O cinismo dos economistas ao serviço do capital
A inacreditável eutanásia da produção industrial
brasileira
Para justificar a aprovação da reforma da Previdência os
economistas brasileiros (do governo e do mercado) não cansavam de dizer
que ela era necessária para que a economia voltasse a crescer. O mesmo
argumento, aliás, que também utilizaram nos casos da reforma
trabalhista, teto de gastos do Orçamento, privatizações de
empresas e serviços públicos, desregulações do
mercado, etc.
Por que essas reformas fariam a economia retomar o crescimento? Por causa da
"explosiva divida pública" do país. Nada mais
além disso. Por causa de um suposto desequilíbrio das contas
públicas a economia não poderia voltar a crescer. É o que
eles sempre dizem.
Mas esses economistas ficam muito perturbados quando se compara a
relação divida pública/PIB do Brasil com o que existe no
resto do mundo principalmente com as economias dominantes, como
verificaremos mais abaixo e se conclui que essa "explosiva
dívida pública" brasileira não é tão
explosiva a ponto de ser um motivo suficiente para paralisar a
produção no país.
O fato é que muita gente acreditou neste lero-lero que a "nova
Previdência" e outras reformas comandadas pelos capitalistas da
indústria e outras classes parasitas do sistema trariam a economia de
volta ao crescimento, à geração de emprego, etc.
É nisso que essas pessoas ingênuas acreditaram. E continuam
acreditando. Mesmo que os próprios patrões e seus economistas
desmintam posteriormente que essas promessas eram falsas.
Como agora, nas últimas semanas, depois de vencerem covardemente mais
uma batalha contra os trabalhadores produtivos no país, eles vêm a
público para dizer com a maior cara de pau do mundo que a
reforma da Previdência é um passo importante, mas não garante retomada do crescimento
.
E o pior, a recuperação prometida ainda vai demorar, dizem eles.
Só no longo prazo, sabe-se lá quando, pode-se imaginar a economia
voltando a crescer acima de 3% ao ano, pelo menos. Só depois de um
número infinito de reformas no sistema.
E não desistem. Continuam com o mesmo lero-lero. Garantem que todas
essas infinitas reformas e apertos fiscais futuros terão o mesmo efeito
dinamizador da atividade econômica das reformas trabalhistas, do teto de
gastos, das privatizações, da Previdência, etc.
"O crescimento econômico requer outras reformas. Há um certo
sonho de que a simples aprovação da reforma da Previdência
produziria uma explosão de investimentos, e o Brasil voltaria a crescer
como jamais cresceu no passado. Isso não é verdade",
diz o conhecido economista Affonso Pastore, da USP e Ibre da
Fundação Getúlio Vargas.
E explica: "Nós não temos o investimento sendo uma
força propulsora. Não temos também impulso vindo das
exportações. E, finalmente, não é possível
usar estímulos fiscais porque o governo está fazendo o
contrário, está fazendo um ajuste. Ele corta gastos. Isso
significa que a recuperação da economia é lenta.
Não há como sonhar uma recuperação muito
forte."
Ele só não explica por que o governo brasileiro continua fazendo
esses idiotas ajustes fiscais e cortando gastos (não os gastos
financeiros, mas os gastos correntes). Desnecessariamente, pelo menos para a
produção real. Como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
Como se algum vestígio dessa desastrosa política fiscal da
economia do imperialismo na periferia do sistema ainda existisse nas principais
economias do mundo, como EUA, Alemanha e Japão.
Para Marcos Lisboa, outra figurinha carimbada da economia do imperialismo no
Brasil, o cenário para a retomada da produção é
ainda mais preocupante. Mesmo, repita-se, depois das reformas trabalhistas,
teto de gastos no Orçamento, privatizações,
Previdência, etc.
Para ele, todos estes sacos de maldade que eles empurraram pela goela abaixo
dos trabalhadores produtivos nos últimos anos ainda não foram
suficientes. Vejam suas explicações:
"Se não acertar a questão tributária, do
comércio exterior e da infraestrutura, a notícia é ruim. O
país chegou na situação em que chegou por tentativas
precipitadas de descobrir um atalho, inventar uma novidade, desonerar a folhar,
dar um crédito do BNDES, dar um estímulo para um determinado
setor. Essas medidas precipitadas é que geraram esse caos institucional
que a gente vive no ambiente de negócios. É preciso desfazer o
que foi feito na última década para que o investimento volte a
crescer e o país volte a gerar mais renda. Essa agenda está
demorando para avançar. E quanto mais demora para andar, piora a
estagnação".
Todos esses economistas da periferia capitalista são perigosos
chantagistas. O Sr. Lisboa é um pouquinho mais que os outros. Continua
jogando todos os males e dificuldades atuais da economia na desgastada desculpa
da "herança maldita" da administração de Guido
Mantega na economia. E aquela ingênua opinião pública
acredita piamente nisso.
Todo lero-lero repetido milhões de vezes vira verdade.
Os economistas do mercado são altamente desonestos. Aquilo, por exemplo,
que o Sr. Lisboa chama de "tentativas precipitadas de descobrir um
atalho", "inventar uma novidade", "dar um estímulo
para determinado setor", etc. nada mais é do que tudo que se faz
atualmente nas economias dominantes do sistema. Políticas
anticíclicas para evitar, pelo menos provisoriamente, a queda livre do
sistema.
Assim, o relaxamento quantitativo dos famosos "helicópteros de
Bernanke" e todas as políticas monetárias
"inventadas" pelos bancos centrais dos EUA (Fed), da União
Europeia, Japão, etc. para evitar uma súbita
paralisação das suas economias, a partir crise global de
2008/2009, entrariam facilmente nesta lista de "medidas precipitadas"
que o Sr. Lisboa considera desonestamente como a verdadeira razão da
estagnação da economia brasileira.
Além destas políticas monetárias de taxas de juros zero e
ampliação desmesurada do crédito e endividamento das
corporações privadas nas economias dominantes do sistema, o que o
Sr. Lisboa e comparsas diriam das políticas fiscais anticíclicas
aplicadas desde a crise de 2008/2009 nestas mesmas economias que comandam a
economia do imperialismo na periferia do mercado mundial?
Observe-se que foram estas políticas de gastos e déficits
públicos recordes nos últimos setenta anos que levaram,
até este primeiro semestre/2019, a uma
relação dívida pública/PIB de mais de 100% nos EUA
, de mais de 250% no Japão, Europa (85%) Itália (132%),
França (99%), Espanha (97%), Alemanha (61%).
Há uma mudança na política econômica mundial. Do
mesmo modo que o relaxamento quantitativo na política monetária
dos bancos centrais, o déficit público deixa de ser um problema
fiscal nas economias dominantes quando se trata de impedir que a crise
periódica de superprodução do capital ameaça
empurrar a produção e o emprego para o precipício.
Guido Mantega simplesmente imaginava que no Brasil se pudesse fazer essas
políticas econômicas de gente grande. Ignorou, como escrevemos
abundantemente, no mesmo momento que ele as executava, a realidade do
imperialismo que comanda totalitariamente as políticas econômicas
impostas à economias dominadas como o Brasil.
A China, por exemplo, outra grande economia dominada, como o Brasil, luta neste
momento contra essa massacrante realidade imperialista. Verifica-se que o
estoque total de dívidas corporativas, domésticas e do governo do
até recentemente chamado "chão de fábrica do
mundo" agora excede 303% do produto interno bruto do país e
representa cerca de 15% de toda a dívida global. É o que informa
nesta semana a
Bloomberg News
.
No Brasil, a relação divida pública/PIB subiu de 60,8% em
210 para míseros 77,2% em março de 2019 (último dado
disponível). A relação divida pública/PIB no Brasil
é menor que a média mundial (85%) e muito menor que no
Japão, EUA, França, Itália, etc. Pouco mais elevada que na
Alemanha.
No entanto, é essa falácia de um "explosivo endividamento
público brasileiro" que é usada pelos economistas do
imperialismo capitaneados no Brasil por gente como os Srs. Lisboa,
Pastore et caterva para justificar suas inócuas reformas e
ajustes fiscais, engessar a economia e, finalmente, encaminhá-la para o
sucateamento puro e simples, para uma inacreditável eutanásia das
forças produtivas nacionais.
Para finalizar, como se materializará no curto-prazo esta
eutanásia? Volta-se à angustiante pergunta inicial: o que se pode
esperar da economia real para os próximos trimestres?
A economista Alessandra Ribeiro, responsável pela área de
macroeconomia da consultoria Tendências, bem mais ingênua
politicamente que seus colegas acima citados, abre o jogo e dá alguns
números para o futuro da massacrada massa trabalhadora no Brasil.
" A Tendências projeta um crescimento da economia um pouco abaixo de
1% neste ano. No ano que vem, um avanço de 2%. A economia ganha um pouco
mais de tração a partir de 2021. Nesse cenário, a taxa de
desemprego cai muito gradualmente, ainda estimamos taxa de desemprego em 11% ao
final de 2022. Mas isso não significa que a economia não
está gerando emprego. Está, mas é um trabalho mais
informal. Nós esperamos este ritmo de criação de emprego
ganhando mais tração, crescendo ao redor de 1,5% ao ano, mas com
uma mudança na sua composição, de menos informal e mais
formal."
No começo de 2019 eles previam, computando a aprovação da
reforma da Previdência, que acabou acontecendo, um crescimento de 2,5%
para este ano. Agora, depois da dita cuja aprovada, estão prevendo
"um pouco abaixo de 1%", como informa a Sra. Ribeiro.
Considerando o histórico pouco recomendável destas
previsões do mercado, não há muito risco de se prever um
crescimento real "um pouco abaixo de zero¨. Na virada do ano a
economia brasileira estaria saindo da estagnação e entrando na
depressão.
Neste cenário da empresa da Sra. Ribeiro, que é mais ou menos
compartilhado por todos os economistas do mercado, só dentro de dois a
três anos "a economia ganha um pouco mais de
tração".
O desemprego? Continuará, segundo essa previsão, praticamente no
mesmo nível até final de 2022. Portanto, por mais três anos
e meio os trabalhadores serão obrigados a enfrentar filas cada vez mais
quilométricas para uma mísera vaga de emprego. Informal, diga-se
de passagem, considerando-se os efeitos maléficos mais do que evidentes
da reforma trabalhista sobre os trabalhadores produtivos.
E depois do final de 2022? Isso é um grande mistério. O futuro a
Deus pertence, dirá a Sra. Ribeiro e os inabaláveis economistas
do capital e do imperialismo.
Com essa sublime imprecisão e cinismo perante o mundo real, perante o
sofrimento da classe trabalhadora expulsa da produção, eles
estão prometendo à nação em transe que
haverá melhora do crescimento só no longo prazo. Vai demorar anos
e anos
Que até lá cada um se vire como pode. Eles se esquecem o que
dizia lorde John Keynes, o guru dos economistas de Estado: "no longo prazo
todos nós estaremos mortos".
Ele se referia, evidentemente, à classe capitalista e todos os demais
parasitas do sistema.
Lorde Keynes se referia às classes proprietárias que ele mesmo
representava e procurava salvar naquele momento de crise catastrófica da
economia mundial da revolta e da revolução dos trabalhadores
produtivos em todo o mundo.
18/Julho/2019
Ver também:
São Paulo bate recorde de fechamento de indústrias
[*]
Economista.
O original encontra-se em
criticadaeconomia.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|