O caminho indiano
Os resultados estão aí, semanas após a
votação e dias de expectativa. Os comunistas triunfaram em dois
dos principais municípios de esquerda. Em Bengala Ocidental
(população de 80 milhões), que a Frente de Esquerda
governou desde 1977, a coligação assegurou sua sétima
vitória directa. Desta vez a contagem foi espetacular. O Partido
Comunista da Índia (Marxista)
[CPM]
, a força principal da aliança, ganhou 176 lugares do total de
294 (a Frente de
Esquerda ganhou 235 do conjunto). Em Kerala (população de 31
milhões), a Frente de Esquerda Democrática ganhou dois
terços dos assentos (o CPM prevaleceu em 61 das 98 cadeiras asseguradas
pela aliança). A Frente Democrática Unida teve de contentar-se
com 42 assentos. Em Tamil Nadu, a esquerda apoiada pela Aliança
Democrática Progressista voultou ao poder e, pela primeira vez, os
comunistas ganharam assentos no estado nordestino de Assam.
O CPM percorreu um longo caminho. O movimento comunista indiano emergiu em
1920 como uma ala da luta indiana pela libertação contra o
domínio britânico e na luta internacional para criar uma
revolução proletária contra o capitalismo. Homens e
mulheres corajosos lançaram-se na construção de uma
organização que trabalhou ao lado e no interior de sindicatos,
lutas de massa e de vários esforços por reformas sociais. O seu
pequeno número não os desencorajou, porque eram dotados pela
crença de que a sua ideologia havia agarrado a dinâmica da
história, e portanto que a sua vitória era inevitável.
Para nós, na era da reacção, é fácil montar
uma crítica teórica da sua fé na teleologia (a marcha da
história em direcção a um fim conhecido), mas o que
realmente não apreciamos é como esta ideia (de que a
Revolução tem de triunfar) lhes deu a energia necessária
para avançar com o que constituía uma tarefa árdua e
perigosa.
Em 1929 o Domínio Britânico (British Raj) prendeu trinta e um dos
principais líderes comunistas e sindicais, e processou-os na cidade
indiana de Meerut. Estes prisioneiros, o núcleo do Partido Comunista,
permaneceram na prisão até 1933. Isolados e ameaçados com
a prisão perpétua, estes prisioneiros no entanto mantiveram suas
esperanças intactas. Sabendo muito bem que a esperança
não é por si mesma uma estratégia, redigiram uma
declaração geral sobre o estatuto da política indiana.
"A revolução", escreveram das suas celas de
prisão, "deve ser popular". Não valeria a pena
substituir "uma classe exploradora por outra". Comparados com a
burguesia imperial, os industriais indianos eram fracos, de modo que eles se
aliaram ao movimento indiano pela liberdade. Quando a força das massas
os ameaçassem, argumentaram os prisioneiros de Meerut, eles pegariam em
armas pela contra-revolução. Ao invés de simplesmente
colocar os ombros da classe operária no carro da revolução
burguesa, os prisioneiros argumentaram por um movimento de massa rumo à
revolução popular. Ness ínterim, os comunistas
"devem alcançar alguma forma de governo democrático popular
e a abertura para o povo de possibilidades imediatas de avanço em
assuntos que o afectam, no saneamento, saúde, habitação,
educação e avanço social e cultural em geral".
Desde a década de 1920, o movimento comunista indiano cresceu,
contraiu-se, cresceu outra vez, descartou-se das direcções de
Moscovo, e incubou quadros e lideranças marxistas ferozmente
independentes. Em 1957, o Partido Comunista sob a liderança do
incomparável EMS Namboodripad ganhou as eleições no estado
de Kerala; dois anos depois o [partido do] Congresso, de Nehru, utilizou todos
os meios necessários para expelí-los dos seus gabinetes. Em
1967, os comunistas retornaram ao governo do estado.
Uma luta de linhas dentro do movimento comunista desde a década de 1940
em frente dividiu aqueles que acreditavam que o [partido do] Congresso podia
ser um aliado na revolução indiana (a linha de Moscovo) e aqueles
que acreditavam que no partido Congresso, sendo próximo à
burguesia indiana, não se podia confiar. Estes últimos
tornaram-se o CPM numa grande divisão em 1964 (os dois partidos agora
trabalham estreitamente juntos, sendo o CPM o partido maior). Entre 1918 e
1922, o movimento comunista mundial havia articulado os três caminhos
princilpais rumo à revolução: (1) Edward Bernstein
advogava a transferência gradual de poder executivo do estado, retendo ao
mesmo tempo as principais instituições da democracia parlamentar;
(2) Karl Kautsky apelava à manutenção das
instituições parlamentares burguesas, juntamente com a
criação de mais foruns populares para a
participação das massas; (3) Lenin apelava à
destruição da forma parlamentar, e a criação de uma
estrutura de democracia proletária do tipo soviético. Os
sovietes tiveram apenas uma breve entrada na história russa. Eles
emergiram na Revolução de 1905, tal como a Comunca veio da
energia virtuosa da luta da classe operária em 1871 em França. O
partido leninista tinha de preparar o terreno, à espera do momento do
levantamento; então, escrevia Lenin em 1917, o Partido deve tratar a
insurreição como arte. A pressão espontânea dos de
baixo com um Partido preparado ao lado, argumentou Lenin, moldaria a forma
organizacional da democracia proletária. Num debate sobre o
eurocomunistmo em 1978, Perry Anderson observou que apesar de a extrema
esquerda fazer uma crítica muito forte aos dois primeiros caminhos, ela
"fez relativamente pouco trabalho para desenvolver e proporcionar qualquer
forma contemporânea para a terceira opção. O resultado
é que um grande ponto de interrogação permanece em
suspenso sobre a terceira alternativa, a qual é a da
tradição clássica do socialismo
revolucionário".
No seu primeiro congresso, em 1964, o CPM destacou que o regime do [partido do]
Congresso nunca permitiria que a esquerda chegasse ao poder através
"só de métodos parlamentares. Portanto, o caminho que nos
conduzirá à liberdade e à paz, à terra e ao
pão, tem de ser procurado em outro lado". Alguns activistas do CPM
entraram no caminho armado em 1967, e tornaram-se maoistas (chamados naxalitas,
muitos deles retornaram à luz brilhante da legalidade durante as
últimas duas décadas). A maior parte, entretanto, trabalhou por
vitórias eleitorais e a construção de outras
instituições políticas não eleitorais. A luta
eleitoral não podia ser evitada por um certo número de
razões, argumentou o CPM: "Além de permitir a
solução de número limitado de problemas locais, sua
existência e funcionamento trará maior moral às massas
democráticas por toda a parte e assim fortalecerá o movimento
democrático. Elas torna-se uma arma nas mãos das massas na luta
contra as políticas anti-povo do governo central. Ao mesmo tempo,
intensificará mais uma vez a luta entre as forças do progresso e
da reacção dentro do próprio partido governante".
Fora da arena eleitoral, o CPM construiu suas organizações
aliadas (sindicatos, organizações estudantis,
organizações de mulheres, organizações de
alfabetização e assim por diante) e trabalhou pela
intensificação de instituições paralelas para
socializar a democracia: o panchayat
[1]
(auto governo local). A constituição indiana determina a
democracia directa através dos panchayats como um resquício da
herança de Gandhi no movimento de libertação. Nenhum
outro partido encarou o sistema do panchayat seriamente. Para a esquerda, em
Bengala e Kerala, o sistema panchayat foi o seu instrumento para a
criação do poder dual. Em 1978, novamente no poder em Bengala, o
CPM publicou um panfleto sobre os panchayats que apresentava a sua
lógica: "Só quando o povo da aldeia tornar-se politicamente
consciente ele será capaz de desempenhar as importantes
funções a serem transferidas para os panchayats. Na democracia
parlamentar burguesa, o homem comum não tem papel político depois
de lançar o seu voto nas eleições. Estamos determinados a
dar-lhe um papel contínuo no desenvolvimento rural. Quando o
aldeão comum houver percebido este papel, ele será capaz de
adquirir auto-confiança e tomar iniciativas colectivas para mudar a vida
dos pobres e da classe média rural. Se mesmo com o limitado poder
à nossa disposição podemos alcançar certas coisas
nas aldeias, deveríamos ser capazes de conseguir um despertar das massas
entre o povo rural. A consciência colectiva e o pensamento
reacendará o chama da vida dos aldeões pobres". A
estratégia rural do CPM incluía uma reforma agrária
maciça e um esquema dos direitos dos arrendatários. Isto
é muitas vezes discutido, mas não é dada a devida
atenção ao papel dos "panchayats vermelhos" no
desenvolvimento de novas alternativas para o proletariado rural assim como para
os camponeses médios.
Desde 1977 até o mês passado, o CPM tem vencido na Bengala rural
com vitórias eleitorais esmagadoras. Um repórter que viajou pela
Bengala rural no mês passado descobriu que mesmo quando os pequenos
agricultores e arrendatários sem terra tinham muitas queixas (sobre
estradas más, electrificação deficiente, cuidados de
saúde medíocores) eles votariam pela esquerda. Hidai Sheikh, um
agricultor de cinquenta anos, disse que "o CPM é a única
alternativa viável que temo. Apesar de tudo, em tempos de necessidade,
eles estão sempre aqui junto de nós". Na aldeia Fakirpara,
de Murshidabad, Gulehara Begum e ssua nora disseram: "O CPM é como
nosso parente". O repórter, Suhrid Sankar Chattopadhyay,
escrevendo no
Frontline
de Chennai, concluiu que o CPM "conseguiu integrar-se completamente nas
vidas do povo rural".
Todas as vezes que a esquerda venceu em Bengala, a burguesai queixou-se de
corrupção eleitoral. Desta vez a Comissão Eleitoral
executou uma campanha draconiana nas eleições. Enviou pessoal
paramilitar de fora do estado e mobilizou observadores em cada cabine de
votação. Apesar destas medidas, a esquerda venceu facilmente.
Mesmo o vociferante jornal anti-esquerda
Telegraph,
de Calcutá, têve de admitir em 12 de Maio que "a Frente de
Esquerda, uma combinação de um certo número de partidos,
tem permanecido coesa durante cerca de trinta anos, e executou uma
notável transformação do centário rural
através de reformas da terra e activação do sistema
panchayat dos três níveis". Embora a presença
paramilitar não fosse propícia à votação, o
eleitorado veio em força (81,6% desta vez, quando fora 75% em 2001). E
eles votaram vermelho. Como admitiu o
Telegraph,
o povo "votou com os seus pés contra as insinuações
[de fraude na votação] sugeridas pela comissão [eleitoral].
O resultados de Keral mostram que a posição de princípio
do CPM contra a guerra americana sobre o terror e suas tentativas de isolar o
Irão assim como a batalha contra o fundamentalismo hindu têve
resultados. O distrito Malappuram foi outrora o lar inexpugnável da
Liga Muçulmana (um parceiro de coligação do partido do
Congresso). P. K. Kunhalikkutyy, da Liga, tentou mobilizar o voto
muçulmano sob a bandeira verde, argumentando que os marxistas agora
pensam "que podem tomar pessoas dentre ós e destruir nossa
unidade". A esquerda ganhou cinco das doze cadeiras na fortaleza da Liga,
um sinal seguro do que agora é vista como uma defensora firme de valores
seculares e anti-imperialistas.
O comunistas proporcionam apoio parlamentar ao Partido do Congresso, que dirige
o actual governo na Índia. Mas a esquerda recusou juntar-se ao governo
na pasta do tesouro, porque isto significaria amarrar-se a si própria
nas políticas neoliberais do actual Partido do Congresso. Se ela
não apoiasse o governo com base num Programa Mínimo Comum, o
Partido do Congresso cairia e a direita intransigente, os fundamentalistas,
poderiam chegar ao poder. Os comunistas, portanto, desempenham um papel
central ao dar ao Partido do Congresso os números para governar, e
são sua principal oposição dentro e fora do parlamento.
Esta estratégia lançaou a extrema-direita na confusão,
pois sua incapacidade para articular uma postura antagónica conduziu-a a
lutas intestinas crónicas. As vitórias em Bengala e em Kerala
fortaleceram os comunistas em Nova Delhi. Isto foi um grande ganho nestas
eleições.
A declaração do próprio CPM após a
eleição foi responsável: Os novos governos dos estados
"têm a grande responsabilidade de transpor seus manifestos e
compromissos para a prática". Há reformas sociais a serem
efectudas, e há algumas cautelosas tentativas de atrair investimento
para Bengala e Kerala (esta última questão é um assunto
particularmente espinhoso, mas, como escreveu Michel Kalecki há alguns
anos, "A tragédia dos investimentos é que eles são
necessários". Será preciso mais espaço, e um outro
artigo, para explicar a estratégia industrial da esquerda indiana).
O caminho indiano para a revolução é árduo. Exige,
no curto prazo, o fortalecimento das organizações do poder dual,
as panchayats, e a tradução do grande movimento de massas por
todo o país em poder político efectivo. A esquerda tem de romper
para fora das áreas em que é forte, para o resto da Índia.
No meio da vitória recente, estes são seus grandes desafios.
[1]
Conselho de aldeia,
http://en.wikipedia.org/wiki/Panchayat
[*]
Leciona no Trinity College, Hartford, CT. Seu último livro é
Keeping Up with the Dow Joneses: Debt, Prison, Workfare
(Boston: South End Press). Seu ensaio "Capitalism's
Warehouses", foi publicado no livro
Dime's Worth of Difference, da CounterPunch.
Seu artigo mais recente é uma revisão do livro de
Kathy Kelly
publicada no número de Dezembro da Monthly Review.
Email:
vijay.prashad@trincoll.edu
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/prashad05132006.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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