Presidenciais bolivianas
A desmoralização da direita e a falsa esquerda eleitoralista
A Resolução do Plenário realizado a 6 de Agosto enfatizou
que são as acções de massas organizadas e mobilizadas as
que, na experiência histórica do país, determinam as
mudanças reais.
Apesar de toda esta a experiência histórica, alguns militantes,
sobretudo sectores e personalidades próximos do Partido, parecem
envolvidos na procura de uma resposta simplista: Quem apoiar nas
eleições de Dezembro? Em quem votar? Esse não é o
cerne da nossa concepção, da actividade e trabalho
partidário. Isso pode conduzir-nos a uma actividade meramente
eleitoralista e a um pequeno passo do que na tradição do
movimento comunista se conhece como o cretinismo parlamentar.
A nossa tarefa é, em qualquer circunstância, manter bem alto,
apesar de toda a algaraviada eleitoral, as mais importantes bandeiras da luta
social, por forma a que estas tomem corpo na consciência popular,
procurando que a campanha eleitoral gire em torno desses temas, de modo a que
se imponham ao próximo governo.
A análise objectiva de como se configura o panorama eleitoral leva-nos a
constatações penosas sobre o comportamento dos sujeitos
eleitorais. Algumas das constatações têm o mesmo valor
para os que se reputam de esquerdistas e para o campo popular ou para conotados
homens de direita. Nestes, essa é uma espécie de conduta
normal. Em contrapartida, em pessoas do campo popular, isso reflecte que
a ideologia e a política dominantes mantêm-nos subjugados.
As candidaturas, nas suas campanhas, não partem da discussão dos
programas, mas da indicação de nomeações. Nem
sequer partem de definições básicas. As
divergências afloram quando não há acordo nas candidaturas.
Ao contrário, quando se estabelece um consenso, exibem-se as mais
hipócritas justificações.
Isto passa-se com as duas candidaturas que poderíamos designar
condicionalmente do campo popular. As suas indefinições
programáticas e os seus discursos ideologicamente confusos não
são casuais. São não só produto da heterogeneidade
política da sua composição orgânica, como
também das indefinições que tem o propósito de
alargar o horizonte de adesões até aos limites possíveis,
do que resulta impensáveis combinações.
Na direita (MIR, ADN, MNR), devido à crise dos partidos tradicionais,
há alguns que até têm uma espécie de vergonha pelo
seu passado; recorrem a candidatos de segunda linha ou independentes
inventados ou acabam escondidos atrás de grupos de
cidadãos. Outros partidos, como a FNR, estão tão
fragilizados que não expõem os seus líderes máximos
a um novo confronto eleitoral. Por fim, outros esfumaram-se virtualmente.
O Partido tentou chegar a acordo com candidaturas do campo popular.
Lamentavelmente não encontrou o eco suficiente. Apesar de
considerarmos que há duas candidaturas no campo popular, a do MAS e a
Frente Ampla, nenhuma delas satisfaz plenamente condições
políticas que nelas dêm confiança nelas. A virtual
dissolução da candidatura de Joaquino poupa-nos mais
comentários, ainda que o Partido já tivesse decidido, antes do
seu colapso, não promover mais aproximações.
A candidatura de Evo Morales parece expandir-se, mas esta expansão
baseia-se em adesões oportunistas onde os princípios e o
programas não têm qualquer papel. O mecanismo de adesão
assenta na aceitação cerrada da candidatura de Evo Morales-Garcia
Linera e na promessa de nomeações. No entanto, isso não
é o mais importante. O MAS estruturou a sua campanha no pressuposto de
que é o instrumento e a frente a que os outros devem aderir
incondicionalmente sob uma liderança não democrática, por
indiscutível. Para o Partido Comunista isto é inaceitável.
Mas o mais grave são os constantes recuos do MAS, no afã de se
mostrar grato aos organismos financeiros internacionais e, inclusive, à
direita crioula. Agora definem-se como centro esquerda
e até já renunciaram ao socialismo, mesmo como mera utopia, como
sucede com o novo ideólogo, Garcia Linera, que procura a eternidade do
capitalismo com a etiqueta de andino. O nome Movimento para o
Socialismo converteu-se num casulo capaz de albergar toda a espécie de
lixo e despojos políticos. No entanto, nem tudo é lixo, despojos
políticos, caçadores de prebendas e oportunistas. É o que
caracteriza melhor os dirigentes de algumas organizações sociais
e sindicais conquistados pelo oportunismo mais cínico. Em contrapartida
na base popular de massas criaram-se esperanças e até
ilusões que têm um sentimento de acumulação para o
polo popular, de que não se pode desdenhar no trabalho prático.
Assim, o Partido deve esclarecer junto da opinião pública a
história das relações com o MAS, que remontam a 1996 na
Esquerda Unida.
Com base nestas considerações o Partido Comunista durante este
período eleitoral deve partir de algumas premissas:
a) Não deve estimular nada que se pareça com uma trégua
nas reivindicações e na prossecução dos objectivos
nacionais e populares. A mobilização popular deve continuar na
base de uma Plataforma de Luta que contenha os principais objectivos nacionais
e populares (nacionalização dos hidrocarbonetos,
renacionalização da água, impedir a migração
das transnacionais através de uma lei que necessita de ser reformulada,
divisão da terra, segurança social solidária, etc, etc.
b) Deve assinalar-se claramente o inimigo principal e identificar o perigo
principal, que são: primeiro o imperialismo e depois os seus
serventuários internos, a direita e a oligarquia. Não se deve
caminhar ao arrepio da percepção popular que não tem
dúvidas em identificar a direita, embora ainda alimente ilusões
acerca de algumas candidaturas.
c) Deve-se alertar, permanentemente, para o perigo de um golpe de estado,
incentivado por certos círculos revanchistas, sobretudo de militares na
reserva.
d) Desenvolver uma campanha ideológica com vista à
elevação da consciência política das massas
populares para que o seu voto seja por uma Plataforma de Luta precisa e
já anteriormente definida. Há que esclarecer o povo sobre os
danos que podem provocar as falsas expectativas e as ilusões em torno de
nomes ou caudilhos.
e) Partiremos da anterior experiência de que voto em branco ou a
abstenção são, na maior parte dos casos, atitudes
inócuas, sobretudo se forem seguidos da inactividade e pelo
desânimo.
Concretamente a nossa mensagem para aqueles que podem ser favorecidos pelo voto
dos revolucionários e dos patriotas consequentes deve ser a
experiência de Plataformas e programas inequivocamente
anti-imperialistas, anti-oligárquicos e de real conteúdo popular
e democrático.
La Paz, 21/Agosto/2005
[*]
Secretário-geral do Partido Comunista da Bolívia.
Texto aprovado pelo Plenário do Comité Central.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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