Colônia do sistema financeiro mundial,
com ou sem acordo com o FMI
Após o término do acordo com o FMI, os banqueiros mundiais
estão tirando mais ou menos dinheiro do Brasil? A resposta é:
muito mais.
Com gordas verbas e esquecimento de dívidas, o governo federal alimenta
fábricas de ilusões, i.e, emissoras de televisão e demais
meios de comunicação que tentam criar uma "realidade
virtual", como se empregos e produção pudessem ser
substituídos por propaganda.
O marketing oficial caracterizou a não-renovação do acordo
com o FMI como um ato de independência. Passando ao terreno da realidade,
o cenário é tipicamente colonial. O fato de o Tesouro Nacional
não contrair novos empréstimos junto ao FMI em nada modifica a
total subordinação da política econômica às
diretivas predatórias do sistema financeiro mundial. Vejamos se
não é assim.
1. A quem serve que o Brasil pague, nos títulos da dívida
pública federal, as taxas de juros reais mais altas do Mundo, havendo
nele cerca de 200 países? Com o aumento da SELIC
[1]
, em 20 de abril, para 19,5% aa. nominais, a taxa real de juros sobre a
dívida pública do Brasil é o dobro da da Turquia, segunda
colocada, e quase três vezes a da África do Sul, terceira.
2. Depois dos colossais lucros dos bancos em 2003 e 2004, com crescimento real
de 14% por ano, alguém imaginou que esses ganhos seriam reduzidos?
Enganou-se: no 1º trimestre de 2005, os lucros de quatro grandes
(Bradesco, Itaú, Unibanco e Banespa) cresceram 50%. A soma dos quatro
foi R$ 3 mil milhões, em apenas um trimestre, com a rentabilidade
subindo de 21,8% para 27% em comparação com o 1º trimestre
de 2004.
3. A política econômica é, cada vez mais, servil à
oligarquia financeira mundial, superando na vil submissão as mais
desqualificadas republiquetas do planeta. Não fosse assim, não
seria o país privado de investimentos produtivos e da possibilidade de
desenvolver tecnologias. De fato, a produção e os mercados
são controlados pelas transnacionais, e a política
econômica é determinada por bancos estrangeiros e por entidades
teleguiadas, como a Febraban.
4. As transferências ao exterior dos ganhos no mercado interno e no
comércio exterior, combinadas com os juros altos e com os impostos
extorsivos, tornam mirrada a demanda interna. Isso, por sua vez, leva as
transnacionais e as empresas nacionais sobreviventes a se voltarem para as
exportações, aproveitando-se da pletora de recursos naturais do
País, transferidos para o exterior, por meio do agronegócio e da
extração de minérios.
5. Nos últimos tempos, a demanda externa tem crescido, em
função de: a) crescimento apreciável em alguns
países de porte, como a China e outros da Ásia, Argentina, etc.;
b) a emissão irresponsável de dólares por parte dos
Estados Unidos, que permite a esse país importar à vontade, sem
qualquer ônus, enquanto o dólar for moeda mundial de reserva.
Resultam expressivos saldos positivos no comércio exterior brasileiro.
6. As taxas de juros propiciadas pela deletéria (para o Brasil)
política do Banco Central (BACEN) atraem especuladores mundiais para os
títulos da dívida interna, o que, juntamente com os
superávits nas transações (conta corrente) com o exterior,
provoca extraordinária apreciação do real. Esta, por sua
vez, faz com que os especuladores se locupletem, fruindo, ao mesmo tempo, a
maior taxa de juros do mundo e a valorização do real.
7. De 10 de agosto de 2004 a 10 de maio de 2005, (nove meses) essa
apreciação foi 23%, ou seja, 2,3% ao mês, ou 31,8% (taxa
anualizada). Quem adquiriu títulos em agosto de 2004 e os liquida agora,
lucra, portanto, 50% aa. , já que à apreciação
cambial se soma a taxa SELIC (mais de 18%). Nada mau: no exterior, com muita
sorte, obter-se-ia 3% aa. aplicando em títulos públicos. 8.
Não admira que afluam "investimentos" estrangeiros ao BACEN e
que as reservas tenham aumentado, a ponto de serem dispensados novos
créditos do FMI. Em outras palavras, o Tesouro Nacional trocou esses
créditos, inúteis e prejudiciais ao país, por capital
especulativo estrangeiro, ainda mais nocivo, com a diferença de que este
nos custa 50% aa., e nos empréstimos do FMI os juros eram 6% a 7% aa.
9. Alguém observará que estes acarretam a imposição
de condições políticas. A isso cabe responder: "a
política econômica colonial cumpre todas essas
condições, com ou sem acordo com o FMI."
SUPERÁVIT PRIMÁRIO E JUROS PAGOS PELA UNIÃO
O FMI quer que o Tesouro Nacional brasileiro despenda cada vez mais em juros e
cada vez menos em qualquer coisa que possa melhorar o bem-estar ou a capacidade
produtiva do País. Isso é cumprido à risca, com ou sem
acordo formal, com o Banco Central à frente, falando em nome do
Império. A ideologia oficial reza que as decisões são do
mercado, mas este só funciona a favor dos interesses
plutocráticos.
Em 2002, ainda sob o príncipe dos entreguistas
[2]
, a conta oficial dos juros foi R$ 114 mil milhões [1 euro=2,87 reais],
embora a despesa efetiva tenha sido muito maior, por causa dos títulos
públicos
indexados ao dólar, pois houve grande desvalorização
cambial. Em 2003, já sob a administração petucana
[3]
, a conta oficial chegou a R$ 145,6 mil milhões. Em 2004, essas
despesas, camufladas na contabilidade oficial, caíram para R$ 128,3 mil
milhões. Mas o BACEN já cuidou de assegurar que, em 2005, os
juros cheguem, no mínimo, a R$ 200 mil milhões.
Uma exigência tradicional do FMI é o superávit
primário, um conceito fraudulento. Em 2002 o FMI queria 3,75% do PIB, e
o resultado foi 3,9%. Para 2003 e 2004, já com o acordo
"negociado" sob o atual governo, a meta, aumentada para 4,25%, foi
ultrapassada: 4,4% e 4,6% do PIB. Já os investimentos do governo
federal, em 2003, caíram de ridículos 0,8% do PIB, para ainda
mais vergonhosos 0,5% do PIB em 2003/2004.
Tal é a subordinação, que, por mais de ano, na
vigência do acordo com o FMI, Meirelles, Palocci e Lula (nessa ordem, em
termos de poder, como diz Sebastião Nery) ficaram pedindo
autorização ao FMI para o Brasil gastar US$ 2,8 mil
milhões em obras de infraestrutura (saneamento, estradas, portos).
Anunciaram como 'grande vitória negociada com o FMI', que 'afinal
consentiu'.[...] Com isso, o Orçamento de 2005 foi aprovado com R$ 21
mil milhões para investimentos. Relatou Nery, em fevereiro: " O
jornalista Kennedy Alencar, da
Folha,
acabou com a mentira: 'O presidente Lula deverá ceder aos argumentos
do ministro Palocci e promover um corte grande, e sem maquiagem, no
Orçamento da União. Valor: cerca de R$ 15 mil milhões
(para investimentos e área social só vão sobrar R$ 6 mil
milhões)'."
O GOVERNO OPERA OS INSTRUMENTOS DA COLONIZAÇÃO
O estatuto colonial não está somente no torniquete
orçamentário, que comprime toda e qualquer despesa produtiva ou
favorável à economia do País, nem só nos juros
absurdos, nem só no furor tributário. Continuam em franca
operação todos os mecanismos instituídos pelos interesses
contrários aos do País de 1995 a 2002. Continuam em vigor:
1. a famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal, que pune,
até criminalmente, agentes públicos que ousem aumentar gastos que
não se destinem a juros ou a amortizações de dívida;
2. a isenção da CPMF
[4]
em favor das transações financeiras, inclusive as de natureza
especulativa, como as de derivativos, e as mais propícias à
lavagem de dinheiros de tráficos ilícitos;
3. os contratos dos serviços públicos
privatizados, com
cláusulas absurdas, entre as quais o reajuste de preços pelo
IGP-DI
[5]
, enquanto os salários, exceto o mínimo, não são
reajustados nem pelo INPC
[6]
, nem há emprego para mais de 20 milhões de brasileiros;
4. a desvinculação das receitas da
União, que permite
desviar os recursos das contribuições (COFINS, CPMF, CIDE, etc.)
para o serviço da dívida;
5. a alienação do grosso das
ações da
Petrobrás, que agora paga mais de 2/3 de seus dividendos a acionistas
privados, na maioria estrangeiros;
6. as licitações das jazidas de petróleo
em áreas
prospectadas pela Petrobrás, as quais são adquiridas a
preços ridículos nos leilões da Agência Nacional do
Petróleo, ficando as transnacionais com a propriedade do petróleo
e sem a obrigação de pagar qualquer
royallty,
taxa ou imposto pela extração; pior: o governo obteve do STF
[7]
a legitimação dos despautérios da inconstitucional Lei
nº 9.478 de 1997, pondo o Brasil em situação inferior
à de países desprovidos de tecnologia de exploração
de petróleo, os quais, cobram
royalties
significativos em compensação pelo esgotamento de seus recursos
naturais;
7. a criação de parques nacionais e de reservas
indígenas
em extensas áreas da Amazônia e de outras regiões, nos
quais brasileiros são impedidos não só utilizar terras,
mas até mesmo de transitar por elas;
8. a presença dominante das ONGs, financiadas do
exterior, no
Ministério do Meio Ambiente, na SEMA
[8]
, na FUNAI
[9]
e outras entidades;
9. a presença imperante nos ministérios da
área
econômica e no BACEN, de teleguiados do Banco Mundial, do FMI e de outros
organismos ditos internacionais.
NOVOS ATOS DE SUBMISSÃO
Além de executar todos os itens do programa de colonização
acima resumidos, o governo adiciona novas medidas na mesma
direção.
1. Obteve a aprovação de mais uma reforma da previdência na
qual, entre outras façanhas:
a) abriu espaço para que a previdência privada obtenha lucros com
as economias dos segurados, sem lhes dar garantia alguma quanto ao valor da
aposentadoria;
b) estabeleceu a bitributação sobre os aposentados, os quais
ficam pagando, além do Imposto de Renda de pessoa física, uma
absurda "contribuição previdenciária" sem
contrapartida, na realidade, um confisco também inconstitucional
a título de reduzir um suposto déficit da
previdência proveniente do desvio das contribuições sociais
para o pagamento de juros da dívida pública.
2. Além de preservar os efeitos das viciadas privatizações
feitas por FHC-I e FHC-II, fez o Congresso aprovar a Lei das PPPs
parcerias público-privadas , determinada pelo FMI: mais um modo de
arranjar lucros sem risco para empresas favorecidas pelo Estado, o qual entra
com o capital, arrancado dos contribuintes, e o põe nas mãos dos
"parceiros" privados.
3. Fez aprovar a Lei de Falências, tal como o FMI, de há muito,
desejava, i.e., fazendo os bancos ter preferência nos créditos
devidos pela empresa falida ou concordatária, preterindo o Estado e os
trabalhadores, cuja preferência fica reduzida a um teto que a torna
irrisória.
4. Fez aprovar a Lei dos transgênicos, danosa à agricultura,
à economia e à saúde dos brasileiros, mas proveitosa para
a Monsanto e para outras transnacionais que estendem seu controle
totalitário sobre os produtores e os consumidores.
5. Acaba de propor ao Congresso projeto de lei, que permite à
União alienar terras, em concessões por 60 anos, nas áreas
de florestas, o qual, se aprovado, concluirá a entrega da Amazônia
e de outras regiões à sanha extrativa de transnacionais
estrangeiras.
6. Determinou a demarcação, como terra indígena, de enorme
região contínua no Estado de Roraima (Raposa do Sol),
constituindo assim mais um enclave escassamente povoado, para ser controlado
por ONGs e entidades estrangeiras, inviabilizando a economia daquele Estado,
onde restam muito poucas áreas em que não se veda a
ocupação pelos brasileiros.
PROFISSÕES DE FÉ INFRACOLONIAIS
O presidente da República, em falação recente, deitada na
Volkswagen do Brasil (ele sempre gostou de empresas multinacionais), não
contente em defender as "reformas" já feitas e as que
estão em andamento, prometeu derrubar a legislação
trabalhista e sindical, qualificada por ele como cópia fiel da
Carta del Lavoro,
do regime de Mussolini. Ou seja, se for para prejudicar os assalariados, vale
condenar o fascismo em discurso. Na prática, entretanto, imitar o
fascismo, ou até superá-lo, faz-se como? Favorecendo a
concentração e executando a política dos banqueiros. De
quebra, eliminando os últimos resquícios das políticas de
bem-estar social.
Para completar, o ministro da Fazenda declara que o Brasil precisa de mais 10
anos de políticas de aperto monetário e fiscal. Como, afora
episódios anteriores, como em 1964-66, estamos sob arrocho desde 1980,
ou seja, há 25 anos, o Sr. Palocci, quer assegurar que o
subdesenvolvimento se torne irreversível. Nessa marcha, as
pretensões do ministro se ombreiam com os 1.000 anos sonhados por Hitler
para o Terceiro Reich.
Notas
[1]
Serviço de licitações
que define a taxa de juros.
[2] O autor refere-se ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
[3] Neologismo formado com a união de "PT" e
"tucanos" (como são chamados os adeptos do PSDB, o partido de
F.H. Cardoso).
[4] Contribuição Provisória sobre
Movimentação ou Transmissão de Valores e de
Créditos e Direitos de Natureza Financeira
[5] Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna
[6] Índice Nacional de Preços no Consumidor
[7] Supremo Tribunal Federal
[8] Secretaria de Estado do Meio Ambiente
[9] Fundação Nacional do Índio
[*]
Doutorado em Economia pela Universidade de Hamburgo.
Autor de
Globalização versus Desenvolvimento.
benayon@terra.com.br
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O original encontra-se em
http://www.anovademocracia.com.br/2503.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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