Enfrentar a ofensiva do capital a partir das lutas dos trabalhadores
A crise política e institucional brasileira vem se agravando de maneira
acelerada, com o aumento da fragilidade do governo e o deslocamento de parcelas
expressivas da burguesia para o campo do impeachment. Estamos assistindo a uma
disputa suja, própria do chamado
estado democrático de direito
, onde o setor hegemônico da burguesia viola as regras e leis que ele
próprio instituiu, afrontando a Constituição e manipulando
informações para atingir seus interesses. A hipocrisia das
classes dominantes revela-se claramente no fato de o processo de impeachment
ser comandado por Eduardo Cunha, corrupto que já deveria estar na
cadeia. Além disso, mais de 100 parlamentares estão sendo
investigados em função de graves denúncias de
corrupção, como Michel Temer, Aécio Neves, Renan
Calheiros, além de alguns governadores e outros políticos da
ordem.
Os setores que querem derrubar o governo são ainda mais conservadores e
buscam aplicar com rapidez o que o PT vem implementando de forma gradual, para
não contrariar parte de sua base social, formada por sindicalistas e
ativistas sociais. São as velhas oligarquias financeiras ligadas ao
capital internacional, os oligopólios industriais, comerciais e de
serviços, o agronegócio e todos aqueles que ganharam rios de
dinheiro com a política de conciliação de classes do
governo petista.
Diante da crise econômica mundial e seus impactos no Brasil e da
impossibilidade de o PT continuar o apassivamento das massas, a burguesia
resolveu acabar com a terceirização e formar um governo
"puro sangue". Essa constatação, no entanto, não
nos leva a hipotecar solidariedade a esse governo que, mesmo acossado pela
direita, sancionou, às vésperas das manifestações
que chamou em sua própria defesa, a Lei Antiterrorismo que, na
prática, é semelhante à Lei de Segurança Nacional
dos tempos da ditadura e visa criminalizar e perseguir os movimentos sociais.
A articulação entre setores do judiciário, do parlamento,
de empresários e da mídia corporativa é uma grave
ameaça às liberdades democráticas, duramente conquistadas
pelos trabalhadores, com destaque para a forma incisiva e constante com que a
rede Globo manipula as informações. Não é a
primeira vez que este monopólio se envolve em tramas sórdidas
para atender seus interesses e os daqueles que lhe financiam. Lamentavelmente,
ao longo de todo o ciclo petista esta organização foi um das mais
privilegiadas com verbas publicitárias do governo, que agora reclama da
forma como estão sendo veiculadas as informações, mas
não tomou nenhuma medida no sentido de restringir o poder dos
oligopólios midiáticos e promover a democratização
dos meios de comunicação.
O principal responsável por essa ofensiva da direita é o
próprio Partido dos Trabalhadores, que não só praticou
nesse período uma política de conciliação de
classes, como desenvolveu a cooptação de lideranças
sindicais e de movimentos sociais e a despolitização das massas.
O que está acontecendo agora é resultado das opções
políticas que o PT fez nesses mais de 13 anos de governo. Vale lembrar
que a burguesia possui mecanismos suficientes para interferir na
institucionalidade de acordo com seus interesses. Portanto, o que está
acontecendo, a rigor, não é um golpe contra essa democracia, mas
uma manobra da burguesia que não precisa mais do PT para gerenciar o
capitalismo. Desde o início, estamos contra esse processo de impeachment
porque entendemos que, seja qual for o resultado, será contra os
interesses dos trabalhadores. Advertimos, no entanto, que as classes
dominantes, diante do fato de que os seus principais dirigentes
políticos estão envolvidos com a corrupção,
aceleram o processo de impeachment para resolver rapidamente esse problema
político e, em seguida, abafar as outras denúncias contra seus
quadros.
Somos visceralmente contra a corrupção e a promiscuidade que
existe na sociedade capitalista entre os interesses privados e públicos
e entendemos a indignação de amplos setores das massas com a
corrupção que se instalou, há muito tempo, em praticamente
todas as esferas do Estado. Mesmo levando em conta que a
corrupção é da natureza do sistema capitalista e que as
forças conservadoras procuram por todos os meios manipular a
opinião pública em relação a este tema, exigimos
que as investigações sejam aprofundadas e que todos os
envolvidos, sem exceção, sejam punidos exemplarmente,
independentemente da posição que ocupam no governo, no Parlamento
ou nas empresas.
Esse governo, mesmo que escape do processo de impeachment, não vai mudar
de rumo. Ao contrário, está envolvido num círculo vicioso
no qual, a cada concessão que faz, a burguesia exige novas
concessões. Se sobreviver, seu destino é continuar implementando
a política neoliberal. Qualquer novo governo da burguesia poderá
ser ainda mais prejudicial aos trabalhadores. Em ambos os casos
promoverão os ajustes e cortes de direitos exigidos pelo capital; a
diferença pode ser no tempo, na forma e na intensidade.
Com o acirramento da crise econômica, social e política, emerge um
ciclo de luta aberta entre capital e trabalho, processo que foi ofuscado e
apassivado pelos governos PT. Esse não é um momento para
pessimismo, perplexidade ou passividade. Os trabalhadores precisam confiar em
sua organização e mobilização para derrotar as
forças reacionárias a serviço do capitalismo.
Portanto, esta é uma conjuntura especial em que um ciclo está se
esgotando e outro está nascendo. É o momento para se iniciar a
reorganização de todas as forças e partidos do campo
socialista, do sindicalismo classista, dos movimentos sociais da cidade e do
campo e ambientais, dos coletivos anticapitalistas e de todos aqueles que
desejam e lutam por uma sociedade justa e igualitária, constituindo um
grande bloco de lutas para enfrentar esta grave conjuntura. É preciso
construir um programa político de unificação dessas lutas,
com a participação de todos, para levar adiante a
contraposição à ofensiva do capital e buscar uma
alternativa à esquerda para os trabalhadores, de forma a construir um
novo rumo para o País.
Comissão Política Nacional do PCB, 21 de março de 2016
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/10665#more-10665
Esta nota política encontra-se em
http://resistir.info/
.
|