Criar, duas, três, muitas Saigons
Queridos amigos e amigas,
Saudações do
Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
.
No domingo, 15 de agosto, o presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani,
fugiu do seu país em direção ao Uzbequistão. Ele
deixou para trás uma capital, Cabul, que já havia caído
nas mãos das forças do Talibã. O ex-presidente Hamid
Karzai
anunciou
que formou um conselho de coordenação com Abdullah
Abdullah, chefe do Comité de Reconciliação Nacional, e o
líder jihadista Gulbuddin Hekmatyar. Karzai
pediu
prudência ao Talibã ao entrar no palácio
presidencial de Cabul e assumir o comando do Estado.
Karzai, Abdullah Abdullah e Hekmatyar pediram a formação de um
governo nacional. Isso servirá ao Talibã, já que permite
reivindicar um governo afegão em vez de um governo Talibã. Mas
é Talibã e seu líder, Mullah Baradar, que efetivamente
estarão no comando do país, com Karzai-Abdullah
Abdullah-Hekmatyar na fachada para aplacar as potências estrangeiras
oportunistas.
A entrada do Talibã em Cabul é uma grande derrota para os Estados
Unidos. Poucos meses depois de os EUA iniciarem sua guerra contra o
Talibã em 2001, o então presidente George W. Bush
anunciou
: "o regime do Talibã está chegando ao fim". Vinte anos
depois, o inverso se faz evidente. Mas essa derrota dos EUA depois
de
gastar 2,26 milhões de milhões de dólares
e causar pelo menos 241 mil mortes é um consolo frio para
o povo do Afeganistão, que agora terá que enfrentar a dura
realidade do governo do Talibã. Desde a sua formação no
Paquistão em 1994, nada de progressista pode ser encontrado nas palavras
e atos do Talibã ao longo de sua história de quase trinta anos.
Nem nada de progressista pode ser encontrado na guerra de vinte anos que os EUA
levaram a cabo contra o povo afegão.
Em 16 de abril de 1967, a revista cubana Tricontinental publicou um
artigo de Che Guevara
intitulado "Criar dois, três, muitos Vietnames: essa é
a nossa palavra de ordem". Guevara argumentou que a pressão sobre o
povo vietnamita precisava ser aliviada por guerrilhas em outros lugares. Oito
anos depois, os EUA fugiam do Vietname, enquanto funcionários
estado-unidenses e seus aliados vietnamitas embarcavam em helicópteros
do telhado do prédio da CIA em Saigon.
A derrota dos EUA no Vietname ocorreu durante uma série de reveses do
imperialismo: Portugal foi derrotado no ano anterior em Angola,
Guiné-Bissau e Moçambique; trabalhadores e estudantes expulsaram
a ditadura da Tailândia, abrindo um processo de três anos que
culminou no levante estudantil em 1976; os comunistas assumiram o poder no
Afeganistão durante a Revolução de Saur em abril de 1978;
o povo iraniano abriu um processo de um ano contra o ditador apoiado pelos
Estados Unidos, o xá do Irão, que levou à
revolução de janeiro de 1979; o Movimento New Jewel conduziu uma
revolução na pequena ilha de Granada; em junho de 1979, os
sandinistas invadiram Manágua (Nicarágua) e derrubaram o regime
de Anastasio Somoza, apoiado pelos estado-unidenses. Essas foram algumas entre
as muitas Saigons, as muitas derrotas do imperialismo e as muitas
vitórias de uma forma ou de outra da libertação nacional.
Cada um desses avanços veio com uma tradição
política e um ritmo diferente. A revolta popular mais poderosa foi no
Irão, embora não tenha resultado em uma dinâmica
socialista, mas em uma democracia clerical. Cada um deles enfrentou a ira dos
Estados Unidos e de seus aliados, que não permitiram que esses
experimentos a maioria deles de natureza socialista germinassem. Uma ditadura
militar foi encorajada na Tailândia em 1976, guerras por
procuração foram iniciadas no Afeganistão e na
Nicarágua, e o Iraque foi pago para invadir o Irão em setembro de
1980. O governo dos EUA tentou por todos os meios negar a soberania a esses
países e devolvê-los à subordinação em escala
total.
O caos veio em seguida, por meio de duas frentes: a crise da dívida e as
guerras por procuração. Depois que os países não
alinhados aprovaram uma resolução da Nova Ordem Económica
Internacional (NOEI) na Assembleia Geral das Nações Unidas, em
1974, eles se viram pressionados pelas instituições financeiras
dominadas pelo Ocidente, incluindo o Fundo Monetário Internacional e o
Departamento de Tesouro dos Estados Unidos. Essas instituições
conduziram os Estados não alinhados a uma profunda crise de
dívida; o México deixou de pagar sua dívida em 1982 e
inaugurou a atual Crise da Dívida do Terceiro Mundo. Além disso,
após a vitória das forças de libertação
nacional na década de 1970, uma nova série de guerras por
procuração e operações de mudança de regime
foram iniciadas para desestabilizar a política na África,
Ásia e América Latina por duas gerações.
Ainda não saímos da destruição causada pela
política ocidental dos anos 1970.
A insensibilidade ocidental em relação ao Afeganistão
define a natureza da contra-revolução e do intervencionismo
liberal. O presidente dos EUA, Jimmy Carter, decidiu colocar recursos imensos
nos piores elementos da política afegã e trabalhar com o
Paquistão e a Arábia Saudita para destruir a República
Democrática do Afeganistão (RDA), que durou de 1978 a 1992
(rebatizada de República do Afeganistão em 1987).
Anos após a queda da República do Afeganistão,
encontrei-me com Anahita Ratebzad, que havia sido ministra no primeiro governo
do RDA, para perguntar-lhe sobre aqueles primeiros anos. Enfrentamos graves
desafios, tanto internos daqueles que tinham uma visão social
reacionária como de fora de nossos adversários nos Estados
Unidos e no Paquistão, disse. Meses depois de assumirmos o cargo em
1978, sabíamos que nossos inimigos se haviam unido para nos debilitar e
impedir a chegada da democracia e do socialismo ao Afeganistão. Ratebzad
foi acompanhada por outras líderes femininas importantes, como Sultana
Umayd, Suraya, Ruhafza Kamyar, Firouza, Dilara Mark, Professor R. S. Siddiqui,
Fawjiyah Shahsawari, Dra. Aziza, Shirin Afzal e Alamat Tolqun nomes há
muito esquecidos.
Foi Ratebzad quem escreveu no
Kabul New Times
(1978) que os privilégios que as mulheres, por direito, devem ter
são educação igual, segurança no emprego,
serviços de saúde e tempo livre para criar uma
geração saudável para construir o futuro do país.
(...) Educar e esclarecer as mulheres é agora objeto de
atenção especial do governo. A esperança de 1978
está perdida.
O pessimismo não deve ser atribuído apenas em
relação ao Talibã, mas também àqueles como
os EUA, Arábia Saudita, Alemanha e Paquistão que financiaram e
apoiaram os fascistas teocráticos semelhantes ao Talibã. Na
poeira da guerra dos EUA, que começou em 2001, mulheres como Anahita
Ratebzad foram empurradas para baixo do tapete; convinha aos EUA ver as
mulheres afegãs como incapazes de ajudar a si mesmas e, portanto,
precisavam do bombardeio aéreo dos EUA e da entrega
extraordinária dos EUA a Guantánamo. Também convinha aos
EUA negar seus vínculos ativos com os piores teocratas e
misóginos (pessoas como Hekmatyar, que não são diferentes
dos talibãs).
Os EUA financiaram os mujahideen, minaram a RDA, atraíram a
relutante
intervenção soviética em Amu Darya e aumentaram a
pressão tanto sobre os soviéticos quanto sobre a RDA, tornando as
forças contra-revolucionárias afegãs e a ditadura militar
do Paquistão peões em uma luta contra a URSS. A retirada
soviética e o colapso da RDA levaram a um cenário ainda pior com
uma sangrenta guerra civil, da qual emergiu o Talibã. A guerra dos
Estados Unidos contra o Talibã durou vinte anos, mas apesar da
tecnologia militar superior dos Estados Unidos levou à derrota
dos Estados Unidos.
Imagine se os Estados Unidos não tivessem apoiado os mujahideen e se os
afegãos pudessem considerar a possibilidade de um futuro socialista.
Isso teria sido uma luta com seus próprios ziguezagues, mas certamente
teria resultado em algo melhor do que o que temos agora: o retorno do Talibã,
o açoite de mulheres em público e a aplicação dos
piores códigos sociais. Imagine isso.
A derrota do poder estado-unidense não vem necessariamente nos dias de
hoje com a possibilidade do exercício da soberania e do avanço de
uma agenda socialista. Em vez disso, vem por meio do caos e do sofrimento. O
Haiti, como o Afeganistão, é parte dos detritos do
intervencionismo estado-unidense, atormentado por dois golpes dos EUA, uma
ocupação de sua vida política e económica, e agora
por outro terremoto. A perda no Afeganistão também nos lembra a
derrota dos Estados Unidos no Iraque (2011); esses dois países
enfrentaram o feroz poder militar dos EUA, mas não seriam subordinados.
Tudo isso elucida tanto a fúria da máquina de guerra
estado-unidense, capaz de demolir países, quanto a fragilidade de seu
poder, incapaz de moldar o mundo à sua imagem. O Afeganistão e o
Iraque desenvolveram projetos estatais ao longo de centenas de anos. Os EUA
destruíram seus Estados em uma tarde.
O último presidente de esquerda no Afeganistão, Mohammed
Najibullah, tentou construir uma Política de Reconciliação
Nacional na década de 1980. Em 1995, ele
escreveu
à sua família: "o Afeganistão tem vários
governos agora, cada um criado por diferentes potências regionais.
Até Cabul está dividida em pequenos reinos (
) a menos e
até que todos os atores [potências regionais e globais] concordem
em sentar-se à mesma mesa, deixar suas diferenças de lado para
chegar a um consenso genuíno sobre a não interferência no
Afeganistão e cumprir seu acordo, o conflito vai continuar". Quando
o Talibã conquistou Cabul em 1996, eles capturaram o presidente Najibullah e o
mataram do lado de fora do complexo da ONU. Sua filha, Heela,
contou-me
alguns dias antes de o Talibã tomar Cabul sobre suas esperanças
de que a política de seu pai fosse agora adotada.
O apelo de Karzai é em vão. É improvável que seja
genuinamente adotado pelo Talibã.
O que moderará o Talibã? Talvez a
pressão
de seus vizinhos incluindo a China que têm
interesses em um Afeganistão estável. No final de julho, o
ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, encontrou-se
com Baradar em Tianjin. Eles concordaram em que a política dos EUA falhou.
Mas os chineses pediram que Baradar fosse pragmático: não
apoiasse mais o terrorismo e integrasse o Afeganistão à Nova Rota
da Seda. No momento, esta é a única esperança, mas
sustentada por um fio frágil.
Em julho de 2020, o ex-ministro do governo da República
Democrática do Afeganistão (RDA) e poeta Sulaiman Layeq morreu em
decorrência dos ferimentos sofridos num atentado do Talibã em
Cabul no ano anterior. O poema Eternal Passions [Paixões eternas] de
Layeq (1959) descreve o anseio por aquele mundo diferente que ele e tantos
outros trabalharam para construir, um projeto que foi obliterado pelas
intervenções dos EUA:
O som do amor
Transbordou dos corações
Vulcânico, bêbado
&
Anos se passaram
E ainda assim esses desejos
Como o vento na neve
Ou como as ondas sobre a água
gritos de mulheres, lamentadoras
Os afegãos estão muito contentes de ver o fim da
ocupação dos EUA, de ser mais uma Saigon numa longa
sequência. Mas isso não é uma vitória da humanidade.
Não será fácil para o Afeganistão emergir destas
décadas de pesadelo, mas o desejo de fazê-lo ainda pode ser ouvido.
Cordialmente,
Vijay.
[*]
Director do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
O original encontra-se em
thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-33-afeganistao/
Esta carta encontra-se em
https://resistir.info/
.
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