Dentro das redes do fascismo:
duas semanas entre os grupos de WhatsApp de eleitores do Bolsonaro
Ingressar nos grupos de WhatsApp e Telegram de Bolsonaro não
é
difícil. Sobretudo nos que foram ativados para o segundo turno e que
tiveram como eixo a agitação digital nos estados e cidades do
Nordeste do país, onde o candidato perdeu contra Fernando Haddad no
primeiro turno
por Sebastián Valdomir
[*]
Faltando poucos dias para o segundo turno das eleições no Brasil,
foram conhecidos alguns detalhes da estratégia e funcionamento dos
grupos de mensagens digitais da campanha de Jair Bolsonaro. O tema já
vinha sendo abordado por analistas políticos e comunicacionais como uma
peça relevante da sua campanha, mas sem maiores repercussões. Na
semana passada, o
The New York Times
publicou uma coluna sobre o funcionamento da divulgação
massiva de conteúdos falsos por grupos de mensagens, e finalmente, na
quinta-feira (18/10), o diário
Folha de São Paulo
deu cobertura à conexão entre as empresas e o financiamento
da estratégia de divulgação de notícias falsas
contra o adversário de Bolsonaro, o petista Fernando Haddad.
Chamar a atenção sobre esse tema agora não é menos
importante, mas a reação da sociedade e da Justiça sobre o
fato em si acontece tarde demais, sobretudo porque se trata de uma
estratégia que vem sendo implementada há pelo menos três
anos.
Ingressar nos grupos de WhatsApp e Telegram de Bolsonaro não é
difícil. Sobretudo nos que foram ativados para o segundo turno e que
tiveram como eixo a agitação digital nos estados e cidades do
Nordeste do país, onde o candidato perdeu contra Fernando Haddad no
primeiro turno.
Um dos grupos onde entrei no WhatsApp foi criado em janeiro de 2017, ou seja,
um ano e meio antes do início da campanha. Outro grupo, desta vez no
Telegram, teve uma média de 8,4 mil mensagens diárias, com 3,5
mil membros estáveis. A partir dos resultados do primeiro turno, no dia
7 de outubro, quando se confirmou que o Nordeste foi a região onde mais
houve resistência a Bolsonaro, foi possível monitorar pelo menos
26 grupos de WhatsApp, atendendo diferentes estados e pontos urbanos dessa
região. Como o WhatsApp tem um limite relativamente pequeno de
integrantes por grupo, os ativistas os segmentaram até gerar centenas de
novos grupos. Ademais, passaram a empregar o Telegram, que permite armar mega
grupos com milhares de usuários.
É importante entender que a etapa de rápida
massificação da estratégia de mensagens de Bolsonaro
está bastante adiantada, em comparação com a
implementação da estratégia. Tudo indica que o
início do trabalho de geração de conteúdos deveria
ser simultâneo ao das mobilizações de 2015, seguindo
paralelamente o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, as
investigações da Operação Lava Jato, a greve dos
caminhoneiros, entre outros acontecimentos.
Ou seja, primeiro houve um aproveitamento dos grupos de mensagens teoricamente
"não políticos", mas que estavam fortemente ativados em
demandas ou campanhas de mobilização contra o governo, para
transmitir um discurso de insatisfação generalizada com a
política. Uma vez instalado o processo eleitoral, a
"migração" desses grupos "não
políticos" a grupos de apoio a Bolsonaro foi quase
instantânea.
A estratégia rendeu bons resultados. Após o ataque que o
candidato sofreu em Juiz de Fora, ele não participou mais em atividades
urbanas. Se considera, também que ele quase não teve
presença no horário eleitoral na televisão aberta.
Comparando o seu rendimento no primeiro turno ao de Geraldo Alckmin, do Partido
da Social Democracia Brasileira (PSDB), que tinha o maior tempo em minutos do
horário eleitoral e ficou com pouco mais de 4% dos votos, o contraste
não pode ser mais chocante. A decisão de não utilizar a
mediação dos canais tradicionais para transmitir sua mensagem
gerou inúmeros benefícios ao candidato do Partido Social Liberal
(PSL). Mas para que isso fosse possível, esses dispositivos tiveram que
ser desenvolvidos com muito tempo de antecedência, até o momento
específico das eleições.
O pior é que seja
fake?
O noticiário do Brasil nos últimos dias conta como esses canais
foram utilizados para disseminar conteúdos falsos e
fake news
. Entretanto, o maior problema não é esse. Em geral, a esquerda
e também os especialistas de comunicação
política, os acadêmicos e os jornalistas não
têm muita certeza sobre onde radica a questão mais grave. Uma
análise do funcionamento dos diferentes tipos de mensagens pode dar
algumas pistas, mas é preciso ter clareza sobre o fato de que isso
somente não proporciona maior informação sobre o que
está por trás da estrutura de emissores, receptores e mensagens.
Os grupos vistos nas últimas semanas são sobretudo espaços
de agitação e difusão de memes, vídeos variados
(que vão desde os tópicos clássicos do "marxismo
cultural" à Escola de Frankfurt, da psicanálise até
conselhos sobre "sobrevivência urbana") e
propagação de consignas. Uma pequena parte das mensagens se
referem a postagens mais "clássicas", com comentários
ou análises de uma matéria, da campanha em geral, das propostas
dos candidatos, etc. Alguns grupos especializados em debates evitam os
vídeos e as imagens e se centram em polir frases para os diferentes
temas da campanha eleitoral, e em como rebater argumentos de outras pessoas.
Entre as centenas de mensagens diárias, podem ser identificados
padrões de organização bastante simples, assim como as
tarefas que cumprem alguns usuários que deixam de ser simples aderentes.
Com relação ao primeiro, os grupos normalmente amplificam as
mensagens do tipo "missão do dia", que indicam alguma
ação digital concreta para realizar de forma bastante simples e
automática, depois que a mensagem chega. Por exemplo, uma delas
consistia em entrar no site do Senado e clicar na opção de
"plebiscitar a revogação do Estatuto de Desarmamento".
O resultado, poucas horas depois, foi meio milhão de votos pela
opção "sim". E dessa forma, muitas outras
"missões" foram realizadas, como reenviar vídeos aos
contatos particulares, intervir em discussões no Twitter ou no Facebook,
hostilizar algum analista "do outro lado".
As mensagens geralmente são muito simples, e tratam de temas simples.
Entretanto, o conteúdo não é o importante, e sim a rapidez
com a que geram respostas aos temas do dia, e nos momentos exatos. Outro
aspecto importante é que quase nenhum caso tem a ver com construir
argumentos para uma discussão racional, e sim defender a ênfase na
repetição, na instantaneidade e nas respostas
pré-elaboradas, o que indica uma lógica instrumental, mas
não comunicativa.
O fato em si termina constituindo um fato comunicativo, mas não a
lógica por trás do funcionamento destes dispositivos de resposta
rápida. O mais correto não é aquilo que é mais
divulgado ou aceito. Mensagens absurdas quando não diretamente
grotescas dão lugar a múltiplas respostas e
reações que preparam os usuários para eventuais
interações quando são reenviadas a outros grupos que
funcionam na periferia da política (grupos familiares, de amigos, no
trabalho, etc).
Não existe possibilidade alguma de estabelecer um canal de
diálogo por fora de toda essa racionalidade instrumental. Muitos
vídeos começam falando em "reconhecer o direito de cada um
eleger seu candidato", para logo dar lugar a uma sequência de frases
sobre que "optar por Haddad é dar o voto a um palhaço que
defende bandidos e, por isso, quem o defende é outro bandido", ou
gay, ou puta, ou cínico, nos tons mais depreciativos e insultantes
possíveis. O interesse maior não é convencer o outro, e
sim derrotá-los. Tudo isso em 15 segundos de tensão e
aceleração total.
A questão não é discutir o que é verdadeiro e o que
é falso, e sim definir entre a aceitação e o ódio.
O importante é que a máquina funcione e não tanto o que
ela vai produzir se funcionar.
Embora Bolsonaro não possa se jactar de sua produtividade ao longo de
sua carreira como parlamentar, em junho de 2017 ele apresentou dois projetos
relacionados ao uso do WhatsApp. Um deles era uma emenda constitucional que
visava incluir um inciso ao artigo 102, indicando que o uso dos serviços
de mensagens só poderia ser limitado por decisão do Supremo
Tribunal Federal (STF), e não por juízes de primeira ou segunda
instância.
Frear um dispositivo tecnológico pontual não resolverá o
problema, porque, como se sabe, existem vários outros para cumprir a
mesma função. O estudo das mensagens analisadas pelo
The New York Times
estimava que 56% dos conteúdos mais compartilhados eram falsos. Colocar
ênfase em um conteúdo particular, seja ele falso ou não,
pouco ajudará a modificar a essência do problema.
Houve fraude, há fraude, haverá fraude
Chama a atenção como os apoiadores e membros do
"movimento" concordam com a ideia de que todo o sistema
político, o conjunto dos setores políticos e diferentes
instituições incluindo o TSE estão contra
Bolsonaro. Engana-se quem pensa que há críticas somente aos
chamados "esquerdopatas" esquerdistas ligados Partido dos
Trabalhadores (PT), ao Partido Comunista ou a Lula, no Uruguai, o termo que se
assemelha é o de "focas", com o qual se procura ridiculizar os
militantes da Frente Ampla , pois também se vê ataques a
figuras de partidos tradicionais da centro-direita brasileira, como Fernando
Henrique Cardoso e José Serra. Outros focos de crítica são
a cobertura que fazem de Bolsonaro nos meios de imprensa escrita (sobretudo o
diário
Folha de São Paulo),
a Rede Globo de televisão e a Igreja Católica.
Este leque termina impregnando tudo com um sentido épico, criando a
sensação de que se trata de uma heroica rebelião contra
o
status quo
. A interação não deixa de ser um trânsito entre a
tragédia, baixarias repugnantes e caricaturas de debates extremamente
sérios. Armas, aborto, anticomunismo fervente, o reconhecimento de
direitos para pessoas LGBT, tudo isso passa pelo filtro de um sentido de
urgência, de um "não dá mais para aguentar isso",
eloquente mas não necessariamente verossímil.
Mais fingido ainda é o faz de conta para aceitar como verdadeira a
teoria de que "se Bolsonaro não ganhar será somente por
fraude do PT", e não pela unificação de todo um
espectro democrático para frear o fascismo. O Brasil parece ser um
país alegre demais para aceitar uma polarização desse
nível, mas está expressando, desta forma, que se não
acontecer uma vitória de Bolsonaro, o caos será a tônica do
dia seguinte.
Nos diferentes grupos, a reação às matérias
mencionadas acima foi de reforçar a antologia: o bolsonarismo
inquietando os meios mais influentes do mundo. Definitivamente, terminou
reforçando o mecanismo de "todos contra nós" e a ideia
de que, com os celulares como única ferramenta, "o povo está
bancando a campanha do capitão".
O resultado do segundo turno não alterará o fundamental dessas
vias comunicacionais de uma porção significativa da sociedade
brasileira. Tampouco alterará a composição do Congresso.
Depois de tudo, as corporações mais importantes da estrutura
econômica e social do Brasil reforçaram sua presença no
Parlamento. As bancadas religiosas, militares, de ex-policiais e do
agronegócio poderão impor sua agenda ao próximo governo
sem grandes dificuldades. Projetos como o regime penal para menores infratores,
a liberação do porte de armas, o fim de demarcação
de terras para comunidades indígenas, negras e pequenos camponeses,
poderão ser impostos como moeda de troca entre o próximo
Executivo e o Congresso.
Nos grupos, esses temas são abordados da forma mais superficial
possível, e inclusive se nota uma marginalidade de temas
econômicos e trabalhistas entre milhares de mensagens cruzadas.
Ninguém fala da crise econômica ou do corte do gasto para
políticas sociais, ou da reforma trabalhista implantada pelo governo de
Michel Temer.
Talvez seja cedo demais para afirmar que as redes sociais mudaram a
política para sempre, tal como disse recentemente José Roberto de
Toledo, um jornalista da
Revista Piauí,
quando disse que "o WhatsApp é o cemitério da
democracia". O que parece estar claro é que tentar conter o impacto
agora não tem muito sentido. Inclusive, falar deste tema neste momento
da campanha pode ter um efeito casca de banana para o que resta do sistema
político democrático.
Aliás, como se fosse uma macabra saudação de boas-vindas
ao mundo do bolsonarismo, outros temas muito importantes que foram denunciados
nesta semana ficaram em segundo plano, como o fato publicado pela revista
Carta Capital
há duas semanas, sobre a espionagem realizada por um setor da
inteligência do Exército contra a campanha de Fernando Haddad.
Alguns exemplos de mensagens dos grupos de Bolsonaro:
"Começou a repressão no WhatsApp! Começou a censura
geral na internet, Flávio Bolsonaro está proibido de utilizar a
rede! Seu número 552199548-9280 está proibido de se registrar no
WhatsApp. Divulguem".
"É assim, gente, eles estão apelando a tudo. Meu Deus, isso
é alarmante. Regime totalitário é o que já
vivemos!".
"Os comunistas petistas e psolistas revelam sua vocação para
a censura e o cerceamento das liberdades individuais".
"Fascismo mata? Sim. Racismo mata? Sim. Machismo mata? Sim. Homofobia
mata? Sim. Xenofobia mata? Sim. Mas a sua ignorância disfarçada de
pseudo intelectualidade histórica como justificativa para votar no
partido de bandidos mata muito mais".
"Solicitar o bloqueio do WhatsApp foi a maior estupidez eleitoral da
história política brasileira. #VaiSerBurroAssimNaVenezuela".
"Amigos, precisamos de gente neste grupo para recrutar novos bolsonaristas
@haddadvsbolsonaro".
"Vídeo DENÚNCIA GRAVÍSSIMA!! PT planeja armar um
atentado contra Haddad na véspera das eleições. Este
é o novo golpe do PT. https://deusacimadetodos.com/".
"Para interagir com pessoas na busca de conhecimentos e habilidades de
sobrevivência urbana e rural, com a chegada do possível CAOS se a
ESQUERDA ganhar a eleição de forma fraudulenta, ingressar ao
grupo".
"Grupo de WhatsApp para denúncias: (43) 99644-9099. Envie
vídeos e fotos de abusos políticos em sua paróquia!
Reenviem este vídeo para que todas as pessoas que forem à missa
pelo Dia de Nossa Senhora da Aparecida denunciem os padres e bispos que fizerem
campanha para o PT".
"Atenção, católicos, denunciem padres que usem a
maquinária da Igreja para falar de política. Filmar o fato
é importante para realizar a denúncia".
"Quando você pensa que o PT já não tem mais nada o que
roubar, eles vão e roubam as cores da campanha do Bolsonaro".
"Feliz Dia da Criança, especialmente àquelas que vão
nascer. Aqui nós não abortamos o futuro de uma
nação".
"Será que Trump virá à posse do Bolsonaro?".
"Hoje eu acabei (com argumentos) com um colega que disse que Bolsonaro era
racista. Ele se baseou naquela entrevista no CQC, respondendo a pergunta
capciosa da Preta Gil. Argumentei que Bolsonaro pediu a gravação
original para provar que o programa havia manipulado a ordem das respostas. Que
Deus nos abençoe nesta luta que enfrentamos".
"Patriotas! Vamos a garantir um governo anticomunista em 2019. No dia da
eleição, vote e permaneça próximo ao local de
votação até a difusão dos resultados. Estejam
preparados para ter que parar indefinidamente o país, todas as 5570
cidades. Bolsonaro só não será o vencedor destas
eleições se houver fraude. Resistência Patriótica
Brasileira. Deus, Família e Pátria com Ordem e Progresso".
"O inferno está diante dos seus olhos: LU(la)CI(ro)FER(nando). E
vai reinar sobre nós de você permitir".
"Querem instituir o Dia da Marielle. Se Bolsonaro tivesse morrido,
nós também deveríamos exigir o Dia do Bolsonaro. Ele sim
merece, ela não. Só por ser negra, pobre e da favela. Pobre
não, era vereadora e ganhava bem".
"Haddad tem que entender que o Brasil quer o Bolsonaro e que nada do que
ele faça vai mudar isso. Só culpa as redes sociais, sendo que por
trás das redes sociais existe uma pessoa, um eleitor, um ser humano
querendo mudanças. Meu sonho é encontrar o Haddad na minha
frente...".
23/Outubro/2018
Ver também:
www1.folha.uol.com.br/...
[*]
Jornalista, uruguaio.
O original encontra-se em
ladiaria.com.uy
e a tradução em
www.cartamaior.com.br/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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