República da Cromolândia
por César Príncipe
As recentes eleições para a Presidência da República
ampliaram o efeito e demonstraram a eficácia das campanhas de imagem.
Venceu, como era das previsões político-climáticas, o
candidato mais vendível a públicos tele(visados). A
promoção de ícones não é um monopólio
das tevês, mas os restantes meios são subsidiários ou
retrógrados. No Ocidente, uma grande televisão tem mais
força do que uma grande religião. Os fanáticos ou
fiéis do
écran
são formatados pelo sistemicamente catalogado e homologável.
Milhões de telespectadores são diariamente alimentados por via
auditiva e visual. Jazem ligados à máquina. Só algumas
minorias têm capacidade de autodefesa nacional e global. As
fábricas de moldes e modas operam em laboração
contínua. O processo de captura e persuasão de audiências
conta, à partida, com inúmeros complacentes e cúmplices,
viciados em
tablets
em vez de tabuadas, instados a trocar convicções por caras. O
culto do padroeiro, dos
posters
da realeza, das vampices e vipices aburguesadas, dos cromos
futebolísticos, das beldades de passarela e dos galãs e
barbies
do cinema, dos ídolos da canção assenta no
indivíduo-
show,
no iluminado-bafejado pelos holofotes. Os programadores de
atracções fazem entrar pelas nossas casas dentro profissionais da
demagogia e fantoches da diversão. Ocupam, em tempo real, o centro das
salas e a parede nobre dos dormitórios. São armas apontadas a
alvos. Procuram e conseguem rebaixar os níveis de atenção
e selecção. Objectivo: transformar cabeças humanas em
cabeças de gado. O poder mediático, pouco a pouco, torna o bicho
ou a bicha num familiar, e assim canoniza qualquer criação ou
criatura com recorte e potencial para servir os donos disto tudo. Para culminar
os toques e retoques dos tevê-eleitos, irrompem, de canal em canal,
dezenas de comentadores, quase todos abalizados e quase todos simuladores de
independência, provindos de universidades católicas e laicas e de
outras linhas de montagem e lavagem de cérebros.
Haverá ainda e por aí quem se espante? É a
sociedade do espectáculo
como modelo de sequestro psicopcional, de infantilização e
degradação do espaço cívico e cultural. Exemplos
triunfantes: Cicciolina e Grillo, a actriz pornográfica e o comediante
da Itália das berlusconices, a concubina feita rainha, o bobo feito rei;
Jardel (Brasil), antigo futebolista, analfabeto relapso, teve direito a
puta-secretária e a conexões com corleones locais. E por
aí adiante, Deus meu! A lista seria abundante, exuberante. A democracia
burguesa é inclusiva: jamais excluirá ladrões de estirpe,
criminosos de guerras convencionais e assimétricas, truões sem
noção das cenas que fazem, safadinhas de anúncios
classificados, fala-baratos de cátedra,
dealers
de interesses, ideias ou ideais (grossistas e retalhistas).
Marcelo tirou cursos de cadeirão académico, de líder
partidário, de conselheiro de presidente da República e de
candidato a presidente da Câmara e a presidente da República. E,
além de ter ido repetidamente à praça como
professor-opinador de todas as matérias, foi protagonizando
rábulas de engraçadinho da turma. Pelos vistos, o chamado povo
gosta do género: 24 de Janeiro
dixit
. Marcelo ganhou à primeira, com apoio maciço e massivo dos
equipamentos mediáticos e apoiado nas suas graças. Que de muitas
é ornado. Rezam os boletins. Recebeu um embaixador em cuecas. Fugiu dos
fotógrafos em mota de água. Lançou-se ao Tejo para um
banho de poluição e saiu limpo e vivo. Guiou um táxi pelas
mourarias, com mini-saia no banco traseiro. Travestiu-se de gentil
coiffeur
de balzaquianas. Estacionou num lugar reservado a deficientes. Sabe-se
lá que mais lhe debitam ou virão a averbar no currículo.
Mas não foram nem serão as traquinices-marcelices o grande risco
para as barreiras constitucionais e para as expectativas dos
portugas
em geral e dos seus votantes em particular, muitos provavelmente
distraídos, levados na onda hertziana.
O que advirá? Aguentem, aguentem! O
entertainer
seduziu e poderá abandonar, na primeira e apertada curva, milhares ou
milhões de teledependentes-telede(votos). Mas a decepção
não será universal: neste preciso momento, há um
cidadão feliz em Portugal e que dificilmente se arrependerá de
haver apostado no filho do ministro de Salazar e putativo afilhado de Caetano:
Ricardo Salgado (o do banco sólido e confiável) terá um
amigo do peito em Belém. Preocupante será que Marcelo, como
Cavaco e Passos e Portas, abdique de ser presidente dos portugueses e se
trespasse, no meio das travessias e travessuras, como presidente-delegado de
Bruxelas, do BCE, do FMI e de corporações autóctones de
idêntico jaez.
Pior do que Cavaco não será possível. Diz-se.
Assevera-se. Jura-se. Arrenega-se. Mas Marcelo deu uma cabazada nas
eleições e, em termos de conservadorismo táctico-militante
e da carteira de compromissos, era o mais enfeudado dos dez candidatos.
Há muitos anos que, na Cromolândia, não vencem os melhores.
Que mais, caríssimos?
Temos o Santo Marcelo entre nós. Obrigado, portugueses!
28/Janeiro/2016
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