Timor Leste: nação ou protectorado australiano?
"Não esperávamos que o líder eleito de um partido com
um mandato esmagador pudesse ser forçado a renunciar desta maneira numa
democracia". Comunicado de imprensa da Fretilin, 26 de Junho.
Respaldado por um exército estrangeiro, e com o exército do seu
país confinado aos quartéis, o grande líder da
resistência, Xanana Gusmão, acaba por permitir o derrube do
líder do primeiro governo pós-independência de Timor
Leste. Mas o apoio da Austrália foi de importância vital.
Se isto parece difícil de explicar, devemos entender que, seja qual for
a configuração do novo governo de Timor Leste, ficará
um poço de amargura entre os actores principais quanto à
gestão da crise recente e à intervenção, e um
conflito sobre como gerir o novo relacionamento com a Austrália.
Além disso, a mudança de regime de Junho tem
implicações claras não só para as personalidades
implicadas como também para a estratégia de desenvolvimento do
país.
Falar da necessidade de um governo de "inclusão" ou de
"unidade nacional" é esquecer o facto de que as recentes
lideranças políticas em Timor Leste foram por
coligação. O mais significativo disto é que o CNRT
(Conselho Nacional de Resistência Timorense) desmembrou-se depois de as
Nações Unidas insistirem em eleições
multipartidárias. O governo dirigido pela Fretilin, eleito em 2001,
incluiu importantes ex membros da Fretilin, José Ramos Horta e Xanana
Gusmão, eleito separadamente. Após as próximas
eleições o governo não deveria ser muito diferente.
A diferença imediata é a dupla actividade de Mari Alkatiri,
estratego chefe da Fretilin, a seguir à sua renúncia
forçada como primeiro ministro. As acusações sugeridas
contra Alkatiri (armar paramilitares durante a tentativa de golpe) não
irão a parte alguma. As acusações de
"esquadrões de choque", emitidas pela australiana ABC,
não têm credibilidade. Mas os meios de comunicação
australianos e a intervenção militar que ajudou a derrubar a
direcção de um governo eleito marcam uma nova realidade
política para os cidadãos timorenses.
O jornal
The Australian,
completamente anti-Alkatiri, escreve que sua renúncia traz "boas
notícias para as companhias australianas que queiram fazer
negócios em Dili". Mas a Fretilin continua a ser (de longe) o
principal partido do parlamento. Os media mais importantes de Rupert Murdoch
insistem em que "a crise continuada" exige uma presença
semi-permanente das tropas australianas para bloquear aquilo que o jornal chama
governo "marxista revolucionário" e porque "não
há outra maneira de que o governo caia no caos".
Outros comentaristas australianos simpatizantes desta linha já
estão a insinuar a necessidade de abolir o exército do
país. Realmente, parece que a autoridade de Xanana Gusmão com um
certo número de comandantes do exército foi enfraquecida em
resultado da simpatia percebida para com os rebeldes de Reinado. Mas a
abolição do exército levaria rapidamente a proposta para o
estabelecimento de uma base militar australiana permanente em Timor Leste,
um grande dilema para uma gente que esteve a lutar duramente pela
independência.
Até o momento, o "caos" foi em grande parte alimentado pelo
apoio passivo australiano aos rebeldes e pela hostilidade ao governo, enquanto
a "revolução marxista" era mais um modesto nacionalismo
económico guiado por Alkatiri. Expliquei em outro artigo
(
Achievements of a 'Failed State'
)
as áreas de tensão com a Austrália, que decorrem de uma
política independente em Timor Leste. Xanana não exprimiu uma
visão diferente do desenvolvimento, mantendo-se no tema da
reconciliação. Ramos Horta exprimiu o desejo de
relações mais próximas com os EUA e a Austrália, e
maiores facilidades para o investimento estrangeiro. Mas ainda não
há sinal de que a Fretilin vá abandonar a via mais independente
estabelecida por Alkatiri.
Aí está o problema. Uma oligarquia de capitalistas australianos
que sempre se opôs à independência de Timor Leste, antes
e depois de 1999, declarou-se abertamente em oposição ao projecto
da Fretilin. O regime de Howard mantem em público uma
correcção política no que se refere à autonomia de
Timor, mas compartilha a hostilidade. Isto é tanto uma
oposição estratégica como uma oposição a
qualquer política particular. Mas a predisposição mental
para o "protectorado" pretende certamente dar acesso fácil aos
recursos de Timor Leste, maiores privilégios ao investimento
estrangeiro e uma mudança na política em relação
à língua nacional, do português-tetum para o
inglês-tetum.
Parece provável que, mesmo com Alkatiri afastado, o movimento da
Fretilin mantenha a estratégia expressa no Plano de Desenvolvimento
Nacional e em políticas sectoriais, e com o respaldo da
Constituição. Alternativamente (e se os escribas de Murdoch
fazem o seu trabalho) um novo governo seria persuadido a abandonar seu passado
económico nacional e a aceitar um status de protectorado australiano.
Portanto, qual o problema para um pequeno país em adquirir
empréstimos do Banco Mundial e converter-se num "amigo do
ocidente"? Não será isto um bom caminho para atrair
investimentos, melhorar a governabilidade e reduzir a pobreza? Examinemos tudo
isto à luz da experiência.
O processo começa com empréstimos para infraestruturas
essenciais, normalmente electricidade e estradas, e toda a gente tem estado a
queixar-se da electricidade e das estradas. O Banco Mundial emprestaria
dinheiro ao governo a juro comercial baixo (considerando o baixo PIB per capita
de Timor) ou um empréstimo muito baixo da IDA (International Development
Association, uma agência da ONU) a apenas 0,7% de taxa de juros durante
35 anos. Isto, à primeira vista, parece generoso, mas
condições mais estritas seriam acrescentadas na forma de contrato
de "boa governação".
Uma parte importante das condições da "boa
governação" estipularia que, apesar de o empréstimo
ser público, a construção e o serviço de
distribuição seria privado "uma parceria de
desenvolvimento". Isto significa que um grande número de
companhias estrangeiras seriam contratadas para construir a rede de
electricidade e de estradas, enquanto outras assegurariam um regime de
fornecimento da electricidade "pago pelo utilizador". Como o acordo
de "boa governação" também estipularia
preços não subsidiados, para as famílias pobre as
única maneira de acederem à electricidade seria por
subsídio fiscal directo. Mas o governo não tem fundos
suplementares e foi por isso que em primeiro lugar tomou dinheiro emprestado.
Esquema de "parcerias" semelhantes já viram em abastecimentos
de água. Abastecimentos que cidades importantes das Filipinas ou da
Bolívia acabaram por não poder permitir-se. As reduzidas camadas
médias que se podem permitir os pagamentos deveriam ter recebido um
melhor serviço, mas o governo ainda tinha de intervir para assegurar a
qualidade e conter a corrupção que as privatizações
geraram. O acesso das famílias pobre à água ou à
electricidade dependeria da sua capacidade de pagar.
Os regimes de "pagamento pelo utilizador", fomentado pelo Banco
Mundial em todos os serviços, prejudica o acesso à
educação e aos serviços de saúde. A
evidência disto é concludente. O neoliberalismo dos anos 80
redefiniu o consenso global sobre o direito à educação,
pelo só a educação primária era encarada como de
pleno direito e portanto financiável nos países pobres. A
educação secundária, essencial para a mobilidade social
mas sujeita o princípio do "pagamento pelo utilizador",
tornou-se impossível de financiar para as crianças das
famílias mais pobres. Na rica em petróleo mas neoliberal
Venezuela do final dos anos 90, só 20& das crianças
alcançavam a educação média. Mas da metade da
infância no Bali de hoje em dia, que sobrevive com dólares dos
turistas, não consegue chegar à educação
secundária. Isto é o padrão por todo o mundo. O regime
neoliberal negou o futuro a uma geração inteira de
crianças em situação do pobreza. Com a "boa
governação" do Banco Mundial as matrículas na escola
secundária de Timor vão em retrocesso.
Os serviços de saúde estão relacionados com a
educação. Sem formação maciça dos
trabalhadores da saúde, os serviços são caros e escassos.
Apesar de três décadas de ajuda da Austrália e de programas
do Banco Mundial, a Papua Nova Guiné (PNG) apresenta números
chocantes quanto à mortalidade infantil e maternal. Simplesmente
não há médicos fora das capitais de província. A
PNG efectuou em quantidades importantes exportações de
petróleo, gás, ouro, cobre e madeira. As
exportações mantiveram-se em torno dos 40% do PIB da PNG durante
duas décadas. Mas não houve "gotejamento" em
benefícios para a saúde. Se a Austrália e o Banco Mundial
deslocarem os 200 médicos cubanos em Timor Leste e dispensarem o sujo
sistema "comunista" que ofereceu 600 bolsas médicas gratuitas
a jovens de Timor, os padrões de saúde do país
competirão muito bem com os da PNG.
A seguir está o campo e a agricultura, ainda no centro das
possibilidades de ganhar a vida para muitas famílias pobres. A
preferência neoliberal aqui é clara: cultivo orientado para a
exportação e títulos individuais de terra,
vendíveis. Esta é a razão porque o Banco Mundial e o
Banco Asiático para o Desenvolvimento, após a crise
asiática e sob seus programas de "ajustamento estrutural",
apoiaram o corte das árvores (desprezando advertências quanto
à "florestação sustentável") e o
desenvolvimento da palmeira oleaginosa sobre mais de dois milhões de
hectares na Indonésia; uma catástrofe ambiental que pisoteou o
direitos da gente que habita o campo e retirou-lhes meios de vida. A
abolição dos subsídios ao arroz e ao querosene provocou
distúrbios alimentares em Djacarta.
Podemos apreciar os resultados do paradigma neoliberal em Marrocos, onde
há alguns anos o campo foi organizado para exportar. As pessoas
deixaram o campo para ir para a cidade e o sector da subsistência foi
prejudicado. As barreiras da União Europeia às
importações agrícolas bloquearam as
exportações e o país, pela primeira vez, teve de enfrentar
carências alimentares.
No anos 90 no Peru, sob Alberto Fujimori, os campos inferiores a 10
hectáres arruinaram-se quando foi reorganizada a agricultura. Milhares
de pequenos camponeses viram-se obrigados a trabalhar para camponeses mais
ricos ou na produção de coca. A produção de
cocaína no Peru duplicou. Em Lima, a eliminação do
subsídio ao combustível de cozinha levou a um surto de
cólera provocando 2000 mortes em seis meses, quando as pessoas mais
pobres já não puderam permitir-se ferver água ou comida.
Em 1991, mais de 80% da população do Peru estava mal alimentada.
As instituições públicas, tão importantes para
definir a identidade de uma nova nação, são reiteradamente
bloqueadas pelas forças neoliberais. A segurança alimentar foi
tratada em profundidade quando Timor Leste dirigiu-se ao Banco Mundial em
2000 a pedir ajuda para reabilitar seus campos de arroz a fim de fortalecer seu
sector de subsistência e estabelecer silos públicos de cereais. O
Banco Mundial e a Austrália disseram não. A ajuda à
agricultura só era possível para culturas de
exportação. Recomendou-se a Timor a importação de
arroz. Apesar de tudo, o governo independente de Timor tratou de desenvolver
sua própria indústria do arroz, sem a ajuda do Banco Mundial.
Este acordo ideológico de exportar cultivos explica os contínuos
subsídios da Austrália, do Banco Mundial e do Banco
Asiático para o Desenvolvimento à indústria da palmeira
oleaginosa na Papua Nova Guiné, ainda que esta indústria seja
dominada por grandes companhias estrangeiras. Os pequenos agricultores recebem
poucos benefícios desta indústria e sofrem importantes custos
ambientais. O desenvolvimento em infraestruturas também está
centrado em monoculturas.
Frequentemente a promessa de uma "transição" para um
regime amistoso à ocidental vai acompanhada de outras promessas de ajuda
e investimento estrangeiro, que pode trazer benefícios mais amplos.
Aqui, muitos países pequenos enfrentam o "dilema
nicaraguense". Depois de se desfazerem do governo sandinista em 1990 (com
guerra e bloqueio económico), os EUA renegaram suas promessas de ajuda e
o investimento estrangeiro esteve longe de concretizar-se. Só por se
oferecer aos investidores o acesso aos recursos do país livres de
impostos não significa que eles venham.
Portanto, por que os líderes dos países em desenvolvimento
participam em programas neoliberais quando são tão daninhos para
as pessoas comuns? Uma das razões é que foram obrigados a romper
os pactos políticos, após a independência. Manter o status
quo económico, após o apartheid, ajuda a explicar a maioria das
políticas ortodoxas do Congresso Nacional Africano, na África do
Sul. Uma segunda razão é a falta de atenção,
debilidade política e o desejo de acomodar os grandes poderes
alguns destes elementos podemos perceber hoje em Timor Leste. Mas muito
frequentemente, líderes como Suharto na Indonésia ou Fujimori no
Peru entram pessoalmente na elite dos negócios, ganhando
comissões, rendimentos e outros benefícios da ajuda e dos
programas de privatização.
O papel da Austrália na abalada independência de Timor é
difícil de ver por agora, com a cortina de fumo dos meios de
comunicação a influírem para o desejo de nos vermos como
os salvadores do pequeno país. Não somos nada disso. Os amigos
australianos de Timor Leste devem reconhecer as chocantes perspectivas de um
status neoliberal de protectorado e manter o seu apoio a uma nação
independente.
[*]
Professor de Política Económica da Universidade de Sydney.
Visitou Timor Leste muitas vezes, antes e depois da
independência.
A versão em castelhano encontra-se em
http://www.sinpermiso.info/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|