O parlamento do quatro Bs: business, bife, bala & bíblia
Após o golpe de domingo 17/Abril
por Ruy Braga
entrevistado por Gabriel Brito
O Brasil e seus mais diversos setores sociais ainda sacodem a poeira do domingo
em que a Câmara dos Deputados, em verdadeiro show de
despolitização e demagogia, encaminhou o processo de impeachment
da presidente Dilma Rousseff e agora aguarda decisão do Senado. Em meio
a reflexões e constatações que rondam a mídia e
opinião pública, o Correio da Cidadania publica entrevista com o
sociólogo do trabalho Ruy Braga, que não teve dúvidas em
qualificar o episódio como um golpe, no sentido de refletir
transição radical a um estágio de maior
exploração da sociedade e dos trabalhadores.
"Domingo foi um verdadeiro festival de horrores, uma espécie de
Marcha da Desfaçatez, onde os deputados foram se sucedendo na tribuna e,
para cada voto a favor do impeachment, via-se a maquinação de um
sistema degenerado que buscou a todo instante salvar a própria pele do
abismo. Isso não é representação política,
é alienação, que enfrenta uma sociedade como uma
força totalmente estranha. Basicamente, significa que o país,
desde domingo, vive Estado de Exceção. O governo a ser formado
pelo vice-presidente Michel Temer é ilegítimo", criticou.
Ao tratar o processo de destituição de Dilma como falência
do sistema político representativo que conhecemos, Ruy Braga lamentou o
imenso rebaixamento da política representado pela figura de Eduardo
Cunha no comando do impeachment, em sua visão, um resumo de tudo que ora
vemos degenerar. Ademais, traça claras diferenças entre esse
impeachment e o de Collor, diametralmente opostos em termos de
sensibilização social.
"Além da UNE, da CUT e outros setores populares, houve uma
espécie de unidade com os setores médios e tradicionais da
sociedade brasileira, que haviam sido atingidos diretamente pelo bloqueio e
pelo sequestro das poupanças empreendidos por Collor de Melo. O
impeachment do Collor unificou uma série de setores importantes da
sociedade brasileira, forças democráticas que ainda estavam
empoderadas e fortalecidas pelas vitórias dos anos 80. (Agora) temos uma
sociedade partida ao meio, cindida, que não irá se
reconciliar", comparou.
Ruy elenca ainda as razões objetivas que fizeram a burguesia brasileira
e grandes capitalistas, sempre contemplados pelos governos petistas,
abandonarem o barco da governabilidade. Elas passam por três grandes
reformas punitivas ao mundo do trabalho e ilustram o processo concreto de
espoliação social e laboral que se busca empreender como
solução para novas fases de acumulação do capital.
"Ou nós avançamos na democratização do sistema
de representação e da sociedade brasileira, ou recuaremos de
forma muito acelerada para uma ditadura mais ou menos velada. Isso já
tem acontecido no mundo. Regimes políticos ditatoriais têm
aparência democrática porque coabitam com eleições
ou coisa do tipo. A Turquia de Erdogan é um exemplo. Aparentemente
democrática, mas de fato uma ditadura que impõe uma ordem muito
pesada sobre os trabalhadores. É esse o futuro que nos espera".
A entrevista completa com Ruy Braga pode ser lida a seguir.
Correio da Cidadania: Primeiramente, como você viu e sentiu a
votação da Câmara dos Deputados que encaminhou o processo
de impeachment da presidente Dilma?
Ruy Braga:
Domingo foi um verdadeiro festival de horrores, uma espécie de
Marcha da Desfaçatez, onde os deputados foram se sucedendo na tribuna e
para cada voto a favor do impeachment via-se a maquinação de um
sistema degenerado que buscou a todo instante salvar a própria pele do
abismo. Isso não é representação política,
é alienação, que enfrenta uma sociedade como uma
força totalmente estranha. Encara a imensa maioria da
população brasileira como força estranha. Não
só é algo mesquinho como profundamente danoso.
Infelizmente, o PT, partido criado pelos movimentos sociais e sindicais para
transformar radicalmente essa máquina alienada que enfrenta a sociedade
como corpo estranho, capitulou de forma mais ou menos absoluta, mais ou menos
vergonhosa ao que vimos no domingo, e ficou com as traições do
PMDB, dos próprios ministros, toda a debandada e
fragmentação do colapso da base de sustentação
parlamentar do governo Dilma. O PT capitulou a essa máquina de
alienação política que busca desesperadamente salvar seus
próprios interesses e privilégios. E busca fazê-lo da
maneira mais danosa possível, ou seja, com um gângster, um
réu, alguém que deveria estar preso, com pena para mais de 180
anos, segundo a Procuradoria Geral da República, na liderança da
máquina destrambelhada rumo à formação e apoio de
um governo ilegítimo.
Basicamente, significa que o país, desde domingo, vive Estado de
Exceção. O governo a ser formado pelo vice-presidente Michel
Temer é ilegítimo. Em tal condição, só
poderá se reproduzir com base na ampliação e
aprofundamento do Estado de Exceção, o que virá
acompanhada de uma crescente violência institucional contra os setores
sociais democráticos que se insurgirão. Vimos o início de
uma crise cujo precedente recente na história brasileira foi o golpe de
1964 e a posterior promulgação do AI-5.
O país foi confrontado com o colapso final do sistema de
representação política tradicional da sociedade brasileira
contemporânea. Se existia alguma dúvida a esse respeito não
existe mais. Eis o estado da política institucional brasileira: um
sistema alienado que produziu um golpe parlamentar cujo precedente mais
próximo está em 1964 e no golpe militar.
Correio da Cidadania: O que comenta da argumentação usada nos
votos contrários ao impeachment, rotulado de golpe? E quanto aos votos a
favor, defendidos basicamente à luz do pedido de impeachment de
Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal, a
qualificar as pedaladas fiscais como crime de responsabilidade?
Ruy Braga:
O processo de impeachment é uma farsa. Nessa
condição, não foi endereçado ao Congresso para ser
defendido de forma idônea, técnica, jurídica. Foi apoiado
num relatório absolutamente insustentável do ponto de vista
jurídico. As acusações que pesam contra Dilma são
notoriamente ridículas, as pedaladas fiscais e
suplementação do orçamento não são nem
objeto da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), pois dizem mais respeito
à lei orçamentária. Consequentemente, ela não
poderia cometer crime de responsabilidade ao supostamente desrespeitar a LRF em
assunto que é de ordem de lei orçamentária da
União, portanto, assunto administrativo.
Também é resultado da intensificação da luta social
no país, no caso, através da luta parlamentar. Ao se expressar na
luta parlamentar, o que temos é o setor mais alinhado ao governo
defendendo-o, corretamente, contra a tentativa canhestra, ridícula,
sinistra e bem sucedida de golpe parlamentar. Portanto, o argumento do governo
é muito simples: não há crime de responsabilidade e,
assim, não deveria haver possibilidade de impeachment.
Correio da Cidadania: Acha possível que o Senado barre o impeachment? Em
caso de prosseguimento, o que vislumbra para continuidade da vida
política brasileira?
Ruy Braga:
Não acho possível. Pelas mesmas razões que o
Congresso aprovou. Ou seja, as razões do impeachment são
fundamentalmente políticas. O Senado, por incrível que
pareça uma casa ainda mais conservadora que a Câmara,
deverá muito tranquilamente aprovar o impeachment da presidente, em
tempo recorde até, ainda mais por não precisar de maioria
qualificada. Todos os últimos envolvidos no processo de impeachment
estão muito desejosos de que o processo se encerre de forma
célere para que se inaugure rapidamente o governo ilegítimo do
usurpador Michel Temer.
Correio da Cidadania: Diante do quadro, o que dizer da figura de Eduardo Cunha,
há praticamente 16 meses pontificando em toda a política
parlamentar brasileira e eminência parda do processo?
Ruy Braga:
Ele sumariza a decadência, colapso, ruína do sistema de
representação política brasileiro, fundamentalmente
apoiado no financiamento empresarial de campanha, cujo sentido fundamental
é tornar o processo radicalmente antidemocrático. O Congresso,
tanto Câmara dos Deputados como Senado, é um espelho invertido da
sociedade brasileira, onde preponderam políticos ligados aos interesses
da burguesia.
As bancadas mais importantes são as chamadas bancadas do bife, da bala,
da bíblia. Temos distorção de gênero, classe,
raça, de qualquer parâmetro sociológico que se queira
escolher. Ao olhar para a Câmara e o Senado vemos a total
inversão, uma imagem caricatural e distorcida do que é a
sociedade brasileira.
Isso se deve ao fato de que as eleições no Brasil não
dependem de partidos. O sistema de representação foi pensado para
alienar a massa da população e garantir que apenas quem é
proprietário e tem condições de investir 5, 6, 7, 10
milhões de reais numa campanha para deputado possa ter chance de se
eleger.
É um sistema baseado em nomes. No mercado eleitoral, quem tem mais
capital econômico consegue transformá-lo em capital
político, ou seja, em votos. Essa é a raiz da
distorção do sistema de representação no Brasil.
Eduardo Cunha é apenas e tão somente o coroamento desse sistema
podre de representação. Ele sumariza-o. É uma figura
pessoalmente violenta, mas também ligada à bancada
evangélica; é parte dos esquemas de corrupção da
sociedade brasileira desde a década de 70; esteve envolvido em todos os
esquemas de financiamento ilegal de campanha; era o homem que operava o esquema
PC Farias no Rio, para o Collor.
Portanto, está envolvido nisso tudo desde sempre. E como coroamento do
processo não é de estranhar que tenha seu nome ligado tanto ao
escândalo dos
Panama Papers
como às contas na Suíça e tudo aquilo que diz
respeito aos crimes que já cometeu e pelos quais deve ser condenado
se o país pretende manter uma aparência minimamente
séria.
Eduardo Cunha é o exemplo principal do sistema e da
alienação política que sustenta essa desfaçatez
chamada Congresso Nacional. A verdadeira caricatura de sistema político
que temos no Brasil se encaixou perfeitamente nessa figura.
Correio da Cidadania: O que o processo expressa do nosso atual estágio
de democracia?
Ruy Braga:
Ou país refunda a ordem democrática ou não há
muita opção. Ou refunda e aprofunda a democracia, promove
reformas radicais no sentido de estabelecer um sistema democrático de
representação, a começar pelo fim do financiamento
empresarial e estabelecimento do financiamento público, ou não
tem muito jeito. Precisa fazer uma reforma que reforce o papel dos partidos
políticos das diferentes posições ideológicas no
interior do sistema de representação. Uma reforma que tenha
condições de fortalecer a representação popular,
não podemos esquecer nunca. Existe um vazio entre o parlamento e o povo,
a sociedade civil organizada, que precisa ser preenchido pela cidadania ativa.
Caso contrário, caminharemos aceleradamente para uma ditadura. Pode
não ser a ditadura militar, porque efetivamente não está
alinhada hoje em dia aos interesses geoestratégicos das principais
potências econômicas mundiais, mas será uma ordem ditatorial
pós-democrática, na qual um governo civil travestido de
legitimidade, a improvisar soluções institucionais, irá
impor a mão de ferro uma ordem política ditatorial sobre os
trabalhadores brasileiros.
Ou nós avançamos na democratização do sistema de
representação e da sociedade brasileira, ou recuaremos de forma
muito acelerada para uma ditadura mais ou menos velada. Isso já tem
acontecido no mundo. Regimes políticos ditatoriais têm
aparência democrática porque coabitam com eleições
ou coisa do tipo.
A Turquia do Recep Erdogan é um exemplo. Aparentemente
democrática, mas de fato uma ditadura que impõe uma ordem muito
pesada sobre os trabalhadores. É esse o futuro que nos espera caso
não sejamos capazes os movimentos sociais, sindicatos, classe
trabalhadora e demais expressões democráticas que ainda existem
na sociedade entre os setores médios, intelectuais, estudantes de
promover uma transformação radical e refundarmos a democracia no
Brasil. Se não o fizermos, sem dúvida alguma nos transformaremos
numa sociedade regida por uma ditadura.
Correio da Cidadania: Em sua visão, e agora com o pedido de impeachment
já aprovado pela Câmara, quem apontaria como responsável
pela agonia do governo e do PT no Planalto?
Ruy Braga:
Tenho insistido no fato de que o governo Dilma começa a cair
quando aplica a agenda e o programa político que ele próprio
derrotou na campanha presidencial de 2014. Ou seja, ao decidir, para efeitos de
enfrentar a situação econômica, impor um pesado ajuste
fiscal ao país, com ataques aos direitos dos trabalhadores e pesado
ajuste nas contas públicas, que levaram o país à
recessão, em desfavor de todos aqueles setores da classe trabalhadora
que ganham de 2 a 5 salários mínimos mensais e haviam garantido a
eleição apertada de Dilma.
Quando ela decidiu impor o ajuste, cortou toda e qualquer
ligação, solidariedade e apoio de tais setores, exatamente
aqueles que garantiram sua vitória eleitoral, que com muita razão
se sentiram atacados e traídos. Foi o momento capital do segundo governo.
É importante destacar que a atitude do governo apenas seguiu um caminho
mais ou menos natural, levando-se em consideração os recuos e
concessões que o governo Dilma vinha fazendo pelo menos desde maio de
2013. Em abril de 2013, aumentou a taxa de juros e em maio resolveu adotar
políticas privatistas, que entre outras coisas redundariam na
privatização dos portos, aeroportos e rodovias, enfim, um
programa amplo de privatização da infraestrutura.
Tivemos um desacoplamento dos interesses populares, da classe trabalhadora, dos
pobres do Brasil, talvez com honrosa exceção da fatia assistida
pelo programa Bolsa Família, que se manteve alinhada ao governo. Tal
descolamento se aprofundou a partir de junho de 2013, quando a massa de jovens
foi às ruas pedir mais investimento público e gasto social em
saúde, educação, transporte etc. Em julho de 2013, o
governo respondeu com corte adicional de 10 mil milhões de reais do
orçamento público.
Foi ali, naquele corte de 10 mil milhões de reais em julho de 2013, que o
governo selou sua sorte, em minha opinião. Foi exatamente ali que o
governo decidiu aplicar a qualquer custo uma política de ajuste fiscal.
E a partir de então os recuos do governo apenas corroboram a
mudança abrupta de direção da política
econômica, redundando no estelionato eleitoral e seus desdobramentos
políticos tenebrosos, trágicos. Houve a queda de popularidade da
presidente, que a partir de então adotou uma estratégia de recuo
sistemático diante de qualquer resistência a alguma proposta sua.
Na época, inclusive em entrevista ao Correio, disse que ela estava
terceirizando o governo para o PMDB. E hoje vemos que a
terceirização se complementou com o golpe de domingo.
Correio da Cidadania: Que comparativos você faria com o impeachment de
Collor, inclusive em relação ao perfil dos protestos que apoiaram
a derrogação do mandato presidencial?
Ruy Braga:
Na comparação com o Collor as diferenças são
abissais. O impeachment do Collor foi um processo que unificou os setores
democráticos da sociedade brasileira, houve o estabelecimento de um
enorme consenso entre aqueles que de fato haviam lutado durante as
décadas de 70 e 80 em especial os movimentos sociais e os
militantes do PT. Além da UNE, da CUT e outros setores populares houve
uma espécie de unidade com os setores médios e tradicionais da
sociedade brasileira, que haviam sido atingidos diretamente pelo bloqueio e
pelo sequestro das poupanças empreendido por Collor de Melo.
O impeachment do Collor unificou uma série de setores importantes da
sociedade brasileira, forças democráticas que ainda estavam
empoderadas e fortalecidas pelas vitórias dos anos 80 do processo de
redemocratização. Havia uma vibração muito forte,
uma pulsão democrática muito forte subjacente aos movimentos que
de fato impediram o governo Collor e hoje vemos o avesso disso. Temos uma
sociedade partida ao meio, cindida, que não irá se reconciliar.
O impeachment do Collor reconciliou os setores médios tradicionais com
as forças sociais e populares. Isso não irá acontecer
agora, teremos na verdade um aprofundamento de tal cisão em torno de uma
agenda fundamentalmente regressiva. O Collor foi substituído, mesmo do
ponto de vista econômico, por uma agenda progressista. Não estou
dizendo que era uma agenda popular, mas era progressista, em torno da qual se
estabelecia, por exemplo, a criação e implementação
da negociação coletiva dos contratos de trabalho, tentada no
governo Itamar Franco.
O governo Itamar Franco aumentou de maneira consistente o gasto social e
preparou o Plano Real, que em um primeiro momento foi um plano de fato
redistributivo e distribuiu renda. Isso se deu pelo fato de que a imensa e
esmagadora maioria da população não tinha
condições de se defender do processo inflacionário. Quando
a inflação caiu, o poder de compra do salário aumentou.
Assim, tivemos, sim, uma espécie de agenda progressista em termos
econômicos e uma dimensão política avançada para a
época, com a formação de um governo sob pressão dos
movimentos populares. Foi um governo que inclusive tentou a
criação da negociação coletiva no contrato de
trabalho. Houve ganhos do ponto de vista social, da proteção
trabalhista e econômica para as massas trabalhadoras. Hoje temos
exatamente o contrário.
O impeachment de Dilma é um golpe parlamentar e não tenhamos
dúvidas, nem sejamos inocentes: Dilma Rousseff foi tirada do poder
não por aquilo que ela fez em benefício da classe empresarial,
capitalista e da burguesia brasileira. E fez muito, as últimas medidas
dela, associadas ao aumento exorbitante da taxa de juros, combinado com um
ajuste recessivo da economia, eram exatamente para garantir o pagamento dos
juros da dívida pública. Pois bem, ela não está
sendo derrubada por isso, nem por de alguma forma ter beneficiado ou mantido o
Bolsa Família ou os gastos sociais do governo. Não foi derrubada
por nenhuma dessas razões.
Dilma foi derrubada por não ser capaz. Por ser um governo fraco e sem a
capacidade de empregar a Reforma da Previdência com o aumento do tempo de
contribuição e diminuição de benefícios; a
reforma trabalhista, com o fim da CLT, exatamente como eles querem, ou seja,
aplicar o princípio do negociado sobre o legislado e transformar
estruturalmente o mercado de trabalho brasileiro.
Em outras palavras, hoje nós temos 48 milhões de trabalhadores
formais, sendo 12 milhões são terceirizados. O que eles querem
é transformar esse mercado de forma estrutural, fazer com que 30, 35 ou
40 milhões de trabalhadores sejam terceirizados e apenas um
núcleo muito pequeno, composto por 10 ou 12 milhões de
trabalhadores, seja efetivamente contratado das empresas. Dilma não era
capaz de entregar esta reforma trabalhista, como nós percebemos a partir
da resistência que muitos setores sindicais, inclusive alinhados ao
governo federal, apresentaram durante a discussão do PL 4330 no ano
passado. E ela não foi capaz também de fazer uma reforma
constitucional que desvinculasse os gastos com educação e
saúde do orçamento público, para liberar espaço
para o pagamento de juros.
Ela não foi capaz de entregar as três contrarreformas que os
empresários, a burguesia, os setores proprietários e a parte
majoritária da política brasileira financiada por essa burguesia
(e representando os interesses dela) entendem como necessárias para
fazer com que o processo de acumulação capitalista no Brasil
continue e seja retomado diante da situação de crise
econômica.
O que estamos vivendo no Brasil é a transição a um regime
de acumulação e de exploração da força de
trabalho assalariada com espoliação social e de direitos, tendo
em vista fundamentalmente a ampliação do trabalho
precário. Transição para outro regime de
acumulação, que eu diria ser fundamentalmente um regime de
espoliação social dos trabalhadores com exploração
do trabalho assalariado associado. Estamos vivendo uma inversão. Antes
tínhamos a acumulação por exploração a dar
direção; hoje, o que os setores empresariais exigem é o
regime de acumulação brasileiro basicamente voltado à
estratégia social de espoliação capitalista. Isso é
o que vamos ver com o governo Temer. O governo tentará se
será bem sucedido ou não depende da luta de classes
implementar tal agenda e realizar seu programa, com a seguinte finalidade: a
transição do regime brasileiro de acumulação.
O único problema é que ele não poderá contar com
aquilo que Lula e Dilma contaram: um modo de regulação, ou seja,
de reprodução desses conflitos capital-trabalho minimamente capaz
de pacificar o país. Ele não contará com isso, motivo pelo
qual aposto que tal transição, que aponta para um aprofundamento
de todas as formas despóticas de controle da sociedade, só pode
efetivamente se completar com a transformação do Estado em uma
ditadura. Caso contrário, será praticamente impossível que
essa transição seja empreendida ou realizada.
Portanto, estamos vivendo,
mutatis mutandis,
mais ou menos aquilo que vivemos entre as décadas de 50 e 60; um
regime de acumulação despótico, fordista e
periférico que tinha uma flagrante natureza autoritária, mas
coexistia (com muitos atritos) com o populismo e sua regulação. A
seguir, qual foi a solução? Eliminar a regulação
populista e colocar no lugar uma regulação autoritária.
Estamos vivendo exatamente isso na sociedade brasileira de hoje: um modelo de
acumulação que precisa transitar e se transformar, se reinventar
cada dia mais em um sentido autoritário e que ainda exige um Estado e
uma institucionalidade política consistentes e coerentes com seus
objetivos.
Correio da Cidadania: O que seria ou será do PT de volta à
oposição? Que tipo de discurso e atitude política se
poderá esperar e, acima de tudo, sua relação com a classe
trabalhadora e setores sociais que o levaram ao poder?
Ruy Braga:
Vejo que o PT, por incrível e contraditoriamente que possa parecer,
tende a sair fortalecido desse processo, pela simples razão de que foi
alijado do poder por meio de um golpe. Naturalmente, os setores sociais e
populares vão reconhecer que houve um golpe e o PT de alguma maneira foi
ilegitimamente tirado do poder. Os setores do PT mais engajados e mais
enraizados na máquina administrativa do Estado tendem a focalizar ou a
canalizar todos os esforços de resistência na luta institucional,
ou seja, dentro de Congresso, Senado, Judiciário, Supremo etc. Enfim,
desviar a indignação das massas, que tende a crescer com a
aplicação das medidas radicais previstas pelo governo Temer. E os
setores mais dinâmicos dentro do Partido dos Trabalhadores, normalmente
ligados aos movimentos sociais, tendem a avançar no sentido de exigir a
restauração da democracia.
Acredito que esse processo tenderá a assumir a forma de uma campanha por
Diretas Já e pela eleição antecipada da presidência
da República de 2018 para 2016. Posso estar enganado, mas é a
minha aposta. Sem dúvida nenhuma, teremos no futuro próximo e
imediato uma intensificação da luta popular nas ruas, ou seja,
com os setores governistas, mas também de forma independente deles.
Prevejo que haverá muita mobilização popular,
especialmente no meio sindical se houver ainda algum tipo de
força no movimento sindical brasileiro e acredito que há.
Mesmo que a taxa de desemprego tenha dobrado nesse último ano, de 4,5%
para 9,2% da PEA, é uma taxa de desemprego ainda não desastrosa
para os interesses dos trabalhadores. Consequentemente, acredito que o
sindicalismo não está em um momento de absoluta fragilidade, pelo
contrário, ele pode, sim, reagir. Com menos força do que em 2012
e 2013, mas ainda assim com força suficiente para se somar, eu diria,
aos demais movimentos populares, em especial os movimentos de trabalhadores sem
teto e o MST.
O MST agora na oposição e todos os movimentos sociais que antes
se localizavam em uma região mais ou menos confortável de
negociação ainda que com conflitos com o governo
federal vão passar imediatamente para a oposição e com uma
razão, ou seja, com uma palavra de ordem: a restauração da
democracia no Brasil. E isso tende a fortalecer os setores alinhados, que ainda
consigam mobilizar as massas, em favor das pautas democráticas.
Consequentemente, acho que teremos uma intensificação do ritmo e
do nível da luta de classes no Brasil e, contraditoriamente, um
fortalecimento do PT. Até porque se nos fiarmos pelas pesquisas de
opinião, o Lula ainda é hoje franco favorito para ganhar as
eleições em 2018. Portanto, mesmo se pensarmos de um ponto de
vista oportunista (eleitoralmente falando), uma parte importante do PT teria
muitos interesses em antecipar as eleições de 2018. Assim,
acredito, nós teremos um fortalecimento da luta nas ruas em torno dessa
agenda.
Correio da Cidadania: E aqueles movimentos e agrupamentos que passaram os
últimos anos levantando suas bandeiras desatrelados e até
rompidos com o PT se verão obrigados a agir em conjunto com o partido e
suas bases?
Ruy Braga:
Feliz ou infelizmente isso já está acontecendo. A
atuação conjunta mais ou menos articulada da Frente Brasil
Popular com a Frente Povo Sem Medo é uma mostra. Ou seja, aqueles
setores mais dinâmicos, antigamente ligados ao governo e agora em
oposição ao futuro governo Temer, já começaram a
tentar uma espécie de unificação em torno de uma demanda,
que é algo que unifica todos os democratas. E eu vejo que tal tipo de
processo provavelmente vai se manter e aprofundar. Não sei ainda qual
será o desdobramento, mas tenho certeza absoluta de que as ideias de
redemocratização do país e antecipação das
eleições deverão ter uma repercussão popular forte.
19/Abril/2016
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