Não é só por 5 mililitros
Os mortos caminhavam, como sempre, de cabeça baixa. Saíam de suas
casas ainda de madrugada pelas ruas frias e desertas até os pontos de
ônibus, ou as estações de trem. Por serem cinzas como as
manhãs, ninguém os via. Translúcidos, espectrais,
invisíveis.
Quando o sol nascia e a luz banhava as formas sujas e coloridas das cidades,
eles já haviam tomado seus postos servindo o café, dirigindo os
ônibus e caminhões, fazendo ou consertando coisas, como seus
uniformes
assumiam formas visíveis/invisíveis, de maneira
que se podia vê-los, ainda que, se desejasse, ignorá-los.
Aprenderam a ser educados, seguir os protocolos. Não olhavam direto nos
olhos, se desculpavam mesmo sem ter feito nada, abriam espaço nas
calçadas, cumpriam seus deveres e afazeres disciplinadamente.
Como pelas ruas encontravam-se muitos daqueles que continuavam cinzas,
estendendo suas mãos imundas, olhando para que os olhassem, carregando
suas crianças cadavéricas com narizes escorrendo e pés
descalços, vestidas com farrapos, a polícia exercia seu
ofício de retirá-las para os depósitos. Estes, eternamente
lotados como fossas entupidas, nunca eram suficientes. Por isso as pessoas
andavam pouco pelas ruas, preferindo os locais fechados onde os andrajosos
não eram permitidos e o povo cinza só entrava de uniforme para
servi-las, treinado para não ser visto ou notado.
Tudo começou com os loucos. Andando nus, subindo em mesas, gargalhando
alto ou cantando, raivosos ou catatônicos, explodiam em sua insanidade
querendo mostrar o sangue que corria em suas veias. O odor putrefato de sua
carne, o brilho incendiário de seus olhos opacos um verdadeiro
perigo para si mesmo e os outros , eram também escondidos em suas
fossas especiais que igualmente estavam cada vez mais lotadas.
Depois foram as crianças. Não que fizessem algo ameaçador;
era a forma pela qual elas nos olhavam. Não seria possível
descrever de forma precisa, mas era como se soubessem. Conversavam entre si,
riam, paravam quando alguém se aproximava, depois seguiam tramando algo
inexplicável, colorido, incabível, mágico. Foi quando se
tornou obrigatório dobrar suas nucas através de aparatos com
telas incandescentes, individuais, o que as acalmou um pouco.
Pouco antes da explosão tudo seguia normal. Os bancos de sangue estavam
com um estoque mais baixo do que o costumeiro, mas como sempre, uma coleta
estava prevista. Uma vez por mês, todos deviam doar 450 ml de sangue.
Como o sol já não brilhava como antes, os alimentos haviam sido
substituídos por imitação de comida fazia décadas e
tornou-se necessário um suplemento à base de sangue humano para
manter saudável uma pequena parte da população, aquela que
interessa e que seria digna de vida. O suplemento vinha em formas elegantes e
saborosas, requintados quitutes, gourmetizados, como docinhos, sorvetes, eram
sorvidos em narguilés coloridos e com aromas exóticos, como
vinhos finos ou simplesmente como gotinhas de cristal mescladas com
alucinógenos caríssimos.
Os economistas do governo calculavam que seria necessário apenas mais 5
ml de cada um para equilibrar a oferta e a demanda, um impacto mínimo
que nem seria notado. As pessoas cinzas já traziam um cateter fixo no
braço, instalado desde o nascimento. O procedimento portanto era
totalmente indolor. Além do fato de receberem ao final um copo de
água, um biscoito e uma minúscula pedra feita dos resíduos
do cristal alucinógeno.
No dia da coleta, o povo cinza saiu de seus buracos como de costume, mas
não se dirigiu aos pontos de ônibus e trens: seguiu andando em
direção à cidade, queimando tudo que encontrava pela
frente. A guarda antimotim se posicionou e fechou os acessos aos bairros ricos,
onde se deram os primeiros confrontos e as primeiras mortes.
Rios de sangue corriam para os bueiros. As televisões ressaltavam o
paradoxo, para não doar 5 ml a mais, litros eram derramados pelas ruas,
desperdiçados, perdidos para sempre. Especialistas calculavam as perdas
e o impacto sobre o desempenho da economia e as implicações
políticas, enquanto as universidades buscavam desenvolver métodos
de recuperação de parte do sangue escoado para os esgotos, mas
alertavam dos riscos de perda da qualidade dos suplementos reaproveitados.
Apesar da violenta repressão, as massas seguiam sua marcha. A noite
encontrou a cidade em chamas, e os bombeiros simplesmente deixaram o fogo em
paz em seu trabalho de arder. Um enorme cartaz que anunciava um novo flan com
um suplemento enriquecido havia sido arrancado e servia de barricada aos
revoltosos.
A tropa de choque recuava, e os militares se recusavam a sair dos quarteis. O
governo voltou atrás nos 5 ml extras e prometia agora dois biscoitos e
uma pedra e meia de cristal pobre. Mas isso não parecia ter efeito
nenhum na rebelião que se prolongou noite adentro e por todo o dia
seguinte.
Foi aí que apareceram as pichações: "abaixo os
vampiros", "o sangue é nosso", "vou tomar seu sangue
e te dar um biscoito", entre outras palavras de ordem.
Os historiadores ainda divergem sobre como tudo acabou (ou quando, ou por
quê), mas o que se sabe é que os poderosos entraram em uma grave
crise de abstinência e acabaram morrendo em suas casas luxuosas, que se
transformaram em seus túmulos. Até hoje as crianças evitam
a área. Chegam até a cerca, olham, riem e saem correndo para
fazer coisas mágicas.
26/Outubro/2019
[*]
Do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro.
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/24202/nao-e-so-por-5-ml/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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