"A mudança deve ser total"

por Marcos Domich [*]

As trabalhadoras e trabalhadores da Bolívia encontram-se neste 1º de Maio, como sempre, em luta pelos seus direitos e reivindicações, pelos interesses do povo e da Pátria, pela emancipação de classe e de todo o povo.

Nas heróicas jornadas de Outubro de 2003, o impulso das massas conseguiu derrotar o oprobrioso governo neoliberal de Sanchez de Lozada. No entanto, a luta popular não conseguiu expulsar o neoliberalismo do poder. Este, com uma mudança de aparências, conseguiu manter as suas posições em todos os poderes do Estado. Os mesmos que serviram Sanchez de Lozada nas repartições públicas, nas empresas, no aparelho judicial e, sobretudo no parlamento, apenas foram mexidos, quais peças de xadrez, de um cargo para o outro, sem que depuração alguma tenha sido feita. Os apologistas do neoliberalismo, os agentes das transnacionais, directos ou camuflados, muitos deles conhecidos publicamente como corruptos, foram os encarregados de evitar que se beliscassem os interesses das transnacionais, da oligarquia e os instrumentos jurídicos, que ardilosamente alienaram o património nacional.

Nos 18 meses de governo, Mesa, que a princípio pretendeu diferenciar-se do seu antecessor, o que na realidade fez foi demagogia pura, para consolidar o poder oligárquico da direita e driblar o questionamento popular do regime neoliberal. Inclusivamente, teve algum êxito ao confundir a opinião pública com a aparência de satisfazer algumas das reivindicações populares. Em pouco tempo, porém, ficaram a nu as suas verdadeiras intenções, como sucedeu com o referendo de 18 de Julho. Aparentemente, o que essa consulta exigia foi ignorado por Mesa e hoje, com manobras, chantagens e pressões procura a aprovação de uma lei de hidrocarbunetos que mantenha intactas as concessões às transnacionais petrolíferas. Sobretudo não resgatará o direito de propriedade do Estado boliviano sobre os recursos energéticos, não incrementará, efectivamente, as receitas bolivianas com a sua política servil, nem reabilitará a YPFB [1] desenvolvendo todas as suas potencialidades. O mesmo sucede no sector mineiro que, nas mãos das transnacionais, está a saque.

Na campo político, o governo de Mesa, adiantando-se às pressões da oligarquia de Santa Cruz, convocou eleições para prefeitos. Gastará, contra as prescrições da CPE, 43 milhões de pesos bolivianos, apesar de recusar aos trabalhadores um aumento mínimo de salários. E o pior é que a eleição de prefeitos, antes de uma Assembleia Constituinte, não servirá de nada, não solucionará nenhum dos problemas do povo, que continuará a sofrer as carências e as restrições do presente. Estas eleições são um show, mais parecendo destinadas a distrair as atenções do povo e a lançar uma cortina de fumo sobre os problemas reais que afligem a Pátria e as bolivianas e bolivianos. Só uma unidade de princípios, à margem de caudilhismos ou hegemonismos insensatos, poderia dar ao povo a possibilidade de enfrentar, com algum êxito, uma direita que não hesitará em lançar a mão a todos os recursos para se impor. Assim, inclusivamente, coloca-se em perigo a unidade e integridade nacionais, com prefeitos “autonómicos” que representam interesses particulares e alheios a toda a Bolívia. Também, à medida que o tempo passa, se torna claro que a Assembleia Constituinte se pode transformar numa mascarada, uma espécie de show folclórico, que não sirva para nada, a não ser para fazer retroceder o já conquistado com a actual CPE, como o regime de bens nacionais e outros. A descarada intervenção da embaixada estadunidense, através da USAID, as doações e apoio de discretas ONG's, etc., estão a distorcer o que foi uma aspiração popular, podendo convertê-la em mais uma frustração, se não se corrigirem os pressupostos da sua convocatória. Uma vez mais, impõe-se a necessidade de enfrentar este processo com unidade e clareza de objectivos.

Finalmente, há que dizer que a cada dia que passa, as trabalhadoras e trabalhadores vivem com maiores restrições, cresce o número de aposentados da função pública, aumenta a carestia da vida, angustiando, cada vez mais, os chefes de família que já não sabem como atender os inadiáveis pedidos dos seus filhos de comida, roupa, saúde e educação. Se é verdade que a macroeconomia cresceu, este facto não beneficia o povo, mas as transnacionais e as classes possidentes. A distribuição da riqueza social continua sendo a mais injusta do mundo.

Concluímos, sublinhando que a luta de massas é a única força capaz de desbravar o caminho para um futuro melhor. Mas apenas uma mobilização também não basta, por poderosa e eficaz que seja. O exemplo de Outubro, quando não se pôde ir além da simples sucessão constitucional e o os recentes acontecimentos no Equador, onde um falsário que atraiçoou o programa do povo foi substituído por outro, que não passa do seu infiel companheiro de fórmula. Portanto, a mudança deve ser total, mas isso só é possível se conseguirmos articular a mais ampla aliança entre trabalhadores do campo e da cidade, vizinhos de zonas populares urbanas, profissionais diversos, estudantes, militares patriotas, partidos de esquerda e populares, enfim todas e todos os bolivianos que querem uma Pátria digna, soberana e desenvolvida, com justiça social.

Viva o 1º de Maio
Viva o proletariado e o povo revolucionários
Viva a Bolívia digna e soberana
Pelo resgate do gás para a Bolívia e os bolivianos


Bolívia, 1 de Maio de 2005

[1] Yacimientos Petrolíferos Fiscales de Bolívia

[*] Primeiro secretário do CC do PCB.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

19/Mai/05