Santinho de Donskoi
por César Príncipe
11/Dezembro/2017
[1]
Alexander Soljenytsine
(1918-2008). Prémio Nobel da Literatura, 1970. Livro mais difundido:
Arquipélago de Gulag,
1973. Independentemente do teor da narrativa-perspectiva sobre os campos de
reeducação, a obra deveria ter sido editada na URSS e sujeita a
escrutínio. A hostilização do autor sem
publicação da obra conferiu-lhe uma aura de mártir das
letras. Ora, as letras é que foram martirizadas pelo escritor.
[2] The Reader`s Digest/Selecções. Revista norte-americana. Fundada em 1922. Propriedade de um dos empórios editoriais USA. Bem sincronizada com aparelhagens sistémicas (finança, economia, serviços secretos, estado). Apregoadora da excelência imperial. Vertida em 35 línguas. Distribuída em 120 países. Tiragem: 45 milhões de exemplares. A linha editorial vai do anticomunismo catequético até às propriedades curativas do alho. Também selecciona gracinhas para a classe-média. [3] AS fez-se devoto da despótica estirpe Romanov. Radicalizado contra o socialismo em particular e a democracia em geral, revelou toda a compreensão relativamente a Nicolau II (1894-1917), consumado patrocinador de massacres, deportações, guerras interimperialistas, beneficiário do parasitismo fundiário e fiduciário, do jugo tributário, do estado de calamidade social (trabalho sem direitos, fome generalizada, analfabetismo massivo, drama sanitário), acirrador do anti-semitismo. James Ramsay Macdonald (1866-1937), líder do Partido Trabalhista Britânico, considerou o agora São Nicolau uma criatura manchada de sangue, um vulgar assassino. Na mesma linha, Theo Aronson (1929-2003), historiador real, esclareceu que Jorge V, primo direito de Nicolau II, abandonou o czar à sua sorte devido à reputação de tirano e sanguinário. O rei inglês temeu um levantamento operário no seu país no caso de acolher o imperador russo. E para se demarcar e livrar de tão incómodo parente, retirou-lhe o convite de asilo a título pessoal e diplomático. [4] Pavilhão dos Cancerosos, 1968. Relata-recria a ambiência de um hospital oncológico em Tashkent (Uzbequestão), onde o autor, em 1954, foi reconhecidamente tratado com sucesso, embora o conteúdo do romance viesse a ser lido como metáfora do regime. Política da doença. Doença da política. [5] O cadáver foi depositado no Mosteiro Ortodoxo de São João de Donskoi (ao lado do altar), Moscovo. [6] O grupo Femen, com sede cosmopolita em Paris, fundado na Ucrânia, em 2008, é flagrante e fulgurante exemplo das novas modalidades e actorias de protesto. O Sextremismo é o seu programa político-empresarial. Dizendo-se fervorosas feministas, são lideradas por um homem e pelas suas cenografias da zaragata. E terá sido o homem o congeminador-inventor da trupe. As meninas de Victor Svyatski protagonizam a mais desenfreada corrida aos armamentos. Marcam a transição da guerra fria para a guerra quente. Sem aviso prévio, lançam as bombas anatómicas em recintos fechados, nas ruas ou na cara de alguns estadistas. Fazem agenda. Um dos alvos tem sido o ditador Vladimir Putin. As Femen de Kiev são mais consensuais e mais baratas do que os santinhos de Donskoi. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |