"Agora voto em Lula"
por Francisco de Oliveira
[*]
entrevistado por Flavio Aguiar e Gilberto Maringoni
Para o sociólogo filiado ao PSOL, a campanha pelo voto nulo é um
equívoco. Um futuro governo Alckmin representaria um aprofundamento das
privatizações de FHC.
O que está em jogo nestas eleições?
Há duas coisas em disputa. Há uma corrida feroz em
direção aos fundos que o Estado ainda controla, como os recursos
do BNDES e do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). O BNDES é o maior
banco de investimentos do mundo e deixa bem para trás o Banco Mundial. O
Estado orienta os fundos de pensão. E há disputa pelos
benefícios gerados a partir da dívida pública, que
beneficiam cerca de 20 mil famílias, segundo pesquisa do professor
Márcio Pochmann, da Unicamp. Essas 20 mil famílias lucram com a
dívida pública, mas não a gerem. Quem gere é o
Estado. A diferença maior entre as orientações de Lula e
de Alckmin, em termos amplos, é que o segundo promoveria uma
privatização acelerada do que resta de ativos em mãos do
estado. Lembremo-nos que, segundo os levantamentos de Aloysio Biondi, em dez
anos, entre os governos Collor e FHC, privatizou-se cerca de 15% do PIB.
Mas não há uma continuidade do projeto do governo FHC na
gestão Lula? Qual a disputa real?
A continuidade faz parte da disputa pela hegemonia na sociedade. Se nos
lembrarmos da lição gramsciana, hegemonia é 80% consenso e
20% violência. Há um projeto em andamento na sociedade, que atrai
os setores do topo e os setores miseráveis e o povão. Se Lula tem
esse projeto político na cabeça, trata-se de um gênio
político. Eu acho que ele não tem, pois age muito mais por
intuição do que por planos pré-definidos. Ele atua levando
as práticas do movimento sindical para uma esfera maior. Como se trata
de disputa de hegemonia e não de uma revolução, é
natural que ele não queira acirrar os ânimos em muitas
situações de conflito. Ambos PT e PSDB têm
projetos capitalistas, mas diferentes em sua forma.
A elite não tem como suportar a chegada do povo sequer aos jardins da
casa grande, não?
Não, porque construímos um país de desigualdade abissal.
Com uma situação dessas, só é possível
exercer a dominação de classe sem mediações. Por
isso nós tivemos, na média, durante o período republicano,
um golpe ou tentativa de golpe a cada três anos. As próprias
classes burguesas estão a uma distância muito grande do povo.
Nessa situação, o sistema político e os partidos perdem
totalmente seu sentido. Isso explica muito a aliança de Lula com Jader
Barbalho, os elogios feitos a Delfim Neto e outros. É claro que os
movimentos circunstanciais explicam esse tipo de aliança. Mas ela
está construída num projeto mais amplo. Talvez o projeto
não esteja pré-definido e venha sendo construído pelo Lula
intuitivamente. Quando ele afirma ficar chateado pelo fato de os ricos
não gostarem dele, está expressando esse projeto de hegemonia, de
ligar dois extremos sociais. A aproximação com o Jader
está dentro disso.
Como o sr. vê a mudança tática que o Lula fez nas duas
últimas semanas de campanha? Ele conseguiu sair do terreno que o Alckmin
queria colocar o embate o do moralismo e passou para o da
política, através do debate das privatizações.
Sem dúvida ele é um tático muito bom, não sei se
é um estrategista. Não sei se ele tem, alguma coisa mais
consistente por trás. Se tiver, repito, trata-se de um gênio
político. Mas acho que tudo funciona através da
intuição.
Com tudo isso, por que considerar a possibilidade de se votar em Lula no
segundo turno?
Acho que a reeleição é uma nova eleição. Os
espaços que tínhamos em 2002, de outra forma, voltam a se
apresentar, como a questão das privatizações. Esse era um
tema proibido durante o governo Lula e ainda mais na era de FHC. Os que
dissentiram foram marginalizados. Por que esse tema volta agora a ser central?
Por que se abre uma nova disputa. Por isso, eu considero a possibilidade de se
votar em Lula. Várias forças que atuaram dentro do PT voltam a
ter chance de disputar esse governo. Estou disposto a voltar a correr esse
risco, embora o governo não me agrade, seja capitalista e poderia ter
avançado muito mais.
Como o sr. vê a campanha pelo voto nulo?
Acho um equívoco e não por questões morais. Há um
espaço que pode se alargar. Há diferenças entre o governo
Lula e um possível governo Alckmin. Não espero mudanças na
política econômica, ela continuará mesma. Mas há uma
pequena chance de mudança. Por isso voto em Lula agora. E devemos usar
oportunisticamente o fato de Lula precisar de votos agora, para colocar
reivindicações que seu governo soterrou. Temos de atacar pelo
lado social.
O sr. filiou-se ao PSOL e seu partido tem outra posição...
Há um equívoco no PSOL neste caso. Votei no primeiro turno em
Heloísa Helena. Mas logo ela começou a desandar. Ela perdeu o
voto de minha mulher quando, numa entrevista para a Globo disse, sobre o tema
do PCC, que multiplicaria por dez o número de prisões. Minha
mulher virou-se para mim e disse: "Aqui acabou meu apoio".
Que mudanças o sr. espera de um futuro governo Lula?
Se depender apenas das forças que apóiam Lula e da dinâmica
que ele ganhou em quatro anos, não haverá mudança.
Dependerá de nós, de um impulso vindo de fora.Há uma
crença arraigada no Brasil de que é nos manches do estado que as
coisas se solucionam. Em parte é verdade. Mas para se realizarem
mudanças reais é necessário ativar a sociedade civil.
Temos de incentivar muita coisa para influir. Não gosto muito de usar a
expressão "movimentos sociais", porque, fora o MST, não
sei onde eles estão. Temos literalmente de encher o saco de um segundo
mandato de Lula. Não podemos deixar em paz um próximo governo
Lula. Se ele conseguir realizar seu projeto hegemônico com as
orientações atuais, o futuro será sombrio. Teríamos
de construir uma plataforma mínima, com alguns pontos básicos,
como dar ao Bolsa-família o status de emenda constitucional e entrega-la
à Previdência social, um dos órgãos públicos
mais sérios deste país. Nas privatizações,
há que se auditar e reestatizar algumas atividades. Mas eu não
quero colocar condicionalidades para a votar em Lula, porque ele não vai
ligar para isso. Precisamos é de uma pauta para orientar nossa
ação.
[*]
Francisco de Oliveira, 72 anos, é um dos mais respeitados
sociólogos brasileiros. Pernambucano de Recife, ele é professor
titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e
coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da mesma faculdade.
É autor, entre outros, do hoje clássico
Crítica à Razão Dualista/O ornitorrinco
(Boitempo).
O original encontra-se em
http://agenciacartamaior.uol.com.br/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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