Bufão aos 60 anos
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"Se você conhecer uma pessoa idosa esquerdista é porque
está com problema. Se acontecer de conhecer alguém muito novo de
direita é porque também está com problema".
"Eu agora sou amigo do Delfim Netto (...) Porque eu acho que é a
evolução da espécie humana (...)".
"O Brasil tem uma história diferente de outros países. Mesmo
a ditadura no Brasil não foi violenta como foi no Chile e em outros
países".
Declarações do sr. Luís Inácio da Silva (Lula)
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As recentes declarações de Lula no evento em que foi
homenageado como "Brasileiro do ano" da revista
Isto É
e sobre a ditadura militar são uma expressão do
posicionamento ideológico/político/econômico do governo
Lula/PT em defesa dos interesses de classe do imperialismo e das classes
dominantes brasileiras a ele associadas.
Posicionamento a serviço da
reestruturação da formação econômico-social
que vai colocando como setor "dinâmico" da economia brasileira
a produção para a exportação de
commodities
e produtos manufaturados, na sua grande maioria montagem, e controlados pelo
capital estrangeiro
[1]
, e também estabelecendo uma máquina de valorização
do grande capital, na esfera financeira, especulativa. Por isso a euforia, o
clima descontraído, as palmas e gargalhadas durante o discurso de Lula
no evento da
Isto É
para centenas de empresários, pesos-pesados da economia brasileira.
Ao afirmar que a "evolução da espécie humana"
caminha para posições de centro, na verdade, Lula expressa essa
sua posição que nada tem de centro e é, objetivamente, de
direita, de defesa dos interesses do imperialismo e das classes dominantes
brasileiras, principalmente das suas frações mais
retrógradas, mais subordinadas ao sistema imperialista.
Quanto às declarações de Lula sobre a ditadura militar, se
enquadram nesse posicionamento de direita, também na política.
É impossível, do ponto de vista do marxismo, não haver um
nível de correspondência entre a economia e a política. Ao
defender os interesses do grande capital internacional e nacional, Lula, o seu
governo, o PT e partidos aliados, vão assumindo posições
no campo político de aproximação, de relativizar e
"aliviar" a ditadura militar brasileira, período de violenta
repressão política, com prisões, tortura e
execução de opositores ao regime.
Lula ao implementar uma política econômico-social que aprofunda
Collor e FHC, que intensifica a exploração, que gera arrocho
salarial, desemprego e o desmonte dos chamados setores sociais do Estado, como
saúde e educação públicas, seu posicionamento nas
questões democráticas aponta para uma tendência à
violência, à repressão contra o povo.
Se hoje não existe uma repressão aberta, evidente, é
porque Lula como presidente atua como bombeiro da luta de classes, tentando
conter as mobilizações e lutas do povo contra a
exploração e a opressão e, assim sendo, atende melhor aos
interesses do imperialismo e das classes dominantes brasileiras. Sua origem
operária, sua trajetória sindical e a aplicação de
forma eleitoreira das políticas assistencialistas receitadas pelo
imperialismo, pelo Banco Mundial, como o bolsa-família, o credenciam
para esse papel.
Ao abafar, ao tentar (e num certo nível conseguir) contornar a
resistência do proletariado e dos explorados, diminui a necessidade de
repressão aberta. Desta forma, amortece a luta popular, aposta na
desmobilização, abre caminho para o ataque a direitos duramente
conquistados pelos trabalhadores. Assim, a posição de Lula sobre
o abjeto período da ditadura militar, e suas novas amizades, como Delfim
Neto, czar da economia naquele período, não surpreendem.
[1] Gazeta Mercantil, 13/09/06, Grandes empresas concentram 90% das
exportações.
[*]
Centro Cultural Antônio Carlos Carvalho, no Rio de Janeiro.
O original encontra-se em
http://www.cecac.org.br/MATERIAS/Lula_60_cabelos_brancos.htm
Lula sessentão: o monarca é o Bobo da Corte
por Jorge Almeida
Depois de vencer as eleições atacando verbal e genericamente
"as elites", a atividade preferida de Lula da Silva agora é
exatamente divertir estas mesmas "elites". É a única
conclusão que se pode chegar, diante das suas mais recentes
declarações em eventos na presença de grandes
empresários do agronegócio, industriais, banqueiros,
governadores, políticos históricos da ditadura militar,
ex-ministros e socialites.
A platéia gargalhou
(literalmente), por exemplo, quando ele disse que posições de
esquerda são coisas de menino imaturo e que a
"evolução da espécie humana" caminha para
posições de centro. Falou isto diante de uma Corte de convidados
da revista
Istoé.
Eram umas 900 pessoas, reunidas num hotel de luxo: banqueiros,
empresários, deputados, senadores, socialites, ex-ministros, artistas,
esportistas. De grande homenageado da noite, ganhador do prêmio de
"Brasileiro do ano", dado exatamente pela revista envolvida com o
caso do Dossiê Vedoim, Lula se transformou em Bobo da Corte: a alegria
"dazelites".
Elogiou enfaticamente o czar da economia, do arrocho e da
concentração de riquezas da ditadura militar: "Eu agora sou
amigo do Delfim Netto (...) Porque eu acho que é a
evolução da espécie humana, quem é mais de direita
vai ficando mais de esquerda, quem é mais de esquerda vai ficando
social-democrata e as coisas vão fluindo de acordo com a quantidade de
cabelos brancos que você vai tendo e de acordo com a responsabilidade que
você tem. Não tem outro jeito, se você conhecer uma pessoa
muito idosa esquerdista, é porque ela tem problemas (...). Então,
quando a gente está com 60 anos, doutor Ermírio, é a idade
do ponto de equilíbrio em que a gente não é nem um nem
outro. A gente se transforma no caminho do meio, aquele caminho que precisa ser
seguido pela sociedade". Ou seja, além do bufão se dizer de
centro e aplicar políticas da direita, deixa claro que este deve ser
"o caminho da sociedade".
Lula da Silva estava bem acompanhado dos seus novos amigos: o industrial e
banqueiro Antonio Ermírio de Moraes (Votorantin), o banqueiro
Lázaro Brandão (Bradesco), o governador de São Paulo
Cláudio Lembo (PFL), o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab
(PFL), o ex-presidente José Sarney (PMDB), entre tantos outros.
Um bom comediante da Corte sabe interpretar vários personagens. Desta
vez, como vimos, Lula da Silva cumpriu o papel de cientista político,
com tese de doutorado sobre "o papel dos cabelos brancos na
direitização etária irreversível da espécie
humana". Em seguida, cumpriu o papel de psicanalista e acrescentou que
idosos que continuam com idéias de esquerda são desajustados
cheios "de problemas". A Corte, formada pela grande burguesia lotada
no Brasil, se divertia, gargalhando pra valer.
Mas no meio do discurso, o histrião da corte do capital, tirou as
fantasias de cientista político e psicanalista e vestiu a de
capitão do mato. E voltou a culpar indígenas e quilombolas,
responsabilizando-os pelos entraves no crescimento econômico do Brasil.
Disse que "Até chegar à primeira instância do Poder
Judiciário, demora sete anos. Até chegar ao Supremo, 16 anos.
Não adianta querer trazer para cá uma fábrica de papel e
celulose porque a legislação diz que tal área é dos
índios. Aí no dia seguinte tem mais terra para os índios e
no dia seguinte tem mais terra para os quilombolas. Ou nós estabelecemos
um marco jurídico que resolva isso definitivamente, ou ninguém
vai acreditar que os nossos projetos podem dar certo neste país"
declarou o animador da noite.
A alegria foi geral e incontida na platéia. Claro! É a
música que embala os ouvidos do grande capital. Sim, porque o que
não falta são marcos jurídicos sobre a questão dos
territórios indígenas e quilombolas. O que Lula está
falando mesmo é em mudar estes marcos. É em contra-reformas,
inclusive constitucionais, para tirar direitos de indígenas e
quilombolas.
Por outro lado, esta nova declaração agressiva contra
indígenas e quilombolas, mostra que a fala de Lula da Silva no mês
passado, com o mesmo sentido, não foi por acaso nem um simples erro,
falha ou destempero passageiro.
No dia 21 de novembro, falando oficialmente na inauguração de uma
usina de biodiesel (Mato Grosso), o truão dos fazendeiros disse que
pretendia retirar todos os "entraves que eu tenho com o meio ambiente,
todos os entraves com o Ministério Público, todos os entraves com
a questão dos quilombolas, com a questão dos índios
brasileiros, todos os entraves que a gente tem no Tribunal de Contas" ...
para fazer o Brasil "crescer". Neste dia, a platéia era a
Corte de produtores de soja, os reis do agronegócio do estado do
desmatamento grosso, governado por um outro dos seus novos amigos, Blairo
Maggi, ali presente. Na ocasião, o Ministério do Meio Ambiente
tentou minimizar as declarações, dizendo que ele estava falando
de questões pontuais.
Mas logo depois, numa reunião com os governadores de estado, o
bufão, falando sobre o mesmo assunto, disse que era preciso
"destravar todos os penduricalhos que atrapalham a agilidade de quem
é prefeito, de quem é governador e de quem é
presidente". Para Lula da Silva, direitos de quilombolas e
indígenas não passam de "penduricalhos".
É neste quadro que se situa uma outra reunião, esta de
caráter fechado, da qual o Bobo da Corte participou no dia seguinte ao
evento da
IstoÉ.
Esta foi convocada pela FIESP e pelo IEDI (Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo e Instituto para Estudos do
Desenvolvimento Industrial), dois pesos pesados da burguesia situada em terras
brasílicas.
Estas organizações prepararam uma análise da
situação econômica nacional (consensualmente muito
preocupante) para apresentar ao dublê de monarca e animador de
platéias "dazelites".
Na reunião (dia 12/12) estavam os ex-ministros Delfim Netto, João
Sayad e Luiz Carlos Bresser-Pereira, José Cecchin, Sérgio Amaral
e Martus Tavares e especialistas em contas públicas, economistas e
jornalistas como Everardo Maciel, Raul Velloso e Maria Helena Zoccun, Yoshiaki
Nakano, Luis Nacif, Paulo Francini, Ivoncy Iochpe e José Ricardo Roriz
Coelho.
Neste caso, não houve só diversão, mas também
alguma divisão entre os que "primeiro querem fazer o ajuste para
depois crescer" e os "que querem crescer para fazer o ajuste
depois". Por ajuste, entenda-se cortar mais um pouco daquilo que o Bobo da
Corte chama de "penduricalhos": direitos previdenciários e
trabalhistas, sobre o que tanto a Corte como seu animador concordam alegremente
que devem ter "novos marcos jurídicos". Delfim Netto, que
lá estava, como se sabe é forte defensor não somente dos
ajustes e novos marcos, como também do chamado "déficit
nominal zero", ou seja, tudo para pagar mais aos banqueiros já.
Durante a premiação da
Istoé,
as declarações de Lula da Silva sobre a economia foram no
sentido da manutenção da política macro-econômica e
foi interpretada como sendo de apoio à continuidade de Henrique
Meirelles à frente do Banco Central. Aliás, na mesma noite este
também ganhou o prêmio de "personalidade econômica do
ano".
Outro premiado, como "revelação política do
ano", foi o governador eleito da Bahia Jacques Wagner (PT), que,
não por acaso, teve, entre seus principais financiadores de campanha,
empresas de eucalipto e celulose (Aracruz Celulose e Veracel) e grandes
construtoras interessadas na obra faraônica da Transposição
do Rio São Francisco.
Finalmente, enquanto a Corte e o seu bufão se divertem e a morte do
General Pinochet é festejada no Chile e seu neto é expulso do
exército chileno, novos cadetes brasileiros homenageiam o
sanguinário ditador brasileiro Garrastazu Médici (sim, o chefe de
Delfim Netto). E o PT se alia à oposição de direita para
privatizar o IRB [Instituto de Resseguros do Brasil], diminuir o reajuste de
salários dos aposentados e
tirar "pinduricalhos" direitos dos trabalhadores na nova lei do
chamado Super-Simples.
O original encontra-se em
http://www.acaopopularsocialista.org.br/artigos/214.htm
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