A fraqueza da ilusão democrática: um ensaio político
não sentimental
O golpe de 2016 e a posterior eleição de Bolsonaro
impõem um sério e profundo reexame da trajetória da
esquerda brasileira nas últimas décadas. Não é mais
possível depois dessa vergonhosa derrota política e moral
continuar com "mais do mesmo", como, por exemplo, ainda manter
esperanças no STF ou em votações na Câmara dos
Deputados.
O ano de 2016 foi emblemático na história política
brasileira. O Partido dos Trabalhadores (PT), organização
política surgida no bojo da resistência à ditadura
empresarial-militar, originalmente com tendências pronunciadamente
socialistas, foi despojado da Presidência da República. O PT tem
que viver com a amarga experiência de redescobrir a existência da
luta de classes, do imperialismo, da não-neutralidade republicana dos
aparelhos do Estado etc. Marilena Chaui, lamentavelmente, também teve
que lembrar que o maior mal do mundo não reside na "classe
média" paulista.
Aparentemente, a burguesia brasileira, em suas diversas frações,
não aprendeu o respeito bobbiano às regras do jogo. Já a
esquerda pós-comunista, como muitos queriam nos anos 1980 do
século XX, aprendeu o "valor da democracia": as principais
tendências da esquerda nos últimos trinta anos respeitaram
religiosamente os limites impostos pela democracia burguesa no Brasil e, de
tanto respeitarem, como prezam as regras explícitas, mas não
ditas do jogo, passaram a ser fiéis gerentes do sistema.
As esperanças brasileiras no processo de redemocratização
que optamos por chamar de otimismo democrático foram
derrotadas. Aliás, mais que isso, esperava-se dos anos 1980 uma
oportunidade única para combater o "autoritarismo" e a
"exclusão social" históricos da formação
socioeconômica brasileira.
Inegavelmente, o otimismo tinha uma razão de ser. Afinal não
é em toda conjuntura histórica que, depois de mais de duas
décadas de ditadura, emerge um pulsante movimento operário e
popular. Tudo podia acontecer. E, no que é essencial, nada aconteceu. O
sistema político brasileiro continuou fundamentado numa democracia
restringida e com uso dilatado do terrorismo de Estado por meio de uma
política sistemática de extermínio frente a segmentos da
classe trabalhadora notadamente, a população negra das
favelas brasileiras.
No ano do golpe parlamentar, pudemos constatar que o Estado brasileiro mata,
tortura e viola mais os direitos humanos que na época da ditadura
empresarial-militar. O extermínio sistemático enquanto
política de Estado segue firme e encontra até uma forma
jurídica e constitucional para sua reprodução: os autos de
resistência (Zaccone, 2014). A militarização da vida social
não parou de crescer: um soldado do Exército Brasileiro passa, em
média, cem dias do ano em atividades "internas" (policiamento)
ver a coletânea
Até o último homem
, organizada por Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira.
Ironicamente, Orlando Zaccone pergunta "o que resta da ditadura?" E
responde, ecoando Tales Ab'Saber, tudo, menos a ditadura! A democracia burguesa
é bem mais parecida com a ditadura militar burguesa do que suspeitava o
otimismo democrático dos anos 80. Porém, curiosamente, a cada
nova constatação de que a democracia e o famoso "Estado de
Direito" estão longe das ideias dos livros e dos discursos, os
setores hegemônicos da esquerda, ao invés de questionarem a
própria ideia de democracia abraçada, optam por reforçar
suas convicções anteriores insistindo que a democracia é
pouco democrática e precisa ser democratizada
[1]
. Num ciclo de imunidade auto-atribuída, o problema da democracia se
resolve com mais democracia e cada "regressão
democrática" deve ser respondida com uma defesa mais
enfática da democracia.
O objetivo dessa reflexão é debater a regressão
democrática da democracia, abordar o processo de retirada dos direitos
democráticos da classe trabalhadora no âmbito da democracia
burguesa e o consequente empobrecimento teórico e político dos
setores majoritários da esquerda brasileira e mundial na crítica
à democracia realmente existente. A chave analítica fundamental
que guiará nossa análise é a
distinção política e teórica
entre
direitos democráticos
e
democracia burguesa
, buscando demostrar as diferenças e os desencontros entre ambos e como
a confusão entre as duas produziu nas últimas décadas um
enfraquecimento significativo na crítica e nas possibilidades
revolucionárias.
Somos todos democratas
Na história de organização da classe trabalhadora, desde a
gênese do capitalismo, sempre houve concepções diferentes
do que é democracia. Até mesmo nas revoluções
burguesas europeias, especialmente francesa e inglesa, é possível
identificar setores mais radicalizados que apresentavam propostas
avançadas do que chamaríamos hoje de soberania popular e
igualdade social como o caso do jacobinismo, na França.
A primeira grande expressão da maturidade organizativa e política
da classe operária europeia, a socialdemocracia, continha um projeto de
democracia antagônico ao defendido pela classe dominante: o liberalismo,
expressão ideológica da burguesia, compreendia uma
concepção jurídico-formal e restritiva de democracia
(igualdade jurídica e direitos políticos apenas para os homens
brancos, proprietários e europeus) e descarta qualquer conteúdo
"social" na dimensão do regime político.
A socialdemocracia apresentava uma concepção ampla de democracia,
alargando a esfera dos iguais e dos portadores de direitos políticos e
exigindo, de forma indispensável, que a democracia tivesse um
conteúdo social: o fim da propriedade privada e da anarquia na
produção, compreendidos, à época, como os
principais elementos do capitalismo, eram determinantes fundamentais da
realização da verdadeira democracia.
Durante boa parte do século XX, por matrizes diferentes, houve um
confronto entre concepções diferenciadas de democracia. Esse
gigantesco embate teórico e político foi esvaziado nos anos 1980.
De 1917 até a década de 1970 entre grandes derrotas, como
a Revolução Alemã e a Guerra Civil Espanhola, e grandes
vitórias, como as revoluções Russa, Chinesa, Cubana e
Coreana o conflito entre capital e trabalho no âmbito mundial
encontrava-se numa situação de relativo equilíbrio. Embora
a maioria do mundo fosse capitalista, a distância entre, por um lado, as
forças do capital e, por outro, as forças dos povos coloniais e
da classe trabalhadora, não era tão discrepante e existiam
ameaças reais de superação do capitalismo.
Com a contrarrevolução neoliberal e neocolonial que
avançou ao final dos anos 1970, ganhou forças na década
seguinte e foi finalmente vitoriosa nos anos 90 indo além dos
sonhos mais otimistas da ordem dominante com a derrubada da União
Soviética e das democracias populares do Leste Europeu ,
instala-se uma situação social na qual a crítica radical
do existente, e, portanto, da democracia, não estava na ordem do dia e
foi banida do debate teórico. A despeito da valentia de intelectuais
tomados individualmente que se recusaram a capitular e a aceitar "o fim da
história", formou-se um "consenso conservador sobre a
democracia
[2]
.
A democracia em sua versão liberal parlamentar, tida apenas como uma
competição eleitoral regular entre partidos semelhantes, passou a
ser o sinônimo da única democracia possível e
aceitável. O revezamento sistemático do poder entre partidos da
classe dominante, liberais ou conservadores, socialdemocratas ou neoliberais,
que executam basicamente o mesmo programa e garantem que "não
há alternativa".
Nesse cenário, os poucos que se atreviam a debater os limites da
democracia burguesa agora não mais adjetivada como tal
eram logo tachados de autoritários ou totalitários. Três
noções são fundamentais para a hegemonia do consenso
conservador em torno da democracia burguesa. A primeira (talvez a que se
mantém mais sólida nos dias atuais) é que a esquerda
revolucionária (sobretudo os comunistas) seria antidemocrática,
violadora dos direitos humanos e que sacrifica no altar da igualdade social as
liberdades individuais. Como consequência disso, as experiências de
transição socialista, chamadas em linguagem jornalística
de "países" ou "governos" comunistas, se resumiriam
a regimes autoritários ou totalitários e a
crítica/denúncia do "stalinismo" evidentemente
desempenha um papel central nessa narrativa
[3]
.
Se o principal problema das experiências de transição
socialista foi a ausência de democracia e o autoritarismo dos Partidos
Comunistas, é necessário compreender a importância do valor
em si da democracia. Aqui entramos na segunda noção. Os anos 1980
e 90 marcaram processos muito importantes: o fim do apartheid na África
do Sul e o término de várias guerras de libertação
nacional em África, a saída de cena do ciclo de ditaduras
militares do grande capital na América Latina e a
legalização/desarmamento de agrupamentos
político-militares revolucionários na América Central.
Nesses processos, já numa correlação de forças
política e militar em âmbito mundial desfavorável e com a
hegemonia neoliberal consolidada, vários ex-revolucionários das
mais diversas matizes, aceitaram que não se tratava de pôr termo
à dependência, ao subdesenvolvimento e às democracias
burguesas, mas recuperar ou criar uma democracia liberal burguesa.
O desenrolar histórico é, por si só, expressivo, e podemos
abordar rapidamente como exemplo o caso da África do Sul. O regime
pós-apartheid, dirigido Nelson Mandela e seu partido (Congresso Nacional
Africano), garantiu a vigência de uma igualdade jurídico-formal,
mas a segregação étnico-racial nos seus vários
determinantes (geográfico, econômico, cultural, social e
político) não só se manteve, como foi ampliada. Em suma,
na democracia pós-apartheid na África do Sul, mantém-se
intacto o Estado racialista
[4]
.
O complemento necessário desse violento desarme político e
teórico é o
banimento
da tematização do imperialismo, do colonialismo e da
máquina de guerra operante em todos os cantos do planeta, mas em
especial na periferia do sistema a terceira noção desse
consenso democrático. A derrota do movimento comunista no século
XX foi acompanhada da derrota da revolução anticolonial que
marcou a América, a África e a Ásia
(revolução que politicamente teve várias
expressões, como o movimento terceiro-mundista, o nacionalismo
revolucionário e a fusão entre patriotismo e marxismo, como na
Revolução Coreana e Chinesa); o imperialismo, nos anos 90, retoma
uma ofensiva neocolonial de proporções assustadoras e, justamente
nesse momento, some de cena a reflexão sobre o imperialismo, o
colonialismo e o complexo industrial-militar
[5]
.
Enquanto o neocolonialismo vivia seu melhor momento desde a ascensão do
nazifascismo, as modas acadêmicas do momento falam em micropoder,
disciplina, poder simbólico, fim do Estado Nacional e
dominação burguesa especialmente por meio da ideologia. Poucas
vezes na história foi possível achar um momento em que
reflexões que se pretendiam críticas ao
establishment
(em aspectos totais ou parciais) se descolaram tanto da realidade
[6]
. Como ciclos que se completam, a negação de qualquer
"aspecto positivo" nas experiências de transição
socialista se combina com a canonização
"crítica" ou acrítica da democracia (burguesa) e se
fundem com o banimento de qualquer reflexão a respeito do imperialismo,
do militarismo e do colonialismo. Surge o melhor dos mundos: um mundo em que
não haveria mais espaço para ditaduras, golpes militares ou o
fascismo e todos serão beneficiados pela globalização. O
grande problema da ideologia dominante é que a realidade teima em
contradizê-la.
A regressão democrática da democracia
Domenico Losurdo, no seu livro
Contra-história do liberalismo
, demostra que o pensamento liberal, desde o seu surgimento, foi uma ideologia
que buscou compreender a liberdade como um direito da comunidade dos livres:
homens brancos, proprietários e europeus (dos países centrais da
Europa). Os trabalhadores eram considerados não-humanos, como
máquinas falantes, os escravos e os povos coloniais apareciam como
essência da inumanidade, e as mulheres recebiam a
qualificação de seres inferiores.
Nunca houve dúvidas para a burguesia de que era necessário
construir um sistema político que tivesse como objetivo primeiro a
defesa da propriedade privada e da riqueza fruto da exploração: o
mecanismo de câmaras legislativas para os lordes, o voto
censitário, a proibição da montagem de partidos
operários e sindicatos, a negação de votos para
analfabetos e mulheres, a perseguição à imprensa
operária, o terrorismo estatal etc. exemplificam esse momento
histórico.
Portanto, a burguesia nunca confundiu a democracia política (isto
é, liberdade de organização partidária, imprensa,
reunião, manifestação, etc.) para a classe trabalhadora
(ou seja, a imensa maioria da população), com seu regime
constitucional-parlamentar. A primeira é criação
da classe trabalhadora nos seus enfrentamentos contra o capital
, enquanto o último é criação da burguesia sob o
liberalismo. A relação entre regime burguês e democracia
política em tempo algum foi harmoniosa. Ao aceitar pela força a
participação da classe operária no "jogo"
democrático-burguês, a classe dominante nunca deixou de buscar
mecanismos de exclusivismo no exercício do poder: a lógica
é permitir a participação política da classe
trabalhadora negando sua incidência nos centros de controle do poder
político.
Não é nosso objetivo nesta coluna detalhar os mecanismos
mobilizados pela classe dominante a fim de esvaziar qualquer possibilidade
mínima de incidência da classe trabalhadora no poder por meio da
participação política institucional. O fato importante
é o seguinte: para a ordem do capital sempre foi clara a
distinção entre os direitos democráticos e seu regime
constitucional.
Contudo, há que se considerar um fenômeno importante já
brevemente pontuado: durante a fase de ascensão das lutas
proletárias e dos povos coloniais, a tensão entre regime
burguês e direitos democráticos chegou a tal ponto que condicionou
várias rupturas democráticas, ensejando soluções
fascistas, ditaduras militares e/ou invasões militares
neocoloniais.
Houve, efetivamente, momentos em que a burguesia não suportou a sua
democracia burguesia
, porém, ao mesmo tempo em que a democracia política sob o Estado
burguês era um impedimento temporário para seguir num
padrão de acumulação de capital desejável, era um
limitador da ação das classes subalternas contra a ordem do
capital; exemplo significativo é o Chile da Unidade Popular
[7]
.
Durante a contrarrevolução neoliberal e neocolonial, ganhou
força um fenômeno novo em sua proporção:
a gigantesca regressão dos direitos democráticos da classe
trabalhadora sem precisar de rupturas institucionais.
Um dos exemplos mais significativos desse processo é a chamada
"onda punitiva" e a formatação do Estado penal nos
países centrais do capitalismo (ver as obras do sociólogo
francês Loïc Wacquant, em especial
As duas faces do gueto
e
As prisões da miséria
).
Todo esse processo de regressão democrática dos direitos da
classe aconteceu com uma inestimável contribuição dos
aparelhos de repressão e espionagem do Estado burguês. A narrativa
de uma "sociedade ocidental" na qual a repressão cede lugar
progressivamente à luta pelo consenso na dominação
burguesa, perde de vista que, frente ao aumento da densidade da rede
associativa das classes em luta na disputa ideológica, a classe
dominante respondeu com a criação de aparelhos de
repressão/controle/vigilância herméticos a qualquer
controle popular ou público. Esses aparelhos atuam numa permanente
"guerra suja" contra os movimentos e organizações das
classes subalternas: sequestros, assassinatos, infiltrações,
roubos, sabotagens, apoio a golpes de Estado, falsificação de
eleições, promoção de determinadas vertentes
culturais e guerra econômica estão entre algumas atividades
promovidas pela CIA e o FBI paradigmas maiores desse tipo de aparelho
estatal burguês, que se generalizou e profissionalizou nos países
centrais do capitalismo no pós Segunda Guerra
[8]
.
O avanço da classe dominante em seus objetivos de fazer regredir os
direitos democráticos dentro da democracia burguesa é sempre
facilitado pela própria posição de classe das
personificações do capital.
Democracia política não é a mesma coisa que
dominação burguesa, mas, sob o Estado burguês, toda
democracia política é uma forma de dominação
burguesa.
Isso ocorre porque: a) Os centros decisórios estratégicos do
Estado estarão sempre subordinados ao interesse geral de
acumulação do capital (o que não se confunde com o
interesse de um capitalista ou um de grupo deles tomado como exemplo
"empírico"); b) são tomados como fato dado, natural de
um ponto de visto ideológico, político e jurídico, a
propriedade privada dos meios de produção, a
apropriação privada da riqueza e a mercantilização
da força de trabalho; c) por ter o poder econômico concentrado, a
burguesia em suas diversas frações está estruturalmente em
vantagem na disputa pelo controle dos diversos aparelhos do Estado e, quando
perde aparelhos centrais, como um Governo Federal, dispõe de uma rede de
aparelhos de hegemonia privados que conseguem com relativa facilidade paralisar
ou destruir a ação incômoda do aparelho estatal que se
tornou disfuncional.
Dito de maneira mais simples:
sobre a base capitalista, toda democracia é burguesa, embora os direitos
democráticos sejam conquistas da classe trabalhadora
. Cabe, portanto, a pergunta: qual é o fator determinante que permite em
determinadas conjunturas a classe trabalhadora impor conquistas
democráticas ou tornar disfuncional a democracia burguesa? Resposta: a
ação de classe com radicalidade na defesa não da
democracia em si, mas dos direitos democráticos da classe
[9]
. Em todos os momentos históricos em que a classe trabalhadora
avançou em conquistas democráticas se deu em um horizonte onde se
pretendia muito mais que melhorar o Estado burguês. Isto é, foi
criticando agudamente os limites da democracia burguesia e buscando
radicalmente superá-la que foi possível impor uma relativa
democratização do Estado burguês.
No caso brasileiro, o Partido dos Trabalhadores, em sua origem advoga a
conquista do poder político. O PT dizia, numa formulação
de clara inspiração leninista clássica, que não
existe exemplo de transição socialista iniciada sem os
trabalhadores tomarem o poder do Estado (ver as obras de Mauro Iasi, em
especial,
As metamorfose da consciência de classe
e
Estado, política e ideologia na atual trama conjuntural
).
A não aliança com partidos da ordem, independência
financeira e política, o foco na luta de massas e não na disputa
institucional e o programa político radical foi o principal vetor de
resistência à transição conservadora da ditatura
empresarial-militar à democracia burguesa. Por uma série de
determinantes históricos que não cabe aprofundar nesse momento, o
PT progressivamente suavizou a radicalidade do programa, abrandou a
independência de classe financeira e política, centrou-se na luta
institucional e passou a defender como sinônimo de "caminho
democrático ao socialismo" a atuação nos marcos da
democracia (burguesa) brasileira.
A consequência é o esvaziamento da ação de classe
dos subalternos como vetor de resistência ao fortalecimento da autocracia
burguesa, e a conversão do PT em operador político do sistema,
deixando "legados" perfeitos à dominação de
classe, como a lei antiterrorismo, as Unidades de Polícia Pacificadora
(UPPs) e o apassivamento dos explorados. Nas palavras de Mauro Iasi:
"As mudanças que se verificam não se operam aleatoriamente,
mas no sentido de recolocar a consciência que se emancipava de volta nos
trilhos da ideologia. Não é, em absoluto, certas palavras-chaves
vão substituindo, pouco a pouco, alguns dos termos centrais das
formulações: ruptura revolucionária por rupturas, depois
por democratização radical, depois por
democratização e finalmente chegamos aos "alargamento das
esferas de consenso"; socialismo por socialismo democrático, depois
por democracia sem socialismo; socialização dos meios de
produção por um controle social do mercado; classe trabalhadora,
por trabalhadores, por povo, por cidadãos; e eis que palavras como
revolução, socialismo, capitalismo, classes, vão dando
lugar cada vez mais marcante para democracia, liberdade, igualdade,
justiça, cidadania, desenvolvimento com distribuição de
renda".
Mauro Luis Iasi,
As metamorfose da consciência de classe: o PT entre a
negação e o consentimento
(São Paulo: Expressão Popular, 2006), p. 435.
Em resumo, o consenso conservador em torno da democracia é o norte de
uma época histórica de brutal regressão da democracia
política, e as respostas hegemonicamente formuladas pela esquerda (a
perspectiva de democratizar a democracia) não estão conseguindo
fazer frente a esse fenômeno. O desarme teórico está
imbricado com a derrota política num processo de
retroalimentação.
Conclusão
O adversário de classe não está retrocedendo na
democracia. Esta conclusão não impõe posturas esquerdistas
e mecanicistas que não conseguem apreender, para as classes dominadas, a
diferença entre lutar sob uma democracia burguesia ou sob uma ditadura
fascista. A mudança de rota que deve ser operada pelas forças de
esquerda empenhadas em derrubar a ordem capitalista tem como prisma primeiro
encarar a democracia burguesa como ela realmente é: na democracia
realmente existente, a violência, o terrorismo estatal, a
negação de direitos básicos (como liberdade de imprensa e
organização sindical), os massacres no campo, os autos de
resistência e a história de milhares na mesma
situação de Rafael Braga não constituem um desvio, uma
perversão, do ideal do Estado democrático de Direito
são o seu funcionamento concreto, são a sua essência de
classe em movimento.
O confronto da democracia realmente existente deve andar casado com a defesa
intransigente, estratégica, dos direitos democráticos da classe
trabalhadora. A democracia política sempre carregou altíssimo
potencial de contradição com a ordem burguesa. A novidade,
contudo, é que nesse momento de crise estrutural do capital e ofensiva
neocolonial, tal contradição é aguçada. O golpe
parlamentar de 2016 e a posterior eleição de Jair Bolsonaro,
enquanto particularidades da conjuntura brasileira, impõem, igualmente,
um sério e profundo reexame da trajetória da esquerda brasileira
nas últimas décadas.
Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota
política e moral continuar com "mais do mesmo", como, por
exemplo, ainda manter esperanças no STF ou em votações na
Câmara dos Deputados.
A conclusão que se impõe, portanto, é
máximo combate à democracia burguesa e máxima defesa
dos direitos democráticos da classe trabalhadora
. Dentro desta perspectiva temos um norte de atuação para uma
retomada crítica da luta política no âmbito da
"questão democrática". Democratizar a democracia
é a forma política do reformismo burguês. Tal como as
ideologias do crescimento econômico com a distribuição de renda
, democratizar o Estado burguês retira do horizonte a luta pelo poder
popular, isto é, pela derrubada do Estado burguês e a
construção de uma verdadeira democracia fundada na propriedade
social com economia planificada e democracia operária. Não
há futuro fora da luta pelo poder popular.
Vídeo do autor na TV Boitempo, onde apresenta os quatro vetores
fundamentais da obra do filósofo marxista italiano Domenico Losurdo:
www.youtube.com/watch?time_continue=21&v=ReVUgX5Mw34
Notas
[1] "O feitiço do Estado democrático de Direito faz dele uma
entidade idealizada que alimenta uma retórica sustentada na fé,
malgrado
as práticas coloquem os seus ideais em questão. Acredita-se no
Estado Democrático de Direito e, como toda crença, é alvo
de fé e não de questionamentos. Naturaliza-se o seu sentido e a
sua lógica. A força das consignas e dos princípios
é despotencializada no seu processo de
institucionalização, quando práticas contraditórias
com as promessas liberais e democráticas são entendidas como erro
e não percebidas como coerentes com o ideário político que
as produz [
] Fertiliza com isto a ilusão de ser possível
cumprir as promessas quebradas" (Coimbra, Scheinvar, 2012, p.62).
[2} "[
] segundo o qual qualquer tentativa de
alterações substanciais no modelo representativo parlamentar nas
conduziria necessariamente a algum beco sem saída, como algumas formas
de autoritarismo, o que pode ser facilmente detectado como suposto de
inúmeras análises teóricas do tema, de ampla
aceitação na mídia impressa e televisionada" (VIEIRA,
2006, p. 15).
[3] O estudo "Fuga da História? A Revolução Russa e
a Revolução Chinesa vista de hoje", de Domenico Losurdo,
sintetiza com brilhantismo os argumentos dessa larga tendência
teórico-política e, ao mesmo tempo, fornece subsídios
essenciais para refutá-la.
[4] "Na África do Sul, a vida miserável da maioria pobre
em geral continua a mesma de antes do apartheid, e o crescimento dos direitos
civis e políticos é contrabalançado pelo aumento da
insegurança, da violência e do crime. A grande mudança
é que à antiga classe branca dominante se somou a nova elite
negra. Em segundo lugar, as pessoas se lembram do antigo Congresso Nacional
Africano que prometeu não apenas acabar com o apartheid, mas
também justiça social e até mesmo uma espécie de
socialismo. Esse passado bem mais radical do CNA é gradualmente
obliterado da nossa memória. Não é de espantar que o
ódio entre os pobres e negros sul africanos esteja aumentando".
Slavoj iek, "Por que o socialismo de Mandela
Fracassou?",
Pragmatismo Político
. Acessado em 20/07/2017.
[5} "Durante quase todo o século XX, o conceito de imperialismo
foi excluído do conjunto dos discursos políticos
aceitáveis para os círculos dominantes do mundo capitalista
[
] Em 1971, no "Prefácio" à edição
americana do
Imperialism is the Seventies
de Pierre Anime, Harry Magdoff aponta: "Como regra, os corteses
acadêmicos preferem não usar o termo imperialismo. Acham-no de mau
gosto e não científico" (Foster, 2006, p.431)
[6} Nesse ponto é necessário evitar confusões.
Não estamos afirmando que esses estudos são irrelevantes. Ao
contrário. Muitos deles, como as contribuições de Michel
Foucault e Pierre Bourdieu, são importantes na compreensão de
aspectos tópicos das estruturas de poder no capitalismo
contemporâneo. O norte da crítica é que essas pesquisas no
momento de sua produção e difusão ignoraram a
tendência principal da dominação política burguesa,
produzindo um empobrecimento da compreensão do problema enquanto
totalidade.
[7] Para uma análise brilhante dessa contradição chilena
da Unidade Popular, conferir o clássico de Ruy Mauro Marini
El reformismo y la contrarrevolución estudios sobre Chile
[8] Um tratamento mais ou menos sistemático do tema pode ser
encontrado no livro de Sérgio Lessa
Capital e Estado de bem-estar: o caráter de classe das políticas
públicas
, (São Paulo, Instituto Lukács: 2013), p. 135-149.
[9] "A classe molda o comportamento político dos
indivíduos tão-somente se os que são operários
foram organizados politicamente como tal. Se os partidos políticos
não mobilizam as pessoas como operários, e sim como "as
massas", "o povo", "consumidores",
"contribuintes" ou simplesmente "cidadãos", os
operários tornam-se menos propensos a identificar-se como membros da
classe e, consequentemente, a votar como operários" (Przeworski,
1991, p. 42).
Referências
Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira (orgs.),
Até o último homem: visões cariocas da
administração armada da vida social
. São Paulo: Boitempo Editoral, 2013.
Cecília Coimbra e Estela Scheinvar, "Subjetividades
punitivo-penais" Em: Vera Malaguti Batista (org.),
Loïc Wacquant e a questão penal no capitalismo neoliberal
. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2012.
Mauro Luis Iasi,
As metamorfose da consciência de classe: o PT entre a
negação e o consentimento
. São Paulo: Expressão Popular, 2006.
_____________,
Estado, política e ideologia na atual trama conjuntural
. São Paulo: Instituto Caio Prado Jr, 2017.
Domenico Losurdo,
Contra-história do liberalismo
. São Paulo: Editora Ideias e Letras, 2006.
Loïc Wacquant.
As duas faces do gueto
. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.
____________.
As prisões da miséria.
, Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2011.
Adam Przeworski,
Capitalismo e social-democracia
. São Paulo: Cia das letras, 1991.
Luiz Vicente Vieira,
A democracia com os pés de barro
. Recife: Editora UFPE, 2006.
Orlando Zaccone,
Indignos de vida: a forma jurídica da política de
extermínio de inimigos na cidade do Rio de Janeiro
. São Paulo: Editora Revan, 2014.
17/Julho/2019
[*]
Brasileiro, de Pernambuco, professor de história, militante do PCB.
Mantém um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow.
O original encontra-se em
blogdaboitempo.com.br/...
Este ensaio encontra-se em
http://resistir.info/
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