Nos países imperialistas do Norte, tal como nos países
semicolonizados do Sul, a questão "ecológica" é
sempre mal colocada. Parte do ponto de vista do consumidor sem nunca colocar a
questão da luta de classes nas relações de
produção. É por essa razão que a ecologia, no plano
político, se tornou numa deformação da luta militante,
muito oportuna para a burguesia, que passa o tempo (e consagra uma parte do seu
capital) a desviar as acusações. Os maiores produtores de
embalagens plásticas, por exemplo, (a começar pela Coca Cola
americana) são os protagonistas de toda as campanhas de limpeza
benevolente das praias e de publicidades que criminalizam os consumidores
"poluidores" a fim de melhor se desculparem por terem abandonado o
vidro, menos rentável. São também os
lobbies
do leite em pó, alegadamente "bio", que fazem campanha contra
o aleitamento maternal que é aconselhado pela OMS porque
este seria suscetível de transmitir ao bebé os pesticidas
absorvidos pela mãe
Com efeito, é mais rentável para
o patronato que as mães voltem ao trabalho, graças a um desmame
precoce, do que financiar as licenças por maternidade durante um ano, a
100% do salário, como era o caso na URSS.
A poluição dos solos, sobretudo através dos pesticidas,
é no entanto uma questão estratégica fundamental para
todos os países em luta contra o imperialismo, e não é sem
razão que Cuba socialista, privada do apoio soviético desde 1990,
se tenha tornado líder mundial da agroecologia, reconhecido pela ONU e
por várias ONG, entre elas a World Wildlife Fund. Reduzir a pegada
ecológica (a pegada do homem sobre o seu ambiente) é a primeira
preocupação dos agricultores para garantir a segurança e a
soberania alimentar do seu povo, permitir a fertilidade, mais lenta é
certo a instalar-se, mas mais resistente e mais duradoura, graças
à vida do solo vermes, cogumelos e bactérias que os
produtos químicos da agricultura intensiva matam.
Tal como a URSS que foi forçada, durante a II Guerra Mundial, a
fertilizar todas as superfícies exploráveis, incluindo nas
cidades, com métodos menos "químicos", Cuba
encontrou-se numa situação semelhante nos anos 90, sem a URSS e
sob um bloqueio cada vez mais rígido. Este "período especial
em tempo de paz" foi uma crise histórica para a ilha
revolucionária, que só saiu dela impondo uma
transição agroecológica radical, cujos resultados foram
para os produtores uma agradável surpresa: a produtividade apanhara em
poucos anos a anterior a 1990 e, além disso, uma diversidade alimentar
maior ao serviço duma soberania alimentar mais segura, passando duma
monocultura intensiva da cana-de-açúcar para uma policultura
agroecológica produtora de frutos e legumes variados para o mercado
interno.
Na URSS, tinham-se observado os mesmos resultados, o que, entre outras coisas,
convidou o governo a lançar de seguida um "grande plano de
transformação da natureza", em 1948. Foi o plano mais amplo
de policultura agroflorestal da História, um gigantesco repovoamento
florestal no sul do território, associado a uma forma extensiva de
"permacultura", sem pesticidas nem adubos químicos. A rotura
da URSS com a agroecologia só ocorrerá com Khrushchov, que
alinhou pelo modelo agroquímico americano, mais rentável a curto
prazo e menos dispendioso no plano do investimento estatal
(formação de agrónomos, investigação em
biologia, elevação do nível social dos camponeses).
Nessa época, tal como hoje com Cuba, a agroecologia é uma
questão de relações de produção e não
de consumidores: é porque o Estado possui a terra e pode
redistribuí-la de forma justa, e fixa os preços do mercado
interno, que os consumidores ficam satisfeitos com uma
alimentação, simultaneamente sã e barata.
Claro que, em Cuba, a agricultura está coletivizada, pois a
revolução socialista expulsou os proprietários (a maior
deles agora sem hipótese de prejudicar, em Miami). Os camponeses, na
maior parte dos casos, estão organizados em
kolkhozes,
coletivos de trabalhadores que, no seu terreno, levam a efeito
simultaneamente, várias atividades produtivas e ligadas entre si.
É um modelo radicalmente diferente do da Tunísia, ainda
maioritariamente feudal e sem grandes meios técnicos e
científicos para pôr em marcha uma produção variada,
sã e duradoura. Há anos que Cuba constata que a
alimentação dos habitantes, baseada em sementes locais,
não modificadas pela agroindústria imperialista, produzida sem
pesticidas, melhora o seu nível de saúde, mas também
produz muitos outros serviços. Em especial, o facto de que, nos
coletivos de trabalho, mais técnico e intelectual, menos rude e menos
manual, as mulheres rurais ocupam um lugar cada vez mais importante, a par dos
homens, incluindo a tomada de decisões, o que contribui de forma
indireta, mas muito concreta, para a luta do povo contra o patriarcado. A
coletivização também permite que todas as crianças
frequentem a escola e que todos os trabalhadores, partilhando as tarefas por
turnos, possam ter férias regularmente.
No contexto tunisino, as lutas de vanguarda no campo estão, quase
sempre, ligadas aos recuos de uma falsa "reforma agrária"
já antiga, mas cujos vestígios continuam a sofrer a
repressão económica, judiciária, policial e
mediática. Os trabalhadores das plantações de palmeiras de
Jemna, por exemplo, constituíram-se numa cooperativa, com a
diferença de não terem sido encorajados pelo Estado, como em
Cuba, mas, pelo contrário, pressionados por ele de todas as formas.
Assim sendo, é necessário um projeto de produção
agroflorestal sem pesticidas para que a produção venha a ser
duradoura e segura, tal como a terra torna possível. Mas são
necessários meios para pôr em marcha esse projeto, pois abandonar
os pesticidas supõe conhecimentos agronómicos precisos e
máquinas especializadas na policultura, de modo a produzir pelo menos
tanto como anteriormente, a um custo menor (sem a compra de produtos
químicos). Segundo a palavra de um camarada do PPDS, na Tunísia
e, sem dúvida, em todos os países semifeudais, semicolonizados,
é necessária uma "reforma agrária duradoura",
para a qual o modelo cubano, graças à ajuda internacionalista da
ANAP
, o sindicato cubano dos pequenos agricultores, poderia ser de grande ajuda.
É, sobretudo, deste tipo de ajuda que o povo tunisino precisa, e
não da "ajuda" criminosa da União Europeia (a
ALECA
que será imposta por Bruxelas, por Paris, com a cumplicidade da
burguesia tunisina) que pretendem fazer do país um vassalo submisso
obrigado a produzir apenas para a exportação para a Europa e
dependente cada vez mais do imperialismo no plano alimentar.
06/Outubro/2018