O pleno emprego
por Ciro de Oliveira Machado
[*]
Em todo processo econômico, o pleno emprego de homens e máquinas
deve ser,
mas não é
, o principal item do planejamento estratégico.
As grandes tragédias da humanidade, quais sejam a fome, a
violência civil, a violência política, as doenças, as
brutais diferenças de nível econômico, as crises e
depressões, a inflação crônica, o não
crescimento, os monopólios e oligopólios, o desperdício, a
ineficiência, a concentração de rendas e a amoralidade
econômica, têm no
desemprego
sua causa principal.
Para que exista o pleno emprego de homens e máquinas
, é necessário e suficiente o atendimento dos seguintes itens,
qualquer que seja o sistema econômico:
1- Igualdade entre a oferta (bens e serviços nacionais e importados,
oferecidos pelas empresas e governo) e demanda (bens adquiridos ou recebidos
pelas pessoas físicas e jurídicas, nacionais e estrangeiras).
Este item inclui:
a)
O equilíbrio fiscal
: um sistema de contas públicas equilibrado, ou seja, com o governo com
orçamento democrático, gastando
[1]
apenas aquilo que arrecada, havendo imediata compensação entre
déficites e superávites governamentais.
b)
O equilíbrio em contas externas
: um sistema de transações externas equilibrado, ou seja, com
contas externas (mercadorias e moeda) apresentando equilíbrio, havendo
imediata compensação caso haja déficits ou
superávits nas contas de importações e
exportações.
2-
Um sistema monetário equilibrado
para todas as empresas, com emissão de
moeda neutra de desenvolvimento
diretamente à empresa, segundo o
desenvolvimento
percentual previsto, ou seja, para um aumento de x% na produção,
que seja emitido mais x% de moeda posta à disposição desta
empresa. Esta emissão cobrará das empresas juros proporcionais ao
ambiente de negócios
: se for positivo, juros mais altos, se neutro, juros mais baixos, mas que
não ultrapassem 2% ao ano. Não deve haver emissões de
moeda inflacionária para pagamentos das contas do governo, ou,
emissões de moeda inflacionarias para importações acima
das exportações, ou emissão de moeda inflacionária
para as próprias empresas, ou para investimentos ou para seus
próprios clientes. O câmbio entre a moeda do sistema e a moeda
internacional deverá aquilatar o
Equilíbrio Econômico Internacional
[2]
e não gerar moeda pelo simples câmbio da moeda internacional,
típica, como é o caso do dólar, de um sistema
internacional desequilibrado e em rumo a uma depressão máxima..
Um sistema de cobrança de juros equilibrado
, ou seja, com juros iguais ou menores do que o rendimento da empresa menos
rentável do sistema, necessária ao prosseguimento econômico
deste sistema. Não seriam também considerados os
juros dirigidos
, válidos apenas para compras em "determinadas" empresas.
No livro "A Nova Economia Política"
[3]
está cientificamente provada esta tese.
Se seguirmos os três itens, chegaremos ao
Equilíbrio Econômico
e teremos um desenvolvimento econômico
máximo.
O sistema estará pronto para desenvolver-se, ao produzir bens de
investimento que atendam aos aumentos de população, às
invenções de novos produtos e/ou às técnicas de
produção de maior produtividade.
Bastaria, portanto, a emissão de mais moeda neutra de desenvolvimento a
ser entregue às empresas investidoras para completarmos este processo de
crescimento ou desenvolvimento. As empresas investidoras complementarão
sua capacidade de investir por meio de empréstimos feitos às
demais empresas do sistema, devido ao fato dos juros de equilíbrio ser
menores do que a sua lucratividade esperada..
Se não seguirmos esses três itens, teremos um desenvolvimento
menor, com um desemprego, tão maior se maiores forem as
infringências a esses itens.
Desequilíbrio fiscal
Um déficit governamental implicará em empréstimos, ou (1)
do banco central que emitirá moeda inflacionária para cobrir
estes gastos adicionais, vindo daí a causa de inflações
explícitas (por ex. Governo Sarney) ou ainda não
explícitas (EUA, após 1944) ou (2) do setor privado.
No caso (1), o banco central emprestará ao governo moeda
inflacionária para o pagamento de suas contas não cobertas por
suas receitas. Teremos, imediatamente, no sistema, mais moeda do que a
necessária para suas transações, provindo, daí, uma
inflação, tão alta quanto maiores forem o percentual das
dívidas governamentais no período.
As empresas serão as primeiras a reajustarem seus preços, vindo
em seguida os preços do governo, os preços administrados pelo
governo tais como prestações de casa própria e energia e,
finalmente
, num processo que pode durar de um mês a doze meses, os salários.
Haverá perda de poder de compra dos salários, últimos em
cada processo a serem reajustados. As empresas, com preços
inflacionados, passarão a produzir menos de forma que suas receitas se
equivalham ao fundo de salários depreciados, gerando, daí, o
desemprego
.
No caso (2), de empréstimos do setor privado, é necessário
que o governo pague um juro desequilibrado maior do que aquele
juro de equilíbrio
, igual ou inferior ao rendimento da empresa menos rentável do sistema,
necessária ao prosseguimento econômico deste sistema. Caso esse
juro fosse o de equilíbrio, o empréstimo não se realizaria.
Ao pagar este juro desequilibrado o governo toma para si parte da
poupança do país como um todo, impede que empresas emprestem este
dinheiro com juros inferiores à suas taxas de rendimento e induz a um
desemprego
nessas empresas.
Pior ainda é o caso em que o governo, atolado em dívidas,
estabelece juros altíssimos e continua emprestando para o pagamento do
serviço dessas dívidas às empresas monopolistas ou
oligopolistas do setor privado, cada vez mais influentes, estas sim as grandes
beneficiárias deste sistema gerador de
desemprego
e concentrador de rendas.
Desequilíbrio em contas externas
Se a moeda do país baixar em muito em relação à
moeda internacional (o dólar) esse país será
essencialmente exportador e terá menos mercadorias para suas
transações internas. Os preços tenderão a subir.
Era esta a situação que tínhamos até recentemente
no Brasil.
Se a moeda do país crescer muito (caso dos EUA e sua moeda internacional
dólar) ou tiver um câmbio favorável em
relação à moeda internacional (o dólar) esse
país será essencialmente importador e terá mais
mercadorias para suas transações internas, sendo que os
preços tenderão a baixar. Os consumidores do país
considerarão que tem um governo excepcional, pelos menos enquanto essa
situação durar.
Tivemos tal situação no Brasil logo após a
implantação do Plano Real. Veio logo em seguida a chamada
"crise cambial", com medidas de política econômicas que
favoreciam as exportações, para reunir moeda internacional para o
pagamento de nossa dívida externa.
Teremos, novamente, esta crise ou porque não dizer, esta
depressão cambial, tão logo se inicie a
depressão máxima
, cujos indicadores já estão presentes em nossa economia, por
exemplo, com a queda paulatina do dólar.
Atualmente os consumidores brasileiros estão surpresos. Está
havendo muito consumo. O dólar está perdendo seu valor em
relação às principais moedas do mundo devido a sua enorme
quantidade (US$ 400 trilhões, levando-se em consideração
os US$ 200 trilhões no mercado de derivativos) em relação
às mercadorias produzidas pelos EUA (US$ 14 trilhões)..
De fato
, o dólar é apenas moeda dos EUA! Esta situação
perdurará até que o dólar não mais seja aceito como
moeda internacional. Teremos um grande
desemprego
(bem acima dos 25% no auge da crise de 1929) a iniciar-se pelo setor de
comércio exterior e que se estenderá aos demais setores da
economia. O multiplicador da produção em função das
ausências de investimentos começará uma fase negativa, que
se estenderá até que a humanidade resolva, de fato, perseguir e
atingir o
Equilíbrio Econômico
.
Desequilíbrio monetário nacional e internacional
Ao analisarmos o panorama atual da economia internacional e brasileira, o
desequilíbrio monetário atinge as raias do absurdo, daí a
razão pela qual consideramos este desequilíbrio como o mais
importante de todos.
Ao invés de
"
um sistema monetário equilibrado
com a emissão de
moeda neutra de desenvolvimento
sob os auspícios do banco central diretamente à empresa, segundo
o
desenvolvimento
percentual previsto por esta empresa"
temos um emaranhado de regras monetárias que promovem essencialmente o
desemprego
e suas mazelas decorrentes.
Os EUA, ganhadores da II Grande Guerra, após a reunião de Bretton
Woods em 1944, em que o dólar ganhou a condição de moeda
internacional, resolveram que não mais entrariam em depressões
como a de 1929, provocada basicamente por excessos de financiamento aos
consumidores de seus monopólios e oligopólios. A grande
depressão aconteceu quando os consumidores, atolados em dívidas,
deixaram de comprar e de pagar.
Como não puderam resolver as causas da depressão internamente,
pois seus monopólios e oligopólios permaneceram intocados,
resolveram, uma vez que tinham forte presença política, militar e
econômica internacional, levar ao mundo seus produtos e suas empresas.
Começaram, então, sua incrível trajetória de
empréstimos, exportações de produtos,
importação de matérias primas, exportações
de empresas, domínio sobre o petróleo e importações
de tudo o que bom existisse no mundo. Para tanto, prepararam internamente um
mercado favorável a esse intercâmbio, ou seja, com fortes
financiamentos externos e internos, via cartões de crédito,
hipotecas, financiamento de carros e equipamentos.
Fizeram isto sem a menor preocupação com capitais reais, uma vez
que o papel verde dólar, emitido sem qualquer custo e pejo pelos
americanos, era aceito por um mundo até então sem moeda
internacional.
Agora os consumidores do mundo estão na mesma condição dos
consumidores norte-americanos da época de 1929 e também da
época atual: estão inadimplentes. Os EUA não
dispõem mais de nenhum local para exercerem sua nova influência.
Mas vão, aos trancos e barrancos, acertando a queda homeopática,
porém constante do dólar junto às principais moedas,
evitando, assim, o caos internacional. Até quando isso? Confessamos que
este prazo está bem acima do que nós e analistas econômicos
do mundo inteiro pensam a respeito, o que pode ser verificado na página
Opinião
do nosso site,
www.nep2000.ecn.br
publicada em 19/04/2007.
O fato é que ainda hoje as empresas realmente nacionais pagam juros
altíssimos para a recepção de qualquer capital.
A ingênua e precária ordem, no Brasil, é evitar a
emissão de moeda para evitar a inflação.
A menos que as empresas nacionais batam às portas do governo e dos
bancos, "se associem" com o governo ou com os bancos, cometam
qualquer outro tipo de irregularidade, ou (caso seja empresas rentáveis)
vendam suas ações para alguma multinacional, elas não
conseguirão capitais a nível operacional.
Apenas algumas operações de crédito são para a
produção de novos produtos, A maior parte são para
capitais de custeio. Há apenas a geração de
desemprego
na indústria nacional.
Para as empresas monopolistas ou oligopolistas internacionais, que emprestam em
dólares a juros de 2 ou 3% ao ano, temos nosso Banco Central disposto a
fazer o câmbio em reais, qualquer que seja o volume emprestado, num
arremedo do Japão e da China com seus bancos centrais atulhados de
trilhões de dólares.
A diferença de custo entre uma operação nacional e outra
internacional é de no mínimo, 50% ao ano, apenas elegendo as
empresas multinacionais como receptoras de capitais.
As empresas multinacionais com base norte-americana ainda vêem o Brasil
como rota de passagem, num processo de obtenção de lucros
virtuais sem limite. Seus inúmeros negócios lucrativos sejam, por
exemplo, minérios, estradas, indústrias de autopeças que
deram certo, todos nacionais, e suas próprias organizações
multinacionais, não importa se não têm capitais reais para
esses negócios, eles "criam" do nada esses capitais, com base
num pretenso e pretérito domínio econômico e militar e
o mundo ainda os aceitam
. No momento em que não mais os aceitarem,
pois estão vendendo também por nada
, a depressão máxima virá num abrir e fechar de olhos.
O câmbio entre a moeda do sistema e a moeda internacional deverá
aquilatar o
Equilíbrio Econômico Internacional
e não gerar moeda nacional pelo simples câmbio da moeda
internacional, característica de um sistema internacional desequilibrado
e em rumo a uma depressão máxima, como é o caso do
dólar.
Não há hoje nenhum ministro da fazenda ou banqueiro no mundo que
denuncie esta farsa monetária internacional, que levará o
dólar a valer centavos do que vale hoje.
Milhares de empresários nacionais, falidos ou vendidos a capitais em
dólar, se juntam a milhões de trabalhadores, no rol dos
desempregados
.
O investimento ótimo
Suponhamos que os membros de um sistema econômico, seja um
funcionário que ganha salários e comissões, seja um
aposentado que ganha aposentadoria, ou um empresário ou
proprietário que ganha rendas, ou ainda uma empresa que ganha lucros
mercê de economias , tenham uma determinada quantidade de
moeda para investir para manter o sistema econômico num processo
contínuo de desenvolvimento.
Qual seria o investimento mais adequado?
Estabeleçamos algumas características que este desenvolvimento
via investimentos, deverá necessariamente apresentar, senão o
próprio ato de investir levará esse sistema à
perturbações não condizentes com estes investimentos:
1- O investimento adequado terá um rendimento superior a qualquer outro
investimento que essa empresa ou membros do sistema econômico, em seus
projetos de investimentos, poderão fazer; ou seja, será um
investimento ótimo
.
2- Será absolutamente democrático, ou seja, será ofertado
e estará disponibilizado para qualquer investidor
prioritariamente
presente do mercado no ato da venda deste investimento.
Todo e qualquer agente,
sem exceção, terá oportunidades de aplicar suas economias
em investimentos com o máximo possível de rentabilidade; assim,
não haverá qualquer nepotismo.
3- Não provocará
desemprego
de homens e máquinas em qualquer outro agente presente no sistema.
Senão o desenvolvimento de alguns setores, implicaria no não
desenvolvimento de outros.
4- Este investimento deverá contar com capitais de giro suficientes para
sua operação.
Vamos supor que as empresas que pretendem receber investimentos apresentem no
mercado suas ofertas de ações, cada uma das quais com quantidade
de ações, preço e taxa de rendimento esperado.
Por outro lado teremos também, no mercado, um fundo de investimentos,
somatório das poupanças dos membros do sistema econômico
que desejam comprar ações.
Este mercado, controlado pelo governo, vai estabelecer o juro de
equilíbrio, menor ou igual à taxa de rendimento da empresa menos
rentável do sistema e que ainda esteja investindo.
O Mercado de Investimentos tem por objetivo colocar as empresas que pretendem
fazer um investimento ótimo, frente a frente com os investidores e suas
respectivas poupanças, com os mesmos objetivos. A
organização desse mercado, supervisionando as ofertas de
ações das empresas, estabelecendo os juros de equilíbrio,
verificando se a oferta do sistema é igual à sua demanda,
verificando a distribuição dos novos capitais de giro (moeda
neutra de desenvolvimento) às empresas, por certo será
fundamental no estabelecimento do necessário
Equilíbrio Econômico
.
Essas não serão as únicas operações de
crédito num sistema em Equilíbrio Econômico. Entre outras,
podemos ainda citar:
-
No financiamento de itens de consumo, o mercado é que
estabelecerá o valor e os juros para tais financiamentos, juros que
estarão bem próximos (para mais) dos juros de equilíbrio.
-
Haverá também
consórcios
para o financiamento de casas próprias e qualquer outro bem de consumo,
Palavras finais
A "Nova Economia Política" é um estudo
científico das relações comerciais entre os povos.
Apesar das relações comerciais serem tão diversificadas,
ela mostra desde os homens das cavernas até o moderno Japão de
hoje, o mesmo principio filosófico (e matemático) que foi
utilizado na descrição de qualquer sistema, num rol dos vinte dos
principais Sistemas Políticos Econômicos já vividos pela
humanidade.
Oferecemos, hoje, "A Nova Economia Política" como uma
contribuição para aqueles que buscam o caminho para uma nova
realidade, com Verdade, Justiça, Liberdade e Paz para todos os Homens.
03/Junho/2007
Notas
1- Gastos do governo como um todo, sejam federal, estadual, municipal,
autarquias, bancos ligados ao governo etc.
2- Moeda Internacional Neutra de Desenvolvimento no Equilíbrio
Econômico Internacional.
3- Machado, Ciro de Oliveira "A Nova Economia Política"
OM Editora Ltda. - 2003
[*]
Investigador brasileiro inspirado na obra do neo-ricardiano
Piero Sraffa
. O sítio web,
A nova economia política do III milénio
, apresenta os resultados das suas investigações.
O autor é engenheiro
honoris causae
pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (2005), licenciado em
Ciências Económicas pela Universidade de S. Paulo (1977) e
mestrado pelo Instituto de Pesquisas Económicas (1980-81). Contacto:
ciro@nep2000.ecn.br.
Este artigo foi escrito especialmente para
resistir.info.
Além da ortografia brasileira foi mantida também a terminologia do
original, que por vezes não coincide com a portuguesa
("renda" no Brasil corresponde a "rendimento" em Portugal,
"capital de giro" a "fundo de maneio", etc).
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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