Com o
US Army
no Afeganistão
Durante os oito anos em que fiz a cobertura do Afeganistão estive
"incorporada"
("embedded")
habitualmente com os civis afegãos, especialmente mulheres. Entretanto,
estando recentemente envolvida com tropas e jornalistas americanos adstritos
à "estratégia" militar de contra-insurgência
(mais conhecida pela sigla COIN), decidi verificar também esse programa.
Em Junho último preenchi um pedido para ser incorporada ao US Army.
Emails polidos de especialistas em assuntos públicos do Exército
pedem aos jornalistas que apresentem prova de seguro médico, uma
exigência que considerei como uma admissão de que a guerra
não é uma ocupação saudável. Eu já
sabia disso, naturalmente a partir do lado civil. Além disso,
lera um bocado de artigos e livros de meus colegas homens que haviam arriscado
os seus pescoços com tropas americanas no Iraque e no
Afeganistão. O que me impressionou acerca do trabalho deles foi isto:
mesmo quando descreviam incompetências provenientes dos altos
escalões, aqueles repórteres ainda se esforçavam por fazer
a organização militar soar quase sistematicamente como
heróica. Gostava de saber o que podiam estar a omitir.
Assim, enviei uma cópia do meu cartão Medicare. Perguntava-me se
esta evidência da minha cidadania, a par da minha condição
de membro do "sexo mais fraco", o qual supostamente estamos a
resgatar no Afeganistão, levantaria questões acerca da minha
aptidão para missões "do lado de fora do arame farpado"
de uma Forward Operating Base (FOB) no Afeganistão oriental a apenas uns
poucos quilómetros das áreas tribais do Paquistão. Mas
não, o meu pedido de incorporação foi aceite prova
de que nem aptidão nem heroísmo foram exigidos (algo que os meus
colegas homens nunca revelaram). Afinal de contas, nem a minha idade nem o meu
género foram prejudiciais. Como sabe a Miss Marple, de Agatha Christie,
as pessoas dirão quase tudo a uma velha senhora que elas supõem
ser estúpida.
Os rapazes e seus brinquedos
Tendo sido crítica das políticas americanas desde o
princípio, nada vi nas várias bases do Exército que
visitei que mudasse as minhas ideias. Um dia naquela FOB, preparando-me para ir
numa missão, o sargento responsável escreveu os nomes dos
soldados no palco, seguido por "Terp" para designar o
intérprete afegão-americano que nos acompanharia, e "In
Bed"
[1]
, o que significava eu. Ele fez uma piada acerca de repórteres que
estão mais entusiasmados do que os soldados. Não eu. E não
estava sozinha. Eu já havia encontrado antes um bocado de rapazes em
outras bases, principalmente reservistas que tinham empregos em casa de que
gostavam apaixonadamente professores, treinadores, músicos
e esposas e filhos que amavam, que apenas queriam ir para casa. Um deles
disse-me: "Talvez se eu fosse dez anos mais jovem pudesse ser aceite, mas
já não sou um rapaz".
O Exército enviou-me uma lista de regras básicas para
repórteres principalmente questões de senso comum como
não publicar a força da tropa ou planos de batalha. Também
obtive uma lista de coisas a trazer. Era a espécie de lista que as
mães fazem quando enviam seus garotos para o campo: cantil de
água, lanterna de pilha, toalha, sabão, papel higiénico
(para as excursões longe da base), saco de dormir, etc. Mas
também havia outro material, como protecção
balística, luvas a prova de fogo, grande faca, armadura corporal e
capacete Kevlar. Considerando quanto dos meus dólares de impostos
vão para o Pentágono, pensei que o Exército podia ter uns
poucos colectes protectores sobressalentes para emprestar aos repórteres
visitantes, mas não, você tem de levar o seu.
Isto talvez tenha sido um sinal do que estava para vir, pois logo fui inundada
por queixas de soldados e igualmente de fornecedores civis: armaduras
insuficientes, veículos insuficientes, helicópteros
insuficientes, armas insuficientes, tropas insuficientes e mesmo quando
parecia haver abundância de tudo, queixas de que nada daquilo era da
espécie perfeitamente correcta. Isto impressionou-me como um problema
característico de americanos privilegiados que parecia subjacente a
quase tudo que estava a ver na frente oriental desta guerra. Aquelas queixas,
de facto, pareciam emanar da própria natureza do empreendimento militar
americano da sua mistura tóxica de paranóia, poder e boas
intenções.
Tomemos a paranóia, a qual suponho vir do território. Você
não estaria ali se não pensasse que havia inimigos por todos os
lados. Recusei um voo militar para a viagem curta de Cabul, a capital
afegã, para Bagram, a principal base americana uma
"cidade" em rápida expansão com mais de 30 mil pessoas.
Ao invés disso, pedi a um amigo afegão que me levasse no seu
carro.
Um oficial dos Assuntos Públicos advertiu-me que conduzir era
"muito perigoso", mas o único problema que encontrámos
foi um comboio militar dos EUA vindo na direcção oposta,
congestionando o tráfego. Durante mais de uma hora sentámo-nos na
auto-estrada com dúzias de motoristas afegãos a observarem uma
parada de enormes camiões plataforma a transportarem outros grandes
veículos: bulldozers e carregadores blindados de tropa de diversas
espécies, desde Humvees a veículos protegidos contra minas
emboscadas (MRAPs, Mine-Resistant Ambush-Protected vehicles). Meu amigo disse:
"Não entendemos. Eles têm todas estas grandes
máquinas. Colocam-nas sobre camiões e carregam-nas estrada acima
e estrada abaixo. Por que?"
Não pude responder, mas tive uma pista quando fui num helicóptero
do Exército de Bagram até uma base mais pequena e encontrei um
fornecedor privado parcialmente responsável pela
manutenção de veículos do Exército. Ele deu-me um
CD para entregar ao seu contramestre na FOB a que eu ia. Ao invés de
música, este continha um manual de instruções para reparar
o último modelo do M-ATV, um pesado carregador de pessoal com um casco
em feitio de V concebido para repelir golpes de bombas na estrada. Eles
actualmente estão a substituir os MRAPs mais antigos e os Humvees
mortalmente rebaixados. Os Humvees estão, por sua vez, a serem passados
para o Exército Nacional Afegão, cujos soldados são mais
dispensáveis do que os nossos (já vê o que quis dizer
acerca de poder). Com uma frota cheia de novos M-ATVs já a precisarem de
reparação, o contramestre pareceu realmente satisfeito por obter
aquele CD.
É uma medida do nosso sentido de poder, penso eu, que enquanto o Taliban
e seus aliados ainda vai à guerra usando as tradicionais calças
folgadas de algodão e camisas, nós americanos incessantemente
inventamos coisas para nos tornarmos mais "seguros". Uma vez que
ninguém pode estar seguro, ainda menos em guerra, todo novo
desenvolvimento está destinado a demonstrar-se insuficiente e quase
garantidamente a criar novos problemas.
Contudo, os americanos sentem-se com direito à segurança.
Portanto os MRAP foram concebidos para lidar com um duplo medo: bombas na
estrada (IEDs) e emboscadas. Fui treinada para ser passageira num MRAP, o que
nunca se concretizou. Mas no processo de treino aprendi onde estão os
apoios internos para aquelas ocasiões frequentes em que MRAPs muito
pesados rolam montanha abaixo.
O instrutor falou-me tão tranquilamente do que fazer no caso de um
despenhamento que quase me deu a impressão que se podia rodar dentro do
veículo, como um caiaque. Mas não, uma vez que ele role,
está condenado. Você tem de rastejar para fora e andar (chega de
protecção contra emboscada). Assim, um daqueles grandes
camiões que vimos na auto-estrada para Bagram tem de aparecer e
carregá-lo de volta para a base, onde o contramestre com aquele novo
manual de instruções em CD pode ter de repará-lo. Isto, em
suma, é a razão porque o MRAP de sete passageiros está a
ser substituído pelo M-ATV de cinco passageiros, um enorme
veículo blindado todo terreno não tão propenso a virar-se.
Contudo, como levam menos soldados, é preciso colocar mais destes
veículos na estrada e estou certa que já viu aonde leva isto.
Um benefício do nosso vício com material caro e no estado da
arte, tão falho quanto possa demonstrar-se, é que o fabricante
privado de armamentos agora ajuda a manter a nossa economia a sobreviver e
torna ricos alguns sujeitos da indústria militar. Uma desvantagem
é que embora seja difícil para soldados americanos na
linha de fogo perceberem isto realmente enfraquece a nossa apregoada
estratégia COIN. Os afegãos a combaterem nos seus pijamas de
algodão tomam a confiança ocidental no armamento pesado como uma
medida do nosso medo sem mencionar a inferioridade dos nossos deuses
sobre cuja protecção não parecemos confiar. (Em contraste,
o guarda na pequena base do Exército Nacional Afegão adjacente
à FOB que visitei dormia sobre um catre colocado no telhado, exposto ao
fogo inimigo com o seu bule de chá junto a si, confiando no seu deus ou
talvez sabendo algo que nós não sabemos acerca do
"inimigo".)
Todos os confortos da guerra
Na grande escala de bases americanas, pense-se de Bagram como uma cidade, de
bases secundárias como pequenas cidades, FOBs como condomínios
fortemente fechados em zonas rurais e COPs
(Combat Outposts)
remotos como campos que vocês não gostariam que os seus garotos
visitassem. Um FOB é, por definição, um lugar bastante
afastado, mas tenho de dizer com franqueza que quando o helicóptero me
despejou numa completa (e notavelmente pesada) armadura corporal e com capacete
de Kevlar no FOB que me foi destinado, aquilo não me pareceu de todo
como "a frente".
Eu deveria explicar que a minha imagem permanente da guerra vem das trincheiras
da I Guerra Mundial, da qual o meu pai voltou com um bocado de medalhas,
incapacidades para toda a vida e horríveis álbuns de fotos que
não me permitiam ver quando era criança. Naquela guerra, os
homens viviam durante meses a fio sem uma troca de uniforme, em trincheiras
lamacentas ou congeladas, infestadas com ratos e piolhos, muitas vezes em meio
aos seus próprios excrementos e os seus próprios mortos.
A linha de frente FOB onde aterrei e os seus soldados, em contraste,
está limpa. O crédito por isto vai em grande medida para as
equipes de trabalho extremamente baratas de filipinos, indianos, croatas e
outros atraídos de terras distantes por empreiteiros privados americanos
motivados pelo lucro para fazer as nossas tropas sentirem-se em casa estando
longe de casa. As ruas da base são dispostas em rede. Tendas em fileiras
certinhas são ladeadas por sacos de areia padrão empilhados e os
seus primos de grandes dimensões, torres altas cheias de rocha e lixo.
As tendas são arrefecidas por tornados barulhentos de ar condicionado,
graças ao equipamento alimentado a gasolina que custa ao Exército
cerca de US$105,68 por litro [74 por litro]. Os reabastecedores de
combustível gastam três a quatro horas por dia para reencherem
todo os geradores gigantes que mantém frio o ar, de modo que me senti
culpada quando, para não tiritar no sono, enfiei a minha toalha nas
condutas suspensas no tecto da minha tenda.
Edifícios mais permanentes estão a erguer-se e alguns, já
construídos pelos afegãos e considerados não
suficientemente bons para habitação americana, estão
programados para reconstrução. Mesmo em FOBs distantes como esta,
o boom de construções é prodigioso. Há um grande
ginásio com o mais recente equipamento de musculação e um
centro de levantamento de moral equipado com telefones e fileiras de
computadores conectados à Internet que estão quase sempre em
utilização. Uma messe que funciona 24 horas por dia e sete dias
por semana serve costeletas grelhadas, bifes e lagostas, embora seja tudo
cozinhado para além do reconhecimento por aqueles trabalhadores
sub-pagos para os quais esta culinária é absolutamente estranha.
Há uma lavandaria notavelmente rápida e, quanto às
toiletes e chuveiros só posso falar daquelas poucos designadas
por "Female" eram do melhor que já vi em qualquer lugar
no Afeganistão. Um aviso sugeria polidamente que limitasse o meu banho
de chuveiro a cinco minutos, um aceno à despesas de pagar a empreiteiros
motivados pelo lucro com a contratação de motoristas de
camião a fim de carregarem a água necessária e a seguir
despejar em localizações não reveladas a copiosa
efluência de latrinas americanas. (Em Bagram, aquela efluência vai
para um rio convenientemente próximo, uma fonte de água para
incontáveis afegãos). Os demais detritos deste FOB em
expansão são despejados num buraco e queimados, incluindo um
estarrecedor, mas não revelado, número de garrafas de
plástico para água. Tudo isto ajuda a explicar o custo anual de
manter um único soldado americano no Afeganistão, actualmente
estimado em um milhão de dólares.
Não me interpretem mal. Não estou a defender a porcaria das
trincheiras. Mas por que a guerra deveria ser disfarçada como um lar? Se
a guerra fosse sem disfarces tão odiosa e brutal como realmente
é, poderia tender a ser curta. Soldados livres de ilusões podem
amotinar-se, como muitos o fizeram no Vietname, ou desertar ou ir para casa.
Mas esta moderna espécie de pseudo-guerra confortável é
diferente.
Muitos jovens soldados contaram-me que realmente vivem melhor no
Exército, mesmo quando deslocados, do que na vida civil que tinham, onde
não podiam chegar ao fim do mês, especialmente quando tentavam
pagar a escola ou manter uma família a trabalhar em um ou dois empregos
de baixos salários. Eles não se amotinarão. Estão a
actuar melhor do que muitos dos seus amigos em casa. (E são dedicados, o
que os leva a actos de heroísmo pessoal, mesmo numa causa
temerária.) Eles provavelmente realistar-se-ão, embora muitos me
tenham contado que prefeririam deixar o Exército e ir trabalhar por
salários muito mais altos para empreiteiros privados do que ao
"serviço" da guerra americana.
Mas a coisa estranha é que nenhum parece questionar o relativo conforto
desta vida em guerra (nem a injustiça da vida civil sem
gratificação que abandonaram) e menos ainda aqueles
capazes de observar em primeira mão o contraste entre as nossas
guarnições e o humilde equipamento e condições de
vida dos afegãos, tanto amigos como inimigos. Ao contrário, o
contraste parece inspirar a muitos soldados uma apreciação
renovada do "nosso modo de vida americano" e uma
determinação de "fazer boas coisas" para o povo
afegão, assim como muitos sentem que o fizeram para o povo do Iraque.
Enfatizo tudo isto porque nada do que li acerca da instituição
militar me preparou para a extensão destes confortos ou o
tédio que os acompanha. Muitos soldados não saem da base. Eles
são responsáveis por tarefas administrativas, questões de
abastecimento, administração logística,
reparação de veículos ou rádios, reabastecimento de
geradores e camiões, projectos de plano de "desenvolvimento",
cuidar de assuntos públicos ou inscrever em mapas tácticos (em
certas localizações que sou obrigada a não nomear)
actualizações advertências como "Aqui há
dragões" ou "Aqui há coisas más". Eles
enfrentam o aborrecimento das tarefas comuns, não heróicas e
repetitivas.
A lesão mais comum que é provável sofrerem é uma
torção de tornozelo, graças ao tapete de rochas do
Afeganistão oriental. Na parede da clínica médica do FOB
há um poster com desenhos esquemáticos e instruções
para fortalecer tornozelos, uma parte anatómica não considerada
em qualquer das máquinas de educação física no
ginásio. Os médicos ministram um bocado de ibuprofen
[2]
e mantém o stock de muletas à mão.
O que está a acontecer?
Como isto é uma base de infantaria, a maior parte dos pelotões
aventura-se regularmente fora da cerca de arame e as incapacidades
características com que os soldados ficam é joelhos em mau estado
devido ao grande peso das coisas que usam e carregam. O comandante da
base recordou-me um dos princípios do COIN: a segurança deveria
ser estabelecida por meios não letais. Assim, a maior parte das
missões de infantaria são "patrulhas de
presença", descritas por um oficial como "passear em torno de
lugares onde não teremos tiros só para mostrar aos afs
(afegãos) que estamos a mantê-los seguros".
Eu própria fui para fora da cerca numa destas patrulhas de
presença, uma missão a uma aldeia e lamento dizê-lo
não foi um passeio amistoso. É tarefa de um soldado estar
"focado", isto é, observar nossos inimigos. Assim, não
podem ser "distraídos" a cumprimentar pessoas ao longo do
caminho ou a parar para conversar. Entrar numa aldeia para cumprimentar
anciões, por exemplo, pode parecer cordial ganhar
corações e mentes. Mas entrar impetuosamente com armas
destrói de imediato aquele sentimento amistoso. Falando como
alguém que visitou afegãos nas suas casas ao longo de anos, tenho
de dizer que esta abordagem não faz uma boa impressão. Ela
provavelmente não seria aceite tão pouco na sua própria
cidade natal.
Nem isto parece funcionar. Desde que os militares estado-unidenses adoptaram o
COI para "proteger a massa do povo", as baixas civis subiram 23%;
6000 civis afegãos foram mortos no ano passado (e isto é sem
dúvida uma subestimação). Não é de admirar
que a presença de tropas americanas deixe tantos afegãos a
sentirem-se não mais seguros mas sim mais em perigo e até inspire
alguns a tomarem armas contra o exército ocupante. Cada vez mais
frequentemente, pelo menos na área onde estive incorporada, a
presença de patrulhas não letais transforma-se num combate armado
letal.
Um dia, próximo ao fim da minha incorporação, observei o
oficial de assuntos públicos preparar uma fotografia de um soldado que
havia sido morto num combate e a afixá-la na parede do gabinete do
comandante junto às fotos com orlas negras de outros soldados. Esta
força combatente americana estivera colocada no FOB durante apenas umas
poucas semanas, tendo substituído um outro contingente, mas já
havia perdido oito homens. (Cinco soldados afegãos haviam sido mortos
igualmente, mas as suas fotos estavam notavelmente ausentes da galeria
memorial.) O Exército tira uma fotografia de cada soldado no
princípio do seu serviço, de modo que está no ficheiro
quando necessário; isto é, quando o soldado é morto.
A maior parte das bases e postos de combate americanos são nomeados em
honra de soldados americanos mortos. Quando um soldado é morto ou
"cai", como o Exército gosta de dizer o serviço
Internet e os telefones da base ficam desligados até que uma
delegação do Exército tenha batido à porta dos
membros sobreviventes da família. Assim, mesmo que você seja um
destes soldados que nunca deixa a base, você está sempre a ser
recordado do que está a acontecer ali. E então habitualmente ao
cair da noite alguns inimigos não observados nos picos em torno da base
começam a atirar contra ela e canhões americanos respondem com
granadas que levantam grandes nuvens de rocha e de pó nas montanhas com
o céu a escurecer.
Fazer bem para os afegãos
Na base eu ouvia conversas incessantes acerca do COIN, a "nova"
doutrina ressuscitada do desastre do Vietname com a esperança irracional
de que desta vez funcione. A partir da minha experiência no FOB, contudo,
fica bastante claro que o aspecto dos corações e mentes do COIN
já está irremediavelmente morto e uma prática generalizada
entre os militares que não tem sido relatada pelos outros jornalistas
incorporados ajudar a explicar porque. Assim, aqui está um exclusivo do
TomDispatch, cortesia dos homens afegão-americanos que servem como
intérpretes aos soldados. Eles estavam envergonhados quase ao ponto da
agonia quando mencionavam este hábito, mas desesperados por colocar um
fim a isto. O COIN apela aos militares para se encontrarem e fazerem amigos com
anciãos das aldeias, beberem chá, planearem
"desenvolvimento" e cativarem seus corações e mentes.
Contudo, vários intérpretes contaram-me que toda reunião
inclui alguns jovens soldados americanos, cujo estilo macho inclui
sessões características de peidos hilariantes.
Para o homem afegão, nada é mais vergonhoso. A flatulência
é a prova de que um homem não pode controlar nada do seu aparelho
abaixo da cintura. O homem que peida portanto não é um homem. Ele
não pode ser levado a sério, nem tão pouco quaisquer das
suas ideias, promessas ou planos.
Alegremente inconsciente de tais coisas, o Exército continua a planear
junto com os seus consultores civis (representantes do Departamento de Estado,
do Departamento da Agricultura e de vários empreiteiros independentes
que inventaram a chamada Equipe Humana de Terreno encarregada de interpretar a
cultura local e ajudar a ganhar os habitantes locais para o nosso lado). Alguns
falam de "construir infraestrutura", outros em promover "boa
governação" ou planear "desenvolvimento
económico". Esta é toda a conversa de "fazer bem"
e de "ajudar" o Afeganistão.
Numa típica confusão no terreno real do Afeganistão,
peritos do Exército anteriormente responsáveis por esta base
já tiveram um milhão de dólares para construir uma ponte
suspensa sobre um rio a alguma distância da mesma, mas não
pensaram em assegurar direitos territoriais, de modo que nenhuma estrada conduz
a ela. Agora o especialista local americano de agricultura quer introduzir a
alfafa nestas montanhas rochosas e sem água para alimentar manadas de
gado que pastoreiam sobretudo na sua mente.
No momento mesmo em que estava a encher o meu livro de notas com pormenores dos
seus esquemas ilusórios, o comandante da base contou-me que fora
forçado a "por de lado o desenvolvimento". Ele tinha as
mãos ocupadas enfrentando uma carnificina Taliban que não havia
esperado. Por todo o Afeganistão, os ataques insurgentes aumentaram 51%
desde a adopção oficial do COIN como a estratégia do dia.
Nesta frente oriental, onde o comandante esteve em serviço seis anos
atrás, ele agora enfrenta uma "alta" de
intimidação, assassínio, ataques suicidas, bombas em
estradas e combatentes com a maior capacidade técnica que ele já
viu no Afeganistão.
Poucos dias depois de falarmos, o comando do Afeganistão foi passado
para o general Petraeus, o canonizado reformador do manual de
contra-insurgência dos militares. Pergunto-me se o comandante da base
contou a Petraeus o que contou a mim então: "O que combatemos aqui
agora é uma guerra convencional".
Estive "na frente" desta guerra menos de duas semanas e já
preciso férias. Fora da cerca enchia-me de tristeza observar rapazes
sinceros, pesadamente armados e blindados tentarem persuadir afegãos de
barbas brancas homens de extraordinária dignidade que
já haviam visto tudo isso antes e sabiam o resultado.
Estar na base era tedioso, muitas vezes tenso e por vezes igualmente penoso
quando caíam soldados. Então o comandante da base, a pé,
escoltava os veículos blindados que retornavam de um combate do modo que
um antigo oficial de cavalaria podia entrar num forte de fronteira, conduzindo
um cavalo sem cavaleiro. A cena pareceria boa num filme de guerra de Hollywood:
entra naquele registo do Technicolor sentimental que parece imbuir com
significado heróico uma morte desnecessária e inútil.
Uma noite dormi fora de portas sob uma profusão de estrelas e uma lua em
crescente islâmico. Invisível na escuridão, eu não
podia deixar de ouvir um soldado que saiu para telefonar para casa do seu
celular. "Eu realmente precisava conversar consigo hoje", dizia ele e
então, a tropeçar na sua busca de palavras, veio abaixo.
"Não", disse finalmente, "estou bem. Telefonarei outra
vez depois".
No dia seguinte, carregando meu capacete e minha armadura debaixo do
braço, embarquei num helicóptero e voei para longe.
NR
[1] Trocadilho com
embedded
(jornalista incorporado às tropas).
[2] Analgésico.
[*]
Autora de
Kabul in Winter: Life Without Peace in Afghanistan
. Seu próximo livro acerca de mulheres em zonas de conflito,
War Is Not over When It's over: Women and the Unseen Consequences of Conflict
, sairá em Setembro.
O original encontra-se em
www.tomdispatch.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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