I- Antecedentes: A vitória do governo Lula em 2002
A partir da vitória do governo Lula, o MST vem trabalhando com uma
avaliação de que entramos para um período diferente e que
podemos avançar na luta pela reforma agrária.
O elemento fundamental da mudança da conjuntura agrária é
de que com o novo governo se alterou a correlação de
forças, em relação à luta pela terra, mas que ainda
estamos num período de
acúmulo.
Um período de transição, não de mudanças
radicais. Nós sabemos que o projeto de reforma agrária popular
que defendemos, depende de mudanças mais amplas e, sobretudo de um
projeto de desenvolvimento nacional, que recoloque a economia a serviço
dos interesses do povo. Somente dessa forma, a reforma agrária jogaria,
um papel fundamental para distribuir renda, combater o nível de pobreza
dos milhões de trabalhadores que vivem no meio rural, geraria empregos e
elevaria a renda da população. E isto não está
colocado nessa conjuntura.
Assim, construímos algumas
teses
que ajudavam a entender a conjuntura e ao mesmo tempo orientava nosso trabalho
de base e nossa relação com o governo e a sociedade.
Nós defendíamos que:
1- Nosso inimigo principal é o latifúndio
2- O Governo Federal pode ser nosso aliado nessa luta pela reforma
agrária e contra o latifúndio.
3- O Estado brasileiro é um aparelho de dominação burguesa
e por tanto, será um entrave para o avanço da reforma
agrária. Seja pelos entraves legislativos, judiciários, seja pela
inoperância administrativa, desaparelhamento do Incra, etc.
4- Precisamos lutar também contra o modelo agrícola do
agronegócio, que é expressão da vontade do capital
neoliberal, e que organiza nossa agricultura apenas para
exportações e para enriquecer uma parcela muito pequena dos
fazendeiros. O agronegócio são as grandes propriedades
monocultoras, que se modernizam, expulsam mão-de-obra, usam sementes
transgênicas, adotam técnicas que não respeitam o meio
ambiente e apenas se preocupam em produzir para exportar. Isso é o
oposto do que queremos para agricultura brasileira.
5- Na Luta contra o modelo agrícola estaremos enfrentando os interesses
do imperialismo. O imperialismo é representado por algumas poucas
empresas transnacionais que aliados com os fazendeiros do agronegócio
querem controlar nossa agricultura, através do controle das sementes, do
comercio agrícola, das agroindústrias e das tecnologias.
6- Devemos levar adiante a luta contra os transgênicos e em defesa do
controle das sementes pelos agricultores. Agora, estamos disputando o futuro da
agricultura, na disputa do controle das sementes, que a longo prazo coloca em
risco a soberania alimentar e inviabiliza a agricultura camponesa e reformada.
7- Devemos também atuar na luta contra a ALCA, porque a ALCA representa
o arcabouço jurídico, do projeto de dominação do
capital estrangeiro, em especial das multinacionais estadunidenses. E
através da ALCA chegaríamos a desnacionalização
completa da agricultura, e a inviabilidade de um projeto de desenvolvimento
nacional, condição necessária para viabilidade da reforma
agrária.
8- Nossa tarefa interna, como movimento social é nesse momento
acumular
forças. O
momento
é de disputar acumulando.
9- Para acumular forças, significa que devemos ter
base social
organizada. Isso significa trabalhar prioritariamente, para aumentar o
número de famílias acampadas, e intensificar a melhoria da
organicidade
das famílias já assentadas.
10- Acumular internamente significa também priorizar os esforços
na formação de militantes e quadros. Significa manter-se alertas
na defesa dos valores e princípios de nossa organização.
Ou seja, devemos atuar com muita atenção na
elevação de nossas condições subjetivas,
organizativas e ideológicas.
II- O que aconteceu durante o ano de 2003
Durante o ano de 2003, a luta pela reforma agrária se desenvolveu de
acordo com o que tínhamos previsto na nossa analise.
1- De nossa parte, como MST
e também os demais movimentos sociais, todo mundo arregaçou as
mangas e nos dedicamos a organizar nossa base, para ampliar nossa força
na luta pela reforma agrária.
Daí surgiram centenas de acampamentos em todo país. Durante o ano de 2003
cerca de 200 mil famílias foram acampar na beira das estradas, animados
com a perspectiva de que com o governo Lula, agora a reforma agrária
sairia do papel.
2- Do lado do Governo,
percebemos durante o ano de 2003, uma longa luta interna, ao redor da
elaboração do Plano Nacional de Reforma Agrária. Setores
conservadores do governo que controlam o Ministério da Agricultura e o
Ministério da Fazenda, não queriam dar prioridade a reforma
agrária, e lutavam para que não houvesse recursos. Chegavam a
comentar que no máximo, deveríamos ter um plano para assentar 80
mil famílias.(em todo mandato) e que o governo deveria manter a reforma
agrária como uma política de compensação social,
apenas nos casos de conflitos sociais. Como, aliás, já era a
política do governo FHC de 1995-2002.
De outra parte, havia setores progressistas do governo, que junto com o MDA
organizaram uma equipe para preparar um plano nacional de reforma
agrária. Essa equipe entregou ao Governo, em outubro de 2003, uma
proposta de plano que previa assentar um milhão de famílias em
quatro anos. Que previa a reestruturação do Incra, a
mudança de vários aspectos da legislação, a
transferência da CONAB para área de reforma agrária, e
também a constituição de um Instituto Nacional de
Capacitação Técnica, para ajudar a capacitar os assentados.
Houve muito debate dentro do governo, e finalmente, em 21 de novembro de 2003,
após uma marcha unitária, de trabalhadores rurais ligados a
Contag, ao MST, MTL e as Pastorais, chegamos a Brasília para pressionar
pelo Plano Nacional de Reforma Agrária. E aí o governo apresentou
uma proposta intermediária. Assentaria 430 mil famílias, nos
três anos que ainda restava do mandato (já não cabia mais
um plano de 4 anos) e assumiu politicamente a responsabilidade de que
não faltariam recursos, e que priorizaria as famílias acampadas.
Os movimentos que lutamos por reforma agrária aceitamos a proposta e
firmamos esse acordo político com o governo federal. Consideramos uma
vitória o compromisso de assentar 430 mil famílias, pois ao longo
dos últimos vinte anos de luta, não tínhamos conseguido
assentar essa quantidade.
3- E o terceiro ator, da luta pela reforma agrária, são as elites
brasileiras,
os fazendeiros, que são precisamente contra a reforma agrária.
Durante o ano de 2003, percebendo o comprometimento histórico do
Presidente e do governo com a reforma agrária trataram de agir de todas
as formas para impedir o avanço.
Graças às suas articulações, em algumas
regiões do Brasil, o poder judiciário passou a prender as
lideranças. No congresso, a bancada conservadora se articulou para
constituir uma Comissão Parlamentar de Inquérito - CPMI, com
objetivo de tumultuar o avanço da reforma agrária.
E finalmente, passaram a usar com contundência os meios de
comunicação que eles controlam, como a televisão e os
grandes jornais, para fazer uma propaganda sistemática a favor das
vantagens do agronegócio, e contra todos os movimentos que lutam pela
reforma agrária. E usavam os meios de comunicação para
atacar o governo também. Todos estamos lembrados da forma como agrediram
o presidente, apenas porque colocou o Boné do MST, numa audiência
publica.
Esperavam assim conseguir inibir o governo federal, na sua
disposição de implementar a reforma agrária.
III- O quem aconteceu em 2004
Durante o ano de 2004, a luta pela reforma agrária seguiu esse clima de
disputa que já se desenhava durante o ano de 2003. Mas os principais
elementos da conjuntura ao longo do ano foram:
1- Apesar do acordo realizado com os movimentos para implementação
de um plano nacional de reforma agrária, que tinha como meta assentar
430 mil famílias nos três anos, começando por 115 mil em
2004, o governo ficou paralisado, por outras influencias políticas.
2- Retomamos então com maior intensidade a luta pela reforma
agrária, com a famosa jornada de abril, que a imprensa burguesa fez
questão de chamar de abril vermelho, dando ampla notoriedade.
3- Milhares de trabalhadores se mobilizaram em todo país. Pela primeira
vez na história conseguimos realizar 127 ocupações de
latifúndios em apenas um mês. Tal era a disposição
da nossa base de pressionar pela realização da reforma
agrária, e tal era o grau de sacrifício debaixo das lonas pretas
que os companheiros estavam dispostos a se mobilizar.
4- O Governo federal sensibilizado pelas mobilizações e pelo
apoio
que a sociedade nos deu, já que de fato a reforma agrária estava
parada, anunciou que aumentaria os recursos da reforma agrária para 1,7
bilhões de reais, e anunciou um plano de cargos de servidores
públicos para área de reforma agrária, que previa a
contratação de mais 4.500 servidores para atuarem na reforma
agrária. De novo, os movimentos consideramos uma vitória
política, resultado de nossa mobilização.
5- De parte dos fazendeiros, dos setores conservadores e dos setores
direitistas
do Governo Lula, eles continuaram a atacar a reforma agrária, e
também aumentaram o tom contra a reforma agrária. E alem dos
ataques na imprensa, quase que diariamente, dos pronunciamentos do ministro da
agricultura, no final do ano, se percebeu o aumento da violência por
parte dos fazendeiros, que está representado em dois massacres: O
assassinato dos três fiscais do Ministério do Trabalho que
investigavam trabalho escravo, no agronegócio do maior produtor de
feijão do país, no município de Unaí-MG. E mais
tarde, em novembro, o massacre de um acampamento do MST em Felisburgo, quando
em plena luz do dia, o fazendeiro e 15 pistoleiros assassinaram cinco
companheiros acampados, dois deles, com mais de 60 anos de idade.
6- De nossa parte, procuramos responder com a unidade de todos os movimentos,
entidades de apoio, e pastorais que atuam no meio rural, e no final de novembro
de 2004, realizamos em Brasília uma conferência com mais de 15 mil
militantes, delegados, vindos de todos os estados do Brasil e de todos
movimentos (com exceção da Contag). A conferência realizada
em Brasília foi um sucesso, de numero de participantes, de debate
político, realizado com setores do governo, com intelectuais, com
universidade e com nossa militância. Encerramos a conferência com
um documento de análise da situação, com um conjunto de
sugestões ao Governo e com uma passeata em frente ao Banco Central
pedindo mudanças na política econômica do país.
IV- Avaliação da Reforma Agrária em 2003-2004
A realização da Conferência Terra e Água, que
unificou todos os movimentos e entidades que lutam pela reforma agrária
no Brasil, foi muito importante, porque ela permitiu fazer uma análise,
um balanço, do que realmente estava acontecendo no país e na
reforma agrária.
1- Balanço: Viu-se que transcorrido dois anos de governo, as metas de
famílias assentadas tinham alcançado nos dois anos, menos de 80
mil famílias, e que a esse ritmo o governo não cumpriria o acordo
de assentar 430 mil assumido em novembro de 2003.
-
Viu-se que o governo não tinha conseguido realizar o concurso e
contratar os novos servidores.
-
Viu-se que o governo não fez nenhuma mudança nas normas e
legislação da reforma agrária para acelerar as
desapropriações: como seria mudar o rito de
desapropriações, mudar a portaria dos índices de
produtividade que medem se é produtiva ou não. Alterar o sistema
de pagamento dos fazendeiros que permite eles cobrarem na justiça,
até juros, por cessação de lucros.
-
Mas por outro lado, viu-se e ouviu-se o governo dizer na conferência de
que tinha vontade política de fazer a reforma agrária. De que se
comprometia a não faltar recursos para a reforma agrária.
2- Porque então não sai a reforma agrária? A
conferência nos ajudou a analisar e compreender esse paradoxo: de um lado
tínhamos a realidade mostrando que a reforma agrária não
andava, e de outro tínhamos um governo dizendo que era sua prioridade e
que tinha vontade política. Porque então não sai a reforma
agrária? Fomos buscar a resposta dessa pergunta, nas seguintes
questões:
a) Apesar de ter um governo que se diz a favor da reforma agrária, ele
não comanda o estado brasileiro. O estado brasileiro, naquilo que
representa de estrutura administrativa, leis, poder judiciário, policia,
etc é um estado burguês, organizado apenas para proteger as elites
e manter seus privilégios. Ou seja, o estado brasileiro não
consegue trabalhar a favor dos pobres e trabalhadores.
b) Os fazendeiros e seu agronegócio, incrustados em setores do governo e
na imprensa, e nas universidades, fizeram uma luta ideológica permanente,
para convencer a sociedade de que a solução para a agricultura
brasileira era a grande propriedade modernizada se dedicando a
exportação. Que eles estavam salvando o Brasil. Por trás
dessa postura ideológica de luta por um modelo de agricultura, estava
também a defesa dos interesses de classe. Pois esses setores dedicados a
exportação, vêem nas áreas de latifúndio
improdutivo a possibilidade de expansão de suas áreas de
produção para a exportação. E se o governo se
antecipasse e desapropriasse essas áreas improdutivas para reforma
agrária, a inviabilizaria sua expansão, a fronteira
econômica do agronegócio. Então o agronegócio lutou
desesperadamente contra a reforma agrária, planejando sua
expansão.
O mesmo fizeram em relação às áreas da
Amazônia, quando fizeram uma luta ideológica contra os
ambientalistas, e até contra o Ministério do Meio Ambiente, para
reduzir os controles das áreas agrícolas da Amazônia, e
assim expandir as áreas de soja e algodão para lá. E o
assassinato da irmã Dorothy, em 2005, demonstra a que ponto eles podem
chegar para retirar os que se opõem à sua política. E esse
setor, graças à sua atuação nas
exportações, recolhendo os dólares que o governo precisava
para pagar a dívida externa, aumentaram sua influência no governo
Lula. O governo foi ficando cada vez mais refém de seus interesses, e
isso ficou demonstrado durante todo debate da lei de Bio-segurança, em
que os latifundiários, a chamada bancada ruralista, impuseram sua
vontade sobre o governo. E ficou ainda melhor demonstrado na
eleição da presidência da câmara, quando os
conservadores impuseram uma derrota ao candidato governista.
c) e a terceira razão de porque a reforma agrária não
consegue desenvolver-se é sua contradição com a atual
política econômica do governo. O governo Lula mantém uma
política econômica que é a continuidade da política
do governo FHC. É uma política baseada, na garantia de sobras do
orçamento, o chamado superávit primário, para então
pagar a dívida interna aos bancos. Baseada em altas taxas de juros, com
a desculpa de controlar a inflação e o crédito. Mas na
verdade é a forma de remunerar regiamente os bancos, que nunca ganharam
tanto dinheiro. É uma política baseada no estímulo das
exportações para poder recolher dólares e pagar a
dívida externa e enviar os lucros e royalties das empresas
transnacionais pro exterior. Ora, essa política econômica gera
mais concentração de renda, gera desemprego, e não
desenvolve a economia do interior, apenas as empresas modernas ganham dinheiro.
E a reforma agrária é uma política de governo justamente
para atender o contrário. É uma política para distribuir
renda, gerar emprego e desenvolver as economias dos municípios do
interior, baseado na produção de alimentos. Então,
enquanto não mudar a política econômica, a reforma
agrária se encontra inviabilizada.
V- Qual a saída, então?
A situação da reforma agrária está muito
complicada. Isso vai exigir muito mais organização,
mobilização e inteligências dos movimentos de trabalhadores
para acertarem nas suas táticas e conseguirem derrotar os inimigos da
reforma agrária. Diversas idéias estão colocadas como
parte dessa avaliação da conjuntura, e que precisamos debater e
encontrar formas de dar encaminhamentos práticos.
1- Estamos diante de uma correlação de forças, que
é melhor do que na época do Governo FHC, mas ainda é muito
complicada, difícil, e por isso demora conseguirmos avançar.
2- Os avanços possíveis vão depender da capacidade de
mobilização, de pressão dos trabalhadores. E mesmo assim,
será um longo período de acúmulo de forças. De
disputa com os latifundiários.
3- Nosso inimigo principal continua sendo o latifúndio.
4- Precisamos enfrentar uma batalha ideológica para explicar para a
sociedade de que o agronegócio não é a melhor forma de
organizar a nossa agricultura, e que ele só produz dólares para
alguns, e gera desemprego e crise para a maioria da sociedade. Só foi
baixar um pouco os preços no mercado internacional, e os fazendeiros
já se declararam em crise para pegar dinheiro do governo.
5- Precisamos construir uma grande aliança do povo brasileiro em torno
de outras frentes de massa, como a Campanha pelo Pleno Emprego, como a Campanha
contra a ALCA, como a Coordenação de Movimentos Sociais, como o
Grito dos Excluídos, como a Semana Social da CNBB, para construirmos
mobilizações unitárias e uma força maior, do povo,
que consiga mudar a política econômica do governo.
6- Precisamos realizar grandes mobilizações de massa, no MST, na
Via Campesina para ampliar nossa força pressionando a reforma
agrária. Daí a necessidade da Marcha Nacional.
7- Precisamos nos somar às iniciativas da OAB e da CNBB, para aprovar a
lei que normatiza a convocação dos plebiscitos populares. Para
que o povo brasileiro possa ser convocado a votar e decidir sobre
questões fundamentais como a lei de transgênicos, etc.
8- O ritmo da reforma agrária, agora, não depende mais da vontade
política do governo apenas, depende fundamentalmente da capacidade dos
movimentos sociais aumentarem sua força e sua pressão social,
para que essa força impulsione uma reforma agrária mais
rápida.
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