Chacina do Jacarezinho não pode ser esquecida!
A mídia burguesa começa a tirar das manchetes e a tratar de forma
secundária o massacre efetivado pela Polícia Civil do Estado do
Rio de Janeiro na comunidade do Jacarezinho, a qual, no dia 06 de maio, foi
acordada pela ação policial que resultou na morte de 27
moradores, na mais bárbara chacina promovida na Cidade do Rio de Janeiro
nos últimos tempos. Sob a alegação de combate ao
tráfico de drogas, a polícia do Governador Cláudio Castro
deu sequência a um modo de agir do Estado brasileiro que tem se tornado
cada vez mais frequente, aplicando a lógica do extermínio da
população periférica, principalmente da juventude negra
favelada.
A política de segurança pública do Estado brasileiro
é a política do confronto, do abate, das chacinas, como
demonstram ações de extermínio ocorridas nos
últimos 30 anos: massacre do Carandiru em São Paulo (1992),
quando 111 presos foram executados; massacre da Candelária (1993), com a
morte de 8 adolescentes; execução de 21 moradores de
Vigário Geral (Rio, 1993); assassinato de 27 presos no presídio
Urso Branco, em Porto Velho (RO, 2002); chacina com 30 mortos na Baixada
Fluminense (2005), tendo sido assassinados crianças, jovens, homens e
mulheres; 15 mortos na maior chacina do Paraná, todos moradores de uma
favela em Guaíra (2008); tortura e morte de 11 jovens, por policiais
encapuzados, na Chacina do Curió, em Fortaleza (CE, 2015); oito mortos
por milicianos na favela do Salgueiro em São Gonçalo (RJ, 2017).
O Estado da Bahia também vivencia hoje um aumento vertiginoso de
ações policiais letais. 97% das vítimas das
ações armadas do Estado fazem parte da população
negra e periférica.
Estas e inúmeras outras ações ocorrem diariamente nas
comunidades proletárias dos grandes centros urbanos (muitas nem
são noticiadas), além dos conflitos agrários, que resultam
em ataques promovidos por latifundiários, com a providencial ajuda do
Estado, a posseiros, camponeses, trabalhadores e trabalhadoras rurais, povos
indígenas, quilombolas, populações ribeirinhas, em sua
luta pelo direito à terra. Nos últimos anos é cada vez
mais usual também o uso da violência policial para perseguir e
desalojar ocupações de trabalhadores e trabalhadoras em luta pelo
direito à moradia, direito este negado pela sociedade capitalista
à imensa maioria da população.
No caso do Jacarezinho, além do alto número de mortes, a
violência usada pela polícia, conforme relatos de seus moradores,
foi assustadora: invasão sem mandado judicial (prática já
usual dos policiais) com destruição do interior das casas,
agressões gratuitas e execuções sumárias inclusive
de quem havia se rendido. As consequências foram corpos espalhados pelas
ruas da favela e muito sangue derramado. Questões conjunturais pesaram
para a operação policial ser executada: ação
articulada por Bolsonaro e Castro para confrontar o STF e a
proibição de incursões do tipo durante a pandemia; desvio
do foco sobre a CPI em curso no Congresso; aceno às bases fascistas do
bolsonarismo, que aplaudem o extermínio de todos aqueles que são
apontados como "bandidos" (a exemplo da declaração do
General Mourão); ataque a uma comunidade que seria controlada pelo
varejo de drogas, para favorecer a entrada e posterior domínio da
milícia paraestatal, que funciona nas comunidades também como
empresa, livre de impostos e de encargos trabalhistas, explorando ilegalmente o
gás de cozinha, o transporte alternativo, a "gatonet" e ainda
cobrando taxas a título de "segurança". Todas essas
são conjecturas possíveis de se analisar.
Porém, para muito além das questões conjunturais, o
genocídio da população negra é uma política
de Estado no Brasil. Reforçando o fenômeno do racismo inerente ao
próprio sistema capitalista, o Estado burguês garante a
reprodução das desigualdades sociais, mantendo altos
níveis de exploração da força de trabalho, para o
que o racismo é absolutamente funcional. A política de guerra
às drogas justifica o assassinato de dezenas de milhares de pessoas por
ano, num processo histórico voltado para o controle da classe
trabalhadora e dos pobres das periferias, contribuindo ainda mais para a
reprodução da engrenagem capitalista. Mas essa é uma
guerra que não atinge os verdadeiros traficantes, alguns deles elegantes
personagens de destaque do mundo empresarial ou político na mídia
burguesa e nem os usuários de drogas de alta renda, que recebem suas
encomendas tranquilamente em suas casas. Isto mostra a necessidade de
reforçarmos a luta pela legalização do uso de drogas, de
como é exemplo o Uruguai.
Com o desenrolar da crise sanitária provocada pela pandemia da Covid-19,
a morte em massa das populações negras pela negligência no
combate ao vírus se somou à tradicional política de
assassinatos em massa promovida pelo Estado, política esta que
não teve trégua nem no momento inicial da quarentena, no ano
passado. A letalidade policial só fez crescer durante a pandemia. Na
verdade, o proletariado brasileiro não teve chance alguma de fazer
qualquer tipo de isolamento social, obrigado a buscar a sobrevivência por
meio do trabalho presencial. Com o fim do auxílio emergencial de R$
600,00 [93,71], o aumento exponencial do desemprego, a
inflação corroendo o bolso do trabalhador, crescem a
miséria e a fome no país. Junto com a mortandade provocada pela
Covid e pela inação deliberada do governo genocida de Bolsonaro,
Mourão e Guedes, a classe trabalhadora convive com a crise social e as
ações letais do Estado, que faz avançar o processo de
criminalização das comunidades proletárias.
É preciso barrar a política de extermínio, racista e
elitista conduzida pelo Estado brasileiro, hoje representado nos governos de
extrema direita de Cláudio Castro no Estado do Rio de Janeiro e de
Bolsonaro, Mourão e Guedes na esfera federal. Somente organizado o povo
trabalhador poderá enfrentar a política genocida e de
extermínio do Estado brasileiro, numa luta em defesa de seus direitos e
contra a superexploração imposta pelo capitalismo. A chacina do
Jacarezinho não pode ser esquecida. Sua comunidade está
mobilizada, convocando novas manifestações com
organizações sociais e populares, para seguir repudiando o
massacre policial, exigir a punição dos responsáveis e
avançar na construção do poder popular.
Conclamamos todas as forças políticas e sociais, as brasileiras e
os brasileiros que se indignam com a barbárie capitalista a organizarmos
e participarmos de atos de repúdio ao genocídio da
população proletária, uma política eugenista das
classes dominantes, há décadas aplicada em chacinas nas
comunidades carentes de todo o país e, nesta quadra pandêmica, com
o estímulo deliberado às mortes, sem auxílio, sem
assistência médica e sem vacinas, dos trabalhadores e das
trabalhadoras.
Chega de mortes nas favelas, periferias e bairros populares!
Pela suspensão imediata de qualquer operação policial
durante a pandemia!
Pela desmilitarização da política de segurança
pública!
Nem vírus, nem balas, nem medo!
Pelo Poder Popular, no rumo do Socialismo!
12 de maio de 2021
Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro
Ver também:
Em defesa da vida, do emprego e dos direitos
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/27279/chacina-do-jacarezinho-nao-pode-ser-esquecida/
Esta nota encontra-se em
https://resistir.info/
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