AR inicia o debate da Lei da Água
Governo, conivente com PSD e CDS, esconde suas intenções
Querem a instauração de um mercado selvagem da água
Barreira de silêncio na AR e nos media
Sítio web da AR esconde projecto de lei do PCP
Na próxima sexta-feira, dia 1 de Julho de 2005, às 15h00, a
Assembleia da República inicia o debate da Lei da Água, que lhe
compete elaborar.
Serão discutidas na generalidade os Projectos de Lei apresentados pelos
Grupos Parlamentares e as Propostas de Lei do Governo. A discussão
na especialidade será feita em sede de Comissão Especializada
para o Poder Local, Ambiente e Ordenamento do Território, incidindo
apenas
nos diplomas que a Assembleia da República aprovar na generalidade.
A discussão da Lei da Água na Assembleia da República foi
uma vitória dos cidadãos, defendida tenazmente pela
Associação Água Pública, que não conseguiu,
no entanto, que esta apresentação fosse precedida do debate
público aberto e da consulta institucional e de
associações de cidadãos que julgamos indispensável,
pela importância fundamental da água na vida de todos, nos
sectores produtivos, nos sistemas ecológicos e na
viabilização de um futuro habitável.
Lutamos agora contra o processo concertado de transformar esta sessão do
órgão máximo Legislativo Português no simples
carimbo de avalização do mesmo projecto que contestámos em
Dezembro de 2003, e que aparece agora, em três cópias
gémeas, pelas mãos do Governo PS, pelas do
PSD
e pelas do
CDS
.
A Associação Água Pública contactou os restantes
três partidos com assento parlamentar, sabendo que nem o PEV nem o BE
apresentaram até à data projectos de Lei da Água,
não estando no entanto ainda excluída por este último a
hipótese de apresentação de um diploma. Mas
há pelo menos um projecto alternativo em discussão.
O PCP apresentou no dia 23 de Junho o
Projecto de Lei de Bases da Água
que é uma verdadeira alternativa à "proposta
única" e que será debatido na sessão plenária
da Assembleia da República de 1 de Julho.
O
Projecto de Lei de Bases da Água
foi entregue na Assembleia da República em data anterior à
Proposta do Governo, e ficou disponível no portal da internet do
Parlamento, com a designação Projecto de Lei 119/X, na
véspera de ser disponibilizada a proposta do Governo,
não
constando no entanto até hoje (27/Junho/12h00) da listagem apresentada
na página da Comissão Especializada para o Poder Local, Ambiente
e Ordenamento do Território, onde figuram os projectos do CDS e do
Governo.
O Grupo Parlamentar do PCP fez uma conferência de imprensa no dia 23 de
Junho sobre o "Projecto de Lei de Bases da Água", a que
estiveram presentes jornalistas de diversos órgãos de
comunicação de grande tiragem, mas a Associação
Água Pública não conseguiu encontrar a mais breve
referência em nenhum jornal nos dias seguintes.
Alertamos todos os cidadãos e particularmente aqueles que são
"utilizadores" da água não apenas nas
funções biológicas como pelo sector produtivo em que se
integram, para a distorção que está a ser feita ao
processo democrático para a imposição autoritária
da mercantilização absoluta e selvagem da água da
natureza, impedindo todo o debate, e até o conhecimento da
existência, de formas alternativas de administração da
água.
Lembramos como foram silenciadas todas as vozes dissonantes desde Dezembro de
2003 até hoje.
Lembramos que o Governo PS aprovou em Conselho de Ministros em Junho deste ano
a cópia do projecto do governo anterior na sua
versão de dezembro de 2003
decomposta em dois diplomas
"Lei Quadro da Água"
e
"Titularidade do domínio hídrico"
, com anúncio retumbante nos media sobre a
"aprovação", e omitindo frequentemente a
"proposta", induzindo a larguíssima maioria dos leitores
à convicção de facto consumado, como se a
legislação sobre o domínio público não fosse
competência exclusiva da Assembleia da República.
A Associação Água Pública condena vivamente a
mistificação com que os interesses de apropriação
da água e exploração desenfreada das pessoas têm
ocultado do conhecimento público o verdadeiro conteúdo da Lei que
pretendem impôr, o bloqueio sistemático a todas as tentativas de
alerta e o silenciamento da existência de alternativas.
A Associação condena o conteúdo do projecto
"único" perfilhado pelos três Governos sussessivos desde
2003, e cujo teor autoritário, de mercantilização absoluta
e de desrespeito pelos direitos dos cidadãos, tem vindo a denunciar
desde Janeiro de 2003.
Sem prejuízo da abertura, que manterá sempre, a novas propostas e
soluções no concreto, a AAP acolhe com muita
satisfação o "Projecto de Lei de Bases" do PCP como a
única alternativa até hoje, que dá soluções
às preocupações que temos expressado, proporcionando o
enquadramento jurídico necessário à segurança e
protecção dos direitos das pessoas, às
funções ecológicas da água assim como às
suas utilizações no processo produtivo, um enquadramento adequado
à defesa do futuro.
O "Projecto de Lei de Bases" do PCP deve baixar à
discussão na especialidade e ser presente à discussão
pública e institucional, pelo menos a par com a "proposta
única" do Governo PSD CDS. Os Portugueses
têm o direito de conhecer as alternativas e de se pronunciar sobre elas.
O debate de sexta feira corre risco de ser o último acto legislativo da
Assembleia da República no domínio da água. Se a
votação impedir o Projecto do PCP de permanecer como alternativa
na construção da nova Lei da Água e acolher a
"proposta única", assina o cheque em branco nela contido de
autorização legislativa permanente para o Governo legislar sobre
o domínio público hídrico, incluindo a transferência
de bens do domínio público para o privado por simples despacho
ministerial.
A Associação Água Pública apela a todas as pessoas
para se informarem do que está em causa, tomarem conhecimento dos
projectos em debate, e exigirem a participação nesta
decisão.
Apela a que todos assistam ao debate das propostas no dia 1 de Julho na
Assembleia da República.
Apela aos órgãos de comunicação sérios,
formais e informais, para a quebra da barreira do silêncio, para a
divulgação deste comunicado e das alternativas que estão
em debate.
Apela aos Senhores Deputados à Assembleia da República para uma
votação no sentido do interesse dos portugueses e da defesa do
futuro comum.
Lisboa, 27/ 06/ 2005
[*]
Comunicado nº 5, emitido pela
AAP
em 27/Junho/2005.
Este comunicado encontra-se em
http://resistir.info/
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