Foi bonita a luta, pá! Agora, é seguir na ofensiva até a
derrubada do governo usurpador!
Brasil, zero hora do dia 28 de abril. Os comandos grevistas começam a
fechar as garagens dos ônibus, uma a uma, em praticamente todos os
Estados e no Distrito Federal. Começava a greve geral vitoriosa no
País. O metrô iniciou sua paralisação ainda pela
madrugada nas principais capitais e, mesmo com a tentativa de colocar
funcionários administrativos para operar as máquinas, a
paralisação ultrapassou os 90%. Os metalúrgicos de
vários Estados também cruzaram os braços e não
foram trabalhar, assim como petroleiros, operários da
construção civil, estivadores, funcionários dos correios,
bancários e professores de várias capitais e grandes cidades. Boa
parte do comércio também fechou e aqueles estabelecimentos que
abriram praticaram ficaram às moscas, porque não tinham a quem
vender. No total, cerca de 92 categorias [profissionais] de trabalhadores aderiram à
paralisação, representando assim a maior greve geral da história
do Brasil.
A partir das cinco da manhã, comandos móveis formados por
militantes partidários e dos movimentos sociais bloquearam as principais
ruas e avenidas das grandes metrópoles, além das estradas de
acesso às regiões metropolitanas, colocando pneus e ateando fogo,
de forma a construir grandes barricadas para bloquear o trânsito nas
principais vias de circulação de caminhões e
automóveis. Muitos também se reuniram nas paróquias para
planejar as mobilizações e piquetes. Em São Paulo, a
polícia invadiu uma igreja para prender manifestantes. A polícia
reprimiu violentamente e prendeu vários militantes, mas os protestos
continuaram pelas ruas e avenidas ao longo do dia em centenas de cidades
brasileiras. Nada impediu que o 28 de abril parecesse um domingo ou um dia de
grande feriado.
Dessa histórica jornada de lutas participaram cerca de 40 milhões
de trabalhadores de Norte a Sul do País, de acordo com as centrais
sindicais que convocaram a greve geral. Da Zona Franca de Manaus, no Estado do
Amazonas, passando pelas plataformas marítimas da Petrobrás,
metalúrgicos da região Centro-Sul, petroleiros de vários
Estados, os transportes em geral (metrô, ônibus e trens),
estivadores, milhões de professores municipais, estaduais e das
universidades, inclusive professores da rede privada, bancários das
principais cidades brasileiras, serviços em geral. Até o
comércio nas grandes capitais paralisou suas atividades: a Rua 25 de
março, principal centro comercial paulista, estava como num dia de
domingo. Ainda pela manhã, em várias regiões do
País ocorreram grandes manifestações de ruas,
encerrando-se ao final da tarde em São Paulo, no Largo da Batata, com
uma manifestação de mais de 70 mil pessoas, que marcharam
até a casa do presidente usurpador. Mais de um milhão de pessoas
estiveram nas ruas para protestar contra as reformas da previdência,
trabalhista, as terceirizações e o ajuste fiscal.
A repressão também foi muito grande em várias
regiões do País. No Rio de Janeiro, a selvageria da
polícia se destacou pela brutalidade, com as forças repressivas
atacando os manifestantes e deixando vários feridos. Em Goiás,
uma cena dantesca simbolizou a ação do aparato repressivo: um
comandante policial avançou furioso contra um grupo de jovens e acertou
uma paulada tão violenta no rosto de um jovem que o cassetete de madeira
quebrou. O jovem está entre a vida e a morte em um hospital da cidade.
Na Baixada Santista, região operária de São Paulo, onde
está o maior porto do País, a repressão contra os
estivadores foi violenta, não só através da tropa de
choque, mas também da cavalaria que avançou violentamente contra
os grevistas, deixando vários deles feridos e hospitalizados. Na
manifestação da capital de São Paulo, a polícia
também jogou bombas contra manifestantes, mas a repressão foi
menor que nas outras regiões.
Não foram apenas as grandes metrópoles que realizaram greves e
protestos contra o governo usurpador. No Brasil profundo, constituído
pelas pequenas e médias cidades do interior, também se realizaram
manifestações. Por exemplo, foram realizados atos contra o
governo em Bujari, no Acre; Marituba, no Pará; Gurupi, no Tocantins;
Arapiraca, em Alagoas; Assu, no Rio Grande do Norte; Lauro de Freitas, na
Bahia; Juari, no Mato Grosso; Sabará, Minas Gerais; Tatuí,
São Paulo e Ijuí, no Rio Grande do Sul. Isso sem contar as
cidades de porte médio, onde em quase todas ocorreram
manifestações contra o governo.
Vale ressaltar que a greve geral de 28 de abril contou ainda com uma vasta
frente de luta, que incluiu não apenas os sindicalistas, movimentos
sociais e partidos políticos, mas também a Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cujos religiosos se utilizaram das redes
sociais e dos sermões para chamar a população para a greve
geral. Também houve apoio à greve entre religiosos protestantes e
a Ordem dos Advogados do Brasil, além de associação de
magistrados, membros do ministério público do trabalho, atores e
vários artistas, sendo que alguns, como Gal Costa, cancelaram shows em
apoio à greve. Além disso, contou também com a simpatia
popular. Não foram vistas as costumeiras aglomerações de
pessoas nas filas de ônibus, nas estações de metrô ou
nas estações ferroviárias. As pessoas preferiram ficar em
casa a sair desesperadamente em busca de transporte alternativo para chegar ao
trabalho.
À exceção do grande capital, da oligarquia financeira, dos
monopólios comerciais e do agronegócio, o País inteiro
apoiou o movimento. Isso pode ser constatado nas pesquisas de opinião:
Temer tem quase a unanimidade do País contra seu governo. Apenas 9%
apoiam sua gestão e mais de 90% da população são
contrárias às reformas que estão sendo votadas no
Congresso. Como se trata de um governo que se assemelha a uma quadrilha e um
Parlamento cheio de corruptos, não é de espantar tamanha
impopularidade. Mais espantoso ainda é verificar que essa quadrilha, que
deveria estar na cadeia, é exatamente quem está votando a
devastação social contra o mundo do trabalho.
O governo e a mídia tentam desqualificar o movimento
Diante da grandiosidade do movimento grevista, o governo e a mídia
corporativa procuraram, de todas as formas, desqualificar o movimento. O
ministro da Justiça, um dos acusados de corrupção na
Operação Carne Fraca
, veio a público dizer que o movimento era pífio e coisa de
baderneiros. O próprio presidente, através de nota, fez ouvidos
de mercador e disse que as manifestações não iriam mudar o
processo das "reformas" e que o congresso daria continuidade
às votações. O caricato prefeito de São Paulo,
João Doria, anunciou na véspera que teria feito um acordo com o
Uber e o 99 (aplicativos de táxis) para transportar gratuitamente os
funcionários até o trabalho. Mas o link que permitia as viagens
gratuitas vazou e as pessoas passaram a recomendar que esse mecanismo fosse
utilizado para que todos se dirigissem à manifestação no
Largo da Batata. Diante do fracasso da empreitada, Doria foi obrigado a
anunciar o cancelamento do acordo com os aplicativos de táxis. Mas o
subprefeito da região de Pinheiros, também na capital,
forçou os funcionários a dormirem no trabalho e agora vai ser
processado por assédio moral.
Papel especial na desinformação teve a mídia corporativa,
especialmente a Rede Globo, o maior monopólio de
comunicação brasileiro. No dia anterior, seus jornais e redes de
televisão sequer anunciaram que haveria uma greve geral no País.
Mesmo diante da grandiosidade da greve, a cobertura da televisão foi
profundamente manipuladora, pois as chefias estavam orientadas a desacreditar o
movimento. Assim, evitou-se a expressão greve geral, buscou-se
caracterizar a greve como apenas dos transportes, que impediam a
população de ir e vir; dando-se especial cobertura às
cenas de confronto para associar a greve à baderna, com entrevistas de
trabalhadores dizendo-se prejudicados com o movimento.
Porém, nem as desqualificações do governo, nem a
manipulação da mídia foram capazes de influir no
ímpeto grevista dos trabalhadores. Como depois se soube, nos bastidores
o governo sentiu o golpe e nos salões da burguesia deve ter havido muito
medo e pânico, afinal, após duas décadas de refluxo do
movimento operário, os trabalhadores voltaram à cena com unidade
e força política. Realizaram uma greve política numerosa e
vitoriosa, nunca imaginada pela burguesia, em função das
condições adversas da conjuntura. O País está
há quatro anos em severa recessão, com cerca de 20 milhões
de desempregados (incluindo os desempregados oficiais e os que deixaram de
procurar emprego e não são contabilizados mais nas
estatísticas), e o governo realiza uma ofensiva midiática
permanente buscando fazer crer que as reformas vão modernizar a
nação e trazer de volta os empregos. Nada foi capaz de barrar a
força da unidade do movimento operário, popular e da juventude.
Um indício desse processo foi uma nota da Federação do
Comércio de São Paulo que calculou em R$ 5 mil milhões (U$
1,7 mil milhão) o prejuízo com a greve.
As lições da greve geral
Os primeiros ensinamentos da greve geral revelam que, quando os trabalhadores,
o movimento popular e da juventude entram em cena de forma unitária,
são capazes de mover montanhas. A partir de agora a luta de classes no
Brasil mudou de qualidade: está dirigida pelos trabalhadores, suas
organizações e seus métodos de luta. Para os pessimistas,
que imaginavam que o proletariado estava acomodado diante dos ataques da
burguesia, a greve demonstrou que os trabalhadores entram em cena na hora
certa, quando as condições objetivas e subjetivas estão
maduras para grandes ações de massa. Mesmo diante da greve
vitoriosa, não se pode cair no ufanismo: este foi o primeiro ensaio
geral de uma longa jornada de lutas, cujo desfecho será mais ou menos
profundo de acordo com a intensidade das ações do movimento
operário nos próximos meses.
Vale lembrar ainda que a greve geral de 28 de abril não caiu do
céu nem foi fruto da espontaneidade das massas, que de uma hora para
outra resolveram cruzar os braços contra o governo e seus
patrocinadores. As manifestações contra o golpe vinham sendo
realizadas já há algum tempo, muito embora ainda fossem difusas e
com elevado grau de espontaneidade. Por exemplo: nas olimpíadas, quando
Temer anunciou a abertura dos jogos, recebeu uma estrondosa vaia. Também
ocorreram protestos nos estádios de futebol, em shows artísticos,
nos blocos de carnaval, escrachos contra parlamentares golpistas nos
aeroportos, dezenas de protestos de rua, até que se pôde sentir o
ânimo das massas nas manifestações e protestos unificados
do dia 08 de março, o dia internacional de luta das mulheres, e as do de
15 de março, o dia nacional de mobilizações e
paralisações. Portanto, a greve geral de 28 de abril foi o
resultado de um processo de amadurecimento que se vinha gestando há
tempo entre os trabalhadores e que se expressou de forma organizada neste 28 de
abril.
A greve assestou um duro golpe contra as manipulações da
mídia e as mentiras do governo em relação às
contrarreformas e trouxe para o centro da luta um novo personagem: o movimento
operário e popular. Por maior que tenha sido a
desinformação e a propaganda oficial, trabalhadores de todo o
País e de dezenas de categorias demonstraram a força
política do proletariado brasileiro, ressaltando que a
manipulação midiática já não tem mais o
poder que tinha no passado. Os trabalhadores brasileiros, cansados dos ataques
do governo e das denúncias de corrupção na
administração pública e no parlamento, simplesmente
preferiram acreditar nas suas entidades representativas do que nas mentiras da
Rede Globo.
A greve revelou também, de forma pedagógica, o imenso potencial
dos trabalhadores na luta por seus direitos e por uma vida melhor. Ensinou que
os trabalhadores são a força mais importante do País, pois
quando param de trabalhar, as cidades param e o País também para.
Por isso, essa greve geral terá efeitos de curto, médio e longo
prazo no imaginário popular e contribuirá de maneira efetiva para
fortalecer a organização e o ânimo dos trabalhadores.
Também terá repercussão junto à classe dominante,
porque agora a burguesia sabe que os trabalhadores começaram a virar o
jogo, instituindo uma nova dinâmica na luta de classes. Por isso,
vão procurar de todas as formas dividir o movimento, cooptar e corromper
suas lideranças mais vacilantes. Mas a força da greve foi
tão grande que qualquer líder sindical que decida fazer o jogo do
governo poderá ser desmoralizado rapidamente.
Em outras palavras, a luta de classes mudou de patamar no Brasil. Portanto,
nessas novas condições e diante da heterogeneidade das
regiões e da luta social brasileira, a esquerda deve não
só intensificar as gestões para manter a unidade dos
trabalhadores, mas também combinar diversas formas de luta contra a
burguesia e o aparato repressivo. É fundamental parar as
fábricas, o comércio e o transporte, mas também é
muito importante formar e fortalecer os Comitês Populares Contra as
Reformas e multiplicar de maneira acelerada os comandos móveis para
parar a circulação nas grandes metrópoles. Quanto maior
for o número de comandos populares, mais dificuldades terá o
aparato militar para reprimir os lutadores. E todo esse trabalho deverá
ser condensado em grandes manifestações de rua, capazes de
inviabilizar a repressão. Uma coisa é reprimir cinco ou dez mil
manifestantes. Outra é atacar uma manifestação de 100 ou
200 mil pessoas.
Os próximos passos
A dinâmica da luta de classes desencadeada pela greve deve merecer da
esquerda socialista uma atenção especial. É fundamental
manter a centralidade da luta nas ruas, nos locais de trabalho, estudo e
moradia e junto ao povo pobre dos bairros, de forma a evitar que o movimento
seja canalizado apenas para as eleições em 2018. Essa
é uma tarefa fundamental, pois existem várias forças que,
apesar de terem contribuído para o sucesso da greve geral, não
querem levar às últimas consequências a luta contra o
governo usurpador e contra o capital, porque ainda vivem a ilusão de que
tudo pode mudar com as eleições. Para derrotar esse governo
corrupto, ilegítimo e capacho da burguesia, é fundamental
intensificar a luta de massas, colocar novas tarefas na ordem do dia para os
trabalhadores.
Também é fundamental que a nota divulgada pelas centrais
sindicais no dia primeiro de maio se transforme em realidade prática. As
centrais exigem a retirada das propostas que tramitam em Brasília,
reafirmam a luta pelos direitos previdenciários e trabalhistas e o
compromisso com a unidade do movimento e prometem ocupar Brasília para
pressionar o governo e o Congresso a reverem seus planos de ataques aos
trabalhadores e, se isso não for suficiente, assumem o compromisso de
organizar uma reação ainda mais forte. Os elementos centrais da
posição das centrais são um bom ponto de partida para
refletirmos sobre os próximos passos.
Entendemos que é fundamental ocupar Brasília, com uma grande
manifestação de mais de 100 mil pessoas, e forçar o
Congresso Nacional a revogar todas as medidas antipopulares. Mas esse fato
terá maior efeito se os trabalhadores estiverem parados em todo o
País, por um tempo maior do que a greve do dia 28 de abril. Portanto,
é importante discutir com as centrais a necessidade de uma greve geral
combinada com uma grande manifestação em Brasília. Os
trabalhadores já demonstraram sua disposição de luta. O
governo está cada vez mais impopular. Portanto, aqui vale a palavra de
ordem cantada nas manifestações de rua: "Ai, ai, ai, empurra
o Temer que ele cai".
Achamos também que está na ordem do dia a
construção do Encontro Nacional da Classe Trabalhadora e do
Movimento Popular, de forma a discutirmos um projeto social anticapitalista
para o País, organizado a partir das bases do movimento operário
e popular, capaz de construir uma ferramenta que se transforme em
referência de combatividade e organização para as massas e
que seja capaz de elaborar um programa político para reconstruir o
Brasil na perspectiva dos interesses populares, no rumo do Poder Popular e do
Socialismo.
03/Maio/2017
[*]
Secretário-Geral do PCB
O original encontra-se em
https://pcb.org.br/portal2/659
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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