Amnésia seletiva: a doença senil do reformismo
Nos últimos meses observamos um fenômeno inusitado. Trata-se de
uma amnésia seletiva que vem contaminando setores da chamada
"esquerda". Diferentemente da "justiça seletiva",
que é uma prática da institucionalidade burguesa para alijar
adversários políticos e jogá-los na cadeia sem culpa
formada, conforme sucedido com o ex-presidente Lula, essa amnésia
seletiva constitui-se numa operação de propaganda, visando
encobrir, na história recente, tudo aquilo que exponha
contradições de determinada vertente
político-ideológica.
Segundo definição médica, amnésia seletiva é
a incapacidade de lembrar certos fatos que aconteceram num determinado
período de tempo, podendo estar relacionada ao estresse prolongado ou
ser consequência de um evento traumático. Na política isso
se chama oportunismo. É justamente com essa "incapacidade de
lembrar" que nos deparamos em alguns artigos e pronunciamentos recentes
sobre os governos Lula e Dilma. Os autores, com seus esquecimentos seletivos,
dão a entender que nesse período estávamos vivendo num
quase paraíso, onde liberdade, justiça social e prosperidade
imperavam.
Não temos a pretensão, nestas poucas linhas, de trazer à
luz tudo o que essa amnésia seletiva insiste em ocultar, mas podemos
destacar alguns pontos. O primeiro está relacionado às
expectativas criadas após vitória do Lula em 2002, derivadas da
origem classista do PT e do discurso desse partido quando fazia
oposição, todo ele centrado na crítica ao neoliberalismo e
à corrupção. Mas antes mesmo de assumir, Lula divulgou sua
famosa "carta aos brasileiros", que pelo teor deveria ser denominada
"carta aos banqueiros". Ali foi delineado o que estaria por vir em
termos de política econômica, ou seja, nos seus pontos essenciais
nada seria mudado. A indicação do ex-presidente do BankBoston,
Henrique Meirelles, com carta branca para dirigir o Banco Central, onde
permaneceria durante os dois mandatos de Lula, atendeu plenamente aos
interesses do setor financeiro e do imperialismo. As
privatizações realizadas por Collor, Itamar Franco e Fernando
Henrique Cardoso, antes criticadas, foram todas elas mantidas. A escandalosa
entrega dos nossos recursos seguiu em frente através dos leilões
dos campos de petróleo. O mesmo se deu com o mecanismo extorsivo da
dívida interna, consumindo algo em torno de 40% do orçamento
federal para alegria dos banqueiros e grandes investidores. Não por
acaso, o lucro do oligopólio bancário, "como nunca na
história desse país", disparou nos 13 anos em que o PT
esteve à frente do governo.
Outra lembrança que não deveria ser apagada refere-se à
política agrária. Nos tempos em que estava na
oposição, o PT fazia a defesa da Reforma Agrária, dos
trabalhadores sem-terra, dos pequenos produtores rurais e de uma agricultura
sustentável, voltada principalmente para garantir o consumo interno.
Depois que assumiu o governo a coisa mudou. Lula e Dilma se notabilizaram por
uma aliança explícita com o agronegócio, coroada pela
entrega, no segundo mandato da Dilma, do Ministério da Agricultura para
ex-presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a
pecuarista e senadora Kátia Abreu, uma ferrenha inimiga do MST. O setor
foi abastecido por crédito farto e subsidiado, além de favorecido
por medidas provisórias (422 e 458), que ficaram conhecidas como as
"MPs da
grilagem
", deixando mais de sessenta milhões de hectares de terras
públicas na Amazônia à
disposição dos grileiros. Enquanto os grandes
proprietários de terra eram agraciados com essas medidas, os
assentamentos de famílias de trabalhadores sem-terra não tiveram
avanço significativo, diminuindo sensivelmente durante o governo Dilma,
até mesmo quando comparados com o período de FHC.
Outras lacunas na memória dos acometidos por essa amnésia
estão relacionadas aos ataques às liberdades democráticas.
Não falam da repressão aos movimentos grevistas, dos assassinatos
de lideranças rurais e da violência das operações
policiais nas áreas mais pobres das grandes cidades. Silenciam sobre a
Lei Antiterrorismo, a aplicação do decreto de Garantia da Lei e
da Ordem (GLO) e o gigantesco aparato repressivo usado contra as
manifestações populares de 2013
, durante a Copa do Mundo 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016.
Mesmo fatos mais recentes, ocorridos
após o golpe parlamentar que afastou Dilma, não são
lembrados, como o voto favorável do PT e dos seus aliados à
cláusula de barreira e à proibição das
coligações proporcionais, essa última aprovada
também pelo PSOL.
O reformismo senil esperou, provavelmente sentado, por uma
"autocrítica" do PT, como ela não veio e novas
eleições se aproximam, essa amnésia seletiva parece que
vem bem a calhar.
12/Outubro/2019
[*]
Membro do Comitê Central do PCB, ricopcb@gmail.com
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/24125/amnesia-seletiva-a-doenca-senil-do-reformismo/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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