Carta de Campinas
por SBEP
A economia brasileira patina há um quarto de século. A crise das
dívidas transformou os anos de 1980 na década perdida. A
década seguinte foi ainda mais funesta: a agenda neoliberal foi adotada
e vendida como programa de "modernização" da
nação. O que resultou disso foi o aumento da vulnerabilidade
externa e o aprofundamento da secular desigualdade social do País.
A vitória de Lula nas eleições de 2002 acenou para a
possibilidade de inversão dessa trajetória, mas o novo governo
não apresentou um projeto alternativo à agenda neoliberal. A
submissão incondicional da economia brasileira aos movimentos do capital
financeiro destruiu mais esta esperança. A política
monetária ortodoxa, que, em ambiente de câmbio flexível e
forte presença de preços administrados, pretende controlar a
inflação por meio de um modelo de metas, sufoca a possibilidade
de crescimento sustentado, pois o próprio crescimento aparece como
variável desestabilizadora e provoca imediatos aumentos de uma taxa de
juros já muito elevada. A sociedade não pode mais tolerar que se
troque o emprego dos brasileiros pelo sucesso dessa política. Ao
contrário é preciso renegociar as políticas de reajuste
dos preços dos monopólios privados de serviços de
utilidade pública e restaurar o controle sobre a política
cambial, abolindo a livre movimentação de capitais a curto prazo.
O controle sobre os fluxos de capital é também
condição fundamental para que o Brasil consiga se livrar da
armadilha da vulnerabilidade externa. Mesmo com resultados promissores na conta
corrente, o País ainda não conseguiu livrar-se dessa armadilha,
já que a liberdade desses fluxos, combinada à maior taxa de juros
do planeta, produz apreciação da moeda nacional em resposta
à intensificação da entrada de divisas. O governo nada faz
frente a esse temerário movimento do câmbio, porque o aumento do
estoque de reservas custa muito caro aos cofres públicos, dado o
desmesurado preço do serviço da dívida, e porque interessa
a utilização do câmbio como âncora do sistema de
preços. Fecha-se assim o círculo vicioso da
"credibilidade" que aprisiona a economia brasileira e assenta em
areia movediça seus "fundamentos".
A camisa-de-força da macroeconomia reduz a política
econômica à agenda micro, à melhoria do "ambiente de
negócios", às reformas institucionais que buscam
"garantir os contratos", às iniciativas para mostrar o
país como lugar seguro para os investimentos estrangeiros. À
preocupação com as reformas microeconômicas corresponde o
descaso com a produção e a demanda. Os investimentos não
deslancham, o consumo é tolhido pelo desemprego e pela queda dos
rendimentos do trabalho, e os gastos públicos são constrangidos
por superávits primários draconianos. Comprimem-se os gastos
sociais e investimentos públicos de um lado, para que de outro sejam
abundantemente contemplados os interesses rentistas das elites. É
preciso reverter imediatamente esta política que produz uma
alocação perversa dos recursos públicos, impedindo o
desenvolvimento da infraestrutura do país e condenando os gastos sociais
a uma dieta rígida, que impossibilita o necessário aumento da
oferta de bens públicos e a melhoria de sua qualidade.
A política social não sofre apenas com a escassez de recursos. A
adesão irrestrita ao receituário neoliberal torna-a também
equivocada, consagrando a fratura social mais do que a atenuando. É
preciso resgatar o verdadeiro sentido dessa política, colocando-a no
caminho do solidarismo e da universalização dos bens
públicos que constituem sua essência.
Finalmente, a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento deixa
intocada a conformação patrimonial e de renda do país. A
estrutura tributária continua regressiva e a reforma agrária
não sai do lugar. É necessário atacar imediatamente esses
problemas, implementando mudanças que permitam a progressividade efetiva
dos tributos e autorizando medidas, que há muito já existem, para
que se comece a reverter uma estrutura agrária absolutamente
inaceitável.
Todas essas medidas só se tornarão possíveis se o modelo
neoliberal for abandonado. Como o governo Lula nada fez para sinalizar essa
alteração de rota, tendo ao contrário aprofundado ainda
mais as amarras que prendem o País aos imperativos desse modelo, o custo
da reversão é hoje muito mais elevado. Mas à
manutenção de uma situação econômica
deplorável somam-se hoje o esgarçamento do tecido social e o
aumento da tensão política produzidos fundamentalmente pela
anomia na gestão da política econômica. Assim, para que o
país não se afunde em uma crise institucional mais grave,
é preciso enfrentar esse desafio e promover a imediata
alteração da atual política econômica.
O governo tem justificado sua opção não apenas com o
argumento de que não há outra saída, mas com a
pregação de que este é o caminho correto,
"cientificamente comprovado", o único coerente com os supostos
fundamentos da ciência econômica.
Os economistas reunidos no X
Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Política, em Campinas
(SP), vêm a público manifestar sua discordância da
política econômica como um todo e sua indignação com
os caminhos tomados pelo País num governo outrora considerado tão
promissor do ponto de vista da construção da Nação
e da afirmação de sua soberania. Reiteram que não
há paradigma único em ciência econômica, assim como
não há caminho único em política econômica.
Alternativas existem hoje, como existiam há dois anos e meio. Ter optado
pelo curso que levou à atual situação foi uma
questão de escolha política e perseverar nele significa
compactuar com a mesma agenda anti-social e antinacional aberta nos anos de
1990.
Campinas, 26 de maio de 2005
Este documento foi aprovado no X Encontro Nacional de Economia Política,
realizado pela
SBEP
de 24 a 27 de Maio de 2005 na Universidade Estadual de Campinas.
Este documento encontra-se em
http://resistir.info/
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