Lula, a tábua de salvação das classes dominantes
por Gilberto Maringoni
[*]
Longe de promover mudanças, a gestão do ex-metalúrgico
consolida-se como uma espécie de quarto mandato de Fernando Collor,
buscando aprofundar um programa liberal que teve início nos tempos do
caçador de marajás: redução do Estado,
liberalização financeira, juros altos e supremacia do mercado.
Lula tem o papel de re-legitimar um modelo rechaçado em toda a
América Latina, oferecendo-lhe face humana. Mais do que constatar a
conversão de ex-esquerdistas ao credo neoliberal, a questão para
as forças populares é o que fazer frente à nova
situação.
Passados doze meses, não há mais surpresas e nem falsas
expectativas: o governo Lula apenas representa a continuidade de uma linhagem
iniciada em 1990, com a gestão de Fernando Collor, interrompida pelo
interregno de Itamar Franco, e prosseguida nos dois mandatos de Fernando
Henrique Cardoso. Trata-se de dar prosseguimento à opção
de um desenvolvimento capitalista possível a um país
periférico de relativa importância, que se traduz no que se
convencionou chamar de neoliberalismo.
A esta altura, apenas opiniões ingênuas ou claramente interessadas
ainda propagam a falsa idéia de que o futuro nos reserva uma
mudança de orientação na essência dessa diretriz,
consubstanciada na política econômica de mega-superávits
fiscais, juros altos, manutenção do caráter privado do
Estado materializado no prosseguimento da política de
financiamento barato, via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e
Social), às transnacionais que abocanharam as
ex-empresas estatais e na subordinação das mal denominadas
políticas sociais ao realismo
orçamentário. Em outras palavras, não resiste
à menor reflexão séria a idéia de que este seria um
governo em disputa entre as classes dominantes e os setores
populares.
Toda a conduta da atual administração tem sido a de dar absoluta
prioridade ao capital, em suas múltiplas variantes, penalizando
abertamente o trabalho. Os sinais são claros: vão desde a reforma
da previdência, a reforma tributária, a lei de falências, a
liberação dos transgênicos, até questões
aparentemente comezinhas, como a prostração oficial frente ao
lobby
das empresas de cigarro, quando da realização do GP de
Interlagos, em São Paulo. É este o governo que realiza o maior
arrocho fiscal da história, para garantir o pagamento sem sustos aos
credores da dívida pública.
Poder-se-ia alegar que não haveria outro caminho na seara
econômica, tal é a pressão exercida pelos organismos
financeiros internacionais, aliada à vulnerabilidade externa herdada do
governo Cardoso. Se assim fosse, como explicar posições
francamente conservadoras em áreas que não estão pautadas
pela economia, mas pela política, como a abertura dos arquivos da
repressão política da guerrilha do Araguaia?
RE-LEGITIMANDO MODELO IMPOPULAR
Qual era o panorama político no segundo semestre de 2002? As
políticas neoliberais do governo Cardoso não suscitavam mais
entusiasmo eleitoral. Suas diretrizes privatizantes, de redução
do Estado, de endividamento e financeirização, conduziram o
País a uma situação de crise aguda, com
deterioração das condições sociais, ao mesmo tempo
em que a economia ameaçava entrar em
default
, por não conseguir honrar os pagamentos de seus compromissos
internacionais. O agravamento da situação a partir de abril de
2002, redundou no virtual estancamento de financiamentos internacionais para o
Brasil, com devastadoras conseqüências internas. Ao mesmo tempo, a
candidatura que prometia à população mudanças,
crescia aceleradamente nas pesquisas. Em uma palavra, havia um rechaço
popular ao neoliberalismo. (Hoje se vê que a primeira palavra do discurso
de posse de Lula, justamente Mudança, representou um enorme
erro de revisão. Na verdade o recém empossado mandatário
possivelmente queria dizer Mendonça, em homenagem ao seu
fiel marqueteiro).
Ao manter e aprofundar a orientação econômica derrotada nas
urnas, Lula e o PT assumiram o triste papel de re-legitimar uma
orientação carente de apoio popular e dar-lhe novo fôlego.
Transformaram-se numa providencial tábua de salvação para
as classes dominantes e para o sistema financeiro. Com isso, além de
empulhar o País, contribuem para desalentar largas parcelas de nosso
povo, provocando um retrocesso no longo aprendizado político de mais de
duas décadas, que resultou em sua própria eleição.
O presidente sequer procura oferecer à opinião pública
explicações razoáveis sobre sua mudança de rota.
Prefere semear a confusão através do tedioso enunciado de ditos
populares e receituários de auto-ajuda.
LETRAS MIÚDAS
Os exegetas dos novos inquilinos do Planalto espalham aos quatro ventos que
não haveria desonestidade alguma na mudança de
orientação do partido político que assumiu os
negócios do executivo. Tudo estaria explicitado na famosa Carta
aos brasileiros, peça divulgada para acalmar os
mercados no final do primeiro semestre de 2002. Aqui, o descaramento
faria corar profissionais do gênero, como impagável vivaldino do
Império, o liberal Visconde de Sinimbú (1810-1907). Os eleitores
não votaram num contrato com letras miúdas, destinado a apaziguar
banqueiros na undécima hora da refrega, mas em 22 anos de
pregação mudancista, de justiça social e de
penalização dos ricos em favor dos mais pobres. Havia um
programa simbólico que foi lançado às favas pelo
neopetismo. Sob este ponto de vista, a rápida virada de casaca da
administração lulista inscreve-se no rol dos maiores estelionatos
eleitorais da história da humanidade.
Mas essas questões não são novidade para qualquer analista
sério da realidade política brasileira. O difícil
é, ao analisar esse quadro, extrair decorrências políticas
mais ou menos definidas.
CHANTAGEM
Há, contudo, uma premissa que deve ser evitada a todo custo, quando se
buscam alternativas ao desalentador para os não favorecidos pela
artimanhas oficiais quadro atual. Embrulhado no papel celofane da
cautela política bem pensante, está na praça uma
modalidade de chantagem das mais rasteiras. É a de que se o governo
Lula for derrotado, estaremos abrindo espaço para a volta da
direita e, assim sendo, qualquer ataque à gestão do
campeão das metáforas indiretamente favorecerá o
conservadorismo. Esta ameaça deve ser analisada sob dois prismas. O
primeiro é o de que, ao re-legitimar o neoliberalismo, Lula passa a ser
também o grande organizador da direita brasileira e dos representantes
do capital financeiro internacional aqui dentro. Ou seja, o presidente faz as
vezes da própria direita, ao ser cooptado por ela, por mais que se ache
a cavaleiro da situação.
A segunda decorrência é que se, mesmo com todos os ventos por
parte da mídia e do sistema financeiro internacional soprando a favor, o
governo Lula vier a ser derrotado por partidos de direita, a conta deve ser
debitada para quem frustra as expectativas de mudança e abre
espaço para campanhas demagógicas por parte do conservadorismo.
Ou seja, ao próprio campo majoritário petista.
A questão prática que se coloca é: se o governo Lula se
assume plenamente como o grande articulador dos interesses do grande capital, o
que resta à esquerda brasileira e aos setores que não se
entregaram alegremente ao canto de sereia do novo situacionismo, com
justificativas de diversos matizes? A questão é nova e complexa,
pois no imaginário popular, quem governa o Brasil é um partido
teoricamente de esquerda.
Com base nessa premissa, é preciso dizer claramente: o governo Lula
precisa ser derrotado em sua estratégia maior, que é o da
continuidade e aprofundamento do modelo neoliberal. A manutenção
de sua política é ruinosa para o País e, em especial, para
os setores populares, que tiveram uma brutal queda de renda e um aumento do
desemprego no ano de 2002. Isso, aliado ao que se prevê na reforma
trabalhista, implica em profundos ataques aos trabalhadores. Não
há opção a não ser fazer-lhe oposição.
COMPLICADORES
Porém e sempre tem um porém, dizia
Plínio Marcos há vários complicadores na
conjuntura. Neste 2004, teremos eleições municipais. Usualmente
o que ocorre em pelejas dessa natureza é uma
despolitização acentuada, em que o debate dos grandes temas
nacionais cede lugar à micropolítica do asfalto nas ruas e dos
postes na esquina, desconectadas do contexto mais geral. Este deverá ser
o terreno incentivado pelo governo Lula, que não terá muitas
realizações a exibir, sofrendo ainda o ataque oportunista que a
oposição eleitoral encampará, por força do aumento
da crise e do desemprego.
Há cidades em que a derrota de candidatos petistas mais à
esquerda em favor de partidos como PSDB, PFL ou PMDB trará reais
prejuízos à população. Em outras, em que candidatos
do campo majoritário petista estão na disputa, a
situação equivalerá a optar entre seis e meia
dúzia. Que fazer numa situação dessas? Há que se
escolher, lamentavelmente, onde a vitória petista é importante e
onde não é, visando-se um rearranjo das forças
políticas a partir de 2005.
Parte daqueles que não aceitam a nova condução e que se
achavam abrigados no interior do PT estão abandonando o partido. Alguns
têm atuado dessa maneira, sem propor alternativas. Outros buscam a
criação de uma nova agremiação, tarefa penosa,
longa e difícil, ainda mais num momento em que não há um
ascenso significativo das lutas sociais a vitaminar novas formas de
organização.
PT ESGOTADO
O fato é que o PT, como forma de organização dos setores
populares e como agente das transformações sociais no Brasil,
está esgotado. Não há mais disputa possível, quando
o campo majoritário conta com o aparelho de Estado e com o capital
financeiro para definir os encontros e convenções e quando as
relações internas são pautadas, na larga maioria dos
casos, pelo empreguismo, fisiologismo e subordinação
àqueles que detém postos na hierarquia do poder público.
No entanto, para quem ainda está no partido, a decisão sobre
rumos a tomar deve se dar após as eleições municipais,
quando o jogo político puder acontecer, tirando-se do centro do debate
os particularismos e minudências dos pleitos locais, tendo como norte a
disputa política de rumos para o País. Ou seja, tanto para quem
está dentro, como para quem está fora do PT, o ano que se inicia
será extremamente penoso.
[*]
Autor de A Venezuela que se inventa, Ed.
Fundação Perseu Abramo
(a sair em fevereiro)
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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