covid mediante a ocupação pelo exército de todos os povoados e cidades do Estado espanhol, assim como pela polícia e a Guarda Civil, a declaração dos Estados de Alarme, posteriormente declarados inconstitucionais, o endurecimento das leis repressivas – e, muito especialmente o projeto de implantar a Lei de Segurança Nacional [1].

Estes aspectos, assim como o controle absoluto da informação e a implantação de medidas de censura sem precedentes nas democracias burguesas – as mesmas, tanto para o Covid, como para a guerra da NATO contra a Rússia – tem contado com a colaboração decisiva da socialdemocracia e dos grandes sindicatos. Obviamente, isto não é uma novidade. Mas o que é novidade é que os sindicatos alternativos e a grande maioria das organizações autodefinidas como revolucionárias não o tenham identificado como um brutal ataque contra a classe operária.

Se não houvéssemos vivido resultaria inconcebível que estas organizações tivessem aceitado que o mesmo Estado, que independentemente de quem governe, executa com mãos de ferro reformas trabalhistas, que desmantela os serviços públicos, especialmente sanitários, que mantém intactas as leis repressivas, ou que envia armas aos nazistas ucranianos, tenha levado a cabo todas estas medidas “para proteger a nossa saúde”. Tudo isso apesar de tais medidas configurarem um Estado de tons cada vez mais fascistas que persegue a militarização da sociedade, a perseguição de vozes críticas e a repressão das lutas operárias e populares.

O desconhecimento do controle por parte do capital e a submissão das descobertas científicas aos seus objetivos do lucro em praticamente todas as pesquisas – incluindo as que se financiam com meios públicos – o plano Bologna é uma boa amostra – é especialmente lacerante quando se trata das grandes multinacionais farmacêuticas. Seu longo histórico criminoso a serviço da introdução de fármacos ineficazes e inseguros, manipulando ensaios clínicos e subornando maciçamente governos e autoridades sanitárias, está suficientemente provado com sentenças judiciais e sanções multimilionárias e, sobretudo, com centenas de milhares de mortos.

Tudo isto tem adquirido proporções descomunais com a introdução das vacinas ARN que não me detenho a detalhar aqui porque está suficientemente analisado nos informes do CNC [2]. Somente destaco que desde sua implantação, foram provocadas na UE mais de 50 mil mortes e mais de 2 milhões de efeitos adversos graves na UE, segundo dados oficiais da EMA, que reconhece que se declaram somente 1% dos casos, e que no Estado espanhol, desde a implantação das chamadas vacinas há um excesso de mortalidade de mais de 30.000 pessoas excluindo as mortes por Covid e as ondas de calor [3]. Tudo isto sem que o Governo, segundo foi declarado recentemente pela ministra de Saúde no Congresso dos Deputados, “tenha entre suas prioridades investigar as causas”. Assim mesmo, segundo declarações da CEO da Pfizer no Parlamento Europeu, nunca se constatou nos ensaios clínicos que as pessoas vacinadas deixaram de se contagiar, apesar de este ter sido o argumento básico para implantar os “passaportes Covid” ou para levar a cabo a coerção à vacinação, especialmente sangrenta no caso das crianças que não tinham nenhum risco, nem de adoecer gravemente e muito menos de morrer, “por solidariedade”.

2. A “Grande Reinicialização” (“Great Reset”) e os planos da burguesia para “sair” da crise.

Esta crise, a maior da história do capitalismo, tem lugar quando foi levada a cabo uma centralização inédita do capital em todas as suas formas, acelerada pelos avanços técnicos-científicos da 4ª revolução industrial (informática, robótica, inteligência artificial, neurociência).

A oligarquia, que através dos grandes fundos de investimentos controla os centros chaves do capital financeiro, industrial, militar e comercial, tem hoje nas suas mãos os instrumentos para levar a cabo, através dos governos ao seu serviço, as decisões políticas necessárias para acometer as transformações com as que o capitalismo tem enfrentado todas as suas grandes crises: destruição em grande escala do capital menos competitivo, aceleração da concentração das grandes empresas em cada vez menos mãos e o “saneamento” do mercado para começar de novo, trocando a regra do jogo.

A liquidação maciça de empresas e de postos de trabalho, aliada a substituição do trabalho humano mediante a digitalização, a robótica, a nanotecnologia, etc está afundando no desemprego, sem expectativa alguma de conseguir um emprego para milhões de trabalhadoras e trabalhadores e não deixando futuro algum para a juventude.

É evidente que nesta situação em que os seus planos se apresentam como irreversíveis, vão-se produzir revoltas sociais generalizadas que podem desembocar em processos revolucionários. E os que estão preparando o “Great Reset” sabem-no perfeitamente.

A preocupação maior das classes dominantes, ao longo da história do capitalismo e agora com mais razão, é impedir que o cumprimento de seu objetivo prioritário de maximizar os lucros incrementando a exploração, possa conduzir à insurreição dos que não têm mais que a sua força de trabalho para sobreviver e que lhes arrebatem o poder.

A psicose de terror diante do Covid e as medidas repressivas brutais impostas, que até agora somente se tomavam em tempos de guerra, como o confinamento, a paralização da produção ou a suspensão de direitos fundamentais, como o de reunião ou manifestação, tem permitido a destruição de dezenas de milhares de pequenas e médias empresas, praticamente sem resistência.

Esta experiência, que fez possível que as grandes multinacionais tecnológicas, as GAFAM (Google-Alphabet, Apple, Facebook-Meta, Amazon e Microsoft) tenham duplicado seu valor na bolsa durante a pandemia, além disso permitiu às classes dominantes comprovarem até que ponto se pode reduzir a classe operária, mediante o medo, a uma massa informe de seres submissos, inoculando o enfrentamento entre eles inclusive denunciando a quem resistir, e reprimir a quem não aceitar o avassalamento, como nos tempos mais escuros do fascismo.

A oligarquia reunida no Foro Econômico Mundial de Davos de 2021 não cabia em si de alegria ao comprovar a eficácia do disciplinamento social e ao mesmo tempo o rápido avanço da digitalização, do trabalho telemático, a implantação do passaporte Covid, do uso maciço do cartão bancário – precedentes de mecanismos de controle de populações – ou a generalização das compras pela internet. Mas, sobretudo, o confinamento acelerou exponencialmente o uso de redes sociais, visualização de séries e especialmente nos mais jovens, dos jogos “on-line”, cujas plataformas e conteúdos, produzidos pelas maiores empresas tecnológicas, permitem a evasão massiva de uma realidade cada vez mais hostil e, conduzem ao isolamento, destruindo as relações sociais.

O aumento espetacular dos suicídios [4], especialmente na juventude, e inclusive crianças cada vez menores ou o incremento do consumo de ansiolíticos e antidepressivos, são, provavelmente, as consequências mais dramáticas sobre a mente humana da implantação de formas de vida que transformam as pessoas numa espécie de zumbis solitários, convertidos em instrumentos fundamentais para implantar seu projeto de dominação sem resistência.

Todos estes mecanismos são acionados especialmente na juventude, nos filhos e filhas da classe operária, a quem esta “reconfiguração” do capitalismo não oferece futuro algum e que deveriam ser os principais protagonistas da resistência e a rebelião. Sua autoexclusão da vida social e sua aniquilação como seres pensantes capazes de tomar decisões, que está sendo alimentada com a introdução maciça de drogas, especialmente nos bairros operários, são condição chave para implantação deste projeto criminoso de destruição social e de dominação.

Essa é a materialização do lema macabro da agenda de 2030, “não terás nada e serás feliz”.

3. A ofensiva dos EUA contra a UE. Destruição de empresas e de postos de trabalho, militarização e guerra.

Tal como a gestão da pandemia de Covid foi dirigida pelos EUA e seguida disciplinadamente pela UE, os interesses geoestratégicos e econômicos dos EUA estão ditando as medidas que, assumidas docilmente pelos governos europeus, estão levando à sua autodestruição econômica e, mais do que nunca, à sua subordinação militar total através da NATO.

O interesse histórico anglo saxónico em desvincular a Europa da Rússia está a ser imposto à UE tornando-a protagonista da sua desindustrialização e da pauperização maciça da classe operária. A guerra da NATO contra Moscou, tanto através das sanções executadas pela UE contra a lógica mais elementar que tivesse em conta os próprios interesses econômicos de seus membros, como pela imposição de gastos militares sem precedentes, é também uma guerra contra a Europa.

A destruição do gasoduto Nord Stream II, que teria permitido a chegada à UE de gás russo mais barato e de excelente qualidade, perpetrada pela Grã Bretanha [NR], junto às sanções que impedem a compra de gás, petróleo russo e matérias-primas, estão provocando uma elevação descomunal do preço da energia que está afundando a indústria europeia, ao mesmo tempo que deixa milhões de trabalhadores parados. Assim mesmo, o encarecimento dos produtos básicos, como energia e os alimentos, estão destruindo as condições de vida da imensa maioria das classes populares.

A imposição de comprar aos EUA o gás natural liquefeito procedente do fracking, que começou meses antes de começar a intervenção da Rússia na Ucrânia, e que é muito mais caro, além de insuficiente, está permitindo que os EUA, ainda que em meio à crise, consiga níveis de crescimento de 4%, enquanto a recessão assola a UE. A submissão dos governos da UE aos EUA é especialmente clamorosa no caso do governo espanhol. A decisão do Governo PSOE-UP de reconhecer a soberania do Marrocos sobre o Saara, além de trair o povo saharaui comprometeu a chegada do gás argelino que encareceu em 70%.

A destruição de empresas europeias se vê incrementada, além disso, pela subida descomunal das taxas de juros executada pelo BCE, seguindo na esteira da Reserva Federal dos EUA. O pretexto aduzido é a “luta contra a inflação”; inflação que eles mesmos criaram favorecendo o recurso generalizado ao crédito com taxas de juro próximo de 0 e, sobretudo, criando dinheiro artificialmente (a Reserva Federal e o BCE fabricaram do nada 22 mil milhões de dólares nos últimos quatro anos). O resultado, de nenhuma maneira casual, é o encerramento maciço de empresas e de postos de trabalho e uma carestia de alimentos, produtos básicos para a sobrevivência e de energia para os lares, pondo milhões de famílias numa situação limite.

A tudo isso se soma um incremento histórico e sem precedentes dos gastos militares, imposto pela NATO, à custa da aceleração do desmantelamento e da privatização dos serviços públicos, destacadamente da saúde, que já se vinha produzindo desde que, com o apoio do PP, PSOE e as direitas nacionalistas, se aprovara a Lei 15/97, que segue intacta apesar dos compromissos eleitorais do Unidas Podemos.

Esta autodestruição da UE e das condições de vida condições de vida da classe operária se produz porque as oligarquias europeias e os governos ao seu serviço formam parte do projeto imperialista de “destruição criativa” concebido pelos grandes centros de poder. A militarização social, já ensaiada com a pandemia de Covid e todas as demais leis repressivas, da qual a Lei de Segurança Nacional é parte importante e que se soma a recente modificação do Código Penal para penalizar ainda mais qualquer tentativa de mobilização social, pretendem assegurar o manutenção do domínio do capital frente a possíveis levantes sociais.

4. O imperialismo e o fascismo, uma aliança de longa data.

Numa situação de crise grave como a atual, na qual não cabe esperança alguma de solução para a imensa maioria da população, reaparece o auge do fascismo como recurso da burguesia frente a agudização da luta de classes.

A aliança da NATO com o fascismo não é de agora; é uma constante desde a II Guerra Mundial.

Antes de terminar a guerra e em plena batalha de Berlin, Allen Welsh Dulles, trabalhando para a OSS (Oficinas de Serviços Estratégicos dos EUA), antecessora da CIA da qual ele seria seu primeiro diretor civil, pôs em marcha a Operação Paperclip destinada a transferir 1.600 cientistas nazistas a universidades e instituições militares de EUA. Muitos deles, peritos em armas biológicas e químicas, haviam participado diretamente em experimentos médicos que ocasionaram a morte de milhares de prisioneiros nos campos de Dachau e Ravensbrük. Foram julgados em Nuremberg por isso, mas os EUA procuraram a sua absolvição.

A perpetração de atentados terroristas em diferentes países da Europa, como os levados a cabo pela Rede Gládio, mostram a colaboração entre a NATO, grupos fascistas e serviços secretos militares para a desestabilização de governos não suficientemente dóceis e, em geral na luta contra o comunismo.

Hoje a colaboração direta dos EUA e da UE com os fascistas ucranianos é a atualização desta aliança e põe de manifesto como “governos progressistas” como o do PSOE-Unidas Podemos, enquanto agitam o espantalho de que “vem o VOX”, sujam as mãos com o sangue dos antifascistas do Donbass, apoiando os nazistas da Ucrânia.

Esta linha de continuidade política, ideológica e militar entre o fascismo e a NATO, com o anticomunismo como a coluna vertebral e a subjugação da Europa, submetendo-a aos interesses dos EUA, para criar um curto circuito nas suas relações econômicas, comerciais e culturais naturais com a Rússia, explica extremamente bem parte dos acontecimentos políticos ocorridos desde a II Guerra Mundial no continente europeu e no presente.

Mas não se trata somente do que ocorre na Ucrânia. A evidência de que o governo “progressista” não resolve os problemas da classe operária e que atua seguindo com a maior disciplina a agenda da oligarquia, em ausência de uma alternativa coerente que o enfrente, alimenta objetivamente o fascismo.

Uma vez mais, a colaboração decisiva da social democracia, a velha e a nova, no ataque às condições de vida das classes populares, a traição dos grandes sindicatos e a evidência de que, como aconteceu recentemente na área sanitária, as grandes mobilizações são orquestradas com objetivos eleitorais, deixam o campo aberto para que o discurso “radical” da extrema direita se arraigue entre os setores importantes da classe operária.

5. A construção de alianças amplas internacionais sobre a base da soberania e a independência.

A ofensiva do imperialismo dos EUA e da UE contra a Rússia e a China é uma peça chave de todo o processo de reestruturação capitalista em grande escala [5]. O projeto de governação global requer, como ocorreu com a gestão da pandemia de Covid, que as diretrizes sejam implementadas em escala mundial. É preciso, para que seja crível, que o relato apolítico e as diretrizes hegemônicas sejam acatados por todas as grandes potências e que, em cascata, se levem a cabo em todo o mundo. Em definitivo, para que o projeto de dominação do imperialismo anglo saxónico seja possível, é imprescindível que não haja quem escape, com a força suficiente, a seus mandatos.

Mas as contradições têm explodido e um novo bloco que agrupa a maioria dos povos do mundo se fortalece cada vez mais.

O incremento exacerbado dos ataques contra a Rússia e a China deve-se fundamentalmente ao facto de que nenhum dos dois pode ser incluído na bancarrota geral. Além dos gigantescos recursos naturais da Rússia, e as enormes capacidades produtivas da China, ambos os países estão se livrando de suas dívidas em moedas ocidentais e não podem ser apresados. Por isso o objetivo do imperialismo é destruir sua identidade e resistência e propiciar uma mudança de regime, tanto na Rússia como na China.

Subjugar a Rússia e a China é um problema existencial para o imperialismo NATOista porque para a aplicação da doutrina da “destruição criativa” na economia ocidental, todos os demais também devem cair. Se a economia dos EUA, da UE e dos seus satélites se afunda e o grande bloco econômico multipolar não participar da derrubada, será um desastre para o Ocidente e seu projeto de governação global estará seriamente ameaçado.

O novo bloco tem um poder econômico importante e pode ser a coluna vertebral de uma nova hegemonia multipolar; enquanto que o Ocidente desce a uma espécie de “Idade Obscura” e irrelevante. Por tanto, o mundo inteiro deve cair para que funcione a “Grande Reinicialização”. A Rússia e China devem ser subjugadas por qualquer meio, assim como a Índia, o Irã e um número crescente de países da África, América Latina e a Ásia [5].

O problema para o Ocidente é que seus planos estão a ver-se frustrados. A decisão da Rússia de intervir militarmente na Ucrânia e suas vitórias junto as forças armadas das Repúblicas Populares do Donbass marcam a ruptura da unidade entre o Oriente e o Ocidente. As escassas repercussões negativas das gigantescas sanções contra a Rússia, enquanto a UE se afunda, e suas inegáveis vitórias no confronto militar cada vez mais aberto com a NATO, “até o último ucraniano”, são uma boa amostra disso.

Além disso, a escalada agressiva do imperialismo está servindo para reforçar as alianças econômicas, comerciais, militares e políticas entre a Rússia e a China e com outros países asiáticos, africanos e latino-americanos, que há tempos que se vêm gestando. Quer dizer, está se produzindo um rápido desligamento de um número cada vez maior de países da dominação euro-estadunidense.

Este enfraquecimento objetivo do imperialismo “ocidental”, sem que se ajustem ilusões sem fundamento acerca do caráter de classe dos Estados aliados no bloco multipolar, abre novas perspectivas de luta imperialista e antifascista para as organizações que lutam nos países que fazem parte do núcleo central onde se perpetram as agressões a outros povos. Nosso combate contra a NATO e a UE deve ir acompanhado da decidida solidariedade internacionalista com todos os povos que resistem e em especial com o povo do Donbass, assim como da consideração da intervenção militar da Rússia na Ucrânia como parte da luta antifascista e contra a Aliança Atlântica.

6. Tarefas concretas sobre as quais forjar a unidade das organizações comunistas revolucionárias.

    1. As contradições que estão fazendo aflorar a guerra da NATO contra a Rússia e seu apoio econômico e militar à organizações fascistas, unidas às sanções que tão duramente estão afetando a classe operária europeia, abrem novos caminhos de organização e resistência.

O apoio à luta antifascista e anti-imperialista que, heroicamente, se está levando a cabo no Donbass é o melhor exemplo de resistência popular que, além disso, se conecta diretamente com a experiência internacionalista e de combate contra o nazismo que vive nossa Frente Popular.

O avanço na construção de uma nova ordem internacional multipolar, baseado na independência e na soberania das nações que enfrentam o imperialismo “ocidental” e que supõe a imensa maioria da humanidade, está minando objetivamente o poder do imperialismo. Tudo isso, sem que sustente ilusão alguma de que isto implique revoluções sociais que tenham que levar a cabo seus povos.

No Estado espanhol, e também no âmbito da UE, as organizações comunistas devem participar decididamente na criação de uma Frente Antiimperialista e Antifascista que tenha como coluna vertebral a luta contra a NATO como braço armado do fascismo e da ofensiva geral do capital contra a classe operária e os povos do mundo.

    2. Neste cenário de agudização da luta de classes, para as organizações comunistas revolucionárias, não cabe outra alternativa que, partindo da análise imprescindível da totalidade da ofensiva em todas as frentes do grande capital internacional e dos seus aliados no Estado, construir a independência de classe.

Há que fazê-lo de baixo, desde as raízes, desde os lugares em que se vive nas condições de vida mais duras, desde os bairros operários e dos centros de trabalho.

Não é possível explicar para a nossa classe e para o nosso povo os planos da burguesia contra a classe operária se não se partir da sua experiência concreta, da percepção da realidade na qual vivem. E não valem somente discursos.

A realidade nos pressiona, mas não há atalhos. Há que se andar o caminho passo a passo.

É assim, desde o corpo a corpo, a partir da compreensão específica da forma na qual percebe a realidade quem está vivendo com toda a crueza as repercussões de todo o projeto criminoso da burguesia, a partir de onde é preciso construir a independência de classe.

A dominação da burguesia se exerce, além dos mecanismos de dominação violenta e repressiva, mediante a imposição da sua ideologia com falsos iscos de lutas parciais e de “soluções” eleitorais do mal menor. Neste caminho, é preciso revelar seus objetivos de enfraquecimento e divisão da classe operária àqueles que serviram experiências de controle social como os impostos durante a pandemia e que, sem dúvida alguma, se repetirão com este ou outros pretextos.

Mas esta situação não é estática. Nosso objetivo central de construir a independência de classe, para além de “relatos” desviacionistas, tem como aliado fundamental a realidade das condições, cada vez mais insuportáveis, de vida e de trabalho. É sobre este caldo de cultura, cada vez mais fértil, sobre o qual é possível explicar o porquê das coisas e a necessidade iniludível da revolução e de construir o socialismo.

Nesse processo, é preciso unir o que resta da experiência de trabalho de lutadores de outros tempos, com a força vital e o desespero da juventude diante da negação de qualquer experiência do futuro.

O objetivo é resgatar a gente da nossa classe da idiotização programada pelos meios de comunicação, pelas redes sociais ou pelo consumo de álcool, medicamentos ou outras drogas, sobretudo da juventude. Não valem soluções que não partam da imersão em sua experiência, em seu saber, e de ter, sobre esta base, novas formas organização operária e popular.

O trabalho com a juventude é prioritário. Não importa o quanto seja difícil. Temos que busca-los, reconhece-los e favorecer seu protagonismo em todas as expressões de raiva e de resistência que se manifestam hoje, fundamentalmente através da música. E, sobretudo, impulsionar a construção por eles mesmos dos meios de alternativos de comunicação que expressam o que estão vivendo.

No movimento operário estão surgindo novas formas de organização e de luta que tendem a superar as burocracias sindicais. Estão se gerando hoje a partir das próprias necessidades da luta. A este respeito, é útil recordar o surgimento das primeiras comissões operárias como duplo poder e experiência de independência de classe.

Neste caminho, se as organizações comunistas forem conscientes e organizadas, vão surgir novos aprendizados e novas possibilidades materiais de avanço que hoje ainda não vislumbramos. E aqui a formação política joga um papel determinante. Hoje, sobretudo a juventude, a mais consciente, está buscando não soluções eleitorais, mas os instrumentos teóricos e políticos para acabar com a realidade que os oprime como uma pedra. A teoria política, que nos foi legada por quem nos precedeu no combate, e sua capacidade para analisar a realidade atual, é a mais apreciada ferramenta de luta. E junto a ela, a expressão cultural. Nosso cinema, nossa música, nossos meios de comunicação, nosso teatro; o antigo e o novo que se construa, constituem uma arma indispensável.

O caminho está aberto e nos aguarda.

[1] www.congresso.es/public_oficiales /L14/CONG/BOCG/A/BOCG-14-A-91-1.PDF
[2] cnc2022.wordpress.com/
[3] momo.isciii.es/panel_momo/
[4] www.antena3.com/noticias/sociedad/disparan-suicidios-jovenes-adolescentes-mayor-cifra-decada_202212016388dbab4a5f3000014d3022.html
[5] questiondigital.com/la-tercera-guerra-mundial-ha-sido-organizada-en-davos/

[NR] Sob ordens directas de Biden. Ver as revelações de Seymour Hersh.

02/Fevereiro/2023

Ver também:
  • El Covid como excusa y las responsabilidades de las organizaciones revolucionarias en el "gran reinicio" del Capitalismo.
  • [*] Médica, da Coordenação de Núcleos Comunistas da Espanha.

    O original encontra-se em cnc2022.wordpress.com/2023/02/02/el-comunismo-como-teoria-y-practica-revolucionaria-es-incompatible-con-la-exclusion-del-analisis-de-aspectos-fundamentales-de-la-dinamica-de-la-sociedad-capitalista/ . Tradução de JACG.

    Este artigo encontra-se em resistir.info

    /Fev/23