O mergulho da galinha
por Eleutério F. S. Prado
[*]
Como se sabe, a economia capitalista no Brasil, que sustentara uma taxa de
expansão bem expressiva entre 2004 e 2010, passou a crescer a taxa
decrescentes a partir dessa última data. Ademais, como mostra o
gráfico abaixo (Figura 1), não apenas foi perdendo o ritmo de
dilatação nos anos seguintes, mas entrou no caminho de uma
contração a partir de 2014. Em meados de 2017 é
possível observar uma tendência de recuperação, mas
ainda não se sabe se esse retorno se efetivará ou não nos
próximos meses. Turbulências econômicas e políticas
ainda parecem turvar o horizonte das expectativas em geral e, em particular, do
cálculo econômico dos capitalistas. Estes últimos
estão sempre ávidos por lucros, mas também nunca deixam de
temer fortemente a eventual perda do capital já acumulado no passado.
Em postagem passada (Prado, 2017A), acompanhando um uso consagrado por diversos
economistas, caracterizou-se o padrão de crescimento de longo prazo
dessa economia como "voo da galinha" (Filgueira, 2017). Pois, como
bem se sabe, ela se encontra quase-estagnada desde o começo dos anos
1980, quando se esgotou a chamada industrialização por
substituição de importações (Bresser-Pereira,
2015). Desde então, se o seu ritmo de expansão ora subiu ora
desceu de modo intermitente, parece ter mantido sempre uma tendência de
ficar próximo ao chão. Ora, se essa inclinação
pintou ter se alterado justamente no período entre 2004 e 2010, isto
ocorreu principalmente por causa de um boom externo que se esgotou com a crise
da economia mundial de 2007-2008. Já chegando agora ao final da segunda
década do século XXI, esse padrão afigura-se estar
já sendo reposto. E isto está ocorrendo após uma queda
acentuada, um verdadeiro mergulho do crescimento econômico.
Como explicar mais essa década perdida possível? A primeira,
ocorrida nos anos 1980, é normalmente explicada pela crise
inflacionária e de endividamento externo que se abateu sobre a economia
capitalista no Brasil durante este período. Ela se originara, como se
sabe, da captura de volumosos capitais externos com a finalidade de dar
continuidade, nos anos anteriores, ao processo de substituição de
importação. Quando os juros sobre a dívida externa
cresceram no final dos anos 1970, esse endividamento se mostrou
insuportável.
Os efeitos dessa crise de crédito contribuíram para entravar a
continuidade de um processo de acumulação de capital
típico de países retardatários no desenvolvimento
capitalista, o qual, no Brasil, iniciara-se nos anos 1930. Agora, porém,
ele se esgotara principalmente porque o sistema criado era pouco competitivo em
termos internacionais e insuficientemente lucrativo do ponto de vista da
lógica capitalista que, como se sabe, nunca busca o bem comum nacional
ou humanitário (Prado, 2017B). Mas esta que agora sobrevém, como
explicá-la?
Segundo um estudo do CEMEC,
Recuperar a poupança do setor público para dar espaço ao
financiamento do setor privado
, a causa da crise dos anos 2010 se encontra no enorme desarranjo observado das
finanças públicas. E este fora criado no governo do
Partido dos Trabalhadores
, especialmente durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, entre 2010 e
2014. Segundo esse estudo, em resumo, "o desequilíbrio fiscal
está na raiz da crise brasileira" (CEMEC, 2017). Os enormes
déficits no orçamento público passaram a absorver, a
partir de 2013, uma parte significativa da poupança gerada pela economia
brasileira, de tal modo afirma que os recursos disponíveis
para o investimento no setor privado encolheram, depenando, assim, o
crescimento do PIB. O estudo do CEMEC pretende mostrar essa tese por meio dos
dois gráficos que se seguem (Figura 2 e Figura 3).
O gráfico acima apresentado indica claramente que o investimento (isto
é, a formação bruta de capital fixo mais a
variação de estoques), ao vir de um patamar de 21% (entre 2010 e
2014) para um patamar de 15% do PIB, despencou no biênio 2015-2016. Na
linha de argumentação aqui resenhada, essa queda é
então explicada pela queda da poupança doméstica, que cai
de 18% para 14% entre os mesmos dois períodos. Note-se que a
poupança total é igual à soma da poupança
doméstica com a poupança externa (medida pelo déficit em
contas correntes) e que essa soma é igual ao montante do investimento
(tudo medido como porcentagem do PIB). Note-se, também, que a drenagem
da poupança doméstica parece tão severa que ela precisou
ser complementada com a poupança externa, a qual cresceu de 2014 em
diante.
Os autores do estudo, que se filiam à teoria neoclássica,
entendem que a poupança determina o investimento e, por isso, explicam a
queda do investimento pela queda da poupança (nome contábil do
volume de capital monetário aplicado como investimento). Mas,
então, por que essa última se reduziu tão fortemente. A
explicação que dão se encontra no gráfico seguinte,
o qual mostra a poupança dos setores privado e público, ainda
como porcentagem do PIB. A poupança do setor privado se manteve quase
constante no período como um todo, mas a poupança do setor
público, em virtude do desarranjo fiscal já mencionado, tornou-se
fortemente negativa em seu final. Mostrando-se positiva ainda em 2012, ela se
tornou negativa daí então, para chegar, em 2016, a menos 6% em
termos de PIB.
Ora, é esse fato que dá sentido à afirmação
central do estudo do CEMEC. Segundo assopra para ouvidos encantados por tal
evidência empírica "iniludível", a forte
elevação do déficit público é que explica a
atual crise da "economia brasileira". A redução de
poupança disponível para a elevação da capacidade
produtiva do sistema econômico produtor de mercadorias redunda na queda
do investimento. Ora, assim, este é tomado como componente passivo da
demanda agregada. De qualquer modo, ao cair tão fortemente como ocorreu
nos últimos três anos, ele arrasta consigo ninguém
tem dúvidas sobre isso o próprio PIB.
A teoria neoclássica é um produto espetacular da
imaginação explanatória que labora matematicamente na
ciência econômica e que não pretende mais do que arquivar
regularidades empíricas. Mesmo sendo uma representação
completamente fantasiosa do sistema capitalista realmente existente, ela
é, entretanto, capaz também de fornecer
interpretações econômicas que apenas parecem corretas, mas
que, por isso mesmo, podem servir aos interesses dos capitalistas. Pretende-se
mostrar que este é o caso da explicação antes apresentada,
mas isso só ficará claro ao final do argumento. De qualquer modo,
como se sabe e não custa lembrar, para esta teoria, a "economia de
mercado" funciona perfeitamente pelo menos em princípio.
No mundo concorrencial em que peleja o capitalista real, entretanto, o
investimento, longe de ser passivo, é a chave que abre a porta do
céu e do inferno. Se for bem-sucedido, o seu dono acumulará mais
e mais capital; se fracassar, ele perderá em parte ou no todo o seu
"rico dinheirinho". A inversão, instrumento de luta na
concorrência capitalista e momento do processo de
acumulação, lidera e comanda o dinamismo turbulento do sistema
econômico da relação de capital. Eis que ele depende, por
isso, crucialmente, da lucratividade esperada, já que o lucro e
somente o maior lucro possível é o aguilhão da
produção capitalista.
Os economistas keynesianos, que almejam modelar o funcionamento do sistema
econômico de modo mais realista, contrariam os neoclássicos
afirmando que o investimento não é servo da poupança, mas
o seu senhor. Admitindo que a inversão é em geral financiada
ex-ante
por meio da expansão do crédito (isto é, pela via da
criação ex-nihilo de capital fictício), consideram que ela
propicia a elevação
ex-post
do nível da produção de mercadorias assim como da renda
[NR]
nacional e, em consequência, a geração da poupança
adicional que vai cobrir a elevação inicial do investimento.
Nessa perspectiva, ao contrário do que pensam os economistas
neoclássicos mais ortodoxos, o nível da poupança se ajusta
completamente ao nível do investimento. Se este aumenta, cresce a
poupança; se este se contrai, decresce a poupança.
Ora, tudo isso é em parte e apenas em parte correto: o
investimento pode, sim, ser acelerado por meio da expansão
autônoma do crédito. No entanto, antes de fechar o argumento,
é preciso observar que para os keynesianos em geral a taxa de lucro
é apenas uma variável esperada que não está
diretamente vinculada ao processo de acumulação pregresso e,
assim, a seus resultados em termos de rentabilidade. Ao contrário, para
eles, é o investimento que determina o lucro e, assim, a lucratividade.
Por isso, é preciso acrescentar algumas considerações, as
quais modificam substantivamente esse quadro. Primeiro, a inversão
não ocorre apenas em capital fixo; ela, ocorre também em capital
circulante, isto é, em matérias-primas e força de
trabalho. A empresa capitalista está constantemente realizando o capital
antes investido e o reinvestindo, em maior ou menor proporção, na
produção de mercadorias. O capital, como se sabe, é valor
que passa pelas formas mercadoria e dinheiro e, ao passar por elas, no interior
do circuito típico do capital industrial, valoriza-se. É, pois,
essa lógica que caracteriza o processo de acumulação.
Segundo, se o investimento depende, sim, da taxa de lucro esperada, esta
advém em geral de uma projeção, ainda que afetada por
outras considerações, da taxa de lucro que vem sendo realizada no
passado imediato. Ademais, ele está também condicionado pela
massa de lucros obtida no passado: não só porque essa massa (na
forma de lucros retidos, por exemplo) financia em parte o investimento, mas
também porque ela é condição para a
obtenção de financiamento. O investimento, em suma, não
pode ser tomado só como componente da demanda agregada; ele é
momento necessário da acumulação de capital. Assim, ao
contrário do que supõe o keynesianismo, é mais correto
afirmar que a taxa de lucro real determina, em processo, o investimento.
De qualquer modo, é fácil mostrar empiricamente que o
raciocínio neoclássico ortodoxo está bem errado em sua
interpretação do desenvolvimento recente da economia capitalista
no Brasil. Basta comparar a evolução da taxa de lucro
média entre 2000 e 2015 (Figura 4) com a evolução do
investimento, a qual aparece em gráfico anteriormente apresentado
(Figura 2).
Como se pode notar, a taxa de lucro cresce entre 2002 e 2007, passando a cair a
partir de então, pelo menos até 2014, quando se inicia a
depressão. Ora, o investimento como porcentagem do PIB passou a declinar
somente de 2013 para 2014, mantendo essa tendência daí em diante.
A desaceleração do crescimento econômico, no entanto,
começou já em 2011. Ora, a queda do investimento veio a ser uma
resposta, com certa defasagem temporal, à forte queda da taxa de lucro
efetiva então observada. Pois, quando cai a taxa de lucro efetiva,
é de se esperar que as expectativas de taxa de lucro caiam também
em sequência, levando ao corte dos investimentos.
A demora da resposta do investimento frente à queda da taxa de lucro
pode também ser facilmente explicada pela política de
sustentação da demanda praticada pelo governo Dilma Rousseff com
a finalidade não só de satisfazer as necessidades da
população, mas também, principalmente, de manter a
popularidade e de ganhar as eleições de outubro de 2014. Foi essa
política, em última análise, que produziu o forte
desarranjo inicial das contas públicas. Ela apelou para fortes
desonerações fiscais e estas, junto com outras medidas, apenas
atrasaram a queda do investimento.
Quando as empresas individuais procuram salvar o capital próprio
já acumulado, contraindo a produção e/ou se abstendo de
investir, elas produzem uma queda geral no nível da atividade
econômica. As receitas do governo, em consequência, encolhem
não só porque estaciona ou mesmo se reduz a
produção de mercadorias, mas também porque as empresas
capitalistas, em dificuldade, deixam de pagar os impostos devidos. A
recessão e, no caso, a depressão é, pois, a
principal causa do agravamento do déficit público, tal como
aquele mostrado a partir de 2012, na Figura 3. As empresas com sobras de caixa,
ademais, mantêm esses recursos nos mercados financeiros; e estes se
juntam aos recursos das famílias mais ricas, estruturalmente rentistas,
ajudando assim a financiar a dívida pública que se torna
crescente.
O agravamento do déficit público a partir de 2015 se deveu
também não se pode esquecer isso à
própria política econômica de austeridade implementada
desde o início no segundo mandato de Dilma Rousseff. Política
esta, aliás, que foi sim continuada e mesmo agravada pelo seu
inominável sucessor, após o golpe parlamentar completado em
agosto de 2016.
A alta e a média burguesia como um todo, pelo menos quando não
irrompe uma grande quebra de empresas industriais, comerciais e
bancárias, perdem pouco com as recessões e depressões
mesmo se é certo que muitos burgueses, individualmente
considerados, empobrecem quanto os seus capitais individuais são
destruídos. Quem perde mais, certamente, são os trabalhadores
assalariados: a taxa de desemprego se eleva, muitas famílias afundam na
miséria, a desesperança se espalha entre os que labutam pela mera
sobrevivência, o salário real daqueles que permanecem empregados
cai expressivamente.
Desgraça sem fim para uns, esperança para outros. Eis que as
crises as crises não caem do céu, mas ao contrário
são inerentes ao processo de acumulação
sobrevêm para criar as condições de uma retomada exitosa
ainda que apenas possível. Ela depura os capitais ineficientes,
força a racionalização dos capitais sobreviventes, produz
a elevação da taxa de lucro. A própria queda depressiva
atua funcionalmente para reduzir os salários reais dos trabalhadores,
permitindo uma recuperação endógena e auto-sustentada da
lucratividade. Em seu interim, ademais, permite que a burguesia reforce o seu
poder de dominação sobre a classe trabalhadora.
Havendo analisado até certo ponto a conjuntura econômica recente,
é preciso perguntar agora como o erro teórico apontado atende,
não obstante, aos interesses capitalistas. Se o desequilíbrio
fiscal não está de fato na raiz da crise brasileira, o que o dedo
ameaçador apontado para ele, então, vem justificar? E mais do que
justificar, encaminhar a implementação de ações
efetivas.
É evidente que ele se presta para justificar a política de
austeridade que visa sobretudo, ao reequilibrar os orçamentos estatais,
reduzir o espaço do setor público na economia para ampliar o do
setor privado. Ela possibilita cortar principalmente os gastos públicos
que se voltam ao atendimento das necessidades sociais. Ela permite reformar a
legislação de proteção ao trabalho e aos
trabalhadores em prol do poder capitalista. Ela torna possível e mesmo
força a radicalização da política de
privatização que sobrepõe o interesse privado ao interesse
comum.
Na situação atual do Brasil, a política neoliberal de
austeridade visa destruir as parcas conquistas históricas dos
trabalhadores, as quais se consubstanciaram na assim chamada social-democracia
que, neste país grande e periférico, aliás, nunca
chegou ao pleno desenvolvimento. Ela quer substituir a sociabilidade
capitalista amenizada pelo reformismo histórico por uma sua
versão mais pura, isto é, regrada apenas pela concorrência,
pelo "espírito animal" que move os capitalistas e que deve
também mover os trabalhadores enquanto "capital humano". Ela
quer também, para completar a sua obra
"revolucionária", transformar a democracia liberal de baixa
intensidade em democracia de fachada.
Registre-se, porém, que essa política não está
abrindo um horizonte de firme expansão da economia capitalista no
Brasil. Ao contrário, é bem provável que ela, no melhor
dos casos e depois de penosos anos recessivos, permita apenas um futuro bem
medíocre, no bojo do qual se agravarão enormemente os espasmos e
as dores de uma sociedade dilacerada, cada vez mais incapaz de vir a ser
bem-sucedida.
14/Agosto/2017
Referências
Bresser-Pereira, Luís Carlos A quase-estagnação
brasileira e sua explicação novo-desenvolvimentista. In:
Indústria e Desenvolvimento Produtivo no Brasil.
Org. Nelson Barbosa. Elsevier St:
2015.
CEMEC Recuperar a poupança do setor público para retomar o
crescimento. Nota CEMEC 03/2017.
Filgueiras, Luiz Padrão de desenvolvimento e a natureza
estrutural do "voo da galinha". Publicado neste blog em 14/03/2017.
Marquetti, Adalmir; Hoff, Cecília; Miebach, Alessandro
Lucratividade e distribuição: a origem econômica da crise
política brasileira. Sítio da SEP: XII Encontro Nacional de
Economia Política, 2017.
Marx, Karl
O capital Crítica da Economia Política
. Volume I, tomo 1. São Paulo: Abril Cultural, 1983-A.
______________
Crítica da Economia Política,
Volume III, tomo 1. São Paulo: Abril Cultural, 1983-B.
Prado, Eleutério F. S. Subiu no poleiro, voou mais alto e
despencou. Publicado neste blog em 21/04/2017A.
______________
Das explicações para a quase-estagnação da economia
capitalista no Brasil. In:
Brazilian Journal of Political Economy,
vol. 37 (3), nº 148, jul-set 2017B.
[NR] No Brasil chamam de renda a qualquer tipo de rendimento, não apenas
o dos rentistas.
[*]
Professor titular e sênior da FEA/USP. Correio eletrônico:
eleuter@usp.br
. Blog na internet:
http://eleuterioprado.wordpress.com
O original encontra-se em
eleuterioprado.wordpress.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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