Presidenciais bolivianas
A desmoralização da direita e a falsa esquerda eleitoralista

por Marcos Domich [*]

Manifestação de mineiros em La Paz. A Resolução do Plenário realizado a 6 de Agosto enfatizou que são as acções de massas organizadas e mobilizadas as que, na experiência histórica do país, determinam as mudanças reais.

Apesar de toda esta a experiência histórica, alguns militantes, sobretudo sectores e personalidades próximos do Partido, parecem envolvidos na procura de uma resposta simplista: Quem apoiar nas eleições de Dezembro? Em quem votar? Esse não é o cerne da nossa concepção, da actividade e trabalho partidário. Isso pode conduzir-nos a uma actividade meramente eleitoralista e a um pequeno passo do que na tradição do movimento comunista se conhece como o “cretinismo parlamentar”.

A nossa tarefa é, em qualquer circunstância, manter bem alto, apesar de toda a algaraviada eleitoral, as mais importantes bandeiras da luta social, por forma a que estas tomem corpo na consciência popular, procurando que a campanha eleitoral gire em torno desses temas, de modo a que se imponham ao próximo governo.

A análise objectiva de como se configura o panorama eleitoral leva-nos a constatações penosas sobre o comportamento dos sujeitos eleitorais. Algumas das constatações têm o mesmo valor para os que se reputam de esquerdistas e para o campo popular ou para conotados homens de direita. Nestes, essa é uma espécie de “conduta normal”. Em contrapartida, em pessoas do campo popular, isso reflecte que a ideologia e a política dominantes mantêm-nos subjugados.

As candidaturas, nas suas campanhas, não partem da discussão dos programas, mas da indicação de nomeações. Nem sequer partem de definições básicas. As divergências afloram quando não há acordo nas candidaturas. Ao contrário, quando se estabelece um consenso, exibem-se as mais hipócritas justificações.

Isto passa-se com as duas candidaturas que poderíamos designar condicionalmente do campo popular. As suas indefinições programáticas e os seus discursos ideologicamente confusos não são casuais. São não só produto da heterogeneidade política da sua composição orgânica, como também das indefinições que tem o propósito de alargar o horizonte de adesões até aos limites possíveis, do que resulta impensáveis combinações.

Na direita (MIR, ADN, MNR), devido à crise dos partidos tradicionais, há alguns que até têm uma espécie de vergonha pelo seu passado; recorrem a candidatos de segunda linha ou “independentes inventados” ou acabam escondidos atrás de grupos de cidadãos. Outros partidos, como a FNR, estão tão fragilizados que não expõem os seus líderes máximos a um novo confronto eleitoral. Por fim, outros esfumaram-se virtualmente.

O Partido tentou chegar a acordo com candidaturas do campo popular. Lamentavelmente não encontrou o eco suficiente. Apesar de considerarmos que há duas candidaturas no campo popular, a do MAS e a Frente Ampla, nenhuma delas satisfaz plenamente condições políticas que nelas dêm confiança nelas. A virtual dissolução da candidatura de Joaquino poupa-nos mais comentários, ainda que o Partido já tivesse decidido, antes do seu colapso, não promover mais aproximações.

A candidatura de Evo Morales parece expandir-se, mas esta expansão baseia-se em adesões oportunistas onde os princípios e o programas não têm qualquer papel. O mecanismo de adesão assenta na aceitação cerrada da candidatura de Evo Morales-Garcia Linera e na promessa de nomeações. No entanto, isso não é o mais importante. O MAS estruturou a sua campanha no pressuposto de que é “o instrumento e a frente a que os outros devem aderir incondicionalmente sob uma liderança não democrática, por indiscutível. Para o Partido Comunista isto é inaceitável.

Mas o mais grave são os constantes recuos do MAS, no afã de se mostrar grato aos organismos financeiros internacionais e, inclusive, à direita “crioula”. Agora definem-se como “centro esquerda” e até já renunciaram ao socialismo, mesmo como mera utopia, como sucede com o novo ideólogo, Garcia Linera, que procura a eternidade do capitalismo com a etiqueta de “andino”. O nome Movimento para o Socialismo converteu-se num casulo capaz de albergar toda a espécie de lixo e despojos políticos. No entanto, nem tudo é lixo, despojos políticos, caçadores de prebendas e oportunistas. É o que caracteriza melhor os dirigentes de algumas organizações sociais e sindicais conquistados pelo oportunismo mais cínico. Em contrapartida na base popular de massas criaram-se esperanças e até ilusões que têm um sentimento de acumulação para o polo popular, de que não se pode desdenhar no trabalho prático. Assim, o Partido deve esclarecer junto da opinião pública a história das relações com o MAS, que remontam a 1996 na Esquerda Unida.

Com base nestas considerações o Partido Comunista durante este período eleitoral deve partir de algumas premissas:
a) Não deve estimular nada que se pareça com uma trégua nas reivindicações e na prossecução dos objectivos nacionais e populares. A mobilização popular deve continuar na base de uma Plataforma de Luta que contenha os principais objectivos nacionais e populares (nacionalização dos hidrocarbonetos, renacionalização da água, impedir a migração das transnacionais através de uma lei que necessita de ser reformulada, divisão da terra, segurança social solidária, etc, etc.

b) Deve assinalar-se claramente o inimigo principal e identificar o perigo principal, que são: primeiro o imperialismo e depois os seus serventuários internos, a direita e a oligarquia. Não se deve caminhar ao arrepio da percepção popular que não tem dúvidas em identificar a direita, embora ainda alimente ilusões acerca de algumas candidaturas.

c) Deve-se alertar, permanentemente, para o perigo de um golpe de estado, incentivado por certos círculos revanchistas, sobretudo de militares na reserva.

d) Desenvolver uma campanha ideológica com vista à elevação da consciência política das massas populares para que o seu voto seja por uma Plataforma de Luta precisa e já anteriormente definida. Há que esclarecer o povo sobre os danos que podem provocar as falsas expectativas e as ilusões em torno de nomes ou caudilhos.

e) Partiremos da anterior experiência de que voto em branco ou a abstenção são, na maior parte dos casos, atitudes inócuas, sobretudo se forem seguidos da inactividade e pelo desânimo.

Concretamente a nossa mensagem para aqueles que podem ser favorecidos pelo voto dos revolucionários e dos patriotas consequentes deve ser a experiência de Plataformas e programas inequivocamente anti-imperialistas, anti-oligárquicos e de real conteúdo popular e democrático.

La Paz, 21/Agosto/2005

[*] Secretário-geral do Partido Comunista da Bolívia.     Texto aprovado pelo Plenário do Comité Central.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
10/Set/05