Cinco estratégias da guerra híbrida na Bolívia
por Claudio Fabián Guevara
[*]
A queda do governo de Evo Morales é um novo capítulo da guerra
híbrida. Uma combinação de actos de guerra convencional,
milícias irregulares e desordem criminal, apoiados em narrativas
mediáticas e na acção diplomática. Cinco cursos de
acção que revelam porque na Bolívia não houve uma
rebelião popular e sim uma agressão altamente planificada.
O golpe de Estado na Bolívia não pode ser explicado recorrendo
só a factores da dinâmica interna do país. Antes, por um
conjunto de indícios, encaixa-se perfeitamente dentro do
continuum
de eventos internacionais denominados
guerra híbrida
, uma disputa que tem como protagonistas principais os EUA e a Rússia.
Esta estende-se por diferentes cenários do planeta: Ucrânia,
Síria, Venezuela, Líbano, Nicarágua.
A guerra híbrida pode ser definida como
uma combinação
num campo de batalha de forças regulares e actores não estatais,
ciber-ataques, tarefas de espionagem e propaganda, campanhas de
desestabilização e outras ferramentas para depor governos.
Estratégias da guerra híbrida na Bolívia
As análises que pretendem limitar a origem dos acontecimentos na
Bolívia a particularidades locais, ódio racial ou decisões
do governo deposto passam por alto todas as pistas do desenho planificado que
permitiu a tomada militar do território. À medida que passam as
horas, revelam-se os perfis de uma operação
organizada a partir do exterior
, cavalgando sobre rivalidades e divisões internas da
população local.
O país foi abalado por
uma combinação
de milícias irregulares, actos terroristas e desordem criminal.,
apoiados numa narrativa mediática e numa acção
diplomática que legitimaram e potenciaram a velocidade dos
acontecimentos. O objectivo principal foi assestar um grande impacto
psicológico na população e nos dirigentes bolivianos, que
permitiu o derrube em cadeia do governo em menos de 48 horas.
1. Hordas urbanas e tropas irregulares: cidadãos no campo de batalha
Amparadas na narrativa da "indignação popular" por uma
suposta fraude eleitoral, milícias criminosas tomaram o controle das
cidades. Em Cochabamba e outras partes do país os
motoqueiros
da denominada Resistência Cochala utilizaram bazucas e água com
produtos químicos para atacar militantes do MAS que tentavam levantar
bloqueios nas vias públicas e restabelecer a paz. Grupos armados
moveram-se coordenadamente de Santa Cruz para La Paz e outros pontos
estratégicos, segundo um plano não pode ser
espontâneo.
Esta forma
de
guerrilha urbana
revela um grau de preparação prévia, treino e
financiamento dos grupos de choque.
Os
motoqueiros
cuidadosamente ocultados no relato mediático semearam o
terror em diferentes cidades e até
utilizaram
ambulâncias para transportar armamento de guerra. Os grupos de choque
tomaram as ruas e centraram sua operação em
instituições do Estado boliviano, perseguiram funcionários
e atemorizaram a base social de apoio ao Governo. Em todo o país, a
superioridade das milícias criminosas
impôs-se
aos cidadãos comerciantes e trabalhadores que pretenderam
restabelecer a normalidade.
Num momento chave este processo contou com o aquartelamento da Polícia
que deixou uma virtual
zona libertada
para a acção dos paramilitares. Os motins policiais
acrescentaram sinergia à sedição para nutrir a
logística dos grupos de choque, que estiveram em condições
de abastecer-se de armamento, vestuário, coletes anti-balas,
rádios e outros instrumentos.
2. Rede de ONGs e activistas sicários como fonte de noticias que validam
a 'revolução cidadã'
A guerra híbrida apropria-se de temáticas, técnicas e
palavras de ordem tradicionais da luta popular e cria nos territórios
alvo uma rede de organizações sicárias actuam como ONGs,
jornalistas independentes e activistas cidadãos. Estas trabalham de
forma coordenada com as operações militares para alimentar
narrativas noticiosas orientadas para a manipulação mental em
grande escala.
Na Bolívia, tal como em outros teatros de operações, um
conjunto de organizações civis actuou como força de
recrutamento e doutrinação de jovens, bem como plataforma de
propaganda da operação bélica. Sua acção
tendenciosa é notória em três circunstâncias
visíveis:
1. Suas figuras públicas arvoram posições abertamente
partidárias que costumam
ser vetadas em organizações
do seu tipo.
2. Seu financiamento provém de fundos estrangeiros, habitualmente
agências norte-americanas de
fomento à democracia.
3. Sua fonte de consulta habitual das grandes cadeias noticiosas
norte-americanas e europeias, que concedem ao seu testemunho uma pátina
de
imparcialidade
no terreno dos factos.
Nos dias posteriores à operação, estas fontes trabalham
para encobrir os crimes da mesma e estigmatizar o Governo derrubado.
3. Apagão informativo e redes sociais que naturalizam a violência
Num cenário de guerra híbrida, a percepção da
cidadania do que acontece é vital para ganhar a batalha. A tomada da TV
Bolívia por parte de grupos guerrilheiros evidenciou-se como parte de um
plano militar. O apagão informativo da emissora oficial permitiu
optimizar a tarefa da rede de meios afectos, que se dedicaram a semear a
confusão e a desinformação.
Esta narrativa nos media tradicionais articula-se com o ciber-ataque nas redes:
bots, trolls e activistas dedicam-se a inundar o Twitter e o Facebook com
mensagens, memes e testemunhos ao vivo que constroem um cenário
mentiroso de unanimidade anti-Governo entre a população.
Legitima-se a barbárie que se verifica nas ruas e inverte-se a
responsabilidade pelos factos, uma vez que se culpa o Governo pelo clima de
violência.
4. Acção política e diplomática para potenciar os
conflitos e legitimar a sedição
O conflito em torno às denúncias de fraude eleitoral foi
artificialmente montado para criar uma narrativa que explicasse e justificasse
a rebelião cidadão. O curso dos acontecimentos permite deduzir
que não houve nenhuma fraude porque, do contrário, a
acção política dos cidadãos teria aguardado o
veredicto da comissão da OEA, que estava previsto para este 12 de
Novembro. A atitude negociadora do Governo não permitiu nenhum
extravasamento prévio e, menos ainda, tendo em conta que os
representantes da OEA
apresentaram-se
desde o princípio como hostis ao Governo.
O presidente dos EUA, Donald Trump, coroou o menu de indícios com o seu
aplauso
ao golpe e, também, a recusa de Governos alinhados com Washington a
facilitar o
resgate aéreo
de Evo Morales pelo México.
5. Criminalização do Governo cessante e fomento das
divisões sociais
A guerra híbrida
contra os povos
do mundo não pretende a substituição de um governo
indesejável por um governo títere, nem tão pouco a
remoção de um sector da sociedade para que governe outro.
Trata-se, antes, de que não governe ninguém e de assentar as
bases para um desgoverno de tempo indefinido. É mais o fomento do caos
do que a tomada do controle. Coloca-se a concepção de uma
guerra de cães:
mediante agressões e atentados contra certos grupos plantam-se as
sementes de um ódio profundo entre facções rivais. Nos
últimos dias, este processo ganha corpo com o início de uma
limpeza étnica e política contra as camadas sociais que apoiam
Evo Morales, assim como pelo encarceramento de funcionários do Governo
derrubado sob acusações sem fundamento. A promessa do
cidadão
Camacho, líder da sedição, de sair à caça
de militantes do MAS é outro ingrediente nessa linha.
Os desacordos no seio da coligação golpista para constituir
governo fazem parte de um menu que inclui o fomento do caos e a ausência
de institucionalidade.
A concepção da guerra híbrida orienta-se para que o Estado
impluda pelo desacordo geral e o ódio. Trata-se de cultivar a
percepção da comunidade internacional e, entre os próprios
bolivianos, de que o país fracassa por culpa da sua própria
população, dividida em tribos irreconciliáveis.
Conclusão: o perigo de uma guerra continental
A acção destrutiva dos bandos criminosos que operam na
Bolívia civis, polícias e militares sediciosos tem
uma inspiração estrangeira. No fundo, o objectivo principal
é humilhar o país, submeter ao escárnio a
população mais combativa e fazer retroceder décadas o
desenvolvimento da sociedade no seu conjunto. O Exército e a Policia,
que disseram negar-se a reprimir bolivianos, já actuam como uma
força de ocupação estrangeira, espancando impunemente os
manifestantes que reclamam em favor do Governo legitimamente eleito.
A guerra híbrida na Bolívia faz parte de uma geopolítica
mundial muito mais ampla, onde toda a estabilidade do continente corre perigo.
Urge tomar consciência, ganhar as ruas e deter a escalada.
13/Novembro/2019
Ver também:
Bolivia. O golpe: cinco lições
, Atilio Boron
Golpe de Estado na Bolívia é para aprofundar o saqueio capitalista
, Cecilia Zamudio
Muertos son responsabilidad de la OEA, Camacho y Mesa
, Presidente Evo Morales
Hybrid Wars: The Indirect Adaptive Approach to Regime Change
, Andrew Korybko
O original encontra-se em
mundo.sputniknews.com/...
[*]
Jornalista, argentino.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|