"Ele se portava como um gênio não reconhecido,
que todo mundo tinha na conta de um simplório".
Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
A verdadeira meta do presidente miliciano é um golpe clássico que
lhe permita a centralização política necessária,
sob a espada militar, sem os incômodos parceiros no Congresso e no STF.
Ele expressou várias vezes tal intenção, em entrevistas,
declarações, posturas. Portanto, o espanto todo agora manifestado
pelos senhores parlamentares e juízes diante da convocação
pelo Presidente de um ato pelo fechamento do Congresso e do STF não
passa de pura encenação, pura pantomima de
indignação.
O que se esconde por trás da manobra diversionista é uma complexa
relação de forças entre dois segmentos a direita e
a extrema-direita que medem forças como pugilistas no
início de uma luta. Temos trabalhado com a hipótese que há
um segmento das classes dominantes que pensou em utilizar Bolsonaro como
alternativa para derrotar o petismo e implementar a agenda mais dura do capital
em crise. Esse segmento acreditava que podia controlar o miliciano, deixando-o
com suas proezas bizarras enquanto se ocupava do essencial: as reformas contra
a classe trabalhadora.
O problema é que não se trata, como temos afirmado, de mera
bizarrice. A profundidade da crise e as características de nossa
formação histórico-social atuam de maneira a dar
sustentação ao projeto bolsonarista. Em situação
supostamente normal, o retumbante fracasso das medidas econômicas do
ultraliberalismo de Guedes apontaria para a alternância como forma da
ordem democrática manter-se como capa protetora da ordem do capital
sobre nova forma assim como foi Itamar substituído por FHC e este
por Lula.
As próprias classes dominantes interromperam de forma casuística
a chamada normalidade, ao depor a presidente sob o pretexto das pedaladas
fiscais. Como o fracasso de Temer apontava para a volta de Lula, logo
apareceram mais casuísmos jurídicos para tirá-lo do
páreo, abrindo espaço para o protofascista vencer as
eleições.
Tratava-se, portanto, de um mero coadjuvante em um plano maior, um auxiliar
para distrair o público enquanto o mágico faria sua arte, um
palhaço de rodeio. Entretanto, como diria Chico Buarque, "quem
brincava de princesa acostumou com a fantasia". O miliciano se crê
um messias, um mito, um salvador, e diferente da centro-esquerda, dispõe
de meios para resistir às tentativas de derrubá-lo.
Quais seriam esses recursos de que o miliciano dispõe? As aventuras da
grande burguesia monopolista lograram fraturar o país e forjaram a
unidade da extrema-direita fundada no irracionalismo e sua
personificação no capitão. Tal fato lhe confere um apoio
de parte das massas que ultrapassa a fidelidade momentânea do bom ou mau
desempenho da economia, pois é precisamente esse nexo que se queria
obliterar não pode ser medido por pesquisas de
aceitação do governo, uma vez que se trata de pura ideologia em
funcionamento: uma cruzada contra a esquerda e os inimigos da Pátria e
da família realizada pela gente de bem contra o mal. Evidente que o
fundamentalismo religioso opera aqui de maneira decisiva.
O pragmatismo da direita, que sempre funcionou tão bem (a ponto de
chegar a ser copiado acriticamente pela centro-esquerda), agora se defronta com
algo que ele desconhece e teme. Em situações normais, bastava um
pretexto qualquer (que no caso não precisaria nem ser inventado, pois
estes existem em profusão), uma campanha midiática para isolar a
figura e um desfecho institucional que afastasse o miliciano deslocando o eixo
do poder para o Parlamento, com algum tipo de parlamentarismo de ocasião
ou algo do tipo, por exemplo, com Mourão.
Se o capitão contasse apenas com o apoio de um segmento de massas, ele
já teria caído. Neste ponto intervém outro fator: as
armas. Além das relações com milícias (que
só não são evidentes para as instituições
estabelecidas e para o Ministro da Justiça), temos o apoio das
corporações militares como ficou evidenciado no motim do
Ceará e parte das Forças Armadas, evidenciado pela forte
presença militar no governo. Este é um ponto obscuro, isto
é, até que ponto o capitão teria como mover segmentos das
forças armadas em sua defesa, mesmo que para enfrentar outra parte que
resistiria. No entanto, neste momento, não se trata de ter ou não
o apoio efetivamente; parecer ter é suficiente para o blefe.
Caso interrompêssemos a análise neste ponto, teríamos
praticamente um empate. Aqueles que querem retirar o miliciano teriam
posições institucionais, aparelhos midiáticos, um segmento
de massas e parte do aparato repressivo. O capitão, por sua vez, teria a
seu favor (blefando ou não), parte das massas, aparatos policiais e
parte das Forças Armadas. Se tivesse que apostar, acredito que nesse
cenário ele já teria caído. Por isso, sustento que aqui
entra um fator diferenciador: parece-me que ele ainda se sustenta e sobrevive
porque as classes dominantes se encontram divididas.
Há uma fração das classes dominantes que, apesar de
perceber o inconveniente da figura e seus riscos, acredita que ele é um
mal menor. Afinal, o fundamental são as reformas e a retomada das taxas
de lucro a patamares aceitáveis. Se o preço a pagar é a
destruição do país e uma aventura fascista, esses senhores
estão dispostos a pagá-lo como já fizeram no
passado, diga-se de passagem. Creio que aqui está a chave do enigma da
conjuntura: o miliciano ainda não caiu porque as classes dominantes
estão divididas quanto à necessidade de tirá-lo e as
consequências que daí viriam. A Rede Globo não está
sendo contraditória ao denunciar falcatruas e depois elogiar a
política econômica, apenas expressa, com isso, a divisão
interna de seus verdadeiros mandantes.
Não devemos menosprezar um fato. Não estamos falando de classes
dominantes clássicas, que ponderam, pensam, têm seus intelectuais
orgânicos, fazem cálculos e pesam riscos e oportunidades. A
adesão da burguesia brasileira ao imperialismo e a
aceitação de sua existência subordinada e dependente
produziu um subproduto que tem um impacto não desprezível na
conjuntura a saber, aquilo que poderíamos chamar de
lumpenburguesia. Trata-se de uma fração da burguesia que lucra
diretamente com a contravenção e a corrupção
(quando não diretamente com o crime), desde pequenos esquemas até
mamatas gigantescas. Ela abarca desde um parlamentar que viu seu
patrimônio aumentado em 450% em dois anos e que se notabilizou por cortar
um bloqueio às terras indígenas em Roraima, passando por
parlamentares que, depois de derrubar a presidente eleita em nome da
família e dos bons costumes, são presos por pedofilia,
corrupção, assassinato e outros delitos, até chegar em
grandes empresários e suas relações perniciosas com o
Estado, envolvendo grandes obras, contratos vultuosos, verbas públicas,
licitações e outros expedientes pelos quais o fundo
público é rapinado por interesses privados.
Em um certo momento da Revolução Cubana, Che avaliou que uma das
dificuldades no enfrentamento às forças de Batista era que,
diferente de exércitos tradicionais, eles teriam que enfrentar uma
corporação que havia transformado desde o soldado até os
comandantes em sócios das contravenções, do
tráfico, dos cassinos, etc. Em grau e forma diversa, presenciamos esse
fenômeno nas forças policiais e seu desdobramento nas
milícias. Não se trata de desvio de conduta de um ou outro
policial, mas de um sistema que envolve desde o comando até a base da
corporação, incluindo empresários, políticos,
juízes e governantes. Essa fração está mais
preocupada em proteger seus negócios. Não liga para os crimes de
Bolsonaro, tampouco para as querelas parlamentares, mas teme que ao revelar os
crimes de um acabem por expor os seus.
O golpe de 2016 foi perpetrado sob o pretexto de manter a estabilidade contra o
desassossego que impedia as reformas, mas o regime parlamentar com o
capitão à frente é tudo menos estável. A burguesia
estava pronta para um grande acordo, "com Supremo, com tudo", mas o
capitão move peças heterodoxas contra as quais o parlamento pode
pouco. Derrotado o petismo (perdão aos otimistas, mas o petismo caiu da
mesa do jogo, pois sua única carta é uma eleição
"limpa", por isso permanece à espera de 2022), o miliciano
abre suas baterias contra seus aliados: o STF e o Congresso. Mas por quê?
Ora, porque o genial plano econômico não vingou e a milagrosa
retomada do crescimento não veio. E alguém terá que ser
responsabilizado. O capitão é tosco, mas não é
burro (bem, talvez seja, mas certamente sabe jogar) e sabe que ele está
escalado para esse papel e que as consequências de não
cumpri-lo não são apenas sair e voltar para a churrasqueira na
bela casa em um condomínio mal frequentado na Barra, mas ir parar na
cadeia junto com seus filhos. Por isso, ele vai reagir ou, pior, vai
tomar a iniciativa , e tem recursos para tanto.
O inimigo é o mesmo: o socialismo! Marx, em seu magistral
O 18 de brumário de Luís Bonaparte,
comenta o um momento em que Luís Napoleão se choca com os
interesses parlamentares, passando a acusá-los de socialistas. Nas
palavras dele: "Declara-se como socialista o liberalismo burguês, o
Iluminismo burguês e até a reforma financeira burguesa" (p.
80). Entre nós, sob o signo da farsa, já tem gente falando que a
[ministra] Regina Duarte é um plano da esquerda para sabotar o governo
Bolsonaro, a Rede Globo é esquerdista, o STF é uma
instituição a serviço do comunismo internacional,
comandado desde a Venezuela.
O paiol está cheio de explosivos, mas falta a faísca que
fará tudo explodir. Para os dois lados, o que falta é mobilizar o
pretexto. No caso do parlamento e da fração que quer a
saída da peça incômoda para seguir o essencial do plano,
pretexto já existe (o presidente já cometeu, segundo analistas
insuspeitos, pelo menos dez crimes de responsabilidade), mas se depararam com
uma correlação de forças que abre a possibilidade de
confronto e eles são, fundamentalmente, covardes. O miliciano, ao
convocar os atos, colocou as instituições nas cordas, uma vez que
estas se viram obrigadas a responder ou aceitar seu destino de viver sob a
ameaça de um irresponsável. Agora, por conta da pandemia do
coronavírus, os atos foram desmarcados. Fica a impressão de que o
vírus acabou sendo uma saída honrosa para o golpista e o
Congresso. No entanto, parece só adiar o problema.
Segue o plano de interromper o processo com um ato de força, mas, para
tanto, o capitão miliciano precisa de uma situação que
justifique o ato de força para fechar o Congresso e estabelecer sua
ditadura. E, evidentemente, esta não pode ter as emendas parlamentares
que engessam o orçamento ou professores universitários pelados,
fumando maconha e dando aula de marxismo nos cursos de engenharia.
A viagem do miliciano aos EUA nos dá a pista. O que Bolsonaro precisa
é de uma guerra, ou ao menos algo que pareça uma guerra. Os
venezuelanos já sabem, Trump já sabe
Os brasileiros ainda
não, mas saberão em breve.
14/Março/2020
[*]
Membro do Comitê Central do PCB.
O original encontra-se em
blogdaboitempo.com.br/2020/03/13/o-31-de-marco-de-jair-bolsonaro/
e em
https://pcb.org.br/portal2/25119/o-31-de-marco-de-jair-bolsonaro/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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