por Associação Água Pública
Celebramos este Dia Mundial da Água no dia em que termina, na Cidade do
México, o 4º fórum do autodenominado "Conselho Mundial
da Água".
O "Conselho Mundial da Água" é uma
organização dominada pelos interesses financeiros dedicados
à apropriação e à exploração
especulativa dos recursos hídricos do planeta, onde têm assento
permanente as maiores transnacionais do sector.
Com o apoio do FMI (Fundo Monetário Internacional), tem liderado a
imposição da privatização da água,
especialmente como condição de acesso a financiamentos
estratégicos.
Os mesmos interessados têm também obtido a aprovação
pela OMC (Organização Mundial do Comércio) de regimes de
protecção que asseguram a rentabilidade dos negócios da
água e oneram pesadamente a reversibilidade das
privatizações.
O "Conselho Mundial da Água" tem exercido um domínio
ilegítimo sobre as políticas mundiais e regionais da água,
com o objectivo de impor a supremacia do poder económico privado
à soberania dos povos e ao controlo democrático no acesso e
gestão da água.
Na UE têm assento permanente em órgãos consultivos as
maiores transnacionais da água, creditadas entre os cerca de cinco mil
"lobbies" oficialmente aceites como interlocutores nas
decisões comunitárias. É patente a sua influência
nas políticas europeias da água. Particularmente
atentatória de uma larga gama de direitos dos cidadãos, a
"Directiva dos serviços", mais conhecida como "Directiva
Bolkestein", que está actualmente em processo de
aprovação, inclui clausulado propiciando a
instituição de monopólios privados de
captação de água e de controlo dos serviços de
abastecimento nos Estados Membros.
Os mesmos interesses financeiros de domínio sobre a água tem tido
influência incontestável na política do nosso País,
cujos Governos e maiorias parlamentares se têm antecipado a eventuais
imposições externas na aprovação de
legislação e adopção de medidas de favorecimento
desses interesses.
A política da água portuguesa há mais de uma década
tem tido um único sentido: a expoliação dos direitos
à água dos portugueses e o estabelecimento de negócios a
entregar, mais tarde ou mais cedo, aos poderosos interesses que dominam o
"Conselho Mundial da Água".
De 1988 a 1995 sucederam-se as alterações legislativas que deram
aso ao início da privatização dos serviços de
abastecimento de água, recolha e tratamento de águas residuais.
A soberania e responsabilidade pública sobre as grandes infraestruturas
de controlo e gestão da água (barragens, condutas e outras
instalações públicas) foi sendo sucessivamente
diluída e transferida para Sociedades Anónimas e
participações privadas, como a EDIA SA e a EDP SA que actualmente
controlam físicamente e de facto, embora sem concessão legal,
bacias hidrográficas inteiras, práticamente todas as reservas de
água superficial do país e a produção
hidroeléctrica. O grupo Águas de Portugal SA controla a
captação de água para abastecimento público
à maioria dos portugueses. E também a administração
dos portos nacionais tem vindo a ser transferida para sociedades
anónimas.
As duas leis aprovadas na Assembleia da República em 29 de Setembro de
2005, a "Lei Quadro da Água" e a "Lei da Titularidade dos
Recursos Hídricos", que oportunamente a Associação
Água Pública, outras associações de cidadãos
e partidos políticos contestaram vivamente, são peças
fundamentais para legalização e institucionalização
do domínio das sociedades anónimas e de outras muito grandes
empresas sobre a água, e à garantia da rentabilidade do
negócio.
A continuação do processo está agora nas mãos do
Governo, através da publicação de decretos regulamentares
e da elaboração dos contratos de concessão.
Juntou-se recentemente a estes instrumentos o PEAASAR II, "Plano
estratégico do sector das águas", que consuma um violento
ataque ao direito universal à água potável. Esse
"plano", preparado pelo grupo AdP numa perspectiva exclusiva de
rentabilização financeira da empresa e que não apresenta
uma única medida física nem territorial, assume a exclusão
de povoações inteiras dos serviços públicos de
água, ataca as competências autárquicas na
prestação de serviços de água e no estabelecimento
de preços sociais, viola o princípio da subsidariedade e pretende
inviabilizar a possibilidade de controlo democrático sobre esses
serviços essenciais.
Neste dia mundial da água, apelamos a que se unam a nós na
exigência de outra política da água.
Exigimos o reconhecimento do direito de cada pessoa à água
potável e ao saneamento e a obrigatoriedade de o Estado lho
proporcionar, independentemente da sua condição económica
ou social.
Exigimos que o Estado cumpra as tarefas que a Constituição lhe
acomete de administração e protecção da
água, das utilizações que dela dependem, assim como do
território envolvente. Exigimos uma política que proporcione a
segurança das pessoas, dos ecossistemas, dos recursos naturais e dos
bens públicos e particulares em relação a acidentes
naturais ou provocados. Exigimos a propriedade e gestão pública e
participada da água, das infraestruturas essenciais e dos
serviços de água. Queremos o cumprimento da
legislação de protecção e vigilância da
qualidade da água, especialmente das origens de água para consumo
humano. Recusamos que o nosso país seja cada vez com maior
frequência assolado por cheias, secas, incêndios e acidentes de
poluição, sempre imprevistos e de efeitos cada vez mais graves.
Exigimos segurança. Exigimos participar nas decisões sobre a
água, que as decisões sejam tomadas ao nível
geográfico de maior desagregação viável e mais
próximo dos cidadãos.
Exigimos uma lei e uma política da água que assegure as suas
funções sociais, ecológicas e económicas, hoje e no
futuro.
Saudamos todos os que têm lutado por uma política da água
ao serviço das pessoas, em todo o Mundo e também em Portugal.
Solidarizamo-nos com as campanhas em todo o mundo pela água para todos e
pelo direito à água.
Regozijamo-nos com as vitórias já conseguidas no Uruguai, na
Bolívia, no Gana, na Holanda, na Bélgica, no Brasil e em outros
países, e essas vitórias dão-nos mais confiança
para vencer também em Portugal.
Os dez mil subscritores do abaixo-assinado contra a privatização
da água e as dezasseis mil assinaturas recolhidas em cerca de duas
semanas a pedir a suspensão da aprovação da Lei Quadro,
mostram que "muitos" não são ainda
"suficiente".
Apelamos a que mais e mais pessoas tomem posição e se juntem a
nós, até conseguirmos que a água de todos seja, de facto,
para todos.
A Associação Água Pública
O original encontra-se em
http://aguapublica.no.sapo.pt/
Esta declaração encontra-se em
http://resistir.info/
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