A arte de rotular
Lula, o livre comércio e a unidade dos indiscerníveis
A forma predominante de dominação ideológica não
é mais o ocultamento dos fatos, um estratagema bastante primitivo, usado
pelas ditaduras. Hoje, a dominação se faz muito mais pela
capacidade de nomear. Mário de Andrade dizia: "As pessoas
não pensam as coisas, elas pensam os rótulos." Tinha
razão. Boa parte do jornalismo econômico contemporâneo, por
exemplo, tornou-se uma grosseira arte de rotular.
À lei que define que os recursos públicos devem ser
prioritariamente usados para pagar juros ao sistema financeiro, em detrimento
de todos os demais gastos do Estado, rotula-se "lei de responsabilidade
fiscal". À prática de cortar gastos essenciais, para
sustentar esses mesmos pagamentos, rotula-se "disciplina" ou
"austeridade", necessárias para formar um
"superávit" metafísico (denominado, espertamente,
"superávit primário"). Ao desmonte dos mecanismos de
defesa de uma economia periférica e frágil rotula-se
"abertura". Aos efeitos do desvio de finalidade das
contribuições sociais recolhidas pelo Estado, conforme a
Constituição, para financiar o sistema de Seguridade Social
rotula-se "déficit da Previdência".
Os meios de comunicação difundem esses chavões e, pela
repetição, os incorporam à linguagem comum. Feito isso,
não há mais debate possível. Quem pode ser contra
"responsabilidade", "disciplina", "austeridade",
"abertura", "superávit", coisas evidentemente
tão boas? Quem se habilita a defender, a sério,
"irresponsabilidade", "indisciplina",
"gastança", "fechamento" e
"défice"?
Em plena vigência de um regime político que garante liberdade de
imprensa, paradoxalmente, quase ninguém tem acesso aos conteúdos
das questões. Tudo fica paralisado nos rótulos, usados para
bloquear sistematicamente o pensamento.
Essa prestidigitação semântica, que sustenta a ideologia
econômica dominante, é imensamente frágil. Poderia
desfazer-se por meio de um simples ato de renomear. Os pontos de vista seriam
automaticamente modificados, por exemplo, se trocássemos o nome da
"lei de responsabilidade fiscal" para "lei que define que pagar
juros ao sistema financeiro é mais importante do que investir em
serviços essenciais". Os exemplos poderiam se multiplicar.
Só quem controla os meios de comunicação pode nomear e
renomear de forma eficaz. O esforço de pensamento, voltado para
ultrapassar a rotulagem e penetrar no conteúdo das questões,
torna-se um ônus de quem rema contra a maré. É muito mais
fácil surfar no bom senso dos rótulos.
É nesse contexto que devemos avaliar as afirmações de Lula
em convescote recente com George W. Bush, em Brasília. Nosso presidente
apresentou-se, mais uma vez, como o campeão do "verdadeiro"
livre comércio, combatendo a hipocrisia dos países ricos, que
dizem defender essa causa, mas não a praticam: "Em nenhum momento
estamos pedindo qualquer benefício ou privilégio. O que estamos
pedindo é que os países desenvolvidos façam uma
política de comércio exterior em que sejamos tratados com
igualdade. Queremos apenas a oportunidade de competir livremente."
É bonito. Engana os trouxas. Mas é perigosíssimo. Se Lula
conhecesse um pouco da história do pensamento econômico
latino-americano não diria semelhante bobagem. Pois, também nesse
caso, o nome da coisa "livre comércio" tem sido
cuidadosamente escolhido para impedir o conhecimento do problema. Afinal, quem
pode ser contra a idéia de "livre comércio"? Não
é a liberdade um conceito legítimo em si?
As aparências enganam. O debate sobre o comércio internacional foi
substancialmente aperfeiçoado, entre nós, pelo esforço
intelectual de Raúl Prebisch. Seu principal argumento pode ser assim
sintetizado, passo a passo: o comércio exterior de países
periféricos apresenta forte assimetria, com exportações
concentradas em bens primários e de baixo valor agregado, e
importações de bens e serviços mais intensivos em capital,
técnica e conhecimento.
A dinâmica desses dois subconjuntos é muito diferente. Pois, na
medida em que a renda das sociedades cresce, diminui a
participação relativa do primeiro subconjunto, seja pela menor
utilização de matérias-primas nos produtos finais, seja
pela descoberta de novos materiais, seja pelo aumento da
participação dos bens industriais e dos serviços na cesta
de consumo das populações (isso se chama, em economia,
elasticidade-renda menor do que 1). O inverso também é
verdadeiro: os países ricos produzem, em maior proporção,
os bens cuja demanda cresce mais do que o crescimento da renda (em economia,
elasticidade-renda maior do que 1).
Por causa dessa assimetria, políticas de proteção
aplicadas no centro e na periferia têm conseqüências bem
diferentes. A proteção dos mercados dos países centrais,
quando atinge os produtos ofertados pela periferia, retarda o crescimento e
aumenta a vulnerabilidade dos países periféricos, reduzindo sua
capacidade de contribuir para o crescimento do comércio mundial, visto
como um todo.
A proteção seletiva dos mercados da periferia, ao
contrário, ajuda a maximizar o comércio mundial. Pois os
países periféricos em via de modernização
continuarão necessitando realizar importações no limite de
suas possibilidades, e por isso sempre farão o maior esforço
exportador que esteja ao seu alcance. A proteção seletiva de seus
mercados permite diminuir sua vulnerabilidade externa, tornando mais completa a
sua base produtiva e aumentando sua renda interna, sem diminuir (ao
contrário, aumentando) o volume de suas importações. Esse
tipo de proteção altera apenas a composição dessas
importações, concentrando-as naqueles produtos que os
países pobres realmente não têm condições de
produzir.
Prebisch desmontou o argumento liberal em seus próprios termos,
demonstrando que a adoção de níveis adequados de
proteção pelos países periféricos, ao aumentar sua
renda sem diminuir sua propensão global a importar, maximiza o potencial
do comércio mundial. Por isso, ele dizia, "a confiança do
GATT [hoje Organização Mundial do Comércio] no livre jogo
das forças de mercado e a proposta, dela decorrente, de reduzir
igualmente as tarifas só seriam corretas se se aplicassem a
países com estruturas econômicas homogêneas".
Ou seja: quando o centro se abre para receber exportações da
periferia, a periferia responde aumentando suas importações
oriundas do próprio centro. Quando a periferia se abre da mesma maneira,
a recíproca não é verdadeira. Neste caso, os países
periféricos tendem a ter déficit nas contas externas,
forçando-os a aumentar seu endividamento (e sua fragilidade) ou a
reduzir suas importações.
Chegamos assim ao aspecto central do argumento de Prebisch, que é
puramente econômico e nada tem de ideológico:
em um sistema internacional marcado por forte heterogeneidade, a
maximização do livre comércio não coincide com a
maximização do comércio.
Por uma questão de eficiência, países que apresentam
estruturas muito diferentes não devem ser submetidos às mesmas
regras comerciais.
Para obter maximização do comércio que é, de
fato, o desejável é preciso reconhecer uma realidade
histórica: as trajetórias de desenvolvimento, entre países
e entre regiões, são desiguais. Por isso, dizemos nós, a
proposta da ALCA, que Prebisch não chegou a conhecer, é um
equívoco sem conserto.
Ao apresentar-se como o campeão do "verdadeiro livre
comércio", o presidente Lula, um pouco por deslumbramento, um pouco
por ignorância, um pouco por irresponsabilidade, um pouco por
bajulação aos Estados Unidos, rompe com a melhor
tradição do pensamento latino-americano e adere ao discurso
hegemônico nos países centrais. Ninguém se iluda. Se o
Brasil, como diz Lula, quer "competir livremente" com os Estados
Unidos, é forçoso reconhecer que, a depender do nosso presidente,
a ALCA virá. Precisamos apenas conseguir negociações mais
favoráveis. É o que defendia Fernando Henrique Cardoso, que por
isso, em seus oito anos de governo, também não assinou o tratado
proposto pelos Estados Unidos. Queria barganhar condições um
pouco melhores.
Um dos princípios da lógica de Leibniz é o da unidade dos
indiscerníveis: se não podemos estabelecer diferenças
entre duas coisas quaisquer, devemos admitir que elas são uma só.
Lula e Fernando Henrique, nesse e nos demais assuntos, são
indiscerníveis. A luta política que se trava hoje no Brasil, em
torno das CPIs, é apenas uma guerra de grupos pelo controle de verbas e
nomeações, que alavancam negócios. O projeto para o
país é o mesmo. A fala de Lula sobre a importância do
"livre comércio" reafirmou isso mais uma vez.
[*]
Autor de
A opção brasileira
(Rio de Janeiro, Contraponto, 1998, 9ª edição) e
Bom combate
(Rio de Janeiro, 2004).
O original encontra-se na revista
Caros Amigos,
Novembro/2005.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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