Pensamentos de uma baratinha numa conferencia internacional

por Keilla Mara de Freitas [*]

Quando participei da última conferencia internacional sobre Marx e os desafios do século XXI , realizada em Havana, no Palácio das Convenções em Maio deste ano, a minha primeira sensação ali era de ser uma baratinha intrusa, de não estar no lugar que me correspondia.

Era um ambiente de intelectuais, na sua maioria com mais de 50 anos. Aquela quantidade de gente com ares de donos da verdade inibiu-me. Depois, pensei comigo mesma: eu acredito na ideologia comunista e ainda que não saiba a terça parte da teoria que sabem estes senhores, estou disposta a dedicar toda uma vida por este ideal. Além disso, ninguém é dono da verdade. Com este raciocínio senti-me melhor.

Chamou-me a atenção o facto de que em todo o evento vi somente sete jovens participando integralmente. Destes, dois eram cubanos e outros dois nem sequer eram delegados e sim observadores.

Daí seguiu-se a minha segunda impressão: ali estavam algumas das cabeças pensantes do marxismo de todo o mundo, que analisam a conjuntura mundial, os erros e acertos da sua prática, a encontrar-se para decidir o que e como fazer. Mas ali não é lugar para jovens porque eles não sabem de nada, são impulsivos, emotivos e superficiais em suas análises, não compreendem a profundidade dos temas. Assim, os mais velhos discutem os erros que a sua geração cometeu quando era jovem e decidem que não os cometerão mais, transmitem as suas conclusões aos jovens de hoje que, apesar de não entenderem nada de teoria são os que estão derramando seu suor pelos seus ideais ainda pouco fundamentados. E, quando finalmente têm mais experiência e podem compreender estas coisas complicadas, já cometeram os seus próprios erros e então se reunirão para discutir sobre eles e apresentar suas conclusões aos mais jovens que não estarão presentes nas discussões como eles em seu momento.

Por considerar que este desencontro de gerações não nos trazia nenhum beneficio, coloquei a minha melhor cara de pau e, sentindo que ocupava um lugar que também pertencia à minha geração, tranquilizei-me ainda mais.

Observando os delegados antes de começar a sessão, notei que todos se conheciam entre si. Era a “elite da esquerda” que viaja pelos fóruns do mundo resolvendo os problemas dos povos.

Nisto, nada de pecaminoso: quando se pertence a um grupo é normal que se conheçam entre si. Lembro-me dos meus conhecidos de congressos, não os condenarei. Só que eu mal saia do meu estado, enquanto eles viajam pelo mundo porque estão noutro nível.

A contradição maior em relação às minhas expectativas foi o facto de eu, na minha ingenuidade, ter considerado que por se tratar de uma conferência sobre o pensamento marxista todos seriam marxistas. Acontece que ali havia de tudo. Fiquei impressionada com os pensamentos de direita que estão crescendo como novas tendências com a desculpa da actualização do pensamento marxista.

Alguns conferencistas pareciam que falavam “grego”. Nunca chegámos a um momento de descodificação daquelas análises para uma posterior explicação aos menos preparados, quem sabe em outro fórum internacional.

Outros intelectuais falavam de um jeito que pareciam bioquímicos em seu laboratório, como se os movimentos sociais e os povos fossem colónias de bactérias a serem observados através do microscópio.

Outra coisa engraçada é que dedicavam horas discutindo por exemplo se devemos chamar os EUA de império fascista ou não, se o poder se toma ou se constrói desde baixo, o próprio conceito de poder, e se passava por cima de um relato sobre a realidade da África do Sul.

Num dos dias do encontro saímos três horas mais tarde do que o programado por que um membro da UJC nacional estava dando uma conferência sobre a batalha de ideias em Cuba e alguns dos novos programas da revolução, coisa indiscutivelmente muito linda e importante de levar ao conhecimento dos presentes. Muitos se emocionavam, como um dominicano que chegou a dizer que mais de 90% de toda a população dominicana apoia a revolução cubana — quando me parece que 90% de toda população dominicana não chega sequer a saber onde fica Cuba.

Parecia que ninguém se lembrava do dia anterior, quando um cientista político chinês deu uma conferência sobre seu país e abriu a caixa de pandora ao explicar que, ainda que persistam muitas conquistas sociais dadas pelo sistema socialista, a China de hoje somente possui de socialista o nome. Uma crítica minimamente bem fundamentada na sua exposição. Os delegados se olhavam como se estivessem ouvindo o demónio, um cubano ao meu lado disse que esse homem estava louco e encolheu os ombros. E quando alguns dos intelectuais que mais haviam se destacado durante o encontro pediram a palavra, o moderador disse que tínhamos muito pouco tempo. E depois veio o próprio organizador do evento dizendo que os pobres dos tradutores e demais trabalhadores do centro estavam ali desde as oito da manhã, que estavam cansados, que tinham família, que blá-blá-blá, que não era o último dia do encontro e que havia os corredores do palácio de convenções para continuar discutindo o tema.

O que estava acontecendo ali? Qual era o problema? Discutimos conceitos académicos e realidades floridas e deixamos os assuntos mais espinhosos para depois do jantar? Porque num dia os trabalhadores não podiam chegar em casa uma hora mais tarde quando no anterior haviam chegado três? Quem decidia o que era mais importante debater?

Outro momento especial do encontro ocorreu no último dia, quando toda a tarde foi dedicada ao tema Venezuela. Exibiram um vídeo muito bem feito produzido pelo MEPLA (Centro de pesquisa Memória Popular Latino-Americana) que resumia o processo revolucionário bolivariano desde o Caracazo até à tentativa de golpe dado pelos “esquálidos”. Gostei da ideia de colocar tudo o que correspondia à oposição chavista em preto e branco enquanto que o povo, os chavistas, estava a cores. Só não gostei nesse vídeo é que parecia um documentário feito para promover a Marta Harnecker, já que ela, e somente ela, aparecia uma grande quantidade de vezes analisando a história venezuelana.

Marta, que até então não havia pedido a palavra, surpreendera-me no dia anterior ao comentar que deveríamos buscar outra forma de poder que não fosse a ditadura do proletariado. Os presentes contornaram o lapso dizendo que realmente devemos buscar outro nome para o mesmo fenómeno já que a palavra ditadura é muito mal vista e não se pode chegar ao povo com estes termos.

Talvez a discussão mais apropriada devesse ser se nos países onde existiu ou oficialmente existe a ditadura do proletariado, independentemente do nome que tenha, realmente é levada a cabo — ou se a estrutura do Estado está rígida ao ponto de somente se mover na boca dos dirigentes, que são os preparados representantes do povo. Este mesmo povo que sustenta as vigas desta estrutura desde baixo e ignora o que acontece lá em cima. Não sei se tal distanciamento ocorre devido à altura em que estão os representantes, não permitindo que o povo possa escutá-los, ou se eles perderam a capacidade de falar a língua de seus representados.

Ou me equivoco. Talvez o ponto fundamental da discussão seja sobre nossa próprias organizações que copiam este fenómeno e dizem que tudo bem, que é assim mesmo porque os media, porque a falta de quadros, por que as eleições, por que blá blá blá e a falta de recursos das entidades...

Mas voltando ao vídeo do MEPLA, gostaria de acrescentar que também me agradou que através dele — pelo menos numa única vez durante todo o encontro, ainda que fosse pelo écran gigante — o povo entrou no Palácios das Convenções. Havíamos passado tanto tempo a menosprezar, alterar, distorcer e santificar a teoria de Marx que ver um exemplo legítimo da luta de classes no seu apogeu com palavras-de-ordem e cartazes nas ruas da Venezuela era no mínimo energizante.

Depois de passado o vídeo houve algumas explicações mais específicas e se abriram para as perguntas. Uma brasileira, que não identificou procedência partidária, pediu que alguém da mesa comparasse Lula a Chavez e avaliasse a gestão Lula. Marta disse o que todo mundo já sabe sobre a complexidade da relação de forças existentes no governo Lula e argumentou algo que para mim não procede. Disse que Chavez se podia dar ao luxo de dizer não ao FMI por que tem muito petróleo e que Lula não podia fazer isso por que não o tem. Por favor! E vem dizer isso justamente onde? Quer maior prova que se pode dizer não aos EUA do que Cuba? Só que realmente não dá para fazer isto sem que meia dúzia de privilegiados perca seus privilégios. Podem usar como argumento as alianças políticas, a democracia, o tempo actual, a estratégia, as correntes mais fortes na frente do governo, o que quiserem. Mas não me digam que o Brasil não tem riquezas naturais suficientes para dar este não.

A última surpresa foi na hora das palavras finais: um membro da comissão redactora falou um bom tempo lendo um discurso sobre aquele encontro e depois disse que aquela não era a resolução final, que ainda não tinha sido concluída e propôs enviar a todos por correio electrónico posteriormente. Esperei, como sempre acontece nos encontros hemisféricos contra a ALCA, que algum representante indígena que juntou cada centavo aqui e acolá para chegar até Cuba se levantasse e dissesse que teríamos de buscar outra solução por que em suas comunidades não têm acesso à Internet. Mas foi uma espera vã: todos os presentes disseram que sim...

[*] Estudante de medicina em Havana, brasileira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

04/Jan/05