por Henrique Júdice Magalhães
Em dezembro último, a Sociedade Italiana de Gerontologia e Geriatria
declarou que só a partir dos 75 anos (e não mais 65)
alguém deve ser considerado idoso naquele país. A principal
razão é o aumento da expectativa de vida, que, em 2016, chegou a
83,4 anos.
Um mês depois, a Itália reduziu de 67 para 62 anos (homens) ou 58
(mulheres) a idade mínima de aposentadoria para quem não atingir
o tempo de contribuição que a dispensa, além de manter
mais duas combinações com idade mais alta e menos tempo de
trabalho.
No Brasil, a expectativa de vida é bem menor (75 anos). Mas o governo
quer acabar com a aposentadoria só por tempo de
contribuição e impor idades mínimas maiores: 65 (H) e 62
anos (M), que aumentariam cada vez que a expectativa de vida crescer, sem
redução se ela cair.
A média salarial que embasa o valor da aposentadoria passa a abranger os
salários mais baixos, hoje descartados. O percentual dela pago a quem se
aposentar com a quantidade mínima de contribuições cai de
85 para 60%, embora esta suba de 180 para 240.
É o que, entre outras coisas, prevê a Proposta de Emenda
Constitucional (PEC) 6, enviada à Câmara em 20/02. Seu
signatário, o ministro da Economia, Paulo Guedes, invoca como motivo o
aumento da expectativa de vida.
Mas viver mais não significa menos ainda no atual quadro
brasileiro de terra arrasada ter reais condições de
trabalhar, encontrar trabalho ou depender dele para o sustento.
Há um indicador que expressa parcialmente isso: a expectativa de vida
saudável (EVS). O IBGE não a calcula. A Organização
Mundial de Saúde (OMS) o faz, com uma metodologia frouxa: o
Escritório de Estatísticas da União Europeia (Eurostat)
indica uma cifra 6 anos menor que a da OMS para a Itália, 10 para a
França e 14 para Portugal e a Suíça. Como o Eurostat
só lida com dados de seu continente, resta imaginar a quanto seus
critérios, que apontam uma EVS inferior a 64 anos como média da a
UE
[1]
, reduziriam os 66 que a OMS diz ser a do Brasil
[2]
.
Viver mais... e pior
Aqui, embora menos que na Europa, a elevação da expectativa de
vida é um fato. Mas, muito mais que lá, a
degradação das condições de trabalho também
o é.
Quando foi mais desgastante (pelo trânsito) e perigoso (pelo risco de
roubos e outros atos violentos) dirigir um ônibus? Em 1964, quando
João Goulart reconheceu esse trabalho como penoso e reduziu a 25 anos o
tempo para os motoristas se aposentarem? Em 1995, quando FHC revogou isso,
jogando-os na regra geral dos 35 anos de trabalho? Ou em 2019, quando Bolsonaro
quer proibi-los de se aposentar antes dos 65?
Quando foi mais duro lecionar? Nos anos 60, quando os professores eram
autoridades incontrastáveis em sala de aula? Ou agora, que trabalham
espremidos entre imposições de uma burocracia perversa, caprichos
de famílias obscurantistas e efeitos dessas disfuncionalidades sobre o
comportamento das crianças isso quando não têm as
aulas interrompidas a tiros de fuzil, como se tornou comum no Rio, e alunos
assassinados?! A aposentadoria, claro, não é
solução ou sequer resposta a isso. Mas obsta-la em tal contexto
é uma perversidade adicional.
O aumento da duração da vida é motivo para equacionar a
arrecadação da Previdência, não para bloquear o
acesso a seus proventos. A resposta à mudança demográfica
e à automação seria reduzir o peso da
contribuição sobre a folha de pagamento (vinculada ao
número de trabalhadores) e aumentar o daquelas sobre o faturamento e o
lucro.
Pior que banco
A PEC 6 preconiza o oposto: um regime de capitalização
individual, a pretexto de que a queda na relação
ativos/aposentados torna as contribuições dos primeiros
insuficientes para pagar os segundos e a 'solução' é cada
um poupar para sua própria aposentadoria.
A diferença entre esse modelo e o de repartição pura (em
que as aposentadorias são pagas unicamente pelas
contribuições dos ativos, o que não é o caso do
INSS) é só escritural. Num e noutro, se a proporção
contribuintes/aposentados cai abaixo de um determinado nível,
sairá mais dinheiro do que entra. Depósitos bancários
são perfeitamente separados, com identificação dos
titulares; mas basta uma certa quantidade destes resgatar suas economias ao
mesmo tempo para quebrar o banco.
Com os fundos previdenciários de capitalização,
ocorrerá o mesmo, pois seus gestores não deixam o dinheiro no
cofre: como os banqueiros (que é o que, em geral, são), vivem de
usa-lo enquanto o titular não o resgata.
Mas enquanto o Fundo Garantidor de Crédito protege os depósitos
bancários até R$ 250 mil [~62 mil] e a perda recai sobre os
acionistas, os fundos previdenciários têm como donos
formais os próprios trabalhadores e aposentados. Seus dirigentes, na
ficção jurídica que criaram, apenas prestam a estes o
serviço de administrar o dinheiro, cobrando uma taxa sobre o valor
descontado e outra sobre o rendimento.
Daqui a 40 anos, quando os trabalhadores que começarem agora a descontar
para esses fundos se aposentarem, a tendência demográfica, se
mantida, quebrará esses fundos,
se forem geridos satisfatoriamente
: uma gestão inepta ou fraudulenta os quebra antes. Num caso ou noutro,
quem tiver descontado para eles fica sem aposentadoria e o Estado terá
que reassumir a Previdência. Mas, até lá, os filhos dos
gestores estarão riquíssimos.
Moeda de troca
Dos anos 70 à metade dos 90, os bancos ganharam oceanos de dinheiro com
a inflação. Quando isso levou o país a uma
situação-limite, trocaram-na pelo ganho com os altíssimos
juros que recebem do Estado como credores da dívida pública e
servem de piso a outros ainda mais altos que cobram de seus clientes. O
instrumento dessa repactuação entre o sistema financeiro, o
Estado e o resto do bloco dominante foi o Plano Real.
Agora, quando o que leva a economia brasileira a um beco sem saída
são os juros, o Estado, para baixa-los, oferece aos bancos a
arrecadação da Previdência. Isso foi dito ao
Valor Econômico
de 28/12 pelo general vice-presidente Antônio Hamilton Mourão:
Valor:
O Brasil está quebrado...
Mourão:
Eu sei disso, pagamos R$ 400 mil milhões por ano de juros, temos um
déficit de R$ 139 mil milhões (...). Por isso precisamos aprovar
essas reformas, porque com a melhoria do nosso rating nós podemos
até emitir títulos pagando juros menores (...), fazer uma
repactuação dessa dívida, podemos alongar o prazo
[3]
.
Cada uma dessas transições reforçou os ganhos e a
posição dos bancos, garantiu compensações a outros
setores dominantes (hoje quase reduzidos ao latifúndio, também
ele financeirizado em grande medida) e degradou a vida do povo.
Cada uma delas veio edulcorada como benéfica e ao mesmo tempo
inevitável pela imprensa mercantil monopolista, facções
parlamentares e economistas do sistema liberais, que comem
na mão da burguesia compradora, ou desenvolvimentistas, que
têm por habitat o colo da burguesia burocrática.
23/Fevereiro/2019
[1]
ec.europa.eu/eurostat/...
[2]
apps.who.int/gho/data/node.main.HALE?lang=en
[3]
www.valor.com.br/politica/6041053/governo-fara-desmanche-do-estado-diz-mourao/
Ver também
A financeirização da burocracia sindical no Brasil
Reacionários se dividem no parlamento ante a contrarreforma da Previdência
A Reforma da Previdência faz parte do programa de classe da burguesia, de opressão e exploração dos trabalhadores
O original encontra-se em
anovademocracia.com.br/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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