Água é direito universal, não é do capital
Nos dias 18 a 23 de março realizou-se em Brasília o chamado
Fórum Mundial da Água (FMA), que, contando com o
patrocínio do governo ilegítimo e de transnacionais como BRK,
Ambev, Nestlé, Coca-Cola e Aegea, recebeu ampla visibilidade da
mídia capitalista. O FMA tratou-se de um evento exclusivista, com
ingresso de R$ 1 mil para participação dos debates, verdadeiro
"fórum das corporações" que, por trás dos
discursos tecnicistas e de preocupação ambiental, veio ao Brasil
para vender a ideia liberal de que o Estado "fracassou" na
gestão da água e que, para ser usada racionalmente, a água
deveria ser privatizada e mercantilizada.
Por trás de tal discurso existe o contexto de crise global do
capitalismo, que obriga o capital a encontrar novos espaços para
despejar capitais excedentes e extrair mais-valia, bem como buscar discursos
que legitimem tal prática. E as águas brasileiras são um
dos alvos prioritários desse avanço. Pois o setor de saneamento
nacional ainda é majoritariamente público (atualmente, apenas 6%
dos municípios possuem tratamento de água e esgoto em mãos
privadas), setor que emprega diretamente mais de 200 mil trabalhadores (enorme
massa pronta para produzir mais-valia ao capital) e acumula
insuficiências (notadamente, as perdas de água e a baixa cobertura
dos serviços de esgoto) exploradas pelos privatistas e representantes do
capital com o discurso das crises fiscal e hídrica.
É importante frisar que o Brasil detém sozinho 12% das reservas
de água potável do mundo, possui reservas subterrâneas
capazes de abastecer o mundo todo por mais de 300 anos e que, além
disso, possui condições únicas para desenvolver toda uma
cadeia produtiva em torno da água (terras férteis, sol,
minérios, mão de obra). Tudo isso faz com que, atualmente, a
conquista das águas do Brasil seja central para o grande capital
transnacional, que encontra no FMA o espaço ideal para articular a
transformação da água em mercadoria.
Com o objetivo de preparar a resistência à
privatização e mercantilização da água,
movimentos sociais, sindicatos e entidades da cidade e do campo promoveram em
Brasília, entre os dias 17 a 22 de março, o Fórum
Alternativo Mundial da Água (
FAMA
), evento que, sem qualquer apoio do governo federal e enfrentando a censura da
mídia privada, reuniu cerca de 7.000 participantes de mais de trinta
países para o debate e a organização da
atuação conjunta em defesa do direito dos povos ao acesso
à água.
Momento enriquecedor de troca de experiências, de solidariedade
internacionalista e de encontro de diversas culturas e visões sobre o
papel da água na sociedade, o FAMA proporcionou diversas
lições importantes:
A primeira delas diz respeito ao que significa a crise hídrica vivida em
diversos Estados brasileiros. Esta é parte provocada pela
depredação capitalista de rios e nascentes, parte
"fabricada" deliberadamente pela falta de investimento
público, na lógica de se "criar dificuldades para se vender
facilidades", ainda que a "facilidade" em questão seja um
bem essencial à vida. O Estado brasileiro é um Estado
capitalista, e como tal sempre buscará beneficiar o capital privado, nem
que para isso tenha de "sabotar" a si mesmo através do
sucateamento, da má-gestão, da falta de investimentos, da
terceirização ou das "parcerias"
público-privadas. Isso explica por que governos
democrático-populares como os de Agnelo Queiroz (DF) e Wellington Dias
(PI), ambos do PT, se empenharam na precarização e até
privatização do saneamento. Daí se percebe que não
basta lutar pela (re)estatização da água; é
preciso, também, lutar por uma estatização com amplo,
eficaz e transparente controle social pelo povo trabalhador, única forma
de garantir que a água seja não apenas pública, mas
também seja um direito e não uma mercadoria.
Em segundo lugar, destrói-se o mito de que a água é um
recurso renovável. Menos de 3% da água do mundo é
potável, sendo que quase 70% desta água se encontra congelada nas
calotas polares; do que resta, 96% se encontra não acima, mas abaixo da
superfície: são as águas subterrâneas e os
aquíferos, que já são responsáveis por mais de 60%
do abastecimento doméstico no Brasil. O problema é que o processo
de renovação das águas subterrâneas (chamado de
recarga) por vezes ocorre muito lentamente, como no caso do Aquífero
Guarani (um dos maiores do mundo, localizado em sua grande maioria no Brasil),
que estima-se ter levado cem mil anos para ser formado. Isso, somado ao
crescente desmatamento do solo e degradação das nascentes, faz
com que a água potável seja atualmente tão
"renovável" quanto o petróleo! Derruba-se,
também, o mito de que o desperdício de água estaria no
consumo doméstico e que, portanto, seria culpa do povo. Na verdade, mais
de 70% da água do mundo é gasta na agricultura, mais de 20% na
indústria e somente 8% no consumo humano direto isso tudo para
alimentar um modo de produção que desperdiça pelo menos um
terço de toda a comida produzida no mundo e que induz ao consumismo
desenfreado ao medir a "felicidade" pelo nível de consumo.
Fica, assim, evidente o recorte de classe em torno da água: o
capitalista explora quase toda a água de forma predatória, mas
é o trabalhador quem "desperdiça" e tem de fazer
racionamento!
Outra lição importante a se tirar do FAMA é que, quando se
fala que a água será a causa das guerras do futuro, é
preciso compreender que esse futuro já chegou. No Brasil e no mundo, o
Estado capitalista move uma verdadeira guerra contra os povos (especialmente
comunidades tradicionais como indígenas, quilombolas e pescadores) que
buscam seu direito à água e sofrem com a destruição
causada por grandes "empreendimentos" poluidores, bem como a
repressão do Estado que prende, tortura e assassina lideranças
sociais em todos os continentes. Casos emblemáticos são os do
Chile (onde a escassez natural do recurso contrasta com a enorme
exportação de água proporcionada pelo agronegócio,
fruto da total privatização da água imposta pela ditadura
Pinochet, que intensifica os conflitos e faz com que o país tenha as
tarifas de água mais caras da América Latina), da Colômbia
(nação açoitada por mineradoras poluentes, que possui o
maior número de refugiados políticos do hemisfério
ocidental e que, só este ano, já registrou o assassinato de uma
centena de ativistas) e Palestina (cuja água é roubada pelo
exército de ocupação israelense, que destrói
estruturas de coleta e armazenagem de água dos palestinos e obrigam o
povo palestino a comprar por preços exorbitantes a água que
é deles mesmos).
Também no Brasil há muita repressão, mas também
resistência: em Caetité (BA), onde a poluição dos
mananciais trazida pela mineração de urânio (por sinal,
movida por empresa pertencente ao Estado capitalista, a Indústrias
Nucleares do Brasil) faz com que a população local tenha uma das
maiores incidências de câncer do país; em Mariana (MG), onde
mais de dois anos após o rompimento de barragem da mineradora privada
Samarco/Vale ter provocado um desastre ambiental que vitimou e desalojou
centenas de pessoas, a maioria das vítimas ainda não receberam
qualquer reparação; no Pará, onde a
mineração de bauxita da corporação norueguesa Hydro
polui rios e assassina militantes sociais; no sertão do Nordeste, onde a
Transposição do Rio São Francisco, obra faraônica
iniciada pelo governo Lula (PT), ameaça trazer danos
irreversíveis ao Velho Chico e visa tão somente beneficiar o
agronegócio, conforme apontado por entidades da região que
denunciam a "indústria da seca" e defendem a convivência
com o semiárido como solução social e ambientalmente
sustentáveis para a seca; e no Brasil como um todo, onde os planos do
governo ilegítimo de privatização da Eletrobrás
ameaçam seriamente a condição de água como direito,
uma vez que a matriz energética brasileira é essencialmente
hidráulica.
Por outro lado, apesar do crescimento dos ataques, descobre-se que a luta muda
sim a vida. Muda através da reestatização de mais de 250
sistemas de abastecimento na Europa e América Latina nos últimos
quinze anos, demonstrando que a tendência de privatização
apontada no Brasil vai na contramão do mundo. Muda com vitórias
populares expressivas em referendos no Uruguai (2004), Itália (2011) e
Tessalônica, na Grécia (2014) que barraram, ainda que
temporariamente, a privatização da água nesses locais.
Muda com a grande vitória da Guerra da Água do ano 2000 na
Bolívia, que não somente reverteu a privatização da
água em Cochabamba e em todo o país como também
representou a largada para a ascensão do governo progressista de Evo
Morales. Muda ao fazer recuar até mesmo aqueles que não se
importam minimamente com a vontade popular: foi assim que a Medida
Provisória preparada pelo governo Temer para destravar a
privatização da Companhia Estadual de Saneamento do Rio de
Janeiro (Cedae) e demais empresas públicas do Brasil fosse abandonada,
ainda que o governo golpista prepare agora projeto de lei para
"modernizar" o saneamento, ou seja, privatizar as companhias
estaduais do setor e mercantilizar ainda mais as fontes de água. Estes
são exemplos da grande lição proporcionada pelo FAMA: que
a defesa da água enquanto direito universal, um dos mais importantes
enfrentamentos deste século, está apenas começando; e que
os povos podem vencer essa batalha com força e persistência,
somente se souberem somar esta causa à luta pela superação
do modo de produção capitalista.
24/Março/2018
Ver também:
A calúnia das alegadas "perdas de água" no abastecimento público
[*]
Funcionário da Companhia de Saneamento de Santa Catarina (Casan) e
militante do PCB.
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/19160/agua-e-direito-universal-nao-e-do-capital
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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