O império do capital
por Michel Chossudovsky
entrevistado por Hugo Janeiro, do
Avante!
[*]
No próximo sábado, milhares de pessoas em todo o mundo saem
à rua para assinalarem o 2.º aniversário do início da
campanha militar anglo-americana contra o Iraque e o seu povo. Povos com
culturas distintas irão expressar em diversas línguas o
repúdio comum à guerra e à barbárie, que depois da
Jugoslávia, do Afeganistão e do Iraque ameaça estender os
horrores da «nova ordem mundial». O projecto imperial traduz-se na
colonização política e militar com o evidente
propósito de controlar os mais significativos recursos
energéticos do planeta. Os objectivos dos EUA são, apesar de
tudo, ainda mais gananciosos, explicou o professor Michel Chossudovsky em
entrevista concedida ao Avante!. Entre a farsa e a tragédia, o processo
apresenta-se ameaçador e revela a marcha violenta das potências
capitalistas em disputa pela hegemonia mundial.
Qual é o verdadeiro alcance do projecto norte-americano do «Grande
Médio Oriente»?
Esse plano tem pelo menos uma década. Quando consultei documentos da
administração Clinton percebi que já na altura admitiam
guerras de «teatros reais» no Iraque, Irão e Síria, ou
seja, não só previam acções «punitivas»,
como também operações militares de ocupação.
Posteriormente, em 2000, publicaram um projecto intitulado «Um novo
século americano», que é a agenda da
administração Bush.
Por que razões escolheram estes três países como alvos?
Não escolheram necessariamente, até porque têm planos mais
vastos como se prova pelo estabelecimento de «alianças»
económicas e de cooperação militar com países como
a Geórgia, o Uzbequistão, o Tajiquistão, que possuem
hidrocarbonetos ou encontram-se na passagem de oleodutos e gasodutos.
A região não se limita ao Médio Oriente, alarga-se a uma
zona onde se concentram cerca de 70 por cento das reservas mundiais de
petróleo e gás natural e estende-se até ao Mar
Cáspio e à Ásia Central.
Claro, não temos ecos deste projecto nos meios de
comunicação dominantes. O que nos querem fazer acreditar é
que os EUA agem em nome do combate ao terrorismo da Al-Qaeda, que intervieram
no Afeganistão por razões humanitárias, mas não
informam que os Talibãs foram instruídos e financiados pelos EUA.
CONTRADIÇÕES INTER-IMPERIALISTAS E A CRISE DO CAPITAL
Mas além da justificação mediática foram envolvidas
instituições como a ONU na legitimação das
várias guerras, embora em relação ao Iraque com
oposição da França
Mesmo com a cumplicidade da ONU, que na prática sustentou as campanhas
militares dos EUA no Iraque, no Afeganistão e nos Balcãs,
não nos podemos esquecer que tais acções violaram o
direito internacional e a Carta das Nações Unidas. Quando o
secretário-geral e o Conselho de Segurança (CS) da ONU violam o
documento fundamental da organização estão a rescrever a
sua filosofia porque introduzem a guerra como instrumento de uma estrutura
comprometida com a paz.
A França e a Alemanha opuseram-se à invasão do Iraque
porque havia negócios e interesses europeus no país. A
França, por exemplo, assinou acordos de exploração
petrolífera com o governo de Saddam Hussein e apenas procurou travar o
monopólio das companhias anglo-americanas.
Estamos a falar dos interesses de empresas como a francesa Total, mas
também a espanhola Repsol e a italiana Eni.
A guerra movida pelos EUA e pela Grã-Bretanha foi para controlar o
petróleo iraquiano, mas também para garantir que outros
não o controlassem.
Apesar disso, a Espanha e a Itália suportam a ocupação.
Essas contradições ajudam a perceber as expressões
«velha Europa» e «nova Europa» proferidas por Donald
Rumsfeldt?
Parte da estratégia dos EUA em matéria de diplomacia
internacional passa por criar uma fractura entre os países da UE. Claro
que se mantêm os laços sobretudo por via da Nato, mas, muito
cruamente, a UE é o inimigo de longo prazo dos EUA, até porque
existem interesses antagónicos entre as duas potências
económicas.
A aliança Franco-alemã que domina a UE constitui uma
ameaça para os EUA ao nível da exploração do
petróleo, da produção de armamento, e o que me parece
muito importante, na imposição de uma moeda de referência
no sistema de trocas mundial.
A questão monetária assume papel central devido à
dívida externa norte-americana e ao surgimento do Euro?
O défice comercial dos EUA só se sustenta porque os EUA podem
«imprimir» dinheiro do nada, na medida em que não garantem
reservas para tal operação.
Isto quer também dizer que os EUA adquirem recursos e bens provenientes
de países subdesenvolvidos a preços mínimos e usam o
dólar como moeda de referência em todo o mundo, coordenando o seu
valor com as políticas de desestruturação implementadas
pelo Fundo Monetário Internacional.
Então o alargamento da UE ou a Constituição Europeia
surgem como contra-respostas à hegemonia norte-americana?
A diferença fundamental entre o projecto de dominação dos
EUA e a Constituição Europeia é que a UE não possui
o mesmo poder militar, por isso responde com a construção de um
bloco económico e militar concorrente, embora menos agressivo nas
pretensões hegemónicas.
Num certo sentido, a força de defesa europeia é uma
reacção ao facto dos EUA serem o poder dominante dentro da Nato,
o que é inquestionável, mas não existe nenhum projecto
alternativo da parte dos europeus, têm a mesma agenda neoliberal, os
mesmos objectivos económicos, as mesmas fórmulas de
destruição do Estado Social.
A solução não reside na construção de um
poder oposto ao dos norte-americanos e o movimento antiguerra europeu deve
focar a sua luta nesta matéria sem distingui-la do projecto apresentado
pelos EUA.
A corrida pela supremacia militar nos dois blocos surge igualmente como uma
resposta à crise económica nas respectivas áreas de
influência?
Não há dúvida disso, mas não é a
solução para a crise. O desenvolvimento da indústria
militar faz parte da agenda neoliberal ao mesmo tempo que se mantêm os
critérios financeiros de contenção do défice
público nos países da UE, o que leva à
privatização dos serviços públicos e das garantias
sociais dos Estados.
Os recursos são captados pela indústria militar e são
usados para a construção de equipamentos e armas mais
sofisticadas, em vez de ser investido na criação de emprego
ligado ao sector público.
Nos EUA é igual. Nos contratos estabelecidos entre o departamento de
Defesa dos EUA e a Lockheed Martin que é o maior produtor militar
mundial a administração Bush garante à empresa, por
cada emprego criado, entre 25 e 66 milhões de dólares.
A agenda de guerra do séc. XXI rouba recursos a outros sectores de
actividade mas não tem peso na criação de postos de
trabalho.
NOVAS ARMAS, NOVOS PERIGOS
Que implicações tem a ascensão do poder destes complexos
militares?
Poucos se aperceberam que as novas armas nucleares - recentemente
desclassificadas como «convencionais» pelo Senado norte-americano -
vão mesmo ser usadas sem qualquer fiscalização
política, o que faz parte dos objectivos da indústria militar
anglo-americana desde Agosto de 2003.
Nesse ano, no dia em que se assinalava o aniversário dos bombardeamentos
nucleares em Hiroshima, os EUA organizaram uma reunião onde decidiram
convidar o sector privado a participar, não só do ponto de vista
da produção, mas também na concepção e
determinação das políticas da agenda nuclear.
Estabeleceram a privatização do sector da mesma forma
fácil que o poderiam fazer em relação ao sector
eléctrico.
A RESISTÊNCIA DOS POVOS
De que forma os povos se podem opor a esta escalada da violência e ao
perigo de conflitos com recurso a armas nucleares?
Na minha opinião depende do conteúdo e da capacidade de
articulação dos movimentos sociais e de massas.
A minha percepção destes movimentos é que, tanto nos EUA
como na Europa, estão construídos na base do sentimento
antiguerra e não se concentram no derrube dos criminosos que a promovem.
Há alguns elementos de resistência efectiva, mas regra geral
trata-se da simples promoção de manifestações pela
paz.
A grande questão passa não só pela defesa da paz ou
até pela derrota das políticas conjunturais de guerra e
agressão, mas sobretudo pela conquista do poder à agenda militar
e aos complexos económicos dominantes por trás desta. Só
quebrando a legitimidade do poder estabelecido é possível
alcançar os objectivos de paz e progresso.
Não penso que tal seja imediato porque estes movimentos sociais ou
cívicos são pouco esclarecidos relativamente ao que realmente se
está a passar.
Basta lembrar que muitos dos seus membros apoiaram os ataques contra a
Jugoslávia e o Afeganistão, mas insurgiram-se contra a guerra e
ocupação do Iraque.
Não faz sentido diferenciar os três processos. Se são a
mesma guerra, a mesma agenda militar, porque razão haveria de ser
legítimo o ataque à Jugoslávia ou ao Afeganistão?
Só porque havia um mandato da ONU e quiseram-nos fazer crer que eram
guerras que se apoiavam em supostos princípios humanitários?
È preciso desmontar o sistema e os interesses e poderes que o suportam
e, nesse sentido, neste momento não entendo como uma
revolução deste género pode suceder sem recurso ao
confronto violento.
O derrube do poder passa por atacar a legitimidade dos que o dominam, e um bom
princípio é, no actual contexto, a desmistificação
do que nos querem fazer passar por «guerra contra o terrorismo».
Mesmo dentro das forças armadas existem militares e cientistas que se
opõem à agenda militar, o problema é que não podem
expressar-se sob pena de represálias e quando o fazem podem mesmo ser
assassinados.
Está a reportar-se ao caso do cientista britânico David Kelly?
Sim, na minha opinião ele foi assassinado por razões
políticas. Alguém no interior dos serviços secretos
britânicos com interesse em defender a estratégia de guerra tratou
de o silenciar, até porque as provas indicam que o relatório da
autópsia foi manipulado.
Não é caso único de silenciamento de resistentes, o mesmo
sucedeu com Yasser Arafat.
As pessoas têm uma memória muito curta, mas em Setembro ou Outubro
de 2003, há pouco mais de um ano e meio, o governo de Israel afirmou que
tinha o objectivo de eliminar Arafat.
No seguimento dessa decisão houve uma resolução do CS da
ONU, vetada pelos EUA, na qual se condenava Israel.
Quando Yasser Arafat morreu houve rumores, suspeitas, algumas vozes
lançaram acusações mas nada mais se soube, nunca se
promoveu uma investigação exaustiva sobre a influência do
objectivo israelita na «doença» e consequente falecimento de
Arafat.
A dita «comunidade internacional» fez mesmo circular a ideia de que a
morte de Arafat traria vantagens para o avanço do processo de paz no
Médio Oriente, quando deviam ter investigado a suspeita que apontava os
serviços secretos israelitas como responsáveis pelo assassinato
de Arafat.
Neste momento a Autoridade Nacional Palestina é governada por o que eu
considero uma marioneta dos EUA que só serve para que Washington possa
manipular o processo de paz enquanto se mantêm os palestinianos na
ilusão.
Que planos de trabalho tem agendados para o futuro próximo?
Neste momento trabalho no desenvolvimento do tema da guerra e da
globalização que procurarei centrar no período do
pós 11 de Setembro, sobretudo do ponto de vista da
manipulação mediática, da fabricação de um
inimigo, onde conto incluir um capítulo sobre um sujeito chamado
Al-Zarqawi, que é uma fabricação mediática.
Espanta-me como é que as pessoas podem pensar que um indivíduo de
quem só conhecemos uma imagem, sempre a mesma foto, pode ser declarado
inimigo principal de uma coligação militar com tamanho poder.
É absurdo!
Um outro projecto é fazer a análise da guerra desde aos
Balcãs até à situação actual, dos seus
diversos episódios, os quais considero estarem intimamente ligados.
A região também detém importantes corredores de oleodutos,
assegura uma presença militar norte-americana naquela zona da Europa e
foi, simultaneamente, a porta principal para a entrada no Mar Cáspio e
na Ásia Central.
Depois quero envolver-me mais na acção política,
até porque entendo que os frutos destas pesquisas devem ser usados e as
pessoas devem desenvolver instrumentos para compreenderem e agirem em resposta
aos processos económicos e políticos em curso.
São contributos para a tal dinâmica de que falava estarem
necessitados os movimentos sociais?
Muito clara e francamente, o movimento antiguerra é demasiado
ambíguo, particularmente o movimento que conhecemos como
antiglobalização. O meu contributo tem sido fundamentalmente
através das investigações e publicações.
Se olharmos para os Fóruns Social Mundial e Europeu, onde existem
Organizações Não Governamentais (ONG's), temos que
perceber quem é que as financia.
Chegamos à conclusão que são a Fundação
Rockefeller, a Fundação Ford, muitas vezes os governos.
O que eu tenho defendido é que não se pode afirmar que se combate
o sistema e ao mesmo tempo pedir que seja ele a financiar as lutas. Este
é um aspecto que merece ser debatido porque constitui um dos
obstáculos principais à constituição de movimentos
sociais consistentes.
Vamos dizer que para inverter o nó temos que quebrar os laços
entre o capitalismo e este tipo de organizações, percebermos que
o capitalismo não só está a combater todo o tipo de
resistência como, paralelamente, está a criar a «sua»
própria resistência na medida em que financia o «seu»
próprio antidiscurso, obrigando, claro, à
manutenção deste no nível estrito da
condenação da guerra, mas não do sistema.
Vemos a Fundação Soros e outras ONG's, ligadas aos
serviços secretos, terem poder para destabilizar e fazerem pender a seu
favor processos políticos como os que ocorreram na Ucrânia ou na
Geórgia.
É muito importante termos a noção de que para construir
uma resistência efectiva não se pode depender da «nova ordem
mundial» e manter um nível politicamente correcto.
A exemplo, a discussão em torno de medidas como a Taxa Tobin é
ridícula na medida em que não afecta a estrutura, é um
despojo mínimo das actividades especulativas que, mais uma vez, se
alimentam da guerra. Seria como colocar uma taxa para os assaltos!
Há muito folclore e ficção nestes movimentos, mas ainda
não podemos discutir objectivamente estas questões porque somos
imediatamente acusados de negativismo.
O original encontra-se em
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=8799&area=5
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Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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