Marcelux
por César Príncipe
Há razões nacionais e internacionais, regionais e sociais,
culturais e de género para obrigar Marcelo a ir à segunda volta e
aí ser derrotado e devolvido ao altar-cátedra da TVI (empresa
audiovisual dita independente), onde regularmente o lente de Direito celebrou
anos a fio missa dominical vespertina. De resto, assaz concorrida e
generosamente paga. Segundo a
mediatest,
contabilizou mais fiéis do que a eucaristia matinal transmitida pela
mesma estação. Tratemos, pois, da vaga marcelista (2ª
edição). O marcelismo retomou as agendas. Não será
assunto instantâneo. O caso remete-nos para o séc. XX. Para
milhões de cidadãos será oportuno recordar
bastou Marcelo I, o que ficou nos documentários, o abandonado pela GNR,
cercado pelas tropas e pelo povo, saído
in extremis
do Quartel do Carmo, encafuado num blindado a caminho do exílio. Que o
Supremo Magistrado do Juízo Final o conserve no purgatório como
professor e no inferno como ditador. E agora? Brevemente o país
será chamado a eleger o inquilino do Palácio Cor-de-Rosa. O
Marcelo de 2016, afilhado do Marcelo de 1974, assume-se como vencedor
antecipado. O
showman
conta com o favor dos oráculos da Grei.
Defendemos outro perfil para a Presidência:
1. Os portugueses precisam de um presidente que jure e de facto cumpra e
faça cumprir a Constituição. Programa Comum da Democracia.
Ponto irrenunciável. Linha intransponível. Marcelo é um
sofista da palavra e um retalhista das leis da República. Pratica
jurisprudência
à la carte
. Tem, no entanto, um roteiro de sangue: o dos interesses nacionais e
internacionais da alta burguesia. O seu trajecto é o da
evolução na continuidade.
Pretende-se, com um apagão histórico-dinástico, retirar
Marcelo da linha parental de Cavaco. Cavaco Silva e Marcelo de Sousa são
estirpes evolutivas de Oliveira Salazar, Américo Tomás e Marcelo
Caetano. Estirpes que foram e são apoiadas por idênticas
forças económico-financeiras e matrizes ideológicas. A
dupla Cavaco-Marcelo, com as suas peculiaridades, (um) hirto e iletrado,
(outro) lesto a disparar comentários e a despachar livros, sinaliza o
legado do autoritarismo e do elasticismo conservador possíveis num
país que passou por uma revolução. Uma ruptura extensa e
profunda que forçou o
antigamente
a esmerar-se em miméticas de hiber(nação), arremedos
tiranossáuricos, inflexões tácticas,
modulações discursivas. Mas, no essencial, a direita reagrupa-se
e cerra fileiras. Por regra, só diverge entre si no episódico e
secundário. Com tais
performances
de ruído e diversão (sociedade plural
oblige
), a direita, além da prossecução de latos e lautos
desígnios, envia um sinal alienatório e instrumental aos
insatisfeitos ou revoltados com a sua política: é possível
dizer mal e votar nos causadores do mal. A direita (clássica ou
pós-moderna) é useira e vezeira a ocupar fortalezas
institucionais e privadas, a montar redes de influência, a improvisar
coberturas, a estilizar imposturas, a assessorar regressos das castas, a
concretizar retrocessos civilizacionais. Tem os cursos todos: os da ditadura
real e os da democracia formal.
2. Numa Europa onde cresce a repulsa pelo gangsterismo bancário e pelos
fundos-abutres, pelo assalto a patrimónios públicos e rendimentos
colectivos e pela degradação dos serviços básicos,
nesta Europa que dá múltiplos sinais de resistência e
viragem e neste mundo a procurar alternativas ao processo de
globalização imperial, precisamos de um chefe de Estado que seja
mais amigo de Portugal (Povo Português) do que dos Ricardos Salgados, que
provadamente se afirme defensor da nossa soberania, da nossa
independência e da nossa honra, com visão multilateral e
multifocada, advogado dos nossos legítimos interesses nos centros de
representação, legislação e decisão.
3. Os portugueses precisam de um presidente que patrocine a
instituição das regiões administrativas e rompa a
fatalidade das assimetrias e da discriminação dos investimentos e
da desertificação do interior e Marcelo liderou a campanha
anti-regionalização que introduziu a figura do referendo no
ordenamento constitucional e lançou toneladas de propaganda negra contra
a electiva e efectiva descentralização.
4. Precisamos de um presidente que assuma o corpo de valores do trabalho, da
segurança social, da saúde, do ambiente, da cultura, da paz, da
igualdade e liberdade cívicas e de género e Marcelo é um
cultor e difusor de direitos elitistas, machistas e patriarcais: na sua fase de
liderança, o PSD votou contra a criação do Serviço
Nacional de Saúde e Marcelo gabou-se de haver tido um papel determinante
na manutenção da penalização da IVG. No ano da
graça de 2016, os
utentes
em geral do SNS (desorçamentado, onerado de taxas, despovoado de
servidores, esvaziado de valências e avaro nas prescrições,
fisicamente extinto ou afastado das populações isto
é - sabotado pelos partidos do candidato das II Conversas em
Família) e as
mulheres
em particular deveriam replicar e fazer abortar as pretensões de MRS a
Belém.
Fazer abortar Marcelo.
Passa-palavra. A comunidade feminina portuguesa pagou uma farisaica e vexante
factura marcelista: teve de esperar 10 anos para não incorrer em
prisão, enquanto as fêmeas da burguesia (abonadas de carteira e
informadas dos circuitos) sempre puderam dar ou não à luz ou ao
interruptor uterino conforme o seu arbítrio, nem que tivessem de se
deslocar a Londres e a outras praças da especialidade. E MRS sabia. E
bem. Sempre foi um sensor ambiental.
5. MRS é um músico-geringonça a tocar para grandes
públicos, principalmente para as vítimas dis(traídas) do
sistema. O sistema deu-lhe corda e visibilidade. É versátil e
cativante. Cultiva as artes cénicas. Tanto mergulha na
poluição do Tejo como conduz um velho táxi na velha
Lisboa. Tem roupeiro para cada
saison.
Enverga peles de jogador de salão e
jongleur
de écran. Preza os espaços
lux.
Sempre frequentou a corte: a corte do capital e a corte da capital.
Também não desdenha da corte na aldeia. De quando em vez toma
ares de província. Come uns petiscos e inaugura a sua biblioteca e goza
o foguetório e aplaude a banda e beija a criancinha ataviada. À
moda de personagens reais, aristocráticas e afidalgadas. É a sua
regionalização.
6. MRS teve berço estado novo. Ainda jovem escreveu cartas de confidente
a Salazar e a Caetano. Numa delas denunciava os comunistas como sombra
tenebrosa acobertada na Oposição. Sanhas de mocidade portuguesa,
com certeza. Epistolografia adulatória de quem naturalmente (estaria nos
horóscopos) idealizava uma carreira na senda paterna. Não
há que carregar demasiado na parte juvenil do cadastro. MRS até
já cumpriu pena de serviço cívico: passeou pela Festa do
Avante!
Rangel, outrora regente da SIC, alardeou ser capaz de eleger um presidente da
República com o
marketing
de um sabonete. O homem era ambicioso e jactante mas tinha queda para o
negócio. Há quem não lhe fique atrás: recentemente,
a TVI, da multinacional PRISA, lançou a bomba do encerramento/colapso do
BANIF. A
cacha
desencadeou uma corrida aos depósitos, operando-se uma sangria imediata
de 1.000 milhões de euros. Ante o descalabro induzido, o Banco Central
Europeu fechou a torneira. O Santander, accionista da PRISA, abocanhou o Banco
Internacional do Funchal a preço de ocasião.
Operação coordenada? Prodigiosa coincidência? De qualquer
modo, a TVI mostra o seu instinto matador e o seu faro
jackpot.
Não há dúvida: facilitou a saída do
El Gordo
português ao Santander e mantém a expectativa de sucesso da sua
candidatura: a marcelista. A confirmar-se o êxito da aposta belenense, a
saboaria Judite de Queluz lograria bater a fábrica de sabonetes de
Carnaxide, e
voilà
com um produto de largo espectro, já que viria reanimar a
direita tecnofórmica e submarinista, ultimamente bastante flácida
e cabisbaixa, a precisar (rapidamente e em força) de viagra PAFoda.
Que Deus tenha atempada misericórdia dos portugueses e das portuguesas
em idade de votar e procriar.
Reprise
do marcelismo, não.
Oremus.
01/Janeiro/2016
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