Caso Assange: testemunha-chave admite ter mentido em troca de imunidade
por Amy Goodman
Uma das principais testemunhas no caso de extradição de Julian
Assange admitiu que fez falsas alegações contra Assange em troca
de imunidade a acusações, uma revelação
bombástica que pode ter um grande impacto no destino do fundador do
WikiLeaks.
Assange pode pegar até 175 anos de prisão se for levado aos
Estados Unidos, onde foi indiciado por violações da Lei de
Espionagem relacionadas à publicação de documentos
confidenciais expondo crimes de guerra norte-americanos.
De acordo com um novo artigo no jornal islandês
Stundin,
o hacker condenado Sigurdur "Siggi" Thordarson falsamente alegou que
era um representante proeminente do WikiLeaks, instruído por Assange a
realizar ataques de hackers, mas na verdade ele estava apenas tangencialmente
envolvido com a organização.
O artigo sugere que o Departamento de Justiça dos EUA trabalhou em
conjunto com Thordarson para forjar a acusação contra Assange que
foi submetida aos tribunais britânicos.
"Esta é apenas mais uma, a mais recente, revelação
para demonstrar por que o caso dos EUA contra Assange deve ser encerrado",
disse Jennifer Robinson, advogada de direitos humanos que assessora Assange e o
WikiLeaks desde 2010. "A base factual para este caso desmoronou
completamente".
Amy Goodman:
Abordamos agora um grande acontecimento no caso do fundador do WikiLeaks,
Julian Assange, que o Departamento de Estado dos EUA está pressionando
para extraditar da Grã-Bretanha. Assange pode pegar até 175 anos
de prisão se for trazido aos Estados Unidos, onde foi indiciado por
violações da Lei de Espionagem, relacionadas à
publicação de documentos confidenciais expondo crimes de guerra
norte-americanos.
Agora, uma das principais testemunhas nesse caso de extradição
admite que fez falsas alegações contra Assange em troca de
imunidade a acusações. A revelação veio em uma
entrevista com o hacker islandês "Siggi" Thordarson, num
artigo
detalhado publicado pelo jornal quinzenal islandês
Stundin.
O artigo sugere que o Departamento de Justiça dos EUA trabalhou com
Thordarson para fabricar a acusação contra Assange que foi
submetida aos tribunais britânicos.
Os promotores dos EUA entraram com uma acusação substitutiva
contra Assange, em junho de 2020, que se refere a Thordarson como um
"adolescente" e à Islândia como "País 1 da
OTAN" e diz que Assange o encorajou a, entre outras coisas, "cometer
invasão de computador" e roubar gravações de
áudio de conversas telefônicas entre autoridades islandesas.
O artigo do jornal
Stundin
cita documentos inéditos e registros de bate-papo que mostram como
Thordarson falsamente se apresentou como um representante proeminente do
WikiLeaks. O jornal relata que, na verdade, "todas as
indicações são de que Thordarson estava agindo sozinho sem
qualquer autorização, sem mesmo qualquer influência, de
qualquer pessoa dentro do WikiLeaks".
Para mais informações, juntamo-nos a Jennifer Robinson, advogada
de direitos humanos que assessora Julian Assange e o WikiLeaks desde 2010. Ela,
como Julian Assange, é cidadã australiana. Ela se junta a
nós da Austrália Ocidental.
Bem-vinda de volta ao Democracy Now!, Jen. Pode explicar o significado desta
última revelação e o que deve significar, em sua
opinião, para Julian Assange?
Jennifer Robinson
: Esta é apenas mais uma evidência de quão
problemático é o caso dos Estados Unidos contra Julian Assange
e, de fato, um caso infundado. Claro, como você explicou na
introdução, foi demonstrado que a prova que Thordarson deu aos
Estados Unidos, e que formou a base da segunda acusação,
incluindo alegações de
hacking,
foi inventada, como ele próprio admitiu.
Ele não só deturpou o acesso que tinha a Julian Assange e ao
WikiLeaks e sua associação com Julian Assange, como agora
reconheceu que inventou e falsamente distorceu os fatos apresentados aos
Estados Unidos de que havia qualquer associação com o WikiLeaks e
qualquer associação com hackers.
Então, esta é apenas a mais recente revelação a
demonstrar por que o caso dos EUA deve ser encerrado. Temos que começar,
é claro, com as implicações para a liberdade de
expressão. Grupos de liberdade de expressão,
The Washington Post, New York Times,
a grande mídia são unanimemente contra e denunciaram esta
acusação como uma ameaça à liberdade de
expressão nos Estados Unidos. Mas deixando isso de lado, a base factual
para este caso desmoronou completamente. Há muito tempo, temos pedido
que este caso seja retirado. Esta é apenas mais uma forma de abuso
demonstrada nesta acusação, que prova por que ela deve ser
retirada.
Amy Goodman:
Jen Robinson, quais razões, em sua opinião, teriam levado
Thordarson a fazer essas revelações agora? Ele não
só concedeu esta entrevista exclusiva ao jornal islandês
Stundin,
mas também entregou registros de bate-papo nunca publicados antes e
novos documentos de seu tempo como voluntário do WikiLeaks. Por favor,
fale, também, sobre a real proeminência de Thordarson dentro da
organização, ou falta dela.
Jennifer Robinson:
Só posso especular sobre a razão de ele ter escolhido vir a
público agora. Mas, claro, como você sabe, em janeiro, ganhamos a
luta de extradição. A juíza decidiu recusar a
extradição de Julian Assange para os Estados Unidos
infelizmente, não por motivos de liberdade de expressão, mas por
razões humanitárias associadas à sua saúde mental e
às condições opressivas de prisão que enfrentaria
se voltasse para os Estados Unidos. Os Estados Unidos, sob o governo Trump,
tentaram recorrer dessa decisão, e ainda estamos aguardando uma
decisão do tribunal britânico se a permissão para recorrer
será concedida. Enquanto aguarda essa decisão, Julian permanece
na prisão no Reino Unido.
Então, essa é apenas mais uma indicação
temos pedido que este caso seja encerrado. Pedimos ao governo Biden que retire
o recurso e permita que Julian volte para casa, para sua família. Eu
acho que esta última revelação só
contribuirá para esse apelo à administração Biden
para pôr fim a este caso. Talvez sua motivação fosse outra,
mas é difícil dizer.
Amy Goodman:
Poderia falar sobre funcionários islandeses que agora estão
aparentemente afirmando que o governo dos EUA está "tentando usar
as coisas aqui [na Islândia] e usar as pessoas em nosso país para
girar uma teia de aranha, uma teia de aranha que pegaria Julian Assange"?
O artigo também relata que o governo dos EUA essencialmente enganou
funcionários islandeses.
Jennifer Robinson:
Mais uma vez, isso está demonstrando o abuso significativo e
problemático que vimos ao longo deste caso. Não só estamos
olhando para a coleta de evidências problemáticas dentro da
Islândia, cuja legalidade tem sido questionada pelas autoridades
islandesas; vamos olhar para as outras formas de abuso que vimos neste caso.
Como fizemos na audiência de extradição, agora sabemos que
Julian foi ilegalmente espionado, as consultas com seu médico foram
espionadas ilegalmente, nós, como sua equipe jurídica, fomos
espionados ilegalmente. Ele teve material com privacidade legalmente protegida
apreendido pelo governo dos Estados Unidos.
Como Daniel Ellsberg disse em seu testemunho perante o tribunal de
extradição no Reino Unido, esse tipo de conduta abusiva dos
Estados Unidos foi suficiente durante o governo Nixon para que todo o caso
contra Daniel Ellsberg fosse rejeitado por abuso de processo. Mas em 2021,
estamos vendo espionagem ilegal, apreensão de material legalmente
resguardado, e agora uma fonte que admite que forjou provas e mentiu para o FBI
e para os Estados Unidos sobre as evidências nas quais esta
acusação se baseia. Isso deve ser mais do que suficiente para os
Estados Unidos e para a administração Biden porem fim a este
caso. Já passou muito da hora de fazê-lo.
Amy Goodman:
Você também tem essa situação em que Siggi
Thordarson foi condenado por abuso sexual de menores e outros crimes, incluindo
fraude financeira. Na entrevista, ele admitiu ter continuado sua onda de crimes
enquanto trabalhava com o Departamento de Justiça e o FBI. O que
é crucial entender sobre seu envolvimento com o governo dos EUA na
tentativa de extraditar Julian Assange para os Estados Unidos, onde ele
enfrentará um processo que pode condená-lo a 175 anos de
prisão?
Jennifer Robinson:
Bem, eu acho que é significativo que a acusação inicial
contra Julian Assange seja relacionada apenas com as publicações
em 2010, 2011, as publicações de Chelsea Manning. Foi uma segunda
acusação, substitutiva, introduzida pela
administração Trump, que se baseava nas evidências de
Thordarson. Agora, qualquer advogado e até mesmo qualquer leigo estaria
reavaliando as evidências de um criminoso condenado, que tinha sido
condenado por falsificação, fraude e alegações de
abuso sexual associado a menores. Essa fonte é problemática.
Agora temos a admissão, da parte dele, que mentiu para o FBI sobre essas
evidências. Isso levanta sérias preocupações sobre a
integridade desta investigação e a integridade deste processo
criminal, e um questionamento sério deve ter lugar no Departamento de
Justiça sobre esta acusação e sua
continuação.
Amy Goodman:
Então, o que você está demandando agora, Jen Robinson?
Jennifer Robinson:
Pedimos há muito tempo que a administração Biden e o
Departamento de Justiça ponham um fim nesse caso por motivos de
liberdade de expressão e por questões do devido processo legal. E
esta é apenas mais uma, a última, evidência para mostrar
por que este caso tem que ser encerrado.
Amy Goodman:
Jen Robinson, quero agradecer a você por estar conosco, advogada de
direitos humanos que assessora Julian Assange e o WikiLeaks desde 2010, falando
conosco da Austrália.
A tradução encontra-se em
www.alainet.org/pt/articulo/212855
Esta entrevista encontra-se em
https://resistir.info/
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