Por uma agricultura patriótica, popular e (portanto) ecológica!

por Guillaume Suing [*]

Nos países imperialistas do Norte, tal como nos países semicolonizados do Sul, a questão "ecológica" é sempre mal colocada. Parte do ponto de vista do consumidor sem nunca colocar a questão da luta de classes nas relações de produção. É por essa razão que a ecologia, no plano político, se tornou numa deformação da luta militante, muito oportuna para a burguesia, que passa o tempo (e consagra uma parte do seu capital) a desviar as acusações. Os maiores produtores de embalagens plásticas, por exemplo, (a começar pela Coca Cola americana) são os protagonistas de toda as campanhas de limpeza benevolente das praias e de publicidades que criminalizam os consumidores "poluidores" a fim de melhor se desculparem por terem abandonado o vidro, menos rentável. São também os lobbies do leite em pó, alegadamente "bio", que fazem campanha contra o aleitamento maternal – que é aconselhado pela OMS – porque este seria suscetível de transmitir ao bebé os pesticidas absorvidos pela mãe… Com efeito, é mais rentável para o patronato que as mães voltem ao trabalho, graças a um desmame precoce, do que financiar as licenças por maternidade durante um ano, a 100% do salário, como era o caso na URSS.

A poluição dos solos, sobretudo através dos pesticidas, é no entanto uma questão estratégica fundamental para todos os países em luta contra o imperialismo, e não é sem razão que Cuba socialista, privada do apoio soviético desde 1990, se tenha tornado líder mundial da agroecologia, reconhecido pela ONU e por várias ONG, entre elas a World Wildlife Fund. Reduzir a pegada ecológica (a pegada do homem sobre o seu ambiente) é a primeira preocupação dos agricultores para garantir a segurança e a soberania alimentar do seu povo, permitir a fertilidade, mais lenta é certo a instalar-se, mas mais resistente e mais duradoura, graças à vida do solo – vermes, cogumelos e bactérias que os produtos químicos da agricultura intensiva matam.

Tal como a URSS que foi forçada, durante a II Guerra Mundial, a fertilizar todas as superfícies exploráveis, incluindo nas cidades, com métodos menos "químicos", Cuba encontrou-se numa situação semelhante nos anos 90, sem a URSS e sob um bloqueio cada vez mais rígido. Este "período especial em tempo de paz" foi uma crise histórica para a ilha revolucionária, que só saiu dela impondo uma transição agroecológica radical, cujos resultados foram para os produtores uma agradável surpresa: a produtividade apanhara em poucos anos a anterior a 1990 e, além disso, uma diversidade alimentar maior ao serviço duma soberania alimentar mais segura, passando duma monocultura intensiva da cana-de-açúcar para uma policultura agroecológica produtora de frutos e legumes variados para o mercado interno.

Na URSS, tinham-se observado os mesmos resultados, o que, entre outras coisas, convidou o governo a lançar de seguida um "grande plano de transformação da natureza", em 1948. Foi o plano mais amplo de policultura agroflorestal da História, um gigantesco repovoamento florestal no sul do território, associado a uma forma extensiva de "permacultura", sem pesticidas nem adubos químicos. A rotura da URSS com a agroecologia só ocorrerá com Khrushchov, que alinhou pelo modelo agroquímico americano, mais rentável a curto prazo e menos dispendioso no plano do investimento estatal (formação de agrónomos, investigação em biologia, elevação do nível social dos camponeses).

Nessa época, tal como hoje com Cuba, a agroecologia é uma questão de relações de produção e não de consumidores: é porque o Estado possui a terra e pode redistribuí-la de forma justa, e fixa os preços do mercado interno, que os consumidores ficam satisfeitos com uma alimentação, simultaneamente sã e barata.

Claro que, em Cuba, a agricultura está coletivizada, pois a revolução socialista expulsou os proprietários (a maior deles agora sem hipótese de prejudicar, em Miami). Os camponeses, na maior parte dos casos, estão organizados em kolkhozes, coletivos de trabalhadores que, no seu terreno, levam a efeito simultaneamente, várias atividades produtivas e ligadas entre si. É um modelo radicalmente diferente do da Tunísia, ainda maioritariamente feudal e sem grandes meios técnicos e científicos para pôr em marcha uma produção variada, sã e duradoura. Há anos que Cuba constata que a alimentação dos habitantes, baseada em sementes locais, não modificadas pela agroindústria imperialista, produzida sem pesticidas, melhora o seu nível de saúde, mas também produz muitos outros serviços. Em especial, o facto de que, nos coletivos de trabalho, mais técnico e intelectual, menos rude e menos manual, as mulheres rurais ocupam um lugar cada vez mais importante, a par dos homens, incluindo a tomada de decisões, o que contribui de forma indireta, mas muito concreta, para a luta do povo contra o patriarcado. A coletivização também permite que todas as crianças frequentem a escola e que todos os trabalhadores, partilhando as tarefas por turnos, possam ter férias regularmente.

No contexto tunisino, as lutas de vanguarda no campo estão, quase sempre, ligadas aos recuos de uma falsa "reforma agrária" já antiga, mas cujos vestígios continuam a sofrer a repressão económica, judiciária, policial e mediática. Os trabalhadores das plantações de palmeiras de Jemna, por exemplo, constituíram-se numa cooperativa, com a diferença de não terem sido encorajados pelo Estado, como em Cuba, mas, pelo contrário, pressionados por ele de todas as formas. Assim sendo, é necessário um projeto de produção agroflorestal sem pesticidas para que a produção venha a ser duradoura e segura, tal como a terra torna possível. Mas são necessários meios para pôr em marcha esse projeto, pois abandonar os pesticidas supõe conhecimentos agronómicos precisos e máquinas especializadas na policultura, de modo a produzir pelo menos tanto como anteriormente, a um custo menor (sem a compra de produtos químicos). Segundo a palavra de um camarada do PPDS, na Tunísia e, sem dúvida, em todos os países semifeudais, semicolonizados, é necessária uma "reforma agrária duradoura", para a qual o modelo cubano, graças à ajuda internacionalista da ANAP , o sindicato cubano dos pequenos agricultores, poderia ser de grande ajuda. É, sobretudo, deste tipo de ajuda que o povo tunisino precisa, e não da "ajuda" criminosa da União Europeia (a ALECA que será imposta por Bruxelas, por Paris, com a cumplicidade da burguesia tunisina) que pretendem fazer do país um vassalo submisso obrigado a produzir apenas para a exportação para a Europa e dependente cada vez mais do imperialismo no plano alimentar.

06/Outubro/2018



[*] Professor agregado de Ciências da Vida e da Terra. Autor de Evolution: La preuve par Marx (2016) e de L'Ecologie réelle, une expérience soviétique et cubaine (2018)

O original encontra-se no jornal tunisino Al Oufouk e em germinallejournal.jimdo.com/... .
Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
30/Mai/19