por Gonçalo Tilman Gusmão
As origens
Nascido em Laleia, Manatuto, lado nascente de Timor-Leste, portanto lorosae,
Alexandre Gusmão beneficiou de estar integrado numa família
conceituada e beneficiada aos olhos da Igreja Católica e do Colonialismo
Português. Por tudo isso usufruiu dos privilégios da
administração colonial e acabou por vir estudar para Dili e
ingressar na Administração Pública. Como todos os jovens
também ele tinha os seus sonhos, mas porque os horizontes eram pouco
espaçosos naquela ilha paradisíaca de nada valia sonhar com o
impossível.
Os sonhos, as ambições não podiam ir muito além de
uma carreira no funcionalismo público de então. Gusmão
conseguira-o, por via do privilegiado estatuto da sua família, mas essa
não era a sua ambição daquele momento. Alexandre
Gusmão queria ser figura do desenvolvimento agrícola de Timor.
Ter as suas propriedades de exploração agrícola, os seus
empregados, a sua independência e bem-estar arrancado ao terreno
fértil que o viu nascer. Se bem o pensou, melhor o tentou.
O crédito
Julgando beneficiar do seu estatuto de funcionário público
requereu um empréstimo financeiro á banca colonial... Que
não, não senhor, não lhe emprestariam nem um chavo, que o
seu projecto enfermava de incongruências e não era fiável
nem viável. O colonialismo frustrara a mente voluntariosa e ambiciosa
do jovem Alexandre. Abespinhado, acabou por se demitir da função
pública colonial e andar um pouco aos caídos por Dili, fazendo as
patacoadas próprias de um jovem com algumas habilitações e
experiências, muito reprovadas para as convenções de
então. Aquele jovem era uma enorme dor de cabeça para a
família, principalmente para o pai, pessoa muito considerada pela sua
postura exemplar para a época.
Fez uma tentativa de emigrar para a Austrália, que não resultou,
tendo o 25 de Abril de 1974 surpreendido Gusmão dias depois de ter
regressado a Timor. Alexandre ingressa então no jornal
A voz de Timor
estagiando e auferindo um parco ordenado, que mesmo assim era muito bom em
comparação com os ganhos dos timorenses comuns.
O Che Guevara de Lorosae
Invadido de um nacionalismo serôdio por contágio de outros
elementos realmente esclarecidos e anti-colonialistas Alexandre Gusmão
adere á ASDT, partido social-democrata, fundado por José Ramos
Horta e outros. Mais tarde a ASDT viria a transformar-se na FRETILIN com um
programa mais ambicioso e consonante com os tempos revolucionários que
então se viviam. O desempenho de Alexandre era de simples aprendiz das
teorias maoístas, marxistas, guevaristas, etc. Che Guevara cativou-o
particularmente e de forma a influencia-lo durante muitos anos de luta contra a
ocupação indonésia. No topo da sua mente figurava a luta
pela libertação e independência do seu país,
não como Guevara que via as coisas de um modo universal. Alexandre era
um guevarista, comportando-se como tal mesmo em relação á
sua família, pais, mulher e filho. Um combatente tem por sua
família o combate pela liberdade e os seus camaradas, nada mais.
A captura do guerrilheiro e o "estrelato"
A partir daí foi por demais conhecido o percurso de Gusmão, agora
Xanana. Com a sua captura pelos indonésios a sua imagem correu mundo,
popularizando-se e adquirindo estatuto romântico-heroico para preencher
as faltas de tais personagens que eram e continuam a ser actualmente raras ou
inexistentes. O julgamento, a prisão em Cipinang, catapultaram Xanana
para as páginas dos jornais de todo o mundo e assim um anónimo
timorense passou a herói e vítima da boçalidade
indonésia.
A gaiola dourada
Só ao princípio a prisão de Xanana era sentida sob a forma
mais rigorosa do termo e a sua imagem corria mundo capitalizando
atenções para a agenda política da Fretilin e da luta pela
libertação de Timor-Leste. O regime indonésio, liderado
por Suharto, estava a apodrecer lentamente e já se prognosticava a sua
queda, o que representava um sério problema para aquela
estratégica região e para o caso de Timor-Leste. Os governos
australianos sempre jogaram com um pau de dois bicos em relação
á invasão e consequente ocupação de Timor pela
Indonésia e com o sofisma de explorarem o petróleo no Mar de
Timor, reconheceram a anexação pelo putrefacto regime
indonésio, apoiando a Indonésia nas Nações Unidas,
juntamente com os USA, ou obstando a que medidas para a reposição
da legalidade e reconhecimento de Timor estado soberano fossem tomadas. A
Austrália tinha de limpar as suas mãos sujas de toda esta sua
política em nome da exploração ilegal do petróleo
no Mar de Timor. Num fantástico golpe de rins, característico de
países e políticas sujas, o assunto começou a ser
equacionado por qualificados mentores. A aproximação a Xanana
Gusmão foi a solução encontrada e a que acabou por
resultar plenamente quando a fórmula foi encontrada.
Os discípulos de Maquiavel
Várias tentativas diplomáticas foram feitas ao longo dos anos em
que o líder da guerrilha timorense foi residente na prisão
indonésia, mas a receptividade de Xanana era moderada e parecia sempre
esbarrar no comportamento pró-indonésio da Austrália.
Foi uma tentativa simples e impensável que resultou: uma mulher! Xanana
Gusmão foi vencido pela gula do sexo e convívio amistoso com uma
sua admiradora e apoiante da luta de libertação de Timor-Leste.
Kristie, de seu nome, australiana de origem, personificando a via para a
continuidade desencabrestada da exploração petrolífera. A
bem urdida abordagem ao futuro homem forte de Timor independente, a fabricar,
resultara e agora só era necessário garantir a sua
consistência e a prossecução do vasto plano.
Maquiavel em acção
Manipulável, perante a "inteligência" norte-americana,
inglesa e australiana, o presidiário caiu que nem um pato. A
Indonésia foi arregimentada para que a "abertura" do regime
acontecesse o mais pacificamente possível e levada a mostrar boa vontade
em relação ao líder da guerrilha timorense.
Os encontros amorosos entre Kristie e Xanana aconteceram muitas vezes fora da
prisão de Cipinang, em locais previamente definidos e acordados com as
autoridades indonésias colaborantes. A libertação estava
para breve e Xanana sabia-o.
Só aqueles que desconheciam que Shuarto ia cair de podre é que
ainda resistiam, caso da guerrilha timorense que continuava a perder
resistentes em operações contra o invasor. Tudo aconteceu num
abrir e fechar de olhos. Xanana casou-se com a australiana com o mais puro dos
sentimentos, garantindo assim á Austrália o passaporte para o
controle do líder, do país e do petróleo, bem como todos
os benefícios que daí para si advirão.
Liberdade rumo á "independência"
Noutro abrir e fechar de olhos Suharto resigna á sua política de
punhos de aço e a Indonésia passa a conhecer a auto-estrada para
a democracia. O direito ao referendo é reconhecido em Timor-Leste e a
independência não tardou - com o saldo negativo de muitas chacinas
por parte dos pró-indonésios que nunca entenderam o que se
preparava há tanto tempo.
Xanana é libertado finalmente com honras de chefe de estado e recebido
em muitos países sob esse estatuto.
Era o natural PR para Timor-Leste, assim estava delineado pelas altas
políticas internacionais e os grandes lobbies do petróleo.
A República dos Xananas
Xanana será sempre refém do bem urdido plano que dura há
anos e tudo é tão natural para ele que se lesse esta
análise a repudiaria com todas as forças que conseguisse reunir.
É muito provável que uma pessoa tão limitada quanto a
mulher por quem se apaixonou agora esteja a seu lado naturalmente, com
sentimentos recíprocos aos do homem que a ama. Pode mesmo querer
iludir-se que a farsa só existiu no princípio, mas a verdade
é que a farsa continua e a manipulação também.
Consciente ou inconscientemente, deve ser horrível sobreviver assim, com
a alma vendida ao diabo.
Para Timor-Leste o futuro há muito reservado foi o "progresso"
de uma jovem nação denominada República dos Xananas!
09/Dezembro/2006
O original encontra-se em
http://timorlorosaenacao.nireblog.com/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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